segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Neve na Serra da Lousã


27 de Fevereiro de 2016
(serra da Lousã)

Sábado de manhã, a caminho do mercado, olhei para a serra e ... tenho que me despachar ... só pensava em pedalar pela serra acima ... pela neve.


Vinte minutos depois, já tinha a molhada de grelos, a couve, os coentros, as laranjas e as maçãs bravo esmolfe, as cebolas, umas batatinhas com belíssimo aspecto, os figos secos e uns sargos de mar mais uma posta de corvina. Faltava o bolo de Ançã e uns pães de leite mas na zona da padaria estavam pelo menos umas 5 pessoas. Ora, se cada uma fosse aviada em 3 min de conversa (pois, é que o mercado é um local de convívio) isso daria mais uns 15 min. Como a raposa que não chega à latada das uvas pensei: faz bem quebrar a rotina do pão com marmelada. E corri para casa.

Tinha que subir pela N236. Atolar-me-ia na lama e na neve caso subisse por caminhos de terra. A bike não está com pneus adequados para a neve.

A neve apareceu logo à saída da vila, no vale da ribeira de S. João. A GNR tinha colocado uma placa de trânsito proibido para a serra mas os carros passavam, borrifando-se para a placa.



Acelerei na expectativa das pedaladas lá mais para cima



mas, logo a seguir, parava novamente para tirar fotografias. Era o plano detalhado do costume: arranca-se por ali acima a pedalar e depois ... logo se vê. Perfeito. Pelo menos tem resultado ...  a maioria das vezes.




Estava a parar de 200 em 200 m. Aqui, onde páro muitas vezes, ao olhar a paisagem para os lados do Trevim (coberto por nuvens) atravessou-se-me na memória uma série televisiva de há muitos anos, Twin Peaks, onde me lembro de ver paisagens parecidas. E pronto, os Km seguintes foram feitos com a música que Angelo Badalamenti compôs para a série, com aqueles sons da guitarra baixo a ressoarem na minha cabeça, pooooong, pong, poooong. 




Isto está a ficar nostálgico. Mas que esta paisagem lembra Twin Peaks, lá isso ... A memória, sempre a memória. Sabe-se hoje que há uma base física para a memória mas, em todo o caso, a memória é um caso sério para o entendimento do cérebro.


E mais uma fotografia com a bike para "memória futura" (como se a memória não fosse sempre para o futuro).


Quando cheguei ao Candal, a 11 km da vila e a única aldeia serrana na N236, a neve tornara a paisagem na que, provavelmente, era a de há muitos anos atrás, quando os grandes nevões eram mais frequentes. Eu conheço o Candal verde e amarelo e laranja e castanho, mas não branco.


Muitas árvores não aguentaram o peso da neve. Este é um aspecto crítico para as árvores; o peso da neve. As árvores vergam e partem. As mimosas em flor curvavam-se até ao solo.


Ali, debaixo de uma árvore, encontrei um sítio mais ou menos limpo e sem neve para tirar uma selfie e me incluir na história


É curioso, conheço tão bem esta estrada, tantas vezes aqui pedalei e, no entanto, a neve trasnformava-a, fazendo com que perdesse os pontos de referência (uma pedra, uma árvore, outra coisa qualquer) que, sem ter anteriormente dado conta, me permitia inconscientemente identificar os locais. A estrada que tão bem conheço com a neve transformara-se num local novo.



As árvores partidas e caídas na estrada, sob o peso da neve, também ajudavam ao irreconhecimento (que palavra é esta?!)


Alguns carros, apesar das árvores caídas, insistiam em furar por ali fora. Furavam, furavam até que, como nos filmes da máfia em que o carro da vítima é bloqueado por outro dois, caía uma árvore à frente e outra atrás, emboscando-os.


Até de bike era preciso uma certa ginástica, quanto mais de carro!



A partir daqui, o mundo passou a preto e branco


A preto e branco e frio



A preto e branco e frio e belo


Há que reconhecer, todavia, que a protecção impermeável do meu capacete dava um leve toque de .... "cromaticidade" ao ambiente (a pose, de pernas abertas à futebolista foi completamente espontânea, não foi  ensaiada).


Agora, ao ver as fotografias, aqui na sala à lareira, sei que falta qualquer coisa. Acho que dão a impressão de um ambiente estático e "soft", tranquilo. Nada disso, quando ali, enquanto pedalava, era tudo dinâmico e rude e mais não sei bem o quê. Era tudo muito intenso.


Ouvi várias vezes árvores a partir e a tombar. Vi até duas a cair a poucos metros da estrada. O ruído foi assustador. Começava estridente e intenso, depois percebia-se que os ramos batiam nas outras árvores e partiam-se os ramos uns nos outros e tudo acabava com um som cavo da árvore a embater no chão.


Fui subindo, já não havia carros. Tinham passado uns jipes dos baldios e dos bombeiros. Nunca tinha feito um "single track" destes. Evitava a todo o custo meter os pés na neve pois, apesar da protecção de neoprene que levava sobre os sapatos, a neve molharia os pés por baixo, pelos encaixes.


A certa altura, vi uma árvore que, curvada sob o peso da neve, parecia um cogumelo gigante


Foi o local escolhido para uma paragem sem ensopar os pés na neve. Estava a chegar aos mil metros de altitude. A coisa estava a começar a ficar difícil. Tirar as luvas para as fotografias arrefecia e molhava as mãos. Calçar de novo as luvas não era como beber o gin que neste momento tenho ali ao lado e que vou bebericando. Os pés também já estavam molhados. A neve nos "cleats" dos sapatos (quando parava era inevitável não pisar a neve) quase impedia o encaixe nos pedais (tinha que bater com força no pedal com o cleat para sacudir a neve). Algumas vezes já pedalava sem conseguir encaixar um dos pés.
Comi a banana que ia no bolso de trás, enquanto ainda tinha sensibilidade para abrir fechos nos bolsos traseiros do blusão.
Fiz contas à vida e, com a determinação e a estupidez que me caracteriza, decidi continuar e subir até ao planalto.


É que estava tudo tão bonito!


Tirando a protecção do capacete, obviamente.


Obviamente.


Enquanto as árvores com folhas vergavam as outras, as nuas, mantinham, na medida do possível, a postura, estoicamente.
A neve fazia uns muretes ao longo dos ramos e ficava tudo assim muito bonito.
Depois, os carros deixaram de passar, tornando as pedaladas  por ali em isolamento mais interessantes.


Estava a chegar ao planalto. A neve atingia uns 30 cm


Não tinha pneus para andar ali na neve. Até no single track já patinava. Ainda me passou vagamente pela cabeça como seria, na volta, descer por ali, sem tracção.


O mundo a preto e branco passou a gradientes de cinzento. Começara a instalar-se uma neblina que tornava tudo à volta difuso. Parecia que tinha os óculos embaciados.


Estava a uns 500 m do planalto, do fim da subida.


200 m.


A tempestade de neve da noite anterior foi violenta. Via-se bem pelos cedros da floresta, pintados de branco de um lados do tronco.


Às vezes, olhamos para a frente e fica sensação de que vamos para a zona da neblina e que visibilidade vai diminuir mas, às tantas, olhamos para trás


e percebemos que afinal já lá estamos, imersos na neblina.


Tudo belíssimo.


Cheguei. Tenho fotografias desta parte da floresta no Outono com os amarelos, os castanhos, os laranjas. Por exemplo, aqui.

Encostei a bike.




e fiquei por ali olhar à volta




e para cima





A certa altura, a luz baixou, começou a ficar o céu de chumbo


abateu-se uma "grande calma". Era como se estivesse a ver um filme e, de súbito, as imagens começassem a passar em câmara lenta.


Eu sabia o que era. Lembro-me da sensação de quando era mais novo, na serra da Estrela. Vinha aí um nevão.

A neve começou a cair em pedaços pequenos mas, rapidamente, começaram a cair flocos grandes. Ah ! à tanto tempo que não vejo um nevão destes. E eu no meio dele.

Olhei para a bike. Está aqui muita neve. Vai cair muita mais. Horas de voltar.


O telemóvel desligou-se (soube mais tarde que, aparentemente, os iphones são muito sensíveis ao frio). Enfiei o balaclava, calcei o segundo par de luvas, fechei todos os fechos e peguei na bike.

Olhei para o céu e via riscos de flocos na direcção dos meus olhos. À volta a paisagem estava ainda mais desfocada pela cortina dos flocos de neve. Andava por ali sozinho. Não tinha visto ninguém e já não passavam carros há muito tempo. Ao mesmo tempo que achava aquele momento extraordinário pensava no single track (rodados dos carros na neve) que rapidamente iria desaparecer e que, portanto, tornaria a descida muito difícil.
Ainda fiquei por ali uns instantes. Estava ali no meio do nevão. estava muito frio. Sentia-me bem. Havia ali um entendimento da essência das coisas difícil de descrever.

A bike estava OK e isso dava-me segurança. Comecei a descer muito devagar (mais lentamente que na subida), a bike entrava facilmente em peão. Nunca fui ao chão. Os primeiros km foram difíceis.  A neve colava-se aos óculos. Baixei os óculos para a ponta do nariz, tentando que me protegessem do spray das rodas. Levava lentes de contacto e a falta dos óculos obrigava-me a fechar os olhos com frequência. Parei duas ou três vezes para sacudir a neve do casaco. A neve colava-se à bike e ao casaco. O frio nos dedos das mãos e dos pés passou a dor. Mais abaixo; à cota dos 700 m já não nevava. Foram 18 km a descer. 

Amanhã vai estar bom tempo, a neve vai manter-se mas o acesso será muito mais fácil e poderei ir até mais lá acima, ao Trevim - pensei.
E fui. Mas isso fica para outro post.





terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Lagartas do pinheiro

Serra da Lousã
(Fevereiro 2016)

(Ligar a televisão para o canal "Odisseia" à 7 da matina durante o pequeno almoço dá nisto: conhecer  histórias extraordinárias que se passam à nossa volta com animais de aspecto ordinário)

Há anos e anos. Desde para aí dos 7, 8 anos que conheço as filas de lagartas que parecem funcionar com um megaorganismo (como os cardumes de milhares de sardinhas, ou os bandos de milhares de pardais que, parecendo nuvens, se movem com se fossem um único organismo - isto é um assunto que me fascina mas é outra conversa). Os carreirinhos do "brugos" como diz o meu pai. Vão em fila indiana que se move com uma única lagarta mas, vendo bem, o movimento é individual, cada uma das largadas dobra-se e avança tocando na da sua frente.
Dantes, ir para o pinhal era um problema por causa dos "brugos". Já se sabia, vinha-se de lá com comichão e a pele vermelha, inflamada. Eu, que tenho uma pele que os mosquitos acham deliciosa, nunca tive problemas com os brugos. Andava pelos pinhais e saia incólume. Quanto muito com pedaços de resina agarrada à pele, ...

Hoje, nas voltas de bike pela serra, sobretudo depois do Inverno quando o tempo começa a aquecer, é muito frequente vê-las em fila indiana, encolhendo-se e esticando-se, com cadência, como se alguém estivesse a marcar o ritmo.
E, só agora, depois de tantas vezes me ter atravessado no caminho da fila das lagartas do pinheiro, aprendi para onde vão. Quem são e de onde vinham já sabia.

Depois do temporal dos últimos dias, o Sol deu um ar da sua graça e ... lá vão elas


Não se deve tocar-lhes. Quando se sentem ameaçadas, enrolam-se, abrindo uns poros que liberam uns pêlos microscópicos que difundem no ar e são altamente alergénicos. Eu, quando as encontro, dou guinadas no guiador da bike para evitar passar-lhes com a roda por cima.
Ali vão, à sombra da bike. São pelo menos umas 11 em fila.



Provavelmente este cordão já se separou de outro maior, à saída do casulo. Pois é, é que ela passaram o Inverno num casulo. Ali, naquele pinheiro, no casulo já muito estragado, no cimo à esquerda. Parece uma pinha grande.


No Inverno os casulos, enquanto ainda em bom estado, são brancos. O casulo é tecido de tal modo que mantém uma temperatura amena no interior (penso que acima dos 20 graus C), apesar do frio no exterior. É ali que passam o Inverno. Saem apenas para comer e, como o casulo não tem qualquer orifício, têm que furar para o atravessar. O que é comem? As folhas dos pinheiros. Por isso são uma praga para os pinheiros. Aliás os ramos que suportam os casulos não têm folhas (devem começar por comer as que estão à porta de casa)



Depois do Inverno bem passado ali no quentinho do casulo há um momento em que se inicia uma migração. Alguma coisa acontece que leva a que, em grupo, saiam alinhadas do casulo. A temperatura? A intensidade da luz? Estímulos olfactivos das flores que começam a despontar? Não sei se se sabe como é dado o tiro de partida mas a população de lagartas sai em fila, do casulo, desce o pinheiro, cada uma ligada à da frente e vão por ali fora em procissão até ... e agora isto é extraordinário ... a que vai à frente encontrar um local com areia adequado para se enterrarem (sim, enterrarem) no solo. Após tantos anos só agora sei para onde vão as filas dos "brugos". Vão enterrar-se por ali. Devo ter-me sentado muitas vezes em cima das lagartas enterradas, quando andava pela serra.
É durante a viagem em procissão que são alvo de predação por algumas aves. Um cão mais curioso que se aproxime o suficiente para levar com uma boa dose dos pêlos da lagartas que contêm toxinas pode sofrer lesões irreversíveis na língua e nas mucosas.
Não sei bem quanto tempo ficam para ali enterradas mas o suficiente para ocorrer a diferenciação celular e se transformarem em borboletas (não nas belíssimas de várias cores mas noutras mais modestas de aspecto deslavado, pequenas e menos elegantes, com aspecto obeso). As borboletas desenterram-se e voam dali para fora. Voam dali para os pinheiros onde vão fazer um novo casulo, fechando o ciclo. Parece que têm apenas 1 ou 2 dias para o fazer, pois esse é o seu tempo de vida.

Que história extraordinária.
Agora, quando pedalo na bike e me cruzo com a procissão das lagartas no caminho, vejo não uma mera procissão de lagartas no caminho que anda por ali perdida, ao acaso, mas uma epopeia colectiva, um desbravar de novos mundos para uma transformação (embora, não percamos isso de vista, o genoma é o mesmo) fantástica, de uma lagarta numa borboleta. Esta última voa para os pinheiros de onde as primeiras saíram rastejando.

Depois das lagartas fui à vida. Tinha subido a serra por uns caminhos secos e solarengos onde encontrei as lagartas (na fotografia, com a bike encostada a um sobreiro - a variedade da flora na serra é um deslumbramento - vê-se a aldeia de xisto do Gondramaz na encosta em frente)


mas nos vales mais fechados, na orla da floresta de cedros, assisti a outra transformação: os caminhos transformaram-se (não em borboletas - que piadola rasca !) mas em riachos



(acho isto muito bonito, os brilhos e as pedras amarelas rugosas ...)

até que, na curva do caminho, após uma descida, travei a fundo. Houston we have a problem. Como é que vou passar para o outro lado? Parecia simples, uma coisa de limpar o cú a meninos. O problema não era o riacho ter uns 4 ou 5 metros de largura ou a altura da água, era a irregularidade do terreno, as pedras escorregadias e as poças fundas camufladas e imprevisíveis. A água a correr com força tinha aberto buracos e caso lá metesse a roda da frente a probabilidade de ir ao charco seria maior que a de encontrar 1 milhão de pessoas na bicha do supermercado à minha frente quando estou cheio de pressa. E descer a serra encharcado provoca não só hipotermia mas também mau aspecto quando se chega a casa. Não conseguia contornar aquilo com a bike às costas.


Estudei a coisa, aproximei-me subindo para uma pedra, coloquei uns paus e umas pedras como guias a marcar o caminho, recuei uns metros com a bike, bloqueei a suspensão (quando enfiamos a roda da frente num buraco não queremos que este sirva de genuflexório, queremos é levantar a cabeça e sair dali, do buraco, rapidamente, para usar uma imagem que bem se aplica ao anterior e ao actual governo, respectivamente) e pedalei em frente. Correu bem.





É pena aqui na serra não haver pinguins, sobretudo os imperadores. É que dava-me uma deixa para contar a sua história. Esta conheço-a desde a adolescência ... o casal a substituir-se na protecção do ovo, enquanto um parceiro se vai alimentar em mar aberto (que fica a km de distância do local de nidificação na Antártida) o outro fica ali à espera, semanas a fio. Depois trocam. Se alguma coisa corre mal (uma encontro pouco amistoso com uma foca, por exemplo), se há atrasos ... bem mais isto é outra história. Uma história de sobrevivência notável.

E por falar em sobrevivência o pão de leite com marmelada comprado no mercado pela manhã foi comido com a satisfação do costume.






quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Agarrado

Serra da Lousã
(15 de Fevereiro de 2016)


Não era bem um arrepio, era assim mais um ligeiro estremecer, como fazem os cães quando se sacodem mas em versão suave e breve. Comecei a desconfiar. Queres ver? Depois foi a taquicardia. Nada de mais, mas o suficiente para me pôr a andar de um lado para o outro feito um tolo. Aproveitava todas as janelas para olhar para o céu. Algumas nuvens e o azul nítido. Corri as janelas do piso para olhar todos os pontos cardeais e, assim, ter uma visão mais global. Vi azul em todas as janelas. Fui ao lado Nordeste do edifício como quem procura alguém e vi, claramente visto, que esse era o lado de onde vinham as nuvens. Vem aí bom tempo. Quer dizer, pelo menos não vem a invernia dos últimos dias. A coisa começava a tomar contornos. Falava com as pessoas, olhava-as no olhos, ia fazendo uns hum hum e na minha cabeça só via aquele sítio, entre os dois cumes gémeos da serra da Lousã, o Trevim e o St. António da Neve. Dali veria o Açôr e a Estrela. Deveriam estar brancos. A Estrela seguramente. Quando o formigueiro me atingiu as pernas já ia a descer as escadas a caminho do carro. Estava em abstinência, concluí. Tenho que sair, logo à noite acabo de corrigir este texto e de ver o resto do mail.

Conduzi para casa rapidamente a fazer contas às horas de Sol que ainda tinha. Ora, o Sol põe-se às seis, depois temos o lusco-fusco, o que dá mais uma meia hora, embora naquela parte da encosta muito arborizada fique escuro mais cedo, mas em Alfocheira já há luzes da estrada .... se conseguir subir em hora e meia até à Catraia da Ti Joaquina depois talvez em 20 min chegue ao cruzamento para o St. António, o que dá quase duas horas. Já não consigo chegar antes do por-do-Sol.  Cheguei a casa rapidamente, equipei-me rapidamente, uma banana deve chegar, não tenho tempo de calçar as protecções dos sapatos, que se lixe, deixa cá ver se vai tudo, chave? é verdade a chave. Saí desaustinado.
Não me posso distrair. Pedalar devagar para aquecer senão os joelhos daqui a pouco estão a queixar-se e não chego lá. Aquecer bem, depois acelero. Fui pedalando pela serra acima em bom ritmo. Inspirei fundo, foram-se os arrepios e a taquicardia e os formigueiros. O síndrome foi-se.

A ribeira de S. João e os riachos pelas encostas corriam furiosamente. O som era intenso. Árvores partidas, muros caídos, desabamento de terra das encostas, água por todo o lado. A tempestade do fim-de-semana deixara o que as tempestades na serra afinal deixam.

Passei aqui na semana passada e esta era era uma parede tranquila e seca. Hoje está assim:



Pedalava com pressa mas não resisti a parar no Candal para espreitar a ribeira.


Às tantas dei conta que um casal com ar de turista andava por ali a tirar fotografias. Quando ele me viu com o meu telemóvel a tentar apanhar uns ângulos da bike contra as pedras e a água, perguntou: quer que lhe tira uma fotografia? Hã? Quer dizer, pronto, se calhar até é boa ideia, OK, obrigado.


Vamos mas é embora que se faz tarde. Tenho que lá chegar. Lá ao cimo da serra. A vista deve ser magnífica. O céu está razoavelmente limpo e, como choveu, não há poeira na atmosfera para desfocar as montanhas ao longe. Durante a subida quis parar para tirar fotografias aos riachos e às árvores e ao vale para Norte até à serra do Caramulo que se via nitidamente como poucas vezes acontece. O Sol baixo, ao escurecer as encostas orientadas para Oeste, evidenciava o relevo dos montes até ao Caramulo. Não parei. Queria chegar lá acima ainda antes do por-do-Sol e ver a Estrela.

Quando atingi o planalto, depois de ter passado a Catraia da Ti Joaquina, o Sol escondia-se por trás de uma manto de nuvens mas já perto do horizonte, para os lado do mar, para os lados da Figueira da Foz. Parecia uma janela entre as nuvens e a serra.
Aqui estava já um frio que mordia a face e o vento era fortíssimo. Tirar as luvas e o telemóvel do bolso para umas fotografias era já uma manobra difícil. Tirar outras coisas nas paragens tecnicó-fisiológicas era ainda mais difícil, if you know what I mean.
Em cima do ruído das pás dos aerogeradores - que eu conheço bem, parecem camiões a travar - juntava-se um assobio provocado pelo vento a passar nas pás.


Aos mil metros, já com o Trevim à vista, nas zonas onde não tinha batido o Sol havia ainda neve. Na véspera caíra um grande nevão.




Percebia os raios de Sol nas costas a rasar a serra. O Sol está a baixar, o Sol está a baixar, o Sol está a baixar. Aumentei a cadência das pedaladas na subida final pela encosta Este do Trevim. Via lá à frente a cumeada que dá para o outro lado, para Oeste, para o Açôr e para a Estrela. Era ali que queria chegar. São mais 400 m até ao cruzamento para o St. António da Neve. Cheguei, encostei a bike e olhei para o que me trouxe aqui. Tinha antecipado este momento horas atrás, quando estava ainda no trabalho e o síndrome da abstinência batia forte.


O Sol, já raso, iluminava as cumeadas mais altas do Açôr e, sobretudo, o planalto central da Estrela a Oeste e as nuvens que o cobriam. Os vales estavam já na sombra e sob nevoeiro. Isto evidenciava a sucessão de cumeadas em tons variáveis de azul até à Estrela que se encontrava branca.


Devido à camuflagem pelas nuvens, na fotografia não é evidente o planalto da Estrela completamente coberto de neve.


E a última fotografia tirada à pressa ficou à la Magritte


Verifiquei a temperatura: 2 graus C. Com a ventania isto significa uma sensação térmica largamente negativa. A esta temperatura, descer a 30 km/h na bike significa ser exposto a uma sensação térmica real de vários graus C negativos.
Enfiei o balaclava. Cerca de 30 % do calor perde-se pela cabeça. É que, entre outras razões, o cérebro (que é apenas 2% da massa corporal) consome cerca de 20% das nossas reservas energéticas. Um quinto do que comemos é para alimentar o cérebro (e, mesmo assim é uma chatice para alimentar todos os neurónios - mas isto é outra conversa). Esta necessidade pressupõe um sistema vascular que suporte uma irrigação sanguínea eficaz. É a circulação que transporta os substratos energéticos, oxigénio e glucose, para o cérebro. Para tal temos uma rede de vasos um bocadinho extensa. As células do cérebro não podem estar muito afastadas de um vaso sanguíneo, em média não mais do que metade da espessura de um cabelo (50 micrómetros). Os vasos sanguíneos  do cérebro perfazem um total de 160 mil Km. Quanto é isto? Bem, o perímetro do planeta Terra são 40 mil Km. Portanto, 3x9=27 noves fora nada. É só fazer as contas. A vasculatura no cérebro dá para 4 voltas à Terra. Como? Como é que é? O que é que andaste a beber?  Os vasos sanguíneos na minha cabeça ligados uns ao outros têm um comprimento que é 4 vezes superior ao perímetro da Terra? Sim, é isso mesmo.

Felizmente, tinha o meu melhor fatinho. Base layer da Craft e casaco Gore-tex active jacket Alp X2.0 ou, por outras palavras, o casaco. Custou-me uma pipa de massa mas para quem pedala em serranias e montanhas com frequência é um peça de equipamento inesquecível. Parece vulgaríssimo mas faz o equilíbrio impossível: respirável, impermeável e corta-vento. A tecnologia dos polímeros  no seu esplendor aplicada ao desporto.
Para a descida levava como suplente uma jersey de mangas compridas de fleece da Pearl Izumi. O problema foi vesti-la. Quem nunca tentou vestir uma jersey ou um impermeável com frio (as mãos sem grande sensibilidade) e debaixo de uma ventania não sabe do que falo. Enfiamos uma manga e parece que estamos num número de circo a contorcer-nos,  tentando enfiar o braço na outra manga que esvoaça com o vento. Nunca acertamos no buraco, nem sabemos para que lado estamos virados. Já uma vez na serra da estrela tentei vestir um corta-vento para a descida e não consegui. Aquilo esvoaçava por cima da minha cabeça, eu tentava enfiar os braços nas mangas e andava às voltas feito tolo como burro que tenta apanhar a cenoura pendurada à sua frente e que nunca a alcança.

Lá consegui vestir a jersey sem ficar com um torcicolo. O Sol punha-se, faltavam 20 e tal km pela serra abaixo. Olhos na estrada à frente, guiador bem seguro e pernas a dar a dar, sempre a pedalar por ali abaixo. Parei duas vezes para aquecer um pouco as mãos e os pés. Às tantas, vem-se por ali abaixo a 30 e tal Km/h por instinto, esperando que uma pedra ou um ramo não se atravesse no caminho. Cheguei à vila já as luzes dos candeeiros alumiavam as ruas. Mal sentia os dedos das mãos e dos pés.

O fim-de-semana de tempestade com árvores a cair na estrada (a juntar a ameaças familiares de internamento psiquiátrico) tinha-me inibido de ir pedalar para  serra. Na segunda-feira o síndrome bateu forte.

Isto do BTT é pior do que a coca. Fica-se completamente agarrado.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Às vezes 30 segundos é tudo o que precisamos

Serra da Lousã
(Fevereiro 2016)

Pedalar 30 min pela serra acima, pelo vale da ribeira de S. João, por entre a chuva que dança ao vento e parar 30 segundos.


, 29...


... 14, ...


... 2, 1, 0.


Às vezes, 30 s é tudo o que precisamos para tentar ver a essência das coisas ou para outra coisa qualquer.



Os Smashing Pumpkins achavam que bastavam apenas 17 s. Fica a primeira do álbum Adore: to Sheila






sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

It´s a bird ... it´s a plane ... são as eólicas !

Serra da Lousã, Terra, Sistema Solar, Via Láctea
(Inverno 2016)

Todos os dias, a crista da onda do conhecimento aventura-se por mares desconhecidos. Todos dias. Chapinhar ali na crista a espreitar para ao frente, para o que está do lado de lá, para o desconhecido, é uma aventura colectiva da nossa espécie. E, assim, a civilização neste planeta vulgar que rodopia à volta de uma também vulgar estrela, pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma  ... (obrigado António Gedeão).
Ontem dobrou-se um cabo das tormentas. De vez em quando aparecem uns Bartolomeu Dias; foi publicado um artigo que descreve a detecção das ondas gravitacionais previstas há cem anos pela teoria da relatividade geral de Einstein. Deformações no espaço-tempo. Extraordinário.
Suspeito que os "mercados", as bolsas, Bruxelas e seus apaniguados estão imunes a esta compreensão do Universo de que fazemos parte. Para eles a vidinha continua. Não devem ter ficado muito "nervosos".



(Para ver em formato maior: https://youtu.be/VC5olm_0dN8)

Embora eu seja mais para o lado do rock progressivo, foram aqueles sons ali em baixo que se me atravessaram na mente quando olhava para a neblina a gravitar as cumeadas da serra, escondendo, mas com rabo de fora, quero dizer, com as pás de fora, os aerogeradores que ali foram plantados.




São uns mamarrachos mas (oh que heresia!), uns mamarrachos elegantes.



domingo, 7 de fevereiro de 2016

As pedaladas que não dei na Estrela

Serra da Estrela
(Fevereiro de 2016)

Regra geral, quando venho à Serra da Estrela consigo encaixar a bike no carro no meio do resto da tralha. Desta vez, por razões da natureza logisticó-tecnologicó-familiares, não foi possível.

Assim, a subida até aos Piornos (a cerca de 1600 m) foi feita de carro. Depois, carro parado, a volta foi dada a pé.
Ora, eu que passei grande parte da minha adolescência a calcorrear a serra de fio a pavio - numa altura em que não se falava de trail e trail run e mountain-oriented activities, e em que o turismo consistia essencialmente em camionetas cheias de grupos de "turistas"  que vinham à serra fazer "piqueniques" e "ver" a neve, deixando lixeiras por todo o lado (câmaras de ar de camiões que serviam de trenós, sacos plásticos usados para fazer SKU na neve, garrafas de cerveja partidas contra as pedras num ritual de alarvice  estupidez, guardanapos de papel besuntados de gordura de frango assado e carne entremeada a esvoaçar ...) - e que, portanto, caminhar por ali deveria ser tão natural como respirar, dei por mim, a cada passo, a pensar na bike.

O dia não estava famoso para pedaladas. É que 1 grau C (era a temperatura ambiente) com vento forte resulta em sensação térmica real de vários graus negativos. Além disso, o nevoeiro cerrado tornaria teimosias que me são comuns, como, por exemplo, pedalar por locais mais remotos, um pouco mais arriscadas. E, sobretudo, a ameaça de neve. Estava a ficar o céu de chumbo (de que falei há uns tempos num post ali para baixo) que anunciava neve. Tivesse trazido a bike e a coisa teria que ter sido bem programada. Sobretudo o "dossier" roupa (casaco de aquecimento suplente para a descida, corta-vento, protecção eficaz nos pés ...) e alimentação.

Mas, é claro que não é um frio de rachar, acompanhado de nevoeiro cerrado, vento forte e um nevão que nos vai inibir de andar de bike !
Se há coisa que se aprende ao pedalar pelas serranias é nunca ficar à espera das condições "perfeitas".

Pronto, não havendo fotografias das pedaladas ficam as da caminhada.

Um narciso, ali aninhado entre as ervas mais altas, que teima em ficar de pé, apesar da ventania.





A caminhada fez-se na margens do Lago Viriato (que abastece de água a Covilhã).





A Sul do lago, numa pequena mata, alguns pinheiros, raquíticos e retorcidos, crescem não na vertical mas rente ao chão. Parecem, em versão modesta, os pinheiros que vi na California e no Nevada nos EUA, alguns com 5 mil anos, e que são os mais velhos seres vivos na Terra. Quer dizer, quando andavam no Egipto a construir as pirâmides de Gizé estes pinheiros eram já umas jovens árvores.


Fui à procura do pinheiros milenários que vi na California e encontrei esta fotografia na net, perto do Death Valley, onde os vi. Têm, aliás, um nome científico adequado; o Pinus longaeva

Conheço bem estes ingredientes: o granito, a água que parece também granito, o nevoeiro empurrado por uma ventania dos infernos e o frio.


Do lado de lá do nevoeiro abre-se um vale magnífico que desci há dois anos, na Primavera de 2014.

(Abril 2014)

Mas, voltando ao presente, a hoje, Sábado frio. Perto do lago, para Este, as Penhas da Saúde.


E, ao contrário das pedaladas que terminariam com uma descida a tremer os dentes pela serra abaixo, a caminhada levou-me ao quentinho do carro. Bem vistas as coisas, teria preferido ter terminado da primeira maneira.

No dia seguinte, hoje, Domingo, passei novamente de carro no mesmo local. Aquele céu de chumbo da véspera não enganava, durante a noite abatera-se uma tempestade de neve


O maciço central da Estrela, sob o nevoeiro, estava vedado aos carros. Já uma vez na Lousã, num dia de neve, os carros foram impedidos de subir e eu, de bike, fui passando pela confusão dos carros, com licença, oh faxavor, é só desviar aí o veículo que eu vou para cima. Eu segui, pedalando peladora acima, e os passageiros dos veículos ficaram para trás a atirar bolinhas de neve uns aos outros. Não foi hoje o caso, caraças!


A descida fez-se pelo Vale Glaciar do rio Zêzere, em direcção a Manteigas, com paragem no Covão da Ametade na base do Cântaro Magro. É aqui que nasce o rio Zêzere.
Há muitos anos, acampei aqui com o meu amigo M. Os dois sozinhos no coração da Estrela. Estar ali à noite a olhar o céu faz-nos perceber algumas coisas elementares (mas isto é outra conversa).  Na altura, andar pela serra era uma coisa para pastores ou para tolos.




O Cântaro Magro à direita e o Raso (onde fica a Torre)  à esquerda



Já por aqui pedalei, com Sol Sol e com neve. Como desta vez, há uns anos:


Tenho que postar aqui a memória destas pedaladas. Um dia destes.