terça-feira, 15 de março de 2016

Silveira Machu Picchu de Cima da serra da Lousã

Março 2016
(Serra da Lousã)

As aldeias de xisto são hoje um ícone da serra da Lousã. Hoje, porque há 40 anos eram lugares rurais, com gente e vidas vividas e morridas duramente. Praticamente abandonadas nos anos 60 e 70 do século passado umas são hoje locais turísticos, integradas na rota das Aldeias do Xisto, outras, muito bonitas, foram reabilitadas por pessoas de vilas e cidades próximas  (ainda me lembro que aqui há uns anos uma casa de pedra em ruínas nestas aldeias custava 14 contos mas que, com a moda, rapidamente passaram para 2000 contos) para segunda-habitação, e outras ainda (e vou tentar ser polite) são guetos de meninos da mamã da Alemanha e da Holanda que decidiram ser hippies a tempo parcial (ah pois, é que ser caçador -recolector é muita nice mas um cartãozinho de crédito para as emergências dá muito jeito) e escolheram algumas aldeias da serra da Lousã para a brincadeira.  Um dia falarei destes tipos com os quais interagi amigavelmente no início mas que percebi que eram  uns arrogantes de merda (chateiam-me as pessoas com pensamento pouco plástico que, com um olhar baço, falam como se conhecessem os segredos do Universo e que quem pensa de outro modo é porque ainda não viu a luz e coitados de nós incrédulos só resta recebermos o olhar de piedade deles) e que, sobretudo, transformaram alguns lugares em guetos onde se passam esquemas manhosos e onde não se é benvindo. Por fim, duas ou três das aldeias são lugares em ruínas, abandonados, como é o caso do Franco e das Silveiras.
A aldeia do Franco de cima (nos vales há sempre uma de cima e outra de baixo a de cima fica mais acima e a de baixo ... bom, acho que já se percebeu), de que de que já aqui falei, descobri-a após ter tido umas conversas com um vizinho que era lá daqueles lados e que me contou que, quando novo, ia com o pai pela serra acima, do lado de Vilarinho, e que passavam a ribeira e tal e iam por ali e davam a volta subindo pelo outro lado e lá fui tirando umas pelas outras de modo a fazer um plano para, de bike, me lançar na descoberta do caminho para o Franco.

Ao contrário das outras aldeias da Serra da Lousã, a Silveira de Cima, juntamente com a Silveira de Baixo e a Cerdeira, faz parte de um sub-grupo remoto, afastado de estradas e numa encosta de difícil acesso.  No seu apogeu, os nove lugares da Serra da Lousã dividiam-se em 3 sub-grupos, partilhando uma Capela, festas conjuntas e outras aventuras. Os outros são: 1) Candal, Catarredor e Vaqueirinho e 2) Talasnal, Chiqueiro e Casal Novo.
Embora estas últimas estejam na moda, a Cerdeira é mais genuína. Na Cerdeira vive a Kerstin Thomas . A Kerstin é uma escultora Alemã que vive ali com o marido e os dois filhos isolados há décadas. Estes, os filhos, foram colegas e amigos das minhas filhas desde o primeiro ciclo. Cruzamo-nos muitas vezes na estrada da serra, eu de bike e Kerstin na sua mini-carrinha. Olá, Olá. Hei, Hei. Adeus, Adeus. Outras vezes cruzamo-nos no LIDL a bisbilhotar as cangalhadas que por lá há. Nos últimos anos (10?) a Kerstin tem organizado os  Elementos à solta- Art meets Nature. Encontro de música, teatro, escultura (peças distribuídas pelos caminhos da aldeia... )... É uma iniciativa surpreendente, belíssima e extraordinária naquele cenário rude e isolado, das pedras, do vento, da água que corre, da luz intensa durante o dia e da escuridão à noite.

Mas, voltando à Silveira de Cima, há registos de, por volta de 1970, haver por ali ainda uma dúzia de habitantes. Poucos anos depois: zero.

Ia a subir, pedalando em esforço e a primeira vez foi um vislumbre por entre as árvores e as giestas.


Sim, parece que sim.


Ah, lá está! Vista claramente vista.


No BTT fica-se com a impressão que se conquista alguma coisa quando o que se busca não é óbvio e requer "uma certa determinação em pressionar com persistência e energia os pedais da bicicleta, rangendo às vezes os dentes. Em linguagem que se entende, requer força nas canetas. Ter custado chegar ali amplifica o prazer da descoberta.
Não me surpreende isto. Os mecanismos de recompensa no cérebro são bem oleados nas pedaladas. Tem que se pedalar bem pedalada a libertação da dopamina.

Mais umas pedaladas e estava na Silveira de Cima.
Era como se, na curva do caminho, tivesse dado de caras com Machu Picchu. As ruínas e as serranias em volta.


O local era magnífico, sobranceiro a dois ou três vales mas sem imponência desnecessárias, apenas a suficiente para se perceber que aquelas pedras não eram apenas pedras, eram o registo, a memória das pessoas que ali viveram.


É tão fácil perceber que por ali alguém caminhou com um carrego de mato às costas e que as cabras percorriam aqueles empedrados do caminho, que as crianças corriam atrás delas enxotando-as para este curral


que a Francisca do fundo do povo se encontrava às escondidas com o António que morava para o lado dos lameiros aqui nesta loja da tia dela, a tia Jacinta, onde entretanto nasceu uma árvore,


sempre na expectativa da chegada da tia Jacinta que se faria anunciar com o bater do pau nas pedras deste caminho (cumplicidades de mulheres !).




É impressionante que as pedras desta parede parecem estar num equilíbrio instável e, no entanto, a parede mantém-se de pé. Está assim, provavelmente, há 40 anos.


Para ali chegar (e também para de lá sair) tive que fazer uso de uma técnica muito sofisticada a que recorremos no BTT quando tudo o resto falha. Em linguagem técnica há que inverter as posições relativas entre nós e a bike relativamente ao centro da Terra. Isto assim:


Esta na hora de deixar Machu Picchu, quer dizer, a Silveira de cima mas, como a manhã ia adiantada, tive que decidir se continuava a subir ou se, dado o adiantado da hora, descia, tentando atingir a EN236. Uma das leis fundamentais do BTT é que na dúvida sobe-se. Foi fácil a decisão.
À saída dei com isto: alguém colocou uma telha a servir de bica no fio de água que corre entre as pedras


Estava aos 800 m de altitude, subindo até lá em cima poderia descer pela encosta Norte da serra.
Na subida, ao atingir o caminho pedalável, mais acima, dou com estas placas. Bem me parecia que as ruínas da Silveira tinham sido limpas. As Aldeias de Xisto, aparentemente, querem colocar Machu Picchu na rota do turismo.


OK, siga. Até lá acima. Depois desço pelo outro lado. Mas páro com frequência.


É um contraste formidável entre a encosta Sul nua que acabara de subir e a Norte da serra coberta pela floresta.


Daqui abre-se o vale limitado pelo Caramulo e pela Estrela. Imenso


Neste sítios tenho tendência a ficar para ali, parado a olhar.
O tempo flui e eu não dou conta (os físicos nunca mais resolvem esta controvérsia sobre a irreversibilidade do tempo, que chatice).
Até tive tempo para, num rasgo de criatividade ao nível de, por exemplo, um discurso de Cavaco Silva, montar o cenário para a fotografia da sombra a segurar o pau que segurava a bike.



Olhei com mais cuidado e vi o planalto da Estrela nevado, na linha do horizonte, ali ao centro da fotografia.


A certa altura, lá tenho que tomar a decisão: horas de ir por aí abaixo rapidamente.
O caminho era bom





Rapidamente chegaria à Lousã, lá em baixo. Meti-me por um estradão pelo meio da floresta. Estava um cheiro aromático de uma intensidade que esmagava. Raramente senti o aroma dos cedros e abetos tão intenso. Talvez porque te, estado a chover e hoje era o primeiro dia quente e de Sol aberto. Fui atento, na expectativa de encontrar veados mas não os vi nem ouvi. No dia anterior tinha tido um encontro com eles a cerca 10 metros na curva de um caminho, belíssimos, elegantes, um deles, o segundo que se atravessou, era um macho jovem castanho dourado com uma armação formidável. O primeiro não vi bem, com o susto.



Às tantas, uma clareira entre as árvores deixou ver, de novo, o planalto da Estrela ao longe, coberto de neve. Já não me lembrava da Silveira. Aqui era outra encosta, que é como quem diz: aqui há outras paisagens e outras coisas que não podem ser apenas um pano de fundo à memória da Silveira. Há outras coisas para a memória.




Na descida, a imagem do pão de leite com marmelada que levava no bolso estava a desconcentrar-me. Previdente, resolvi parar para o comer, aumentando, assim , a segurança na condução da bike pelos caminhos de calhaus abaixo até à Lousã.

Escolhi um sítio bonito e com boa música (música corrente, por assim dizer) para o pic-nic e, até, num rasgo de criatividade (era o segundo apenas num dia !) resolvi fazer o vídeo do riacho ali ao pé. Uma coisa assim à David Attenborough (ah que delícia ver na Odisseia os programas do David Attenborough ao pequeno almoço às sete da manhã - e a minha mulher a dizer-me que desligue aquilo ou que tire o som porque àquela hora não consegue ver os elefantes ou a migração do gnus ou a epopeia dos pinguins ou as aranhas da Amazónia ou a estratégia das orcas para apanhar a sardinha ...), com a câmara a forçar a passagem entre os arbustos.




sexta-feira, 11 de março de 2016

alucinações

Março 2016

Pedalar o photoshop só me faz perder tempo. Tenho que me deixar disto.


Virado de costas para a bike (há coisas que só se fazem de costas para a bike), nem dei conta de ele chegar. Olha, olha, um lobo!


Mééééééééé. Xxxxxxxxxxxiiiiiiiiiiiuuuuuu, nas histórias de lobos os cordeiros são silenciosos. É preciso fazer um desenho ó presa dos lobos?


Xô! Daqui p´ra fora, falta o pássaro e não há espaço para todos. Xô!

Monsieur Jacques Prévert, vá lá então:

Meti o chapéu na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa toda a gente se pode enganar
disse o pássaro


Fim.


terça-feira, 8 de março de 2016

desaparecer em 25 segundos


Março 2016
(Serra da Lousã)

Por regra, pedalo serra acima a olhar à volta. Olho para a frente, para cima, para um e outro lado. Olha hoje corre ali água, com os diabos há tantas salamandras esventradas na estrada, já se sente o cheiro intenso das mimosas, até nem está muito frio, às tantas subo já aqui por S. Lourenço, as nuvens vêm de Sul isto vai dar chuva, mais um muro que caiu, que cheiro há por aí animal morto, o Trevim está escondido por uma tira de neblina ...
Desta vez acho que fiz a subida a olhar todo o tempo para a roda da frente. Fixamente. Pedalei com fúria concentrado a alinhar umas ideias que, em sequência, eu queria que dessem corpo a um texto de uma lógica irrefutável. Que raio, proporem-me para elaborar um documento para discussão da homeopatia! Eu só posso escrever um texto científico. Esperam provavelmente um texto de várias páginas com um preâmbulo delicodoce sobre concepções holísticas do ser humano, mais uns "palavrões" quânticos ... quando a minha vontade é escrever apenas duas linhas: os conceitos-chave da homeopatia são incompatíveis com as leis da química e da física. Ponto.

Mas OK, vamos fazer isto como deve ser; referenciar os ensaios clínicos e as meta-análises que mostram que o efeito dos designados medicamentos homeopáticos é semelhante ao placebo.  Apenas isso. Provavelmente alguém trará para a discussão o conceito de hormese mas, OK, aí já estamos do lado da ciência; a hormese nada tem a ver com homeopatia.
Ia pedalando e, mentalmente, escrevendo o relatório sobre a homeopatia. Como, aliás, faço muitas vezes com outros problemas.

Quando ali cheguei, à floresta, a cerca de 900 m de altitude, concentrei-me no essencial num local destes; a luz e as sombras, as folhas e a terra,


a casca rugosa das árvores e o musgo, as clareiras iluminadas e os ramos das árvores que se diluem na neblina ao longe, e a água no chão e o cheiro orgânico ... e, no fundo, enquanto estou lá não vejo nada disto, não vejo as coisas isoladamente, vejo tudo ao mesmo tempo numa impressão difusa e inteira. Aqui em casa ao olhar a fotografia é que recapitulo o momento e, então, consigo separar elementos.


 Enquanto lá faz-se parte da paisagem, não se está de fora, a olhar.





E agora, para algo completamente diferente: gone in 25 seconds.
















sábado, 5 de março de 2016

O dia tem que começar de alguma maneira #3

Março 2016
(serra da Lousã)

Este é o post número 3 depois dos dois anteriores de há pouco (logo ali em baixo) sobre a mesma manhã. Isto parece o início de um capítulo das memórias do Cavaco. Valha-me S. Pisco abade como costumava dizer não sei bem quem. Ah, acho que era o meu professor de matemática do liceu.

Vão em trio porque quis fazer uma colagem de músicas às fotografias;  num caso não cola, ou melhor cola mas como a resina de pinheiro, a rasgar, e nos outros dois (incluindo este) cola mas sem consistência, como a farinha com água. Passaram-me outras hipóteses pela cabeça como, por exemplo, os sons do piano a cairem como gotas na Gymnopedie Nº1 de Erik Satie, ou o rasganço de guitarra do Steve Hackett no solo do Firth of Fifth (álbum Selling England by the Pound dos Genesis).

Parece-me que isto ficou um pouco confuso ...

On the nature of daylight (Max Richter)







O dia tem que começar de alguma maneira #2

Março 2016
(serra da Lousã)








O dia tem que começar de alguma maneira #1

Março 2016
(serra da Lousã)

On the nature of daylight (Max Richter e Dinah Washington)




not so bitter world




quinta-feira, 3 de março de 2016

e na manhã seguinte

28 de Fevereiro de 2016
(Serra da Lousã)

Como é bem sabido há duas ou três leis no Universo que até os mais leigos têm por óbvias.
Assim de repente lembro-me de algumas. A Terra gira à volta do Sol, por exemplo, ou a segunda lei da termodinâmica e uma terceira que postula que uma vez os dedos das mãos e dos pés (mais o friozinho pela "espinha" acima") terem voltado à temperatura normal após as últimas pedaladas geladas pela serra acima (um banho e uma noite quente entre lençóis ajuda) estamos prontos para voltar novamente às pedaladas na serra.

Ontem, Sábado, foi o grande nevão. Hoje, Domingo de manhã, o céu apareceu limpo, azul e com Sol aberto. Portanto, grande parte da neve iria derreter, os caminhos de terra estariam um lamaçal, mas a EN236 estaria desimpedida de neve, embora pejada de automóveis (sobretudo depois da hora da missa).
Plano A: ir pela EN236, tentando chegar lá ao topo da serra, onde ontem não consegui chegar.
Plano B: sair de casa rapidamente e depois logo se vê por onde começo a subir e onde consigo chegar.
Logística: Os sapatos tinham secado à lareira, check;
Uma banana, check;
A camisola da véspera estava suja e a precisar de lavagem mas que se lixe visto-a à mesma porque é a mais quente que tenho, check;
Prometer que não chego a casa como ontem às 3 da tarde, check.


As mimosas que ontem se vergavam sob o peso da neve tinham recuperado o viço. A orla da neve fora empurrada lá mais para cima.


Os piquetes dos baldios tinham cortado as árvores caídas, desimpedindo a estrada. Encontrei também um limpa-neves. Nunca tinha visto nenhum por aqui; conhecia-os bem da serra da estrela. E também dos Alpes Suíços, onde apanhei boleia de um nas descida da montanha.

A neve apareceu à cota dos 700 m. Boa luz, boa visibilidade, sentia-se o mar "flat" depois das ondas da véspera.


Os single tracks de ontem na neve eram hoje uma autoestrada.

Ontem


Hoje, no mesmo local



Na chegada ao planalto, onde ontem mal conseguia ver com o nevão que caía, encontrei um companheiro a pedalar. Bom dia. Não o conheço. Pois, eu faço mais downhill mas agora comprei uma bike para fazer cross country. Eu ontem andei por aqui mas estava mau. Eu vim cá com os miúdos, de carro, para eles brincarem na neve. E se tirássemos umas fotografias. OK. Pronto. Então até um dia destes, pode ser que nos encontremos novamente.


Na cortada para o Trevim, a estrada não tinha sido limpa. Óptimo. Menos gente, menos carros.


O cérebro engana-nos. Os pinheiros que EU SEI que são castanhos e verdes afinal neste cenário são pretos.


Gosto desta parte da floresta; de vez em quando abre e deixa perceber as encostas lá atrás



ao mesmo tempo que proporciona micro ambientes que nos encerram.


Vi outros companheiros a pedalar, alguns carros e um tipo de mota. Este, parado a tirar fotografias, desafiou-me. Então? Que tal é pedalar por aqui? Depois de dois dedos de conversa - e de umas fotografias -



despedimo-nos. Ele ainda queria ir à Serra da Estrela. Eu segui para cima, para o Trevim e ele para baixo.


Estava a pouco metros da base do Trevim (monte cónico cume da serra aos 1200 m de altitude).
Encostei a bike. O tempo estava  a fechar.


Bem, só mais uns metros. Daqui teria vistas para o Trevim, caso não estivesse coberto pelo nevoeiro. Tinha pensado subir até ao cruzamento para o St. António da Neve, de onde poderia avistar o maciço do Açôr e da Estrela mas, o céu azul que tinha visto da vila tinha-se transformado em cinzento neblínico aqui em cima. Nada veria, caso tentasse patinar com a bike até ao cruzamento do St. António. Depois, as "recomendações" familiares para chegar a tempo e horas do almoço atravessaram-se-me na zona do cérebro que processa as grandes causas que influenciam o nosso dia-a-dia.


Horas de voltar para baixo.


Na descida tentei manter a mente ocupada com visões idílicas de banhos quentes com muito vapor, em que conseguiria sentir os dedos dos pés, melhor, teria umas musas de pele doce e suave que me fariam umas massagens nos dedos e ... bem, fiquemo-nos por aqui, ainda me distraio, vou com a cabeça ao chão e em vez das musas terei uns tipos com estetoscópios debruçados sobre mim.