(31 de Janeiro de 2016)
Janeiro acaba-se. Ontem, pedalei pelos lados da floresta do Terreiro das Bruxas e estava frio. Hoje, passei no mesmo caminho e estava ameno.
Passo aqui, onde passei ontem e no outro dia e no outro, e olho à volta como se fosse a primeira vez. Passo aqui como se a última vez tivesse sido há 1000 anos.
Em pano de fundo, por trás da beleza macroscópica (macroscópica? donde é que me saiu isto?) de uma árvore, vejo que cada árvore é um ecossistema; é a arvore, e os líquenes, e os fungos, e os insectos, e por aí fora. E há beleza no entendimento das interacções e dos mecanismos moleculares e celulares entre as várias formas de vida? Há pois. Talvez haja é pouca gente a dar por isso, como dizia o Outro a propósito do Binómio de Newton.
Há tempos, num blog (Um jeito manso, um belíssimo blog) troquei umas mensagens sobre beleza objectiva. E, nestas coisas, lembro-me sempre de Richard Feynman (prémio Nobel da Física no século passado por ter juntado numa única teoria o electromagnetismo com as forças nucleares - foi uma grande emoção quando, há uns anos, visitei o gabinete onde ele tinha trabalhado no "Caltech" em Pasadena, California, EUA) que dizia que uma flor é bela, olha-se e é bela. Mas há também beleza em saber que os compostos químicos aromáticos da flor dispersam-se e diluem-se na atmosfera e que, eventualmente, alguns, na base de uma relação estrutural complementar, interagem com receptores no nosso nariz, o que gera uma despolarização das membranas das células que conduzem este sinal ao cérebro que, por sua vez, ... ou que a luz impressiona uns cones na retina e que ... este sinal ao cérebro, que por sua vez ... gera o padrão que entendemos como beleza. O mesmo cérebro entende o mecanismo que gera o padrão de beleza, da flor e do mecanismo.
Bem, isto daria pano para mangas.
Dizia que voltei hoje ao local onde pedalei ontem.
Vou à procura do imprevisível e quase sempre me surpreendo. É previsível. Mas, pensando bem, é preciso algum jeito na busca do imprevisível.
O nosso cérebro, por via dos impulsos que chegam dos sentidos, elabora uma representação do mundo. Um padrão. Por isso não precisamos de ver tudo para reconhecer alguém, um lugar, uma coisa, um texto etc. O truque é furar o esquema ao cérebro e perturbar os padrões que lá estão inscritos, arrumadinhos. Quer dizer, é o cérebro a furar o esquema a si próprio; isto é estranho mas estou convencido de que há mecanismos para tal. Agora que penso nisto, acho que sempre fiz este truque.
Da floresta, as pedaladas levaram-me para o planalto do Espinheiro, para a serrania agreste. Nevoeiro intenso, pedras de xisto aguçadas, tojos e mato rasteiro, sem Norte nem Sul, tudo translúcido, sem contrastes nem cores.



































