segunda-feira, 18 de julho de 2016

Ideias simples

Serra da Lousã
(Julho 2016)

O ar fresco da serra pela manhã bem cedo. A maresia da serra. Era uma espécie de chamamento para começar a pedalar pela serra acima. E os aromas que o ar trazia aumentavam o feitiço. Mas tinha ainda que ir ao mercado comprar legumes e fruta. E peixe que, by the way, foi uma bela de uma posta de raia para uma mini-caldeirada que deu para todo o dia.
O mercado ao Sábado na Lousã não é apenas um mercado no sentido estrito do termo; é um local de encontro, de conversas, há pessoas que andam por ali a cumprimentar-se, a dar dois dedos de conversa ... Fazer meia dúzia de compras pode demorar muito tempo. A como está o tomate? Ai não, é muito caro. Ea molhada de nabiças?  E a gente ali, à espera. Olhe levava também umas pêras mas veja lá, da última vez uma ia já muito madura. Ó dona Manuela aqui as pêras são todas boas. E a gente ali, à espera. Ora viva, então às compras. Deixe-me só pagar que já lhe conto, quanto é que disse que era? Cinco euros e quarenta e nove cêntimos. Ora cinco, vinte mais vinte dá quarenta, quarenta e cinco, quarenta e seis. Quarenta e quantos? Quanto é que disse que era? Ah e nove, quarenta e sete e quarenta e nove. E a gente ali à espera.

Quando estou despachado já o Sol vai alto, o calor é intenso, a luz é intensa, reflecte nas paredes das casas, deixa o céu branco, as cores diluem-se no branco, os verdes não são verdes, é como se houvesse uma neblina mas de luz que deixa tudo à volta indistinto. Um dia abrasador.

Nestes dias, se puder, vou até à floresta.  Vou pedalar até à floresta a cerca de 700 m de altitude para a zona do Terreiro das Bruxas. Pedalar até lá num dia assim custa. Na subida (os primeiros 6 km foram feitos por asfalto), a certa altura, dei conta no minicomputador da bike que estavam 38,5 °C. E vamos ali, ao Sol, a subir, a pedalar e há uma vertigem que nos impele a dar uma e outra e mais outra pedalada, e vamos subindo, e está tudo calmo porque o Sol abrasa e ouve-se um zumbido imenso dos insectos (parece que é a única coisa que mexe com este calor). E se, por um momento, tento racionalizar a situação (mas afinal que raio é que estou a fazer, com um calor destes?) logo outra parte do cérebro, mais primordial, mais reptiliana remove este pensamento como se o córtex não fosse para ali chamado. Talvez que, do mesmo modo que muitas das nossas decisões (ao contrário do que gostamos de pensar) não são conscientes, haja situações (situações de prazer, de deslumbramento, de emoção profunda ...) em que claramente o pensamento racional é tamponizado, quase apagado. Deve haver um tsunami neuronal (como na enxaqueca mas com efeitos não de dor mas de prazer) que submerge a activação de outras regiões, grupos de neurónios, pensamentos mais conscientes, mais executivos.

E, às tantas, chego à floresta.



Aqui, em cima do zumbido dos insectos, ouvem-se cantos de pássaros. A temperatura é dez graus inferior ao resto do planalto. Está calor, na orla a luz é ainda intensa mas os verdes vêem-se verdes.


Muitos verdes





múltiplos de verde


Rente ao chão, a próxima geração da floresta


que, se não houver incêndios, terraplanagens para plantar eucaliptos (tanta estupidez que por aí há à solta, nunca se sabe), doenças ... daqui a uns anos estará assim



em simbiose com carvalhos


O Sol, a pique, ilumina o chão, faz clareiras mas, pelo caminho, a luz é refletida nas folhas dos carvalhos que surgem por entre os troncos escuros dos cedros, como que umas pinceladas de verde e luz




No chão, as sombras desenham riscos negros transversais ao caminho (o caminho quase que lembra um réptil gigante a serpentear por entre a floresta)


e manchas enigmáticas 


(e neste belo carvalhal, os padrões são exuberantes - troncos direitos e troncos curvos em S, a ramificação fractal na copa, os líquenes colados aos troncos, o chão repleto de folhas de carvalho com os recortes curvos, os gradientes de luz ...)


Uma ideia simples: ir até à floresta e ficar por lá algum tempo. Ficar por lá não como que olhando para o exterior de nós, como um cenário, mas deixando-nos diluir no ambiente, fazendo parte dele. É uma sensação muito elementar, natural, um bem-estar primordial.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O breve instante do assobio; às vezes um bocadinho menos breve

Corre na blogosfera a iniciativa "queremos ouvir as vozes dos bloggers a declamar poesia".

Já ouvi alguns e gostei muito - a Um Jeito Manso (e família), o Xilre, a Loira do Também quero Um Blog ...

Se o meu sotaque de Beirão, enraizado na Beira-Baixa (onde sedimentei as vogais nasaladas), apurado na Beira-Alta (onde treinei os RRRRss carregados e uns finais de palavras prolongados) e amaciado na Beira-Litoral (com aromas florais e frescos) ficava aqui bem, dizendo um poema?  Não sei. A poesia é uma outra forma de entendimento, de conhecimento. Ou, por vezes, pode ser.
Já uma vez postei um poema de Jacques Prévert num contexto ciclisticó-photoshópico.

Mas não, não vou por aí. Não vou pela voz nem pelas palavras. Vou antes pelo assobio.

Aliás, sou um reincidente. Iniciei-me com ó rama ó que linda rama ao por-do-Sol há alguns posts atrás:



Desta vez, abraço um projecto mais ambicioso (quer dizer dois projectos num só), até erudito, num patamar mais facilmente acessível a musicólogos especialistas no séc XVIII que, estou convencido, constituem a larga maioria dos frequentadores deste blog:

Assobiar o adagio do concerto para clarinete em A maior, K622 de Wolfgang Amadeus Mozart.


No fundo, um projecto não muito distante destoutro, diferindo talvez apenas pela ausência de uma luz de Sol nascente, uns elefantes e ... pouco mais.


A segunda parte do projecto que, no fundo, se divide em dois mas cujas duas partes se completam harmoniosamente, tem uma dificuldade adicional; é que tenho que assobiar enquanto pedalo em subida íngreme e difícil, com pedras soltas em que, a todo o momento, a roda da frente pode resvalar, calando-me o pio (e, provavelmente, estimulando uma linguagem mais tabernácula), enquanto sou atraído para o centro da Terra. Em cima disto, a música requer que mantenha o necessário swing. E manter o swing entre a inspiração ofegante e a expiração assobilística (com umas linhas de improvisação pelo meio) requer um treino de coordenação mental e motora que não se adquire em dois dias. São muitos anos a pedalar e a assobiar, é o que é.

Cá vai: Summertime de George Gershwin assobiado na floresta da serra da Lousã aos 700 m de altitude e com 35 graus Celsius (o que de certa maneira simula o ambiente quente de um club de Jazz de Nova York).



Para os mais desatentos que não conseguiram distinguir o que é que eu estou a assobiar (francamente !) ou se distraiam com a rudeza do caminho é mais ou menos isto:






terça-feira, 5 de julho de 2016

o céu e a terra

Serra da Lousã e do Açôr


Verão nas serranias ou as cores do céu e da terra



O verde é clorofila, o azul é éter.
Não, o azul não é o éter. Isso era no século XVIII. O céu é azul porque está inundado de azul, uma componente da luz branca !!! Para lá da La Palissada, é azul porque, das cores que vêm do Sol (as cores do arco-íris que, todas juntas, vemos como luz branca), é a luz com mais energia que é dispersada em todas as direcções pelos gases da atmosfera (sobretudo azoto e oxigénio). Os amarelos e vermelhos são menos dispersados. Quer dizer, estes gases da atmosfera espalham o azul por todo o lado e, portanto, para qualquer lado que olhemos vemos azul. Há luz visível ainda mais energética que também é desviada (roxo, por exemplo) mas para a qual a nossa retina é pouco sensível e que, por isso, não vemos. Quer dizer, não vemos tão bem como o azul (não temos cones para esse comprimento de onda, tal como os cães não têm para o vermelho que, por isso, não vêem). Também não dava jeito nenhum um céu roxo. É curioso pensar que evoluindo sob um céu azul esta é para nós uma cor relaxante. Um céu vermelho permanente deixar-nos-ia à beira de um ataque de nervos, a não ser que tivéssemos evoluído com essa cor por cima das nossas cabeças.

E o mar e os rios e lagos são azuis porque ...


e o amarelo é a falta da clorofila (a molécula que, nas plantas, usa a luz do Sol para, a partir da água e do dióxido de carbono, sintetizar oxigénio e glucose - por isso o processo se chama fotossíntese) deixando ver outros pigmentos das plantas, os flavonóides. O Outono, pela falta de luz ,é a época alta dos flavonóides.


Céu e terra no comments




Ciclista sob o mesmo céu e na mesma terra com comments


A água no céu faz do azul cinzento, impedindo a luz de chegar aos nossos olhos, 


e uns amarelos suaves, muito suaves e com uma tirinha laranja.


A luz rasante incendeia o céu sobre o Açôr. O céu nuclear prestes a ficar moribundo.
O azul é dispersado, re-dispersado e re-re-dispersado (porque a luz rasante atravessa uma maior camada de atmosfera quando comparada com a luz do meio dia, que incide na perpendicular sobre a atmosfera), atenuando-se.


O céu aos salpicos, formando pegadas gigantes (e o Trevim, lá em cima, ali tão perto !)


Azuis, verdes e outros comprimentos de onda


O céu sobre a Lousã. Às vezes assapa-se sobre o vale este céu mais líquido que gasoso. Vem um tipo pela serra abaixo, com uma luz belíssima e, à chegada, dá com este céu que parece anunciar uma catástrofe. Ou então é apenas a luz doce do entardecer neblínico que se abate sobre o vale enquanto o Sol dá o último suspiro (bocejo?) do dia. 


Azul e verde outra vez. Um azul raro, frágil e leve. Já o verde é denso, um verde com raízes bem assentes na terra.


Aqui, no vale da ribeira de S. João, ficaram as sobras da luz que se dispersou. As cores estão lá, eu é que não as vejo.


Havia tempestade para Este nas serranias do Açôr. Felizmente eu ia para Oeste mas ainda com um desvio de uns Km na direcção do céu tempestuoso. Pedalei com a tempestade a espreitar por cima do ombro.


Um céu que não se sabe de que cor se vai cobrir, azul? cinzento, cinzento muito escuro?


E aqui sem céu ou, como diriam os temíveis gauleses, o céu caiu-me em cima da cabeça. Chovia torrencialmente. A fotografia não tem qualquer manipulação de cores. Está como saiu do telemóvel.


Um céu com pinceladas de vento


E às vezes, nas pedaladas nos planaltos, a luz é tanta que as cores morrem.


Também morrem de outras maneiras. Como estas, por exemplo




Mas as cores estão sempre lá. Sabemos isso. Os azuis, os verdes e as outras.



Negando tudo o que está ali para trás, o céu e a terra azuis.




segunda-feira, 4 de julho de 2016

Pedalar lado a lado com o campeão do mundo, Tiago Ferreira, durante quase 1 segundo

Serra da Estrela
(Junho 2014)

Já era bem dentro do Verão mas na Estrela nunca se sabe; no sobe à serra e desce ao vale o tempo pode mudar repentinamente. Não foi o caso, felizmente aquele fim-de-semana esteve magnífico.

Tinha-me inscrito na meia-maratona de Manteigas. Aquilo (a maratona de 90 Km) era uma prova oficial a contar para a taça de Portugal de maratonas BTT mas aberta a todos quantos quisessem participar. De tal modo que a organização, para além da maratona, organizou também a meia-maratona (à volta de 45 ou 50 Km) com partida comum. Os atletas que corriam para a taça iam à maratona, os craques amadores muito, mas mesmo muito bons também, enquanto que os outros, os craques amadores menos bons e os “craques de fim-de-semana” iam à meia. Eu, que já não tenho espaço em casa para as medalhas, fui à meia. Fui pelo passeio. Conheço bem a serra na zona de Manteigas, os rios Zêzere e Mondego ainda jovens, as florestas, os recantos, o granito imenso… Andei por lá a caminhar e a acampar há muitos anos, (teria uns 15-17 anos)  eu e uns outros malucos. Naquela altura quem ia para a serra ou era pastor ou era um tipo esquisito ou, mais raro ainda, era astrónomo (um dia encontrei um astrónomo Português no Vale do Rossim que montava o telescópio à porta da roulote que lhe servia de casa - foi ele que me dissuadiu de ser astrónomo, ou melhor, podia ser mas fora do País, de outro modo morreria de fome; ele trabalhava na Suiça).

Pedalar por aqueles lados era um apelo irresistível. Estava na expectativa das memórias que iriam ser acordadas de um longo sono. As paisagens que calcorreei há várias décadas atrás consigo ir buscá-las à memória, até porque passo por lá com frequência (embora apenas por estradas em que passa um carro).  Mas o que é interessante é que, à partida, sei que teria algumas memórias adormecidas de locais mais remotos, sem delas ter consciência mas que, seguramente, iriam ser despertadas durante as pedaladas por aqueles montes e vales. É paradoxal mas é assim. Podia ser uma pedra, um riacho, a luz no horizonte, qualquer coisa. A maratona dava jeito para percorrer aquela zona pela definição dos percursos cicláveis e também pelo companheirismo.

Na partida, o espaço à minha frente; muitos, a meta estava lá ao fundo.


Foi uma bela (e dura) volta. Começámos a subir o vale glaciar do Zêzere e, logo depois, cortámos para os lados do poço do Inferno. Depois descemos para Norte, atravessámos o Zêzere perto de Valhelhas e subimos, subimos, até à mata do Fragusto. Os da maratona continuaram ainda para Norte, para os lados da Sra. da Assedasse (onde o Mondego é jovem e onde acampei várias vezes em condições extremamente rudimentares - que pena não ir para lá), os da meia voltámos a Manteigas.

Na zona da belíssima mata do Fragusto 



A uns 15 Km da meta


E agora a história das pedaladas com o campeão. O Tiago Ferreira consegui na semana passada o título de campeão do mundo de maratonas de BTT em França. Um feito extraordinário. Em 2014, o Tiago Ferreira venceu a maratona de Manteigas.

Bem, entrei em Manteigas bastante cansado, tinha-se-me acabado a comida e vinha em desfalecimento. Também não contava com os últimos 10 Km a subir. Devia ir mais ou menos a meio do pelotão. Metade dos da meia-mararona já deviam ter chegado. Entrei na Vila sózinho e a meta estava ao cimo de uma calçada com uma inclinação razoável. Aquelas calçadas antigas feitas com paralelepípedos de granito. 


Aquilo era tudo muito profissional, com vedações e publicidade e o público ruidoso encostado às vedações e som  e mais não sei o quê. Às tantas, a uns 100 m da meta, quando entro no empedrado a subir, o público começa a bater palmas. Eh pá porreiro, obrigado, devo ir em grande estilo. Logo depois ouço: força Tiago. As palmas eram para um tipo que me apareceu por trás e que vinha numa bolina; o Tiago Ferreira que era o primeiro da maratona. Aquele tipo tinha feito a maratona de 90 km enquanto eu tinha feito a meia (mais ou menos metade da distância). Passou por mim num instante, pedalámos lado a lado durante um segundo. Ele chegou à meta, desmontou e ficou por ali, enquanto eu chegava.

Cá está ele de costas e eu a chegar.



Que pedalada aquele tipo tem.
Em todo o caso eu tenho atenuantes. Provavelmente ele não parou nos abastecimentos e, sobretudo, não parou para ver a paisagem, e muito menos para tirar fotografias !!!

Lá ao fundo, sob as nuvens, o planalto central da Estrela



a descida para Manteigas  era por ali, por aquele  caminho ali à frente a meia encosta.




Parabéns ao Tiago Ferreira.
Como sempre, a notícia foi dada como uma nota de rodadapé ou nem sequer apareceu. O canal público tinha a estrita obrigação de divulgar este feito desportivo. Por exemplo, em vez de vermos 1 milhão de vezes por dia o anúncio do Ronaldo a tocar à campaínha de uma casa e, com um ar de quem sabe o que está para lá do Big Bang, colocar uma braçadeira no braço da senhora com ar choroso de emoção, poderíamos ver apenas 900 e tal mil e passava a notícia do Tiago Ferreira campeão do mundo.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Come away with me

Serra da Lousã
(Junho 2016)

... vamos dar uma volta pela floresta na encosta Norte da serra aos cerca de 800-900 m de altitude.

São uns minutos de estágio nas melhores madeiras da região, com aromas florestais frescos e laivos das folhas secas do Outono passado, entradas suaves e finais vibrantes, para ser ser consumido  de preferência sempre que apeteça. Acompanha bem momentos bons e assim assim. Evitar consumir de um trago. Recomenda-se o consumo com tempo de modo a que os detalhes formem padrões na zona do cérebro dedicada à beleza das coisas.

Era para fazermos isto ao som de Norah Jones (come away with me) mas, à última hora, mudei porque às vezes muda-se sem qualquer razão óbvia. Não é que goste muito mas o claro e o escuro da música vai bem com os crescendos e os diminuendos da floresta.



Umas vezes devagar, outras mais rapidamente, pelo estradão que atravessa a floresta, com sorte vendo algum veado (eles andam por ali), terminando com umas belas vistas sobre o vale e here we go ...

O primeiro passeio termina sobre o planalto do Pessegueiro, quase com vistas até ao mar (Figueira da Foz) e o segundo no Terreiro das Bruxas (onde se chega pela estrada asfaltada a partir da Lousã e se pode deixar o carro para fazer o percurso pela floresta a pé).
O assobio é o meu. O empananço no segundo passeio, em que um pau se meteu entre a corrente e os carretos, também é meu. Entre assobios e paus encravados é toda uma dinâmica emocional proporcionada pela floresta (pois que isto não é só passarinhos a assobiar e por aí fora).

Um bom passeio montados aí atrás na bike e sentidos abertos aos mil aromas, às mil cores, aos mil sons, ao vento no corpo ...


Antes de passarmos à segunda volta talvez valha a pena ouvir uma coisa mais épica, um pop épico: canções do bosque.
Ladies & Gents eis Mr. Ian Anderson e os Jethro Tull






sexta-feira, 17 de junho de 2016

e de como estas coisas às vezes são importantes

Serra da Lousã
(16 Junho 2016)

Pela manhã, estava o Sol ainda a tentar rasgar as primeiras nuvens sobre a serra, andava eu com um olho no céu (avaliando a altitude, velocidade e direcção das nuvens negras) e outro na cachorra (não fosse ela farejar alguma porcaria que lhe fizesse mal). Com os dois olhos postos nela, só dei conta da nuvem quando começaram a cair umas pingolas grossas. Senta aqui, disse-lhe. Quieta. Depois expliquei-lhe que ficaríamos ali debaixo da árvore frondosa a aguardar a passagem da carga de água que estava a cair. Ali estaríamos abrigados. Ela percebeu. Ficou ali ao meu lado, sentada, patas da frente esticadas, muito direita. De vez em quando levantava o focinho, num gesto que denotava prazer, a sentir o cheiro húmido e agreste. Olhava de vez em quando para mim com aquele ar de quem pergunta: então? não é melhor ir andando? Não! quieta! Isto passa. Não passou e quando da folhagem já caiam gotas mais grossas que as outras pusemos-nos ao caminho.
Tinha que estar no Porto pelo início da manhã e, ainda ali em casa, de secador em punho, tentando enxugá-la o melhor possível para que não ficasse em casa sozinha molhada, ia revendo umas notas para o que me esperava.
Depois foi uma viagem a abrir pela autoestrada sob cargas de água impressionantes. A certa altura entrámos (eu e outros carros) numa nuvem negra: a chuva tanta, a visibilidade quase nula e os relâmpagos por cima dos carros tornavam a situação um bocado irreal.
Lá cheguei, depois hi good to see you, thank you, we have to talk, sure, a manhã sentado, o almoço a cair-me mal (safou-se o tinto mais ou menos e as vistas sobre o rio) e lá voltei pela mesma autoestrada à tarde sob um sol já sem receio de espreitar por detrás das nuvens. Às 19:30h já em casa, feitas umas combinações familiares, equipo-me e saio disparado a pedalar serra acima.
O dia de Junho terminava como se fosse Setembro. Onze graus Celsius, vento moderado e umas nuvens, provavelmente o que sobrou da tempestade da manhã, por ali pousadas. E ali ia,  de nariz para cima num gesto semelhante ao que a minha cachorra fez pela manhã, a sentir os aromas húmidos e clorofílicos (boa!).

O souto brilhava voltado a poente, enquanto que pinhal voltado para nascente já adormecia.


Abrem, não abrem, talvez amanhã se vier Sol as pétalas saiam do aconchego e ecludam, como uma borboleta que sai do casulo.




Estes ciclos de chuva e Sol e temperaturas moderadas é um banho maria excelente para a vida; das plantas e nossa, porque indissociáveis.


Estava na dúvida se seria uma carga de água ou a noite que me traria de volta. Foram ambas.
Às vezes estas coisas são importantes. O dia tinha que terminar de alguma maneira.