A chuva em cortina, miudinha, que se aproxima de mansinho trazida pelo vento. Vemo-la ao fundo, desfocando a paisagem e sabemos que vai chegar e que inexoravelmente vamos ficar debaixo da cortina. E, às tantas, atravessaram-se-me na memória as palavras do outro para a Suzanne misturadas com a chuva: and you know that 'the rain' will come but that´s why you wanna be there (Leonard Cohen - Suzanne)
Depois passa. O tempo instável faz modificações extraordinárias na paisagem. Deve ser a luz, as variações da luz. O Sol espreita e
e é isto. O Sol e a água (mais o dióxido de carbono que nós produzimos no nosso organismo e que é um gás de estufa e tal e o aquecimento global e estes assuntos em que há por aí muita polémica e informação atabalhoada e tal e muita teoria do achismo - eu acho isto, tu achas aquilo, ele acha outra coisa qualquer, e nós achamos todos juntos e volta tudo ao início para mais uma volta, mais uma viagem ... - mas que agora não vem ao caso) puxam a vida com força, ou semeiam a vida, por todo o lado.
Escolhi ir a direito. Da Lousã ao Trevim.
Duro como o raio. Uma diferença de mais de 1000 m em altitude em pouco mais que
18 Km. Mas escolhi. Vou por ali. Que se lixe. Podia ir dar uma volta mais
suave. Mas escolhi ir a direito. Não poder escolher é uma merda. Isso dá cabo
da vida.Por isso, raramente me queixo.
Do trabalho, das pedaladas, das escolhas que fiz (se me arrependo? Isso é outra
coisa). Porque escolhi. E, para além do resultado final, poder escolher é
sempre um caso feliz.Estou agora a
lembrar-me que há um livrinho escrito pelos dois físicos que detectaram a
radiação de fundo do Universo, Penzias e Wilson, onde este falam disto. E, já agora, não é aquela ideia do famoso cântico negro de José Régio porque até parece que a escolha dele está predeterminada e é, portanto, imune à novidade, logo não está a fazer escolha nenhuma (mas, não me vou meter por aqui).
Fui a direito. Já o fiz dezenas de vezes.
Tirei duas fotografias e fiz dois vídeos.
A primeira sobre a Lousã aos 900 m de altitude, percebendo-se Coimbra
lá ao fundo à esquerda por detrás dos montes.
A segunda também sobre a Lousã mas mais
acima (esta é apenas um pretexto para mostrar a urze em flor).
A terceira (afinal são 3) no mesmo sítio
mas tirada para o outro lado, para Este, para a sequência quase-infinita de
cumeadas, de cores e de texturas. As serranias da Lousã, Açôr e Estrela.
O vídeo, também no mesmo sítio, não deixa
tanto à imaginação mas abre o ângulo do horizonte desde Oeste até Este. Ao vir de Oeste, a Norte vê-se a Serra do Buçaco (parece uma meseta),
depois a do Caramulo e, já no final, a do Açôr (o cone do picoto da Cebola aos
1400m é óbvio) com a da Estrela
(imponente) na linha do horizonte
Ah, os últimos metros da subida. Gosto da
rudeza dos caminhos.
Subiu-se logo desce-se. Here we go!
A estrada, em mau estado, segue a linha
das eólicas. Ainda hei-de filmar isto como deve ser, à velocidade real, nem que
seja com o telemóvel preso nos dentes. Às vezes vou por ali abaixo e vejo os
falcões e outras rapinantes a planar mas, ao contrário do que é normal, pelo dorso,
é que estão mais baixas do que eu. O som do vento que bate (mas não sopra a
chuva, ora bolas!) é real. É o som que se ouve quando se veleja em cima da bike
por ali abaixo. Aliás, a ventania no rosto, nos ouvidos, em todo o lado, é um
lado pouco óbvio para quem nunca experimentou andar de bicicleta acima dos dos 30 km/h (mais ou menos) mas que traz às pedaladas
uma intensidade e novidade sensorialviciantes. É que, estou convencido, o prazer é uma força evolutiva
(motora) inscrita no cérebro (digamos assim) que motiva muitas das nossas
acções.
O encontro ocorreu logo depois de ter estado a fotografar as paredes coberta de água, coloridas, brilhantes por onde corria um fiozinho de água; o que restava de uma queda mais ou menos exuberante de algumas semanas atrás. Vem o Sol, o tempo aquece e irrompem as cores. Ao contrário, os riachos minguam.
Mas, estava ali a olhar para os brilhos e as cores da parede onde agora irrompiam pequenas plantas quando vejo um tipo a aproximar-se de bicicleta, uma ar distraído, a olhar à volta, só lhe faltava assobiar, com aquela atitude de cordialidade contida.
Mas os roxos? De onde é que vêm os roxos? Era isto que mais me intrigava
Passou. Eu fiquei mais um pouco. Depois, fui atrás dele pela serra acima. Que diabo o tipo pedalava bem. Vi que levava uns rabiscos a servir de mapa. Meti-me com ele, ofereci-me para lhe dar sugestões, dicas, respostas. O plano dele era simples mas difícil de concretizar. Subir ao topo da serra e depois descer pelo outro lado.
Entretanto chegou
a mulher. Vinha numa e-bike (bicicleta auxiliada por um motor eléctrico). É que
assim consigo acompanhá-lo, disse-me, apontando para o marido com a cabeça e
expressão de quem quer dizer que ele é um tolo das bikes.
Eram Holandeses.
Lá lhes dei uma sugestões, falámos de várias coisas. Ela dizia-me que gostavam
muito das variantes do verde e eu percebia bem o que ela dizia. Ele, o marido,
ia sorrindo. Às tantas, ele sai-se com esta:
-Isto
é tudo tão bonito. Porque é que não há mais pessoas a andar de bicicleta?
à Às vezes fazem-se estas perguntas sem querer saber a resposta (perguntas de retórica) mas quando ele ficou a olhar para mim de olhos abertos percebi que era genuíno, que o intrigava a pergunta, que queria que eu dissesse alguma coisa. Disse-lhe que, ainda assim, por vezes há mais pessoas a pedalar por ali. Mas que quando se trabalha (os que trabalham) e se tem um ordenado miserável, como é o caso de mais de 30% das famílias (e jovens) portugueses, pedalar pelos campos e serras apreciando a beleza pode ser uma ideia remota. Tal como ir ao cinema, ou a uma exposição, ou a um concerto, ou outra coisa. Mas que também achava que há coisas que têm que ser ensinadas e que, ao contrário de emoções como o medo, por default não temos inscrito nas redes neuronais outras que resultam de estímulos diversos e associações complexas (a beleza que ele percebia incluía não só o que via mas também os aromas, e a luz e os sons de aves e água a correr, e mais mil e uma coisas).
Despedi-me e fui andando mas, km à frente, quando parei numa fonte improvisada (uma telha num riacho) que está ali há anos
olhei para trás e via-os perto. Pedalavam que se fartavam. Eu todo bem equipado, calções como deve ser, sapatos de encaixe, uma bike jeitosa e tal, e ele com uns sapatos de pano finos que nem conseguia colocar o pé no pedal, um alforge, uma pasteleira.
Ao chegar ao
planalto tirei mais umas fotografias: umas árvores num pequeno bosque. É que
estava tão bonito!
Na descida tirei
outras, desta vez a um souto que começa a folhear, fazendo contrastes de sombra
em machas no chão das folhas mortas do ano passado.
E daqui apanhei
depois o caminho (este é dos caminhos para algum lado) que me levou lá abaixo
ao vale. Gosto desta descida porque o vale começa a vislumbrar-se (como que a nascer no horizonte), percebendo-se lá em baixo, e depois se vai abrindo, imenso, à medida que nos aproximamos.
Plano: Ir nas calmas até à barragem, ficar para ali um bocado extasiado a olhar, parar na fonte para encher o bidão, respirar fundo, olhar de soslaio para as cumeadas lá em cima, proferir uma imprecação tabernácula e força nas canetas até lá acima aos mil metros. Depois, já com o Adamastor à vista, pedalar por onde me der na gana.
Mal saí, poucas pedaladas adiante, parei para verificações técnicas. É que a bicicleta é o equivalente dos tubarões no meio biológico mas não é perfeita. A evolução quase que atingiu a perfeição ao seleccionar estas espécies. Pouco há a melhorar, estão optimizadas e, por isso, quer os tubarões nos últimos milhões de anos quer as bicicletas nos últimos cem anos permaneceram, em essência, a mesma coisa. Mas, como dizia, apesar da perfeição estruturo-estetico-aerodinamico-funcional da bike, por vezes há furos.
Parei na barragem para apreciar o monolito (seguramente inspirado no do 2001 Odisseia no Espaço do S. Kubrick - e, de facto, pesando bem, parte do filme poderia ter sido feito aqui nestes rochedos) que ali pespegaram. Como é hábito o plano estava a ser seguido à risca ; já devia ir a meio da subida e ainda aqui estava.
Apliquei-me e, num esforço suplementar, rapidamente deixei a barragem não apenas para trás mas sobretudo para baixo. Nas serranias, a sensação de deixar para baixo dá uma vertigem que a de deixar para trás não dá. Dá um certo ânimo olhar para trás e ver lá ao fundo a barragem onde tinha passado.
Mais para abaixo ainda significa que eu estou mais para cima. Como? Que ##"%(#"...?
Já acima do mil metros de altitude (1100 mais coisa menos coisa), sobre a aldeia de Fajão, abre-se para Norte o horizonte. É aqui, a pedalar nestas cumeadas agrestes, remotas, que se experimenta a indescritível sensação de velejar nas serranias, a essência das pedaladas.
Apanhado o estradão dos aerogeradores para Este e ... lá está ele, o Adamastor do Açôr, o picoto da Cebola aos 1400 m de altitude. Hoje não vou dobrar esse cabo, como fiz já muitas vezes. É preciso tempo e astúcia. Segundo se diz, é o local de onde se avista mais território português, cerca de 25 %. Tenho por aí, no blog, umas fotografias a 360° que o atestam.
E segue-se por ali a levar com o vento que traz os aromas da urze (este ano só agora a florir) como quem passeia nos Champs-Élysées
E vamos lá velejar neste videozinho em direcção ao Cebola. Não sopra a chuva mas bate o vento.
Seguindo o plano à risca nos aspectos técnicos, aproximei-me do gigante
e, uma vez ali tão perto, deu-me na gana virar para ... ora deixa cá ver ... já bronzeei do lado direito e, portanto, agora preciso do Sol a afagar-me as perninhas do lado esquerdo ... viro para Oeste, afastando-me do Adamastor a meia encosta a caminho de Fajão.
Registei parte do percurso (um estradão a cerca de 1100 m de altitude) num vídeo. O vale do rio Ceira lá em baixo, ainda jovem, acabado de nascer à sombra do Cebola. É um deslumbramento tranquilo. Vai-se por ali fora em estado fundamental.
Parei sobre a aldeia e os penedos de Fajão. Do lado de lá do vale, a cumeada do S. Pedro do Açôr (que pica aos1400m) por onde andei no Verão passado.