segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Poesia concretista, o corno, os eucaliptos e Monica Bellucci

19 de Setembro 2016

Provavelmente, até, pós-concretista, ou, talvez, concretista-eucaliptó-belluciana.
Uma corrente estética marcada por traços vincados de palavras traçadas a negro num contexto oxidado e com curvas pronunciadas.

Há exactamente 3 anos, a 19 de Setembro de 2013, pedalava penosamente por uma das encostas da serra do Açôr, para os lados da barragem de Sta. Luzia, num caminho pedregoso e íngreme, um ermo, ninguém km em redor quando, num pinheiro do caminho, surgiu - devo confessar que caso tivesse encontrado a Monica Bellucci por ali a andar de bicicleta a supresa não teria sido maior - esta "instalação".




Há um balanço, uma mensagem clara e criativa, uma lógica demolidora....
O contraste de cores é inesperado. E, depois, há uma certa ironia na mensagem; é que a tristeza pelos eucaliptos não inibiu o autor de pregar uma placa de metal com vários pregos num pinheiro, árvore que, como bem se percebe, não entra no poema.



                 "O corno que me
                                         arrancou os
              eucaliptos tem os
                             cornos grandes
                                         se não tivesse os
                             cornos grandes não
                tocava nos
       eucaliptos"





Num ermo destes o autor esperava seguramente que o "corno" voltasse ao local do crime. Aliás, o autor sabe, seguramente, quem é o "corno". É que a probabilidade de alguém estranho passar por ali (além do corno que arrancou os eucaliptos só um tolo de bicicleta que cá de baixo pensou: este caminho deve ir ter lá acima e tal e apanho logo a estrada ... ) é próxima de zero. Por isso, é uma provocação ao "corno", esperando que ele se desmascare. O "corno" é um conhecido e a ira do "corno" pode desmascará-lo. Um "corno" irado é como um javali ferido.


Em todo o caso, ainda bem que não apareceu a Monica Bellucci; é que não teria escrito este post nem teria tido o prazer da leitura concretista naquele local ao Sol.


(fotografia de: celebritiesonbikes.com)






quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Não mais, Musas, não mais ou adeus, mas qual adeus pá?

Serra do Açôr
(Agosto 2016)

O adeus ao Agosto quente nas serranias do Açor.


Voltarei pelas neblinas e o vento, pela chuva e o frio. Pelo menos espero voltar. Lá para Novembro ou Dezembro. Nessa altura, o vento varrerá os cumes por onde pedalei suado, sob Sol intenso, e sentirei frio. O verde será menos verde e a serra ainda mais  castanha e laranja e rosa e por aí fora.


Os horizontes serão mais próximos e adivinharei que por entre a neblina lá estará o picoto da Cebola, o S. Pedro do Açôr, o Gondufo e o planalto da Estrela. Vê-los-ei, de facto, na memória.


E o céu azul lá estará, mas coberto por manchas negras e brancas. E haverá chuva. E o prazer de beber a água fresca das fontes sob o calor de Agosto será substituído pela indiferença à água que corre nas fontes. Bem, nem tanto, hei-de ficar a olhar e a ouvir a água que corre. E não hei-de sentar-me numa pedra nos cumes, custar-me-ia levantar, arrefeceria e seria penoso descer com o frio.
As pedras de xisto aguçadas lá estarão também, mas húmidas e mais traiçoeiras.


E não me lembrarei de Agosto. Pedalarei com o prazer do frio, da chuva, do vento. Baterá a chuva e soprará o vento, ou vice-versa.




terça-feira, 13 de setembro de 2016

De S. Pedro do Açôr ao Gondufo e as leis da Física

Serra do Açôr
(Agosto 2016)

São meia dúzia de km entre dois Gigantes, o S. Pedro e o Gondufo.  Mas a distância pouco importa como medida das pedaladas. A Física diz-nos que o aumento da velocidade leva à dilatação do tempo: Quanto mais rápido mais lentamente passa o tempo. Aqui nas serranias, as pedaladas contradizem a Física: quanto mais lento mais rapidamente passa o tempo !!!:)
É um ar que se lhe dá!

Este percurso, é a parte alta da espinha dorsal montanhosa que se ergue a meio de Portugal. Os 1200m de altitude fazem rarear ligeiramente, só ligeiramente o oxigénio, o Sol, quando há Sol, ainda há 2 ou 3 dias atrás passei por aqui envolto em chuva e nevoeiro, mete-se pela pele como calor, e a luz inunda os vales, e vai-se por ali como que a velejar sobre as aldeias do lado Norte, Piodão, Chãs de Égua ..., o Gondufo lá à frente, por detrás, a Estrela. Olhamos para onde?  Para  esquerda, para Norte? Lá está o terceiro gigantes do Açor, o Colcurinho


Para a frente? O Gondufo e a Estrela. E o tempo passa. Ao fundo vejo o caminho que serpenteia pelo Gondufo acima. É lá que tenho que passar. Mas não é um objectivo. Hei-de lá passar mas até lá muitas pedras hão-de rolar por debaixo das rodas da bike, muitos aromas resinosos e aromáticos me hão-de entrar pelo nariz, muitas descargas de dopamina no meu cérebro irão transformar o olhar à volta em prazer e, provavelmente, comerei ainda uma banana.
E o tempo passa.



Go!


Ali, neste vale, aos pés do Picoto da Cebola,  o Adamastor do Açôr, nasce o rio Ceira



Num berço verde. Fico para ali a olhar e o tempo passa.



Já a subir o Gondufo, abre-se a paisagem para Sudeste. Um colecção de serranias vistas de cima que intensifica a sensação de velejar na serra em isolamento.


Contornado o Gondufo, nunca se está preparado para levar com isto



Olha-se ao longe e ao perto, a sensação de estar só é muito intensa, e são necessários uns minutos para recuperar do impacto, do extraordinário encantamento. Mas estou ali como se estivesse em casa.




 Nunca sei ao certo quanto tempo fico nestes locais. Mas nestas alturas a teoria da relatividade geral não se aplica.  Há depois um momento em que, às tantas, começamos a pensar nas rotinas, e que há alguém à espera e há horas de almoço e  de jantar e coisas para fazer e por aí fora. A seta do tempo (irreversível) atinge-nos então com força. Tenho tempo de ir até lá abaixo e voltar, dou a volta por ali, volto já para trás ou ...?

Ainda me atrevi a descer um pouco mas percebi que a subida pela cascalheira iria levar-me muito tempo


Finalmente, fiz o que estava a adiar: olhei para trás. E vi daqui o caminho a serpentear de onde tinha visto o caminho onde agora estou. À direita, com o marco geodésico a encimar o cone, o S. Pedro do Açôr, para onde vou e, à esquerda, o Adamastor (picoto da Cebola).



Go?



Mas, voltando atrás, é como se iniciasse um novo caminho. Tudo parece novo. E, de facto, é. É a ideia de voltar atrás que muitos vezes tolda a visão, adormece o cérebro, impedindo-o de ver. Mete-se a ideia na cabeça como se metêssemos a cabeça numa nuvem.






A passar sobre o Piodão, lá em baixo


E a chegada ao S. Pedro do Açôr


Com o Adamastor nas costas


O tempo passou rapidamente. Para mais, os Físicos parece que resolveram já a controvérsia sobre  irreversibilidade do tempo. É que a distribuição de massa e carga no núcleo dos átomos é assimétrica (em forma de pêra rocha) e, logo, dizem eles (como é que se entende este"logo"?), tal observação indica a irreversibilidade do tempo.

Lembrei-me agora de um tipo que me encheu tardes e noites de música e que um dia encetou um percurso religioso inesperado. Por preconceito, deixei de o ouvir. Como é que podia ouvir a música de um tipo que apoiava a fatwa sobre Salman Rushdie?  Mas, volta e meia, algumas das suas músicas acordam na minha memória. Esta é uma delas:




quinta-feira, 8 de setembro de 2016

bikes e burkas

Munique 2016

Um tipo vê isto


ou isto


e, depois, na esquina a seguir, vê isto, um vulto que se confunde com o pilar onde se encosta. Percebe-se que há uns olhos no vulto


Depois, quando se prepara para atravessar a passadeira, dá com isto


 e, alto, vêm mais


quando começa a atravessar, dá com isto


Diversidade cultural? Liberdade de escolha? Como? É que algumas destas mulheres, se o quiserem fazer, embora não gostem ou achem feio ou se sintam desconfortáveis, podem vestir uma burka e dar um passeio. Podem, se o decidirem, fazê-lo. Outras, se quiserem usar um vestido leve  fresco na tarde quente e dar uma volta de bike, embora não gostem ou achem ridículo, não o podem fazer. Estas últimas não são as que andam por ali de bike.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

As linhas rectas da água

Serra do Açôr
(Barragem de Sta. Luzia, Agosto 2016)

Não é só a cor ou o ondular (aquela dinâmica sensual das ondas ...).

(barragem de  Sta. Luzia e ao fundo, na linha do horizonte, a Torre, serra da Estrela)

É também a substância, o estado físico, a fluidez.

(a moldura aqui é o picoto da Cebola e a serra da Estrela, a imponente cordilheira no centro de Portugal)

Podemos penetrar a água,  sentir a resistência suave e o arrepio na pele (... isto está a ficar um pouco NSFW.) Podemos encher as mãos de água que, depois, corre para o chão. O estado líquido é um fascínio mas é tão vulgar que não damos conta da singularidade da água. A água é uma substância extraordinária. Há a água da chuva, a de Verão e a de Inverno, e a água do mar e dos rios e dos lagos e dos fios de água que corre na floresta, e das fontes ... e há as gotas de água nas folhas das plantas e nos vidros das janelas ... e o som da água. A água ondula e a água corre.

E, já agora, the river, pelo Boss



E há o que está debaixo da água. A água às vezes é uma cortina que se abre quando se passa, quer dize se evapora ou corre para outro lado.



Às tantas há uma raiz biológica para o fascínio, a beleza, a atracção que a água exerce sobre nós.  Há uma teoria que postula que o crescimento e complexidade do cérebro (que nos separou de outros primatas não humanos vivendo em florestas),  se deveu à deslocação dos nossos antepassados para orlas marítimas (deixando para trás os nossos primos símios nas florestas a saltar de ramo em ramo) com a consequente dieta rica em peixe (e, logo  em ácidos gordos polinsaturados omega 3, críticos à estrutura e funcionamento do cérebro). O cérebro é, curiosamente, o órgão "mais gordo" do nosso organismo.

Desde o início da aventura da nossa espécie que, pelos vistos, gostamos de estar sentados na doca a ver os barcos passar

(Otis Redding, (sitting on) The dock of the bay)

Pronto, está bem, já se sabe que sem água não conseguimos sobreviver (basta ver que a NASA busca água noutros locais no Universo fora da Terra como sinal de vida) e, também por isso, a maior parte da população mundial vive perto de água (oceanos, mares, rios, lagos ,…). Mas, …. e a beleza. Pode ser apenas um mecanismo de “recompensa” no cérebro proporcionado pelo bem estar de (depois de termos evoluído junto à água) nos encontrarmos junto à água?

(O Adamastor do Açôr - picoto da Cebola )

Para desconversar sobre a beleza e o fascínio acho que há ainda um elemento mais subjectivo, de natureza mais “plástica”: a simetria das linhas da água. E a simetria é uma das condições para a existência de uma beleza objectiva (ao contrário da tese de que a beleza está nos olhos de quem vê). Na face das pessoas é óbvio a ligação entre a simetria e a beleza, para citar o exemplo mais comum. As linhas rectas da superfície da água (rios, lagos e mares) contrastam com a geometria fractal óbvia, as curvas, a aparente irregularidade da paisagem à volta dos rios, lagos e mares. Pronto fica teoria. Ficava para aqui a escrever mais umas páginas sobre isto quando o que queria ,quando iniciei este post, era mostrar  umas fotografias.

(ao centro, na linha do horizonte, a Torre a 2000m de altitude)

Para acabar, um “slow”: many rivers to cross de Jimmy Cliff (o mesmo do anúncio fantástico do nescafé: a falésia, ao nascer do Sol, ela chega de carocha, as luzes apagam-se, há um suspiro e, pouco depois, com a caneca de café entre as mãos e I can see clearly now, the rain is gone. Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=sWnTWNDPTJo)



Daqueles slows de bailes de garagem. A pele ao rubro, a luz ténue, o coração aos saltos, o suor (a água que corre?), o aproximar lento dos corpos, quentes, o tocar, o sentir a respiração próxima, ao ouvido, a cabeça que cai e as mãos que percorriam montes e vales, explorando, atrevendo-se … quantos rios para atravessar!

domingo, 28 de agosto de 2016

O Açôr tonitruante e a luz na água lisa da barragem e as cores ... aaaaahhhh as cores

Serra do Açôr
(Agosto 2016)

Ribombante, troante, triunfante, conflitante, ressonante ... assim:



E a luz parcial sobre a água na barragem, assim:



O céu fechado, o som contínuo dos trovões e os relâmpagos a rasgar o horizonte. Estava ali, aos 1000 m de altitude, a olhar o céu a Sul, sobre o vale do rio Zêzere. Que visão!

Tinha chegado ali sob um céu azul. Tudo aquilo foi de repente. O céu desabava sobre o vale do Zêzere. Verifiquei a direcção do vento: Norte. A trovoada andava a Sul, logo, pensei, estou safo. Até dá para tirar uma fotografia, tendo a tormenta como cenário:



Estúpido pá! Não vês que, provavelmente, a trovoada é multicêntrica? Às tantas estás a olhar para Sul a ver o espectáculo e aparecem-te umas nuvens negras a Norte, pelas costas, e estás encurralado pá.

Cinco minutos depois da fotografia comecei a ser alvejado por gotas de chuva gigantes a velocidade tal que pareciam pedras. Pedalei dali para longe à velocidade que pude. A descer conseguia manter a bike a rolar acima dos 45km/h na direcção do céu mais claro, para Oeste, na direcção da barragem de Sta. Luzia.
Olhava em frente quase hipnotizado, fitando para o céu claro que sobrava, enquanto sentia nas costas (além da chuva) o céu negro e ouvia o ribombar.


Mas, apesar da aflição (e se me atinge um raio? Dois caíram nos montes à direita, por ali, não muito longe da estrada em que seguia) não conseguia ficar imune à beleza da paisagem, à luz extraordinária, à cores invulgares e aos contrastes.





A Norte, o Adamastor (Picoto da Cebola) estava ainda sob um céu tranquilo


Mas percebia-se que ia fechar, a luz quase extinta anunciava-o



Fui pedalando sob aquele som, bruummmm, bbbrrrruuummmmmm, brrruuuuuummm e a chuva pelas costas ia abrandando. Quando cheguei aos limites da barragem parecia que teria tempo para enxugar, antes de chegar a casa, a tormenta teria ficado para trás.



Enganei-me novamente, fintado pela tempestade. Como é que podia usar o senso comum e duas ou três variáveis (sentido do vento, cor das nuvens, abertas no céu ...) para avaliar um sistema caótico, como é o caso da tempestade. É a Física pá, agora querias olhar para o céu, molhar o dedo para verificar o sentido do vento e prever a evolução de um sistema caótico? Que asno pá.



Este é o mesmo sítio por onde passei na ida?


Meti-me pela mata que circunda a barragem ainda sob chuva mas, às tantas, inesperadamente parou. Deve ter havido um efeito exercido pela toalha de água da barragem sobre atmosfera, sobre as nuvens polarizadas da tempestade. É o meu palpite. Respirei fundo, abrandei e ainda deu para parar e apanhar umas amoras nas silvas do caminho.









quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Serra do Açôr neblínica em Agosto

Serra do Açôr
Agosto 2016

A Sexta-feira de meados de Agosto amanheceu com céu branco e neblina a lamber as cumeadas dos montes mais altos do Açôr. Depois do calor abrasador dos últimos dias, este amanhecer era surpreendente. Olhei à volta e joguei o jogo do costume: isto não é nada, daqui a pouco a neblina vai levantar e o Sol vai aparecer. Claro que ao organizar esta ideia no cérebro, simultaneamente a ideia de que a neblina não iria levantar e, pior, aquilo ia dar em chuva, tomava corpo de um modo tão vincado como a primeira. É curioso, pensamos simultaneamente que a coisa vai melhorar, sabendo que não mas, no fundo, escolhemos a que preferimos, sabendo que é uma ilusão. Mas é mesmo assim. O cérebro busca o prazer (em sentido lato). Fazemos isto todos os dias. Optamos racionalmente por uma opção ao mesmo tempo que, lá atrás, uma voz longínqua a que não ligamos nos diz que nos estamos a enganar. No fundo, a decisão racional é a assumpção de que nos estamos a iludir mas não queremos saber disso para nada porque nos interessa a ilusão.


A ideia era subir à crista do S. Pedro do Açôr (que fiz o ano passado, em Setembro, aqui e aqui). Entre o Picoto da Cebola (onde estive há dois dias) e o S. Pedro fica o vale fundo onde nasce e corre o jovem rio Ceira. Cá em cima, de ambos os lados, estamos aos cerca de 1400 m e, lá em baixo, aos cerca de 700 - 800 m.

As pedaladas começaram brancas e neblínicas (a partir da Malhada Chã), sempre na expectativa que a neblina levantasse e as verdes e rugosas encostas do outro lado, do lado do Picoto da Cebola, surgissem à frente dos olhos quase verticais, e que a o planalto granítico da Estrela ao fundo, a fechar o horizonte, completasse o cenário da subida Mas não, foi ao contrário. Quanto mais subia, mais o nevoeiro cerrava. De vez  em quando, pelo vale do Ceira abaixo, havia umas abertas, o nevoeiro puxado pelo vento permitia uns vislumbres do vale. Mas depressa tudo fechava.

Mas foi uma subida belíssima. Silenciosa e fresca. O aroma das ervas secas molhadas era intensíssimo, inebriante, quase que alucinogénico. É um êxtase, sobretudo àquela altitude (o ar fino e húmido compõe o ramalhete) e naquelas condições neblínicas. Há vinhos que lembram este aroma.



No cimo a neblina transformou-se em chuva miudinha puxada a vento. Rapidamente fiquei encharcado. Agosto? Ontem 30 e tal graus? Hoje assim?

Ainda pedalei pela crista uns km com enganos na estrada à mistura e voltas-atrás. À volta tudo branco, as ervas curvadas pelo vento, os óculos embaciados (sem óculos a chuva picava os olhos) e isto parece mas é a serra da Estrela (lá é que tive experiências de dias assim no pico do Verão).

Devagar para não dar por ali um derrapanço e ficar estatelado no chão e, às tantas, ... um cruzamento!


A placa é muito bonita, num estilo grafitado. Estava sobre o Piodão, a 2 ou 3 km.

Um belo pretexto para uma fotografia da bike. Note-se a harmonia e equilíbrio das cores, as curvas sensuais, o trapézio estilizado do quadro, ... (e mais não digo que ainda me diagnosticam uma mania qualquer).



Em dias assim (sob esta luz) a cores transfiguram-se e há contrastes novos que não são existem sob céu limpo e aberto. Nota-se bem nas pedras e, por isso, gosto de olhar as barreiras.



O estradão foi ter a uma estrada asfaltada. Já estava à espera.
A ideia era continuar (tal com fiz o ano passado), cruzando a estrada asfaltada, e continuar  pela crista por terra em direcção Este, para os lados de Fajão, mas ia molhado e com frio. Além disso, com as mãos molhadas não conseguia utilizar o GPS (o écran táctil não respondia). Há por ali um labirinto de estradas e caminhos e o GPS pode ajudar a tomar decisões porque um erro com descida involuntária ao vale pode implicar uma subida violenta em altitude. Decidi descer pelo asfalto em direcção à Córnea e à Covanca. As placas lá estavam, encostadas às giestas, imutáveis. Para este lado assim.



Para o outro lado assim. O que eu gosto destas placas; tortas, ferrugentas, com nomes invulgares, inesperadas, no cimo das serranias ...


Já na descida, parecia que "o tempo estava levantar". Bela expressão esta que se usa na serra (se calhar no mar também).


Tinha que descer até ao fundo do vale, atravessar o rio Ceira e subir do outro lado até à altitude em que me encontrava agora.  A estrada para subir via-a claramente em frente, a serpentear pelo monte acima até uma clareira de luz que se abriu no nevoeiro.


Aqui de novo. É para além, para aquela crista lá em cima que vou.


Que vales estes!






Encravados no fundo dos vales, há vestígios (casas, currais, muros, agricultura...) de outros tempos. Tempos próximos, não muito longínquos: há umas dezenas de anos vivia-se aqui em quase isolamento.




Já perto do Ceira, alguma terras parecem ser ainda cultivadas




Um curral ainda operacional. Imponente, ali naquele topo na base da encosta para o Cebola




Rapidamente cheguei ao Ceira e agora só faltava subir a encosta que tinha visto lá de cima.


A subida é dura, a meio olhei para trás. A crista por onde tinha andado estava ainda sob as nuvens mas claramente o tempo abria. Lá em baixo a Covanca, onde passei depois de ter cruzado o Ceira.



O vale do rio Ceira visto deste lado





Feita a subida da Covanca estava no cruzamento que me levou há dias ao pico da Cebola. Olhei de novo para trás, para a crista por onde andei e para os montes que subi e desci e fica uma sensação de bem-estar.


Aqui não há nada que enganar, as placas apontam sempre para algum lado.




Olhei para a frente. Só me faltava apanhar a crista das eólicas lá em cima (à esquerda) e descer para a barragem de Sta. Luzia. Pelos vistos iria ainda meter-me no nevoeiro outra vez.