Irreal? Hiper-real? As cores estão lá mas nós não as vemos. Não as vemos lá, no local. Vemo-las aqui, no ecrã após ter aplicado um software para saturação de cores. Mas, no fundo, percebemos bem que as cores são reais. Nada há de estranho. Talvez até com uns óculos que cortem brilhos e neblinas possamos ver os verdes e amarelos e azuis que o software revela. De irreal ou hiper-real, afinal, estas imagens nada têm.
Mas, neste caso, e embora a fotografia contenha um conjunto de cores semelhante ao das outras, há alguma coisa de irreal.
e, para citar (mais ou menos) um laureado com o Nobel da literatura: ... we know something´s happening in our brain but we don´t know what it is. Do we, or do you, Mr. Jones?
Visto daqui o planeta Terra é azul e nada há que eu possa fazer
as cores, amarelos, surgem a mais baixa altitude
os castanhos, laranjas e por aí fora, surgem rente ao chão
Bonita, a cidade de Cracóvia. O metro de superfície passa do lado de lá do jardim. As pessoas caminham à chuva, tranquilamente. No meio do jardim, uma espécie de tenda gigante, envidraçada e aquecida, cheia de gente a conversar e a bebericar. Eu saboreei uma bela de uma cerveja. Quatro graus lá fora e a cerveja fria que soube tão bem.
Ok, mas vamos lá que se faz tarde. Tirei o cadeado à bike estacionada do lado de fora do bar e... ora deixa cá ver
Chuvisca e faz frio durante grande parte do ano e, todavia, há ciclovias por todo o lado. E há tantas pessoas que se deslocam de bicicleta. E quando não há ciclovias as bikes cruzam com carros e outros veículos com grande naturalidade. Aluguei uma bike e andei por lá sem apanhar qualquer susto com eléctricos, carros, metro de superfície, ciclistas, peões em magotes nas praças e ruas .... Há um entendimento, um cruzar de olhares com os outros e, num ápice, nós e os outros calculamos uma trajectória, damos um balanço, paramos (nós e os outros) meio segundo e tudo flui. O nosso cérebro é muito bom nisto. Os computadores podem fazer cálculos numéricos em pouco tempo, deixando-nos com a impressão de limitação mas, nisto, na previsão de trajectórias que mudam a todo o tempo, num balanço que se prevê porque há outro ciclista, ou peão, ou carro ali ao lado, num pestanejar ou esgar no outro que indica que avança, nisto, o cérebro deixa os computadores a um canto.
A praça do mercado. Dos edifícios do mercado de tempos passados (desde gado a víveres) resta o da direita, onde hoje funciona uma feira de artesanato.
Na mesma praça à noite com frio e chuva e as esplanadas (toldos à esquerda com aquecedores de rua) cheias de gente em amena cavaqueira e beberiqueira
Ali perto, no "colégio Maius" está a reprodução de um livro em que numa das páginas tem um rabisco, círculos concêntricos feitos por Nicolau Copérnico há cerca de 500 anos (com base em cálculos dele próprio). No centro, Copérnico colocou o Sol e, nas órbitas à volta, a Terra e outros planetas. Foi um virar de página na nossa civilização. Um dos momentos em que tudo ficou virado do avesso. A Terra afinal não era o centro do Universo. Imagino quão perturbadora deve ter sido esta ideia para a maioria das pessoas. Como é que isto podia caber na cabeça? Não coube durante muito tempo.
Cá está o desenho de Copérnico.
Ah, é verdade.
That´s my bike !
Um estilo inconfundível: barrete à maneira, calça arregaçada .. .
Desta vez consegui uma bike de montanha, muito mais manobráveis que as de cidade com cestos sobre a roda. É que com a falta de tempo iria andar sobretudo por praças e ruas muito movimentadas.
No dia anterior, após o trabalho, tinha dado uma volta rápida à procura de uma loja de aluguer de bikes. Hoje tinha pouco tempo antes de iniciar a viagem de regresso. Tive sorte, dei uns passos e vejo uma bela bike à porta de uma loja. Deixaram-me tirar uma foto na bike com a promessa que voltaria no dia seguinte para alugar uma bicicleta durante um par de horas.
Voltei ao azul e a visão das montanhas ao longe, por debaixo das nuvens, quase que apagou a memória dos empedrados húmidos das ruas de Cracóvia por onde tinha pedalado e começou a embalar a imaginação para as pedaladas nas cumeadas das serras
Rapidamente e em força para a floresta de coníferas sobre o vale da ribeira da Córnea. Com sorte, pensei, ainda apanho a brama dos veados. Dia morno. Mas as chuvas do início da semana tinham deixado no ar uma humidade aromática. Sentia-se cá em baixo, na vila.
No ano passado tentei gravar a brama dos veados. Debalde. O telemóvel era demasiado rasca. Eu arrepiava-me ao ouvi-los e o telemóvel nada, não apanhava aquele som que ecoava pelos vales. Este ano ouvi-os novamente. O som dos machos a ecoar pelos vales e pela floresta, tentando atrair as fêmeas. É um som que se mete pelo corpo dentro. Grave, sente-se com os ossos. Tive até já encontros imediatos com os machos perseguindo as fêmeas e elas, num jogo às escondidas, vão-se deixando seguir sem nunca se deixarem apanhar. São elas que controlam a corte. Mas, em todas estas vezes não estava virado para gravações ou fotografias, aconteceu tudo de modo imprevisto e fiquei para ali em silêncio a olhar, não querendo perturbar a cena. Isso mesmo, a cena.
Hoje ia com planos delineados. Vou até à floresta, onde os vi a semana passada e, atento, hei-de conseguir gravar alguma coisa. Mas, nada ouvi, nem um bramar, ou um vulto por entre as árvores, um som de cascos na floresta, pisando os ramos e as folhas, nada. Fiquei-me pelo som das folhas nas árvores que oscilavam ao vento e pelo aroma aromático intenso, quase insuportavelmente bom, que emanava da floresta. As primeiras chuvas após o calor do Verão provocam este fenómeno.
A subida foi feita com a fúria de querer chegar cedo. Estava com pressa. Queria subir rapidamente até aos cerca de 800 m. Parei apenas duas ou três vezes para apanhar e roer umas castanhas.
À medida que subia o ar ficava mais húmido. Havia poças de água no caminho e, na lama em redor, pegadas de animais. Quando me aproximei da floresta levei (literalmente) com uma onda de um aroma intenso, quase como se batesse contra uma parede. O cheiro a cedro, aromático mas com uns laivos doces. Indescritível. Inundava o ambiente. Uma onda de deleite varreu-me o cérebro como se fosse uma enxaqueca (de efeito oposto).
O plano é olhar a fotografia e inspirar lenta e profundamente, sentindo o aroma.
Depois, é o espanto; o sentimento familiar de estar junto às árvores. De ouvir as folhas e os ramos pequenos a quebrar debaixo dos pés.
De sentir as rodas da bike a pisar o chão
De súbito a brisa. Nem tinha ainda dado conta. É preciso parar e ficar ali quieto para se dar conta. Ouvi o som das folhas nas árvores. Parecia chuva que caía nas folhas.
De vez em quando, as árvores mais esguias oscilavam com o vento. Esta dança das árvores provoca um som, um gemido (ou um grito?) que conheço bem.
Depois da lufada de vento e da oscilação, algumas folhas desprendiam-se dos ramos e dançavam até ao chão.
Assim:
(o som que se ouve parece a chuva a cair na copa das árvores. Mas ainda não chove. São as folhas ao vento lá em cima, tocando umas nas outras, agitando-se)
São as Falling leaves do Outono.
Já uma vez aqui deixei Eric Clapton a cantar Autumn leaves.
É hora de viajar até próximo das origens da música: Les feuilles Mortes e Yves Montand:
Voltaram as neblinas à serra. E são horas de ir embora.
acompanharam-me muitas vezes enquanto seguia pela route 110 de Pasadena para o centro de Los Angeles (Arrow 93 FM and this is uncle Joe Benson; lembro-me ainda hoje da sua voz extraordinária. Aprendi com ele a gostar dos Eagles e dos Beach Boys). Outras vezes enquanto seguia pelas intermináveis estradas a caminho dos desertos a grande altitude; Joshua Tree, Anza Borrego ...
Apanhei os Eagles no rádio hoje pela manhã enquanto conduzia. Som no máximo. Logo a seguir notícias sobre as eleições nos EUA. Som no mínimo. Sobre as eleições acho que o De Niro faz um bom ponto da situação:
Pode ser um qualquer ano. O local é a travessia Lousã - Açor - Lousã em bicicleta de estrada.
É uma travessia com horizontes. Entre o olhar para baixo, para a estrada de alcatrão rugosa e o levantar a cabeça e deparar com as lonjuras (palavra roubada à autora do blog "um jeito manso") a toda a volta vai um segundo.
A BH, a bike de estrada, já percorreu estas estrada antes. Tem já uma provecta idade. As articulações nem com óleo já lá vão, Uns rangeres aqui e ali. Mas lá vem, lá me traz às cumeadas entre a Lousã e o Açor.
As serranias a Sul.
Habituada ao asfalto pouco liso das estradas de antes, não se queixa do caminho. E daqui vê-se já a Estrela ao longe e as serranias a Este.
as serranias a Norte
e a Oeste, de onde venho, do lado de lá das serras no horizonte.
Ah as flores do Outono quente
Quase a chegar, bem dentro do Açor, sobre o vale Grande que nasce na barragem de Sta. Luzia. Nas cumeadas, lá em cima, soprava o vento, mais ou menos rebelde. Aqui no vale está calor e cheira a caruma dos pinheiros como se fosse Verão.
Vemos com o cérebro, usando como cenário representações e padrões quer resultaram da nossa experiência anterior. Como que construímos padrões novos em cima de memórias. Por vezes até olhamos e vemos apenas os padrões que já temos inscritos no cérebro, não o que se nos depara. A não ser que percebamos que há ali alguma coisa estranha - e aqui a geometria é dos factores críticos. Uma perspectiva que colida com os padrões que já possuímos é detectada facilmente. Por isso, nem sabemos muito bem se o que vemos se sobrepõe ao que os outros vêem. Há quem argumente que o cérebro se engana a si próprio mas se é o cérebro que constrói a representação não é um engano. É o que é. É a realidade. Estatisticamente estamos (nós todos) de acordo nos objectos/paisagens vulgares à nossa volta mas apenas estatisticamente, acho eu. Cada um de nós (porque cada cérebro é único) vê de uma maneira única.
Um acontecimento único: o por-do-Sol no cume do Monte Fuji no Japão. A luz do céu foi artificialmente filtrada para evidenciar a que inunda as nuvens que cobrem o vale no sopé do monte.
Ou
o por-do-Sol na vale da Ribeira de S. João na Serra da Lousã.
Noite de lua cheia sobre a floresta, percebendo-se, ainda que ténues, algumas estrelas (provavelmente a constelação da Cassiopeia).
Ou
o Sol reflectido nas águas serenas do rio Ceira
depois de se ter levantado sobre a serra da Lousã, ao fundo, no horizonte.
E, já agora, sempre que por aqui pedalo, ou junto a rios que correm escondidos por entre filas de árvores, começo a perceber sons e palavras na minha memória lá ao longe, distantes, quase imperceptíveis. Uns acordes de guitarra ... takes you down ... to her place near the river ... she feeds you tea and oranges ... crazy ... you want to be there ... Depois, cada vez mais próximos, límpidos, chegam e inundam-me. Quase que me afogo.
Aqui. No Açôr (Picoto da Cebola) com a Estrela no horizonte. Há cerca de 1 mês atrás. Cheguei de bike, suado, rente às pedras, lento, cheio de pó. A chegada soube a chegada. Foi muito bom.
Aqui. No horizonte do Açôr com o Açôr no horizonte. Há uma semana atrás na Estrela. Cheguei de carro, rapidamente, camisa branca, sapatos limpos. Parei para olhar o horizonte mas chegar aqui soube a passagem.
Quero dizer, no horizonte do Açôr olho o horizonte para o local onde estive (Serra do Açôr, Picoto da Cebola, seta) a olhar para aqui, para o horizonte, para a Estrela.
Para que fique claro. Aqui, no Picoto da Cebola na serra do Açôr a olhar o horizonte, serra da Estrela, de onde olhei para aqui (seta).
Mas, em essência, o horizonte nunca é aqui. É que o horizonte deve ser inatingível, mesmo de bike.