domingo, 17 de abril de 2016

Mais Novêmbrica que Abrílica

Abril 2016
(Serra da Lousã)

É um Abril muito Novêmbrico, este, na serra. As florzinhas deveriam estar pejadas de insectozinhos fofos a zumbirem felizes à volta delas, o Sol quente a transformar a cor pálida das minhas pernas, semeadas de pêlos pretos desalinhados, em tons de mel do estilo que se vê nas revistas do jet seis vírgula qualquer coisa ou nas séries de televisão de meninas em bikini e machos com mamas (quer dizer, peitorais)  maiores do que as nádegas, os passarinhos a piarem de árvore em árvore e a ensaiarem rituais de acasalamento mas ...  o dia estava tão pálido como a pele das minhas pernas, havia uma chuva miúda oblíqua que se tornava vertical quando o vento abrandava e era mais ou menos isto mais um friozinho de 8 graus C.

Tanto palavreado e afinal o que queria era mostrar umas fotografias e uns vídeos tirados durante as pedaladas de hoje.

Aos 800m tinha já pedalado bem. Tinha suado bastante sob chuva. Por isso, no caminho inclinado  para este bosque, o resvalar do pneu numa pedra foi um bom pretexto para parar (é que, às vezes, quando se vai por ali acima a pedalar, em esforço, com chuva e frio, apodera-se de nós uma febre que nos deixa em transe e só pensamos em pedalar, pedalar, não parar, pedalar).
Já por aqui vi esquilos noutras pedaladas.


Olhando para o outro lado, com o céu em fundo (e não com o fundo escuro do bosque em fundo), as cores modificam-se e, no entanto, o local e a hora são os mesmos. A incidência da luz modifica as cores e os padrões. É o nosso cérebro a enganar-nos (como quem diz, a enganar-se a si próprio).


altogether now, em vista panorâmica.


Não se percebe nas fotografias mas chovia. Além dos esquilos, já por várias vezes tive encontros imediatos do terceiro grau com veados aqui neste bosque.
Fiz um vídeo onde se vê e ouve a chuva. Perscrutei o limte do bosque, tentando perceber algum vulto fugidio por entre os carvalhos, como já dantes aconteceu mas, desta vez, se andavam por ali não se quiseram mostrar.


Lá mais para cima, percebia-se a instabilidade do tempo. Às vezes abria um pouco mas a maioria das vezes as cumeadas da serra estavam cobertas por nuvens. Estas, entre o cinzento claro e o quase preto, passavam rapidamente.
Às vezes acontece que quando se pedala em condições um pouco agrestes chega-se a um momento em que tudo parece natural. O que em outras circunstâncias nos incomodaria torna-se normal. Olha vem lá chuva! Depois a chuva vem, vamos por ali fora a pedalar para não arrefecer e, às tantas, é como se estivéssemos à beira-mar num dia de Sol, tranquilamente, a passear.  Olha vem lá Sol! E continua tudo normal.
Quando cheguei aos 1000 m o tempo fechou ainda mais, baixou a temperatura e aumentou o vento. Via o Trevim, lá ao fundo, que pica aos 1200 m. A maioria das vezes os meus planos consistem numa ou duas ideias simples: ora, deixa cá ver, subo por aquele lado e depois logo se vê. Outras vezes, coloco objectivos: vou ao Trevim e já volto.


Tinha pensado ir até lá acima, ao Trevim, fazer um vídeo da invernia mas não tinha muito mais tempo. Ia já na expectativa do vento forte e das nuvens vistas por cima a meterem-se nos vales até ao planalto da Estrela e do céu azul para o outro lado, o lado do mar ... Mas, que raio, até para aqui venho com o tempo contado aos cêntimos! Mudança de planos.
Havia um local belo, ali perto, onde passo com frequência. Iria lá dar a volta. Meti-me pela floresta


por onde há uma "not so long and winding road". Como eu gosto desta e de outras long and winding roads. Este tipo extraordinário (Paul McCartney) a fazer música parece que tira o que está a mais num emaranhado de sons, a música já lá estava (como se disse já para alguns escultores).
(aqui numa das primeiras versões, pelos vistos)


cá está, a not so long ...


A invernia tem feito estragos. Sempre fez mas árvores partidas ao meio não é um cenário trivial.  Há qualquer coisa de estranho nisto.



Subitamente, à saída da floresta, o tempo levantou e abriu-se o horizonte sobre o vale da Lousã.  Soube bem apanhar o Sol de Abril quase no cimo da serra depois das pedaladas Novêmbricas pela serra acima.


De resto, durante a descida, o tempo manteve-se mais ou menos bom até cerca de 5 km do final, da chegada ao vale. Apareceu uma sombra negra no céu que, literalmente, varria o horizonte com um lençol de água. Caiu uma carga de água tal que da pala do meu capacete corriam fios de água como num beiral de um telhado. Apesar disso, ainda consegui assobiar singing in the rain.



quinta-feira, 14 de abril de 2016

Padrões na Natureza

9 Abril 2016
(Serra da Lousã - cimo do vale da ribeira da Fórnea)

Agora que penso nisso (na altura, quando vou a pedalar por ali fora, não penso em nada) é como se chocasse com alguma coisa; o que vejo vem-me como um tsunami e obriga-me a parar.

O que eu gosto de olhar as árvores nuas contra o céu branco. O isolamento também ajuda. E a neblina que invade a floresta também. Estou na floresta aos 700 m e sei que não anda por ali ninguém. O dia está invernoso mas tranquilo. Sopra algum vento, ouve-se um canto de pássaro aqui e ali mas o silêncio é quebrado sobretudo pelas rodas da bike sobre as folhas do chão e pela minha respiração.
Estou ao cimo do vale da ribeira da Córnea.

Paro, desmonto, arranjo um pau para segurar a bike (manias, não gosto muito de a deitar no chão) e


só ouço os meus passos. Um ruído intenso que sobressai no silêncio; como se tivesse uns chocalhos nos tornozelos.


Mas parei por isto



mais perto.


Parei pela geometria fractal. És parvo ou quê pá? Paraste pela geometria fractal? Que grande estupidez pá! Estás armado ao pingarelho? Só falta perguntar o que é que as árvores do vale da ribeira da Fórnea têm a ver com os fiordes da Noruega, pá.

Pois é. Parei porque gosto de olhar as árvores.
Mas (ou ainda assim), à medida que olho há uma parte do cérebro que vem com essa ideia da geometria fractal. É que parece ser uma geometria intrínseca à natureza. Aprendi isto há vários anos e a ideia deixou-me fascinado.

Por exemplo:
relâmpagos
(imagem retirada de "wired.com")


montanhas
(imagem retirada de "wired.com")


sistema vascular no cérebro
(de urbanshakedowns.wordpress.com)


 e no olho
(de urbanshakedowns.wordpress.com)





 e no coração
(de urbanshakedowns.wordpress.com)

 
os fiordes na Noruega
(de urbanshakedowns.wordpress.com)



Um neurónio e uma galáxia



e as árvores do cimo do Vale da Ribeira da Fórnea da serra da Lousã


Fica um vídeozinho porque as fotografias reduzem a dimensão do tsunami que nos atinge ao olhar os fractais para isto


E vamos embora antes que caia outra carga de água que já sequei duas no pêlo para aqui chegar.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

As falésias neblínicas do Alentejo

Costa Alentejana, Agosto de 2009
Carvalhal da Rocha (Brejão) - Cabo Sardão

Com os anos transformou-se numa clássica: ir ao cabo Sardão e voltar pela falésia, rente ao mar e rente ao abismo. Ao longo dos anos fiz este percurso mil vezes e, como em muitos outros sítios, é como se cada vez fosse a primeira, tal a beleza.

A chegada foi já ao pôr-do-sol. Encostei a bike ao forno. O Sol baixo reflectia no mar aquela luz doce do ocaso que inunda e se insinua por todo o lado de mansinho, como quem não quer a coisa.


À partida,  contrastando com a chegada, a neblina tornava difusa a paisagem, ampliava os aromas do mato rasteiro (mil aromas que há por ali, tenho-os na memória há anos)




 e camuflava o abismo.



Às vezes a neblina levantava e recordava-me a "topografia potencialmente geradora de riscos em função das Leis de Newton que, como toda a gente sabe, resulta do facto de a massa da Terra ser maior do que a do meu corpo somada à da bike e, portanto, eu a bike somos atraídos para o centro do planeta e não vice-versa" (para dizer isto de uma forma poética).


E vai-se por ali fora, sob a neblina e sobre o mar que, muitas vezes não se vê mas se ouve, a pedalar, e é tudo muito real. Nada tem de sonho. Sente-se tudo na pele.




Paro com frequência. Há gaivotas que fazem vôos rasantes à falésia, como esta. E ... olha a bike da altura, pesadona e robusta ! É como estar hoje a olhar para um Fiat 600.


E é tudo imenso


O caminho mesmo ali à beira e o som do mar que por ali sobe faz com que um friozinho se instale em permanência pelas costas acima (pela espinha acima !). E isto é bom. Evita vertigens.



Demoro muito tempo a a fazer uma dúzia de Km. É inevitável parar.






Às tantas percebe-se ao longe o farol do cabo Sardão, elevando-se à medida que pedalo, como se fosse o mastro de um barco que se aproxima na linha do horizonte.



Que sítio este! Olhamos e, sem dar por isso, sai-nos das entranhas: Fooooooooodddddddddaaaaassssssssssssseee!



É um local poderoso, de grande intensidade, de pele arrepiada, este.





 

A volta, pois, há sempre uma volta, foi pelo lado do Cavaleiro, a povoação junto ao cabo.


Mas rapidamente mudei de ideias e voltei pelo percurso da ida. É outro percurso, não é o mesmo. Uma coisa é vir para Norte, outra é ir para Sul. Parece claro.

Quando o Sol abre a paisagem transforma-se


Na volta, ainda espreitei os ninhos de cegonha, 4 em linha pelo penhasco abaixo, mas, nesta altura do ano, os juvenis já voaram do ninho. Já os observei noutros anos, por alturas do início da Primavera, ali no ninho, protegidos pelos progenitores, a levarem com ventanias e espuma das ondas, estas ainda ferozes nessa altura do ano.


Pedalo com frequência nos mesmos sítios. Nunca me canso. São sempre diferentes, todos os dias. Tenho tantas fotografias de pedaladas na costa do Alentejo mas numa área relativamente pequena, entre Aljezur (já Algarve) e cabo Sardão. Tenho que as lançar aqui. Tal como fiz com estas. Estava para aqui, a 450 km de distância destes caminhos, a olhar pela janela e, de repente, atravessou-se-me a memória das falésias na mente. Fui rapidamente à procura de fotografias e as primeiras que me apareceram foram estas, de 2009.
Para além da costa do Alentejo, os sítios recorrentes onde pedalo são as Serras da Estrela, do Açôr e da Lousã. Falésias, montanhas e serranias. Ora, afinal há apenas (como em quase tudo) uma linha ténue que separa o granito da Estrela do mar no Alentejo.

Gosto de chegar ao por-do-sol, de ver a luz refletida no mar e as gaivotas, em bandos, por ali às voltas como quem vai para qualquer lado.






quarta-feira, 6 de abril de 2016

A vertigem do vale da ribeira de S. João

Serra da Lousã
(Vale da ribeora de S. João)

Foram sobretudo as águas de Março que fizeram rugir a ribeira. Passa lá ao fundo no vale. Não se vê, ouve-se. Nunca fui lá abaixo. É que os sapatos de encaixe com sola de poliamida e aplicações de metal para encaixar nos pedais da bike não são a primeira opção para uma caminhada encosta abaixo e acima.
Cá em cima, na estrada, ouve-se sempre um som de água a correr, mesmo no Verão, mas é quando vêm umas belas chuvadas que a ribeira parece acordar de uma espécie de hibernação. Furiosa (imagino eu cá em cima), a correr por entre pedras, abrindo caminhos novos e levando tudo à frente, paus e folhas e o que aparecer. É isto que o som me diz.
Páro ali com frequência sobre o vale e quase que sinto uma vertigem, um canto de sereia que me atrai até lá abaixo.
Ao cimo do vale, o Trevim (a 1200m) e, na encosta em frente, ao cimo do souto, a aldeia do Talasnal.
Som deslumbrante este, o da ribeira, acompanhado pelo pio de um pássaro ali perto.



Cá em cima, correm com pressa pequenos riachos que vão alimentar a ribeira,


fazendo pequenas cascatas.


É curioso pensar porque é que este som não soa como ruído (pelo menos para mim). Pode até fazer-se um exercício, imaginando um som (aparentemente) parecido com o da água que corre na ribeira. Por exemplo, o som de um rádio mal sintonizado é aparentemente semelhante a este mas, enquanto que o da água que corre é "natural", até tranquilizador, o do rádio é perturbador.

domingo, 3 de abril de 2016

Soirée de Domingo para lá do céu do Missouri

Abril 2016
(Serra da Lousã)

Seguramente. Do Missouri à serra da Lousã é longe. É preciso atravessar um oceano. E, nevertheless (como diriam no Missouri), o céu é o mesmo.
Mensagem para um amigo é a música para acompanhar os vídeozinhos ali em baixo. Para se sobrepor à da água em pequenos fios que corre pela floresta.
Comprei este álbum de Pat Metheny com Charlie Hayden no século passado, em vinil. Foi um deslumbramento.


Há algum tempo que não vinha para estes lados, para o lado Norte da encosta do Trevim.
Depois das tempestades de Março, que transformaram os pequenos riachos tranquilos em torrentes impetuosas que tudo levavam à frente, os fios de água que descem pela floresta parecem ter voltado à timidez do costume. São os sobreviventes das águas de Março. Este, por exemplo, dá ali uma volta, contornando a árvore que se ergue para o céu (do Missouri e da serra da Lousã).

Acho muito interessante que, no chão, a desordem das folhas e dos ramos, das texturas e das cores formam, para mim, um conjunto harmonioso. Tudo está no seu lugar, como cadeiras arrumadas à volta de uma mesa. Provavelmente, isto é verdade para toda a gente. É que, com a Evolução, temos inscrito no cérebro este tipo de padrão. Para nós deve ser natural. E, no entanto, não são aparentes linhas ou figuras geométricas, um padrão sequer, que pudesse racionalmente dar corpo à ideia de ordem. Não há ali uma geometria Euclidiana. Há, talvez, uma geometria fractal que o nosso cérebro percebe como familiar, intuitivamente, que fica para além de uma análise racional.




Mais acima, aos 800 m. Esta parte da floresta tem um aspecto desolado. De Verão é escura, escuríssima, de onde jorra como água de  uma fonte um zumbido intenso que denuncia milhões de moscas gigantes que ali se abrigam (não sei se se abrigam) mas juntam-se ali como que fugindo do Sol, formando uma nuvem como se fossem um organismo gigante com 1 milhão de de amplificadores de zumbidos. Fico com os cabelos em pé só de passar ali perto. No Inverno e no Outono é suave, cores suaves, silêncios, clareiras por onde uns raios de luz filtrada atingem o solo, este atapetado sem grandes contrastes, castanhos pálidos ... e o fiozinho de água hesitante ... Mas, há um certo mistério nisto tudo quando se olha à volta.


Horas de me pôr a andar


é que ... le temps va, tout s'en va.


Depois, ah depois, são os horizontes. Na linha do horizonte à direita aproximo-me para ver o planalto da serra da Estrela com uns farrapos de neve dispersos.


E, como é hábito, fica ali o caminho para acabar de fazer. Monto na bike e sigo.





quarta-feira, 30 de março de 2016

Caminhos sem fim estes ... y si fuera mujer?

Julho 2014
(Serra da Lousã-Penela)

Passo grande parte da minha vida a pensar: onde é que isto vai dar?


E já senti a pele arrepiada com as palavras de Mario Benedetti em Montevideo.

Y si dios fuera mujer?
...
qué venturosa espléndida imposible
prodigiosa blasfemia.







Caminhos ventosos estes

Abril 2015
(Serra da Lousã)

Passo grande parte da minha vida a levar com o vento nas ventas.


E já Piazzolei nas ruas de Buenos Aires