segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Serra da Lousã - Vale da ribeira de s. João

Sem exageros 80 % das pedaladas começam pela Serra da Lousã acima e destas cerca de metade pelo ziguezague do vale da ribeira de S. João.

Ei-lo:



Na serra o plano é simples. Como diria um companheiro amante de serranias e de pedaladas que esporadicamente encontro, "primeiro sobe-se, depois desce-se".
O vale fundo traz a ribeira que lhe dá o nome desde a confluência de outros dois, o da ribeira da Sardeira que vem dos lados do Trevim (monte mais alto da Serra a 1200 m de altitude) e o da ribeira do Candal, até ao Castelo da princesa Peralta (bela história, é só ir à net). A orientação é Este-Oeste. Isto é muito importante porque pela manhã o Sol, ao nascer, espreita pelo vale abaixo e à tardinha recolhe os últimos raios que por ali ficaram. Pela manhã sobe-se com o nascer-do-sol em frente que, à tarde, é substituído pelo por-do-sol na descida, em sentido inverso. Esta circunstância transfigura o vale ao longo do dia e das estações do ano.
Se a isto juntarmos a dinâmica das neblinas que, ora se encaixam no fundo do vale, ora se espraiam subindo as encostas, mais os aromas quentes da caruma e da urze no Verão, das acácias em Fevereiro, ou o cheiro intenso e visceral da terra e da erva após as chuvas de Março, e os odores húmidos a fungos do Inverno, é fácil imaginar o cenário em constante transformação.
Por isso nunca me canso de pedalar pelo vale.


Às vezes, avistam-se javalis, ginetas e veados .... São sempre encontros fugazes, olha vai ali um ... já passou. No Outono, na altura da brama dos veados, já tenho ouvido os bramidos dos machos (no primeiro segundo ficamos confusos a pensar como é que um comboio vai a passar ali em cima na serra mas, uns segundos depois, percebemos que tem que haver outra explicação para aquele som que ecoa pelo vale).
Os encontros só não são fugazes em situações raras:



Mas, começando pelo princípio, que é como quem diz de baixo para cima, ainda antes de entrar no vale, logo ao início da subida da serra, a varanda do Gevim, sob a Lousã, serve para começar as lavar as vistas (e para beber um golinho de água no Verão):


O vale surge umas curvas mais acima, quando se avista o castelo


(agora visto de cima para baixo para se perceber o percurso sinuoso e fundo da ribeira)


há uns sítios interessantes por ali, à volta do castelo




E cá de cima, da estrada sob o castelo, o miradouro da Sra. da Piedade (obviamente o castelo tem um miradouro)


espreitando


Além, do outro lado, há um belo caminho que frequentemente é alternativa à subida por aqui, pelo asfalto


sobretudo no final do Inverno, depois das chuvas de Março. Mas esta é outra história. Fica para outra altura.


Voltemos ao vale da ribeira de S. João e vamos subindo com o Trevim em frente, lá em cima, a 1200 m sob as nuvens


antes que as nuvens baixem







e encham o vale de luz coada e anoiteceres precoces





As aldeias abandonadas em ruínas ficam com ar fantasma, como deve ser.


Apesar da neblina pousada sobre o vale, muitas vezes, subindo há sempre um pouco mais de azul (lá ao fundo, no horizonte, a Serra do Caramulo)


Nem sempre isto acontece nos meses frios.
Há Dezembros luminosos, cheios de sol no vale



que dão vontade de sair da estrada e seguir pelos caminhos







para matar saudades da luz do último Setembro,


do céu aberto de Junho


ou do sol hesitante de Maio ...


... e há Dezembros gelados e chuvosos, em que os caminhos permitem testar se tens ou não "guts"


e a estrada está ideal para testar os travões (a descer)




Dezembros cheios de luz opaca


e nos caminhos ficam marcadas as pegadas de outros viajantes, estes com quatro patas e umas belas hastes a encimar a caixa craniana.


A certa altura, logo depois da casa dos cantoneiros


avistam-se no lado oposto algumas aldeias serranas, as aldeias de xisto da serra. Neste caso, o Casal Novo (poste bonito, este - já não há postes de electricidade assim, em ferro).


Subindo um pouco a encosta à esquerda do vale, a aldeia é mais óbvia no meio de tudo o resto !


Aqui, outra aldeia, o Talasnal, visto lá de cima. Ao fundo, no horizonte, o cabeço da Ortiga (com "O")


Ah, as chuvas de Março e de Abril. Gosto muito do vale depois das chuvas de Março a fechar o Inverno. Noutras paragens as águas de Março fecham o Verão

https://www.youtube.com/watch?v=WaU0gDSmi84

Ouvem-se cascatas lá no fundo no vale. Algumas apenas se vislumbram mas o som da água a correr enche o vale.
Até na estrada de asfalto se formam cascatas



 riachos tímidos no Verão com aspirações a ribeiras depois das chuvas a fechar o Inverno


as árvores, os arbustos, a erva, a minha bike (neste caso com uma concentração de cloreto de sódio um bocadinho mais elevada do que o ambiente)..  ficam brilhantes e húmidos


a ribeira lá no fundo


recebe riachos que se formam extemporaneamente nas encostas



depois da chuva, visto de cima, já a caminho do Trevim, o vale fica assim:


já a preparar a exuberância do Verão




No Outono, os encantos são outros ( a árvore à qual a bike está encostada é uma sequóia !).

Fofos e macios




picantes por fora e suculentos por dentro



(nem sempre é assim tão fácil apanhar as castanhas, os soutos localizam-se nas encostas abruptas do vale)


Quase sem se dar conta, o vale morre, ali aos pés do Trevim, na confluência das duas ribeiras que dão origem à de S. João:
















aqui estamos a cerca de 2 km do Candal, a única povoação atravessada pela estrada Nacional (N236) que liga Lousã a Castanheira de Pêra



belas rampas por ali à volta


(PS. no Candal, a água da fonte da ribeira é mais fresca do que a da fonte na estrada)


Se a viagem continua serra acima, num passe de magia, quando chegamos lá em cima, ao Trevim


olhamos para baixo, para o vale e ... é isto !












domingo, 14 de setembro de 2014

Do Carvalhal da Rocha à praia do Canal ... e volta

Tinha estado perto no dia anterior. P'raí a uns 20 ou 30 Km. O tipo que encontrei no meio dos eucaliptais, em tronco nu, T-shirt enrolada na cabeça, a marcar uma pista com pauzinhos e pedrinhas (pelos vistos, a família e amigos vinham seguindo o trilho por ele marcado) e ar de quem desbrava territórios intocados em África deu-me conta dos detalhes: olha vais sempre na direcção do Sol, caindo ligeiramente para Sul, o Sol é o meu GPS tás a ver? eu ia lá quando fazia surf, só o pessoal do surf conhece a praia do canal. OK pá (disse eu) obrigado mas acho que volto amanhã, agora já é tarde, já vou chegar de noite ao Carvalhal da Rocha.

No dia seguinte pedalei novamente para Sul.


Ainda não tinha arranjado posição no selim e já estava na N120. Alguns Km e insultos aos automobilistas depois estava a atravessar a ribeira de Seixe em Odeceixe que separa o Alentejo do Algarve. A diferença é notória, do lado direito é o Alentejo, do outro o Algarve (vê-se claramente uma estrada, uma casa e um muro de betão na margem Algarvia).



Nesta fotografia as diferenças são ainda mais evidentes: camionetas com matrícula Alemã a cair de podre (a fazer de "roullotes") do lado Alentejano e belas moradias altaneiras amontoadas como peças Lego na falésia do lado Algarvio




A partir de Odeceixe apanhei a auto-estrada das motorizadas (vi mesmo uma Famel Zundapp - quem se lembra destas!) do pessoal da região: o carreirinho à beira do canal.
Às vezes, nas ligações, perde-se o carreiro mas, não desistindo de o encontrar, mais cedo ou mais tarde damos com ele
https://www.youtube.com/watch?v=aEspNd251kk

Maria Vinagre, Rogil, Parque do Serrão, foi um instante.




Rogil


Em grande parte estava a seguir a "rota do Sudoeste Alentejano" com marcações bem claras para caminheiros e ciclistas.
A primeira paragem foi no Castelo de Aljezur, após uma bela de uma subida em calçada.




O vale magnífico por onde a ribeira de Aljezur corre para o mar (logo ali) foi, há séculos atrás, o único porto de abrigo entre Sines e Sagres para as Naus vindas de Lisboa, Castela e Flandres.



Depois de ter mentido aos turistas Brasileiros que por ali encontrei, dizendo-lhes que vinha dos Alpes a pedalar há mais de uma semana, eles devem ter achado que eu, na pegada dos navegadores dos séculos XV e XVI, era um grande aventureiro e insistiram em tirar-me uma fotografia. Até porque a diferença entre uma Nau e uma bicicleta não é assim tão grande; muitas vezes a descer serras penso que estou a navegar !


As Naus pagavam portagem para entrar (pois, pois !) e trocavam tecidos e mercadorias pelo trigo da região. Por isso, há por ali muita desta tecnologia amiga do ambiente:




E siga que se faz tarde



Cada vez mais próximo da falésia



Para o outro lado fica não Solsbury Hill

https://www.youtube.com/watch?v=eMwn_hnoS5Y

mas a serra de Monchique


Às tantas ficou um pouco labiríntico mas, como dizia o "explorador" do dia anterior, o mar é o GPS



Praia do Canal. O explorador tinha razão: só surfistas. 



O Sol já se inclinava sobre o mar e os raios rasantes sobre as estevas apressaram as vistas


 O Adamastor?



O pão com marmelada foi também num instante, enquanto avaliava se ainda teria tempo para desenhar um percurso novo para a volta. A esta hora talvez seja melhor apanhar a N120, pensei. São cerca de 40 km, a pedalar bem talvez consiga em duas horas.

Em Maria Vinagre ainda meti pelo canal



Em Odeceixe, de novo a cruzar a fronteira para o Alentejo. A esta hora as diferenças entre as duas margens são ainda mais óbvias


 Logo depois, em Baiona, ainda parei na expectativa de haver pão. E estamos a aqui a falar de um pão como deve ser, Alentejano, de trigo, cozido a lenha e com kilo e meio.  Há apenas um ligeiro contratempo. É que, levar um pão destes preso à mão no guiador da bicicleta tira não só um bocadinho de performance mas também o equilíbrio. E isto na bicicleta não é bom! No ano anterior, levando um pão destes, a roda da frente resvalou na berma e, além de uma cabeçada no chão que partiu o capacete, esfolei-me todo do lado esquerdo (o que foi uma excelente desculpa para não ir à praia).

No Brejão, ao por-do-sol, quase a chegar, levantou-se uma brisa mesmo a calhar para arejar a mente e o resto.



Pedalei hipnotizado os últimos Km com os olhos no Sol até desaparecer no mar. Até ao Carvalhal da Rocha.





terça-feira, 9 de setembro de 2014

Road to nowhere in Alentejo

Agosto 2014 - Brejão

Road to nowhere



(saída pela manhã)


ou a perfect day ?






(e volta à tarde)



E entretanto? Entretanto, foi a "long and winding road"



a maior parte à beira da falésia e em versão acústica, sem orquestra.







 até ao por-do-sol



terça-feira, 12 de agosto de 2014

À sombra do Cebola - Serra do Açôr

O vento varria forte as cumeadas e a tarde já não era uma criança.
Um Agosto de 2014 fresco.
Comecei a cogitar no plano à medida que saía do Cabril e avistava o Vale Grande, lá ao fundo, antes dos penedos.


 Pouco depois, enquanto atravessava o paredão da barragem da albufeira de St. Luzia (com vistas para o Vale Grande, mas agora visto do outro lado), o percurso estava desenhado na memória,



Daqui a 2 horas estou no lado Sul do Cebola mas, primeiro, pedaladas suaves ao longo da albufeira de St. Luzia para aquecer as pernas e lavar as vistas,


Passei pela Portela de Unhais o Velho, fui subindo a estrada antiga na direcção de S. Jorge da Beira (onde está em construção mais um monumento à estupidez: uma via rápida pela cumeada a rasgar a serra, mesmo ao lado da estrada antiga. Que diabo) e, com o vento e o sol laterais, lá estava ele: o picoto da Cebola, 1400m de altitude, o ponto mais alto da Serra do Açôr. Imponente.


Mas, desta vez, não era dia para ir até lá acima. Tinha subido ao topo há uns dias atrás, pelo lado Oeste, pelo "col de la Covanque", que é como quem diz pelo cruzamento da Covanca.


Descida para as Meâs à esquerda pelo fundo do vale (aqui ou se sobe ou se desce e em qualquer dos casos não é pêra doce), passando ao cimo de S. Jorge da Beira.
Nas Meâs, calçada acima (estas terras encravadas no vales construídas em encostas com 15% de inclinação !), vira à direita, vira à esquerda, oh minha senhora para o cimo do povo é por aqui? é sim senhor, é sempre por aí acima mas é muito ruim. Lá apanhei a estrada antiga, o estradão de terra serra acima, a única estrada da zona há muitos anos por onde se ia até ao vale do rio Alva em carros de bois até Arganil para arranjar sal. O sal, aparentemente, era transportado pelo rio Mondego acima desde a Figueira da Foz até ao Porto da Raiva (já depois de Coimbra, perto de Penacova). Aqui, carros de bois carregavam o sal que depois transportavam para o interior, cruzando as serranias até à Beira Baixa.

E o picoto da Cebola sempre ali ao lado, uma espécie de Adamastor que era preciso contornar.


O vento soprava forte de frente, encosta abaixo. Não esperava por esta ventania a dificultar a subida. O vento a soprar encosta abaixo !
A 50 metros do cimo, quase no estradão das eólicas, pousei a bike, ingeri o cocktail de "açucares rápidos e lentos", que é como quem diz um pão com marmelada e respirei fundo.  E, já agora, como a santos da casa ninguém liga, os interessados em bebidas e barras energéticas, géis e afins, leiam uma entrevista ao New York Times de dois professores de fisiologia e atletas de elite: http://www.nytimes.com/2008/06/05/health/nutrition/05Best.html?ex=1213329600&en=f118e4d4255a3791&ei=5070&emc=eta1&_r=1&

O vento forte e frio obrigou-me a vestir o colete corta-vento.


Quando se chega ao cimo da estrada antiga das Meâs abre-se o vale do Rio Ceira para Oeste e leva-se com isto, como um soco:


Os penedos de Fajão em primeiro plano


E o vento sopra forte


Muito forte.


Estava a 1120 m de altitude. O sol estava a por-se



e tinha ainda que fazer a cumeada da Serra da Rocha (que belos km sob o vale do Ceira ao entardecer), descer para a barragem de St. Luzia e, de novo, Cabril.
Ainda tive tempo para parar na fonte da barragem, ao lusco-fusco, para uns goles de água que jorra continuamente da bica. Já não há muitas bicas a jorrar daquela maneira. Hoje as fontes têm torneiras.

PS. Track GPS a pedido para o email.