Pedalar o photoshop só me faz perder tempo. Tenho que me deixar disto.
Virado de costas para a bike (há coisas que só se fazem de costas para a bike), nem dei conta de ele chegar. Olha, olha, um lobo!
Mééééééééé. Xxxxxxxxxxxiiiiiiiiiiiuuuuuu, nas histórias de lobos os cordeiros são silenciosos. É preciso fazer um desenho ó presa dos lobos?
Xô! Daqui p´ra fora, falta o pássaro e não há espaço para todos. Xô!
Monsieur Jacques Prévert, vá lá então:
Meti o chapéu na gaiola e saí com um pássaro na cabeça Então não se faz a continência perguntou o comandante Não não se faz a continência respondeu o pássaro Ah bom desculpe julgava que se fazia a continência disse o comandante Ora essa toda a gente se pode enganar disse o pássaro
Por regra, pedalo serra acima a olhar à volta. Olho para a frente, para cima, para um e outro lado. Olha hoje corre ali água, com os diabos há tantas salamandras esventradas na estrada, já se sente o cheiro intenso das mimosas, até nem está muito frio, às tantas subo já aqui por S. Lourenço, as nuvens vêm de Sul isto vai dar chuva, mais um muro que caiu, que cheiro há por aí animal morto, o Trevim está escondido por uma tira de neblina ...
Desta vez acho que fiz a subida a olhar todo o tempo para a roda da frente. Fixamente. Pedalei com fúria concentrado a alinhar umas ideias que, em sequência, eu queria que dessem corpo a um texto de uma lógica irrefutável. Que raio, proporem-me para elaborar um documento para discussão da homeopatia! Eu só posso escrever um texto científico. Esperam provavelmente um texto de várias páginas com um preâmbulo delicodoce sobre concepções holísticas do ser humano, mais uns "palavrões" quânticos ... quando a minha vontade é escrever apenas duas linhas: os conceitos-chave da homeopatia são incompatíveis com as leis da química e da física. Ponto.
Mas OK, vamos fazer isto como deve ser; referenciar os ensaios clínicos e as meta-análises que mostram que o efeito dos designados medicamentos homeopáticos é semelhante ao placebo. Apenas isso. Provavelmente alguém trará para a discussão o conceito de hormese mas, OK, aí já estamos do lado da ciência; a hormese nada tem a ver com homeopatia.
Ia pedalando e, mentalmente, escrevendo o relatório sobre a homeopatia. Como, aliás, faço muitas vezes com outros problemas.
Quando ali cheguei, à floresta, a cerca de 900 m de altitude, concentrei-me no essencial num local destes; a luz e as sombras, as folhas e a terra,
a casca rugosa das árvores e o musgo, as clareiras iluminadas e os ramos das árvores que se diluem na neblina ao longe, e a água no chão e o cheiro orgânico ... e, no fundo, enquanto estou lá não vejo nada disto, não vejo as coisas isoladamente, vejo tudo ao mesmo tempo numa impressão difusa e inteira. Aqui em casa ao olhar a fotografia é que recapitulo o momento e, então, consigo separar elementos.
Enquanto lá faz-se parte da paisagem, não se está de fora, a olhar.
E agora, para algo completamente diferente: gone in 25 seconds.
Este é o post número 3 depois dos dois anteriores de há pouco (logo ali em baixo) sobre a mesma manhã. Isto parece o início de um capítulo das memórias do Cavaco. Valha-me S. Pisco abade como costumava dizer não sei bem quem. Ah, acho que era o meu professor de matemática do liceu.
Vão em trio porque quis fazer uma colagem de músicas às fotografias; num caso não cola, ou melhor cola mas como a resina de pinheiro, a rasgar, e nos outros dois (incluindo este) cola mas sem consistência, como a farinha com água. Passaram-me outras hipóteses pela cabeça como, por exemplo, os sons do piano a cairem como gotas na Gymnopedie Nº1 de Erik Satie, ou o rasganço de guitarra do Steve Hackett no solo do Firth of Fifth (álbum Selling England by the Pound dos Genesis).
Como é bem sabido há duas ou três leis no Universo que até os mais leigos têm por óbvias.
Assim de repente lembro-me de algumas. A Terra gira à volta do Sol, por exemplo, ou a segunda lei da termodinâmica e uma terceira que postula que uma vez os dedos das mãos e dos pés (mais o friozinho pela "espinha" acima") terem voltado à temperatura normal após as últimas pedaladas geladas pela serra acima (um banho e uma noite quente entre lençóis ajuda) estamos prontos para voltar novamente às pedaladas na serra.
Ontem, Sábado, foi o grande nevão. Hoje, Domingo de manhã, o céu apareceu limpo, azul e com Sol aberto. Portanto, grande parte da neve iria derreter, os caminhos de terra estariam um lamaçal, mas a EN236 estaria desimpedida de neve, embora pejada de automóveis (sobretudo depois da hora da missa).
Plano A: ir pela EN236, tentando chegar lá ao topo da serra, onde ontem não consegui chegar.
Plano B: sair de casa rapidamente e depois logo se vê por onde começo a subir e onde consigo chegar.
Logística: Os sapatos tinham secado à lareira, check;
Uma banana, check;
A camisola da véspera estava suja e a precisar de lavagem mas que se lixe visto-a à mesma porque é a mais quente que tenho, check;
Prometer que não chego a casa como ontem às 3 da tarde, check.
As mimosas que ontem se vergavam sob o peso da neve tinham recuperado o viço. A orla da neve fora empurrada lá mais para cima.
Os piquetes dos baldios tinham cortado as árvores caídas, desimpedindo a estrada. Encontrei também um limpa-neves. Nunca tinha visto nenhum por aqui; conhecia-os bem da serra da estrela. E também dos Alpes Suíços, onde apanhei boleia de um nas descida da montanha.
A neve apareceu à cota dos 700 m. Boa luz, boa visibilidade, sentia-se o mar "flat" depois das ondas da véspera.
Os single tracks de ontem na neve eram hoje uma autoestrada.
Ontem
Hoje, no mesmo local
Na chegada ao planalto, onde ontem mal conseguia ver com o nevão que caía, encontrei um companheiro a pedalar. Bom dia. Não o conheço. Pois, eu faço mais downhill mas agora comprei uma bike para fazer cross country. Eu ontem andei por aqui mas estava mau. Eu vim cá com os miúdos, de carro, para eles brincarem na neve. E se tirássemos umas fotografias. OK. Pronto. Então até um dia destes, pode ser que nos encontremos novamente.
Na cortada para o Trevim, a estrada não tinha sido limpa. Óptimo. Menos gente, menos carros.
O cérebro engana-nos. Os pinheiros que EU SEI que são castanhos e verdes afinal neste cenário são pretos.
Gosto desta parte da floresta; de vez em quando abre e deixa perceber as encostas lá atrás
ao mesmo tempo que proporciona micro ambientes que nos encerram.
Vi outros companheiros a pedalar, alguns carros e um tipo de mota. Este, parado a tirar fotografias, desafiou-me. Então? Que tal é pedalar por aqui? Depois de dois dedos de conversa - e de umas fotografias -
despedimo-nos. Ele ainda queria ir à Serra da Estrela. Eu segui para cima, para o Trevim e ele para baixo.
Estava a pouco metros da base do Trevim (monte cónico cume da serra aos 1200 m de altitude).
Encostei a bike. O tempo estava a fechar.
Bem, só mais uns metros. Daqui teria vistas para o Trevim, caso não estivesse coberto pelo nevoeiro. Tinha pensado subir até ao cruzamento para o St. António da Neve, de onde poderia avistar o maciço do Açôr e da Estrela mas, o céu azul que tinha visto da vila tinha-se transformado em cinzento neblínico aqui em cima. Nada veria, caso tentasse patinar com a bike até ao cruzamento do St. António. Depois, as "recomendações" familiares para chegar a tempo e horas do almoço atravessaram-se-me na zona do cérebro que processa as grandes causas que influenciam o nosso dia-a-dia.
Horas de voltar para baixo.
Na descida tentei manter a mente ocupada com visões idílicas de banhos quentes com muito vapor, em que conseguiria sentir os dedos dos pés, melhor, teria umas musas de pele doce e suave que me fariam umas massagens nos dedos e ... bem, fiquemo-nos por aqui, ainda me distraio, vou com a cabeça ao chão e em vez das musas terei uns tipos com estetoscópios debruçados sobre mim.
Sábado de manhã, a caminho do mercado, olhei para a serra e ... tenho que me despachar ... só pensava em pedalar pela serra acima ... pela neve.
Vinte minutos depois, já tinha a molhada de grelos, a couve, os coentros, as laranjas e as maçãs bravo esmolfe, as cebolas, umas batatinhas com belíssimo aspecto, os figos secos e uns sargos de mar mais uma posta de corvina. Faltava o bolo de Ançã e uns pães de leite mas na zona da padaria estavam pelo menos umas 5 pessoas. Ora, se cada uma fosse aviada em 3 min de conversa (pois, é que o mercado é um local de convívio) isso daria mais uns 15 min. Como a raposa que não chega à latada das uvas pensei: faz bem quebrar a rotina do pão com marmelada. E corri para casa.
Tinha que subir pela N236. Atolar-me-ia na lama e na neve caso subisse por caminhos de terra. A bike não está com pneus adequados para a neve.
A neve apareceu logo à saída da vila, no vale da ribeira de S. João. A GNR tinha colocado uma placa de trânsito proibido para a serra mas os carros passavam, borrifando-se para a placa.
Acelerei na expectativa das pedaladas lá mais para cima
mas, logo a seguir, parava novamente para tirar fotografias. Era o plano detalhado do costume: arranca-se por ali acima a pedalar e depois ... logo se vê. Perfeito. Pelo menos tem resultado ... a maioria das vezes.
Estava a parar de 200 em 200 m. Aqui, onde páro muitas vezes, ao olhar a paisagem para os lados do Trevim (coberto por nuvens) atravessou-se-me na memória uma série televisiva de há muitos anos, Twin Peaks,onde me lembro de ver paisagens parecidas. E pronto, os Km seguintes foram feitos com a música que Angelo Badalamenti compôs para a série, com aqueles sons da guitarra baixo a ressoarem na minha cabeça, pooooong, pong, poooong.
Isto está a ficar nostálgico. Mas que esta paisagem lembra Twin Peaks, lá isso ... A memória, sempre a memória. Sabe-se hoje que há uma base física para a memória mas, em todo o caso, a memória é um caso sério para o entendimento do cérebro.
E mais uma fotografia com a bike para "memória futura" (como se a memória não fosse sempre para o futuro).
Quando cheguei ao Candal, a 11 km da vila e a única aldeia serrana na N236, a neve tornara a paisagem na que, provavelmente, era a de há muitos anos atrás, quando os grandes nevões eram mais frequentes. Eu conheço o Candal verde e amarelo e laranja e castanho, mas não branco.
Muitas árvores não aguentaram o peso da neve. Este é um aspecto crítico para as árvores; o peso da neve. As árvores vergam e partem. As mimosas em flor curvavam-se até ao solo.
Ali, debaixo de uma árvore, encontrei um sítio mais ou menos limpo e sem neve para tirar uma selfie e me incluir na história
É curioso, conheço tão bem esta estrada, tantas vezes aqui pedalei e, no entanto, a neve trasnformava-a, fazendo com que perdesse os pontos de referência (uma pedra, uma árvore, outra coisa qualquer) que, sem ter anteriormente dado conta, me permitia inconscientemente identificar os locais. A estrada que tão bem conheço com a neve transformara-se num local novo.
As árvores partidas e caídas na estrada, sob o peso da neve, também ajudavam ao irreconhecimento (que palavra é esta?!)
Alguns carros, apesar das árvores caídas, insistiam em furar por ali fora. Furavam, furavam até que, como nos filmes da máfia em que o carro da vítima é bloqueado por outro dois, caía uma árvore à frente e outra atrás, emboscando-os.
Até de bike era preciso uma certa ginástica, quanto mais de carro!
A partir daqui, o mundo passou a preto e branco
A preto e branco e frio
A preto e branco e frio e belo
Há que reconhecer, todavia, que a protecção impermeável do meu capacete dava um leve toque de .... "cromaticidade" ao ambiente (a pose, de pernas abertas à futebolista foi completamente espontânea, não foi ensaiada).
Agora, ao ver as fotografias, aqui na sala à lareira, sei que falta qualquer coisa. Acho que dão a impressão de um ambiente estático e "soft", tranquilo. Nada disso, quando ali, enquanto pedalava, era tudo dinâmico e rude e mais não sei bem o quê. Era tudo muito intenso.
Ouvi várias vezes árvores a partir e a tombar. Vi até duas a cair a poucos metros da estrada. O ruído foi assustador. Começava estridente e intenso, depois percebia-se que os ramos batiam nas outras árvores e partiam-se os ramos uns nos outros e tudo acabava com um som cavo da árvore a embater no chão.
Fui subindo, já não havia carros. Tinham passado uns jipes dos baldios e dos bombeiros. Nunca tinha feito um "single track" destes. Evitava a todo o custo meter os pés na neve pois, apesar da protecção de neoprene que levava sobre os sapatos, a neve molharia os pés por baixo, pelos encaixes.
A certa altura, vi uma árvore que, curvada sob o peso da neve, parecia um cogumelo gigante
Foi o local escolhido para uma paragem sem ensopar os pés na neve. Estava a chegar aos mil metros de altitude. A coisa estava a começar a ficar difícil. Tirar as luvas para as fotografias arrefecia e molhava as mãos. Calçar de novo as luvas não era como beber o gin que neste momento tenho ali ao lado e que vou bebericando. Os pés também já estavam molhados. A neve nos "cleats" dos sapatos (quando parava era inevitável não pisar a neve) quase impedia o encaixe nos pedais (tinha que bater com força no pedal com o cleat para sacudir a neve). Algumas vezes já pedalava sem conseguir encaixar um dos pés.
Comi a banana que ia no bolso de trás, enquanto ainda tinha sensibilidade para abrir fechos nos bolsos traseiros do blusão.
Fiz contas à vida e, com a determinação e a estupidez que me caracteriza, decidi continuar e subir até ao planalto.
É que estava tudo tão bonito!
Tirando a protecção do capacete, obviamente.
Obviamente.
Enquanto as árvores com folhas vergavam as outras, as nuas, mantinham, na medida do possível, a postura, estoicamente.
A neve fazia uns muretes ao longo dos ramos e ficava tudo assim muito bonito.
Depois, os carros deixaram de passar, tornando as pedaladas por ali em isolamento mais interessantes.
Estava a chegar ao planalto. A neve atingia uns 30 cm
Não tinha pneus para andar ali na neve. Até no single track já patinava. Ainda me passou vagamente pela cabeça como seria, na volta, descer por ali, sem tracção.
O mundo a preto e branco passou a gradientes de cinzento. Começara a instalar-se uma neblina que tornava tudo à volta difuso. Parecia que tinha os óculos embaciados.
Estava a uns 500 m do planalto, do fim da subida.
200 m.
A tempestade de neve da noite anterior foi violenta. Via-se bem pelos cedros da floresta, pintados de branco de um lados do tronco.
Às vezes, olhamos para a frente e fica sensação de que vamos para a zona da neblina e que visibilidade vai diminuir mas, às tantas, olhamos para trás
e percebemos que afinal já lá estamos, imersos na neblina.
Tudo belíssimo.
Cheguei. Tenho fotografias desta parte da floresta no Outono com os amarelos, os castanhos, os laranjas. Por exemplo, aqui.
Encostei a bike.
e fiquei por ali olhar à volta
e para cima
A certa altura, a luz baixou, começou a ficar o céu de chumbo
abateu-se uma "grande calma". Era como se estivesse a ver um filme e, de súbito, as imagens começassem a passar em câmara lenta.
Eu sabia o que era. Lembro-me da sensação de quando era mais novo, na serra da Estrela. Vinha aí um nevão.
A neve começou a cair em pedaços pequenos mas, rapidamente, começaram a cair flocos grandes. Ah ! à tanto tempo que não vejo um nevão destes. E eu no meio dele.
Olhei para a bike. Está aqui muita neve. Vai cair muita mais. Horas de voltar.
O telemóvel desligou-se (soube mais tarde que, aparentemente, os iphones são muito sensíveis ao frio). Enfiei o balaclava, calcei o segundo par de luvas, fechei todos os fechos e peguei na bike.
Olhei para o céu e via riscos de flocos na direcção dos meus olhos. À volta a paisagem estava ainda mais desfocada pela cortina dos flocos de neve. Andava por ali sozinho. Não tinha visto ninguém e já não passavam carros há muito tempo. Ao mesmo tempo que achava aquele momento extraordinário pensava no single track (rodados dos carros na neve) que rapidamente iria desaparecer e que, portanto, tornaria a descida muito difícil.
Ainda fiquei por ali uns instantes. Estava ali no meio do nevão. estava muito frio. Sentia-me bem. Havia ali um entendimento da essência das coisas difícil de descrever.
A bike estava OK e isso dava-me segurança. Comecei a descer muito devagar (mais lentamente que na subida), a bike entrava facilmente em peão. Nunca fui ao chão. Os primeiros km foram difíceis. A neve colava-se aos óculos. Baixei os óculos para a ponta do nariz, tentando que me protegessem do spray das rodas. Levava lentes de contacto e a falta dos óculos obrigava-me a fechar os olhos com frequência. Parei duas ou três vezes para sacudir a neve do casaco. A neve colava-se à bike e ao casaco. O frio nos dedos das mãos e dos pés passou a dor. Mais abaixo; à cota dos 700 m já não nevava. Foram 18 km a descer.
Amanhã vai estar bom tempo, a neve vai manter-se mas o acesso será muito mais fácil e poderei ir até mais lá acima, ao Trevim - pensei.