Não há tempo para fazer previsões, delinear estratégias, sequer de ajeitar os glúteos no selim. Logo no início é preciso inclinarmo-nos para a frente, sobre o guiador para evitar que a roda da frente levante, tal a inclinação. Num instante, damos conta que o suor começa a pingar sobre a caruma do caminho. Olhos pregados no chão. Tivesse o chão espelhos e, não tenho muitas dúvidas, rir-nos-íamos com os esgares de esforço que seguramente exibimos. Gravar os desabafos em linguagem tabernácula seria mais fácil. Não sei em que vou a pensar nestas situações. É como se não houvesse partida. Às tantas já estamos bem alto, o vale começa a abrir e vemos as povoações que salpicam o vale. E, então, é uma festa. Como se acordássemos já lá no cimo da serra. Nem sequer vem aquela sensação "o que eu pedalei para aqui chegar". É duro mas pronto, já está.
Quer dizer, está quase. Parei. Uns segundos antes tive um pressentimento, olhei em frente e vi um veado (talvez uma fêmea ou um juvenil, é que não consegui ver grandes chifres) que atravessou o caminho uns 50 m lá à frente. Parei. Pedalei mais uns metros quase até ao sítio por onde ele tinha passado. Senti o cheiro. Provavelmente, o meu cérebro primitivo está mais desenvolvido à custa do meu córtex (de outro modo não andaria pela serra sózinho a inebriar-me com cheiro de veados).
Pareceu-me o momento ideal para comer a banana da Madeira que levava no bolso. Dentada a dentada. Bem saboreada. Nestas situações qualquer coisa, um pedaço de pão rijo, um golo de água, um pedaço de marmelada, uns figos secos ... é saboreado como uma iguaria inigualável.
Parei. Sinto-me privilegiado por estar ali.
Para o outro lado, para o lado de cima. Para o lado mais alto.
Andei por ali às voltas e "ora deixa cá ver". Elementar caro Watson: a água está ainda turva, com terra em suspensão, estavam a beber ainda há momentos atrás e devem ter-me pressentido, um deles muito jovem, acompanhado de mais um ou dois, provavelmente a mãe, sobressaltaram-se, o reboliço ficou marcado pelos cascos na lama.
Dali à floresta ao cimo do vale da ribeira da Fórnea é um pulo. Pedalo para lá pela primeira vez depois de o ter feito dezenas de vezes. Desta vez, muito antes de entrar pelo caminho sombrio, sob a árvores muito altas, senti ainda longe o aroma intenso e ácido dos cedros. Tinham andado a cortar árvores. O cheiro da madeira cortada inundava o planalto na orla da floresta. É um corte planeado e estudado, para preservação da floresta. Pois, tem que ser assim.
O chão fica limpo de arbustos altos.
ou fica como um tapete de caruma muito fina. Visto de cima, de pé,
porque se deitado no chão o tapete transforma-se
Mais à frente, bem dentro da floresta, reparei que alguns dos gigantes também fizeram parte do plano de abate. Espero que saibam o que andam a fazer.
14 de Dezembro de 2016. Tenho que corrigir tudo isto até ao final do dia. Não vou conseguir. Acho que vou fazer um intervalo para café. Ou antes, vou fazer um intervalo para respirar.
Onde é que andava ontem há um ano atrás?
Foi um Outono frio e húmido, lembro-me agora ao ver as fotografias das pedaladas que, na altura, tirei. E ontem, há um ano atrás, andava pela floresta a meia encosta, na curva do castanheiro dos cinco troncos, como uma mão aberta com dedos esticados em forma de cálice (ou de ninho).
... any further questions?
Já estava farto de estar sentado e, às vezes, passava-me uma aragem pela memória que trazia o aroma ácido dos cedros e a luz pálida a inundar a floresta. Acho que chegava até a abanar a cabeça para sacudir estas memórias, para me concentrar. Não me podia distrair. Centenas de pessoas à minha frente. Sim, mais alguma questão?
Ao fim de 4 dias já andava por ali em privação. Nos "coffee breaks" vinha cá para fora, para junto das árvores, para o Sol, a olhar para as colinas ao longe. Lá dentro, nos anfiteatros, durante as sessões, não soprava o vento, nem disso poderia querer saber, tinha que estar concentrado, tinha que discutir os mecanismos, os processos, fazer e responder a perguntas, mas fora, na passagem por entre os edifícios ladeada por árvores, sentia o vento de Nordeste que agitava as últimas folhas ainda nas árvores que, sob o seu efeito, silenciosamente, como que numa dança, oscilando, tombavam até ao chão. O E. também ajudava: anda comigo lá fora para eu fumar um cigarro. Havia uns muros de pedra ao Sol, sob as árvores com ramos, muitos ramos finos quase nus. Ficávamos por ali à conversa - e como eu gosto conversar com o E. das ideias que brotam da sua cabeça, coisas díspares, aparentemente sem nexo, mas que na articulação das suas palavras parece terem sido traçadas a regra e esquadro, formando um conjunto harmonioso, como se se afastasse uma cortina para ver para lá da janela, ou como se tivesse uma pintura impressionista a meio palmo do nariz, tudo parecendo manchas caóticas e, à medida que nos afastamos, surge a imagem. Não tenho heróis mas o E. é meu mentor.
Um dia, ao pequeno-almoço, conheci a A., brasileira do Rio. Como? atravessaste os Pirinéus de bike? Sózinha? 900Km em 10 dias? E dizem que eu sou maluco! Mas isso é fantástico. Pois é, você sabe, todo o dia pela manhã vou subindo o morro. Saio às seis e às oito horas já estou de volta viu e então pego um café e vou trabalhá. Mas há floresta no Rio? Claro J., à volta é tudo morro e floresta. Deixa que eu mostro umas fotos p´ra você. Tá vendo, aqui é a floresta da Tijuca, bem no centro da cidade.
Estou convidado para ir subir os morros do Rio de bike com a A. Ela está convidada para vir atravessar o Alentejo (convite aceite quando lhe disse que passamos por herdades onde oferecem pão, queijo e vinho).
Outra sessão ... any further questions ... está na hora .. I am sorry ... temos que terminar, podemos discutir isto mais tarde, ao café.
Num ápice tudo acabou. It was a pleasure, thank you for coming, hasta la vista. Regresso a casa. O congresso acabou.
Domingo, uma semana depois de o ter feito pela última vez, pedalei serra acima. Com fúria. Que força é esta, que força é esta que trago nos braços, que força é esta que, ao contrário da canção, me põe de bem comigo e com quase todos.
A caminho de Cabeço Marigo há poças de água e lama mole e fina. Mesmo após semanas sem chuva há por ali poças água. Quando por lá passo vou na expectativa das pegadas. Um, dois, ou mais? Mãe e filho (às vezes consegue-se pela profundidade, tamanho e disposição das pegadas inferir a história). Tinha por lá passado um há pouco tempo. Deve ter dado um golinho de água e, logo depois, deve ter-se enfiado pela floresta dentro, lá ao fundo.
Eu também me enfiei pela floresta. É um caminho curto, começa sombrio, tantas as árvores de um e outro lado.
depois, vai abrindo,
abrindo,
até se começar a ver ao longe, para lá do vale, no horizonte, a serra do Caramulo. Estive lá no dia 1 de Dezembro, durante o "assalto", a olhar para aqui.
Depois é velejar por ali abaixo até casa. Dezoito Km. Nos primeiros quilómetros transido pelo frio, contraído sobre a bike. Depois, secado o suor, dobrado o cabo das tormentas, é como se fosse uma folha de árvore levada pelo vento.
Seis e pouco da manhã e já pedalava pelas ruas da vila. Escuro ainda, o vento a arrefecer-me as faces e os dentes (não convém pedalar a sorrir quando está frio; arrefece os dentes !). Foi uma bela maneira de começar; as ruas desertas, apenas as folhas a esvoaçarem por ali sob o vento e iluminadas pelos candeeiros e eu, também por ali, às curvas a ocupar toda a estrada. E nem cães nem gatos. Dantes, ainda não há muito tempo, viam-se cães a vadiar pelas ruas e jardins. Agora não. Pouco depois encontrei-me com os dois companheiros com quem ia pedalar até ao cimo da serra do Caramulo. Com quem ia fazer o mítico "assalto ao Caramulo do dia 1 de Dezembro". Eu, que ainda levava o sorriso no rosto, dei com eles a sorrirem também. Sabíamos que a coisa ia ser danada. Tínhamos previsto que até lá seriam 65 Km mais coisa menos coisa e para aí uns 1750 m de acumulado positivo em altitude. Mais 1000 e tal para a volta.
Primeiro teríamos que atingir o rio Mondego e seguir pela margem esquerda. Apanhámo-lo 30 km depois em Penacova. O Sol tinha nascido antes de termos iniciado a descida para o rio. Belíssimo, por baixo de nuvens negras sobre a cordilheira Açôr-Lousã. Ainda me passou pela cabeça tirar uma fotografia mas iria ficar tão desiludido ao vê-la, sabia de antemão, que desisti.
O Mondego ia tranquilo (Suzanne takes you down to her place near the river ...).
Pedalámos vários km pela margem, ora em estradões e praias fluviais, ora em "single tracks" em zonas húmidas cobertas de vegetação densa e onde a roda traseira patinava nas raízes molhadas, até zonas com plantações. Perto da barragem da Raiva, onde o atravessámos, as pedras espalhavam-se por ali, pelo leito baixo do rio. Tudo muito bonito.
O tempo foi fechando. Muitos km e pedaladas depois, passados Mortágua, e guiados por GPS para nãos nos perdermos nos caminhos, já a meio da subida da serra do Caramulo, aos cerca de 500 m de altitude, parei e olhei para trás. A serranias na linha do horizonte, de onde tínhamos partido pela calada da noite sob intenso temporal e com os lobos a uivarem lá longe (bem, agora deixei-me levar um pouco pela imaginação - estava apenas vento e um friozinho, nada demais), estavam sob um céu carregado. Seria preciso voltar para lá, uma vez atingido o cume do Caramulo.
Já na cumeada da serra, começámos finalmente a encontrar outros companheiros de pedaladas. Centenas e centenas. No percurso final encontram-se os grupos que subiram a serra, partindo de diversos locais à volta, no sopé. É uma grande festa. Grupos surgem a subir os caminhos da serra por todos os pontos cardeais. É um passeio espontâneo, não organizado, sem qualquer apoio e guiado por GPS. Depois vai-se quase em pelotão, incentivando-nos mutuamente (tirando uma meia dúzia que faz daquele encontro uma corrida).
É também onde os horizontes se abrem, o ar fica mais frio e se tem a sensação de andar lá por cima. Estou sempre impaciente para chegar ali.
Já perto do cume avistam-se as formações de granito características do topo. Não sei o nome da povoação (e não aparece no google earth) mas parece um oásis no meio da rudeza à volta.
Em Malpalhão de Cima, aldeia de granito e gado e caminhos ladeados de muros de granito e grandes lages de granito a pavimentar o chão aqui e ali, o bar da aldeia enche-se de centenas de pedalantes. Poucos cabem dentro e cá fora é preciso furar pelo meio da multidão para fazer os últimos 2-3 km que falta para o cume. Para o Caramulinho (parece ali tão perto e tão pequeno mas é imponente):
Aqui em cima o vento sopra forte, o suor arrefece-nos e, por regra, a fome aperta (felizmente pessoal da zona, sabendo do "assalto" do dia 1, monta por lá umas barracas de comes e bebes e é ver a bela sandes de presunto em quase todas as mãos enluvadas num contorcionismo, tentando segurar a bike, o cantil da água ou a mine e furar pelo meio da multidão). Há um cerrar de dentes que resulta da sensação de frio à medida que o suor nos arrefece com o prazer de trincar as sandes.
Como quem crava a bandeira depois da conquista de um qualquer cume nevado (e há anos em que o cume está nevado), tira-se a fotografia da praxe.
O conta-quilómetros da bike marcava 74 km (mas tinham dito que eram sessenta e poucos !?). Era preciso fazer outros tantos de volta. Descer a serra, fazer todo o vale, atravessar o Mondego e subir para a serra da Lousã.
Vamos lá fazer contas. São quase 2, o Sol põe-se às 5:30, já vamos chegar de noite. Nem penses. agora é a descer. Em 3 h estamos lá. Mas isso dá mais de 20 à hora. Pelo meio das matas não é possível. Ora, quem é que quer saber de aritmética, vamos mas é andando.
Quando chegámos de novo ao Mondego, 8h depois de lá termos passado pela manhã, o Sol já se punha.
Ainda estive por ali uns minutos parado. Vamos, está de noite, diziam eles. Primeiro fiquei fascinado com a disposição das pedras. Achei muito bonito. Depois fiquei a pensar qual a finalidade (quebrar a força da corrente? barreira para impedir descida de barco? barreira para reter árvores e outros detritos? impedir a erosão do leito?...)
Chegámos de noite, perto das seis. Tínhamos partido de noite há 11h e tal atrás. Foram 9:20h em cima da bike a pedalar.
Tal como à partida, despedimos-nos com um sorriso.
Afinal, passou depressa, tantos os belos sítios por onde pedalámos.
Foi uma not so long and winding road
Neblina. Frio. Dúvida (caraças ... se vou já não faço isto e aquilo e aconteço e mais não sei o quê pela manhã mas, às tantas, pela tarde ainda vai a tempo, depois, noite dentro compenso e tal e o pensamento às voltas para sossegar a mente e, pronto, é só uma hora e não vai haver crise).
Quando cheguei à Varanda do Gevim já não sentia as orelhas. Ou melhor, sentia-as como se estivessem a chover agulhas.
Subir com 3 ou 4 graus C não gera grandes problemas para além das orelhas (a subir não gosto de as tapar, gosto de ir a ouvir tudo). Convém subir a sentir um friozinho para evitar suar (pelo menos com alguma abundância). Um friozinho que não chegue aos ossos mas que se sinta na face ... talvez o ponto ideal seja o friozinho que provoca "o pingo no nariz".
A descida é que seria o problema devido à sensação térmica equivalente a 4 ou 5 negativos. E, se suado, o frio entranha-se até à medula dos ossos.
Mas, para já, o repouso na pedra fria para aquecer os ânimos para o resto do dia.
Tanta gente que deve estar ainda a dormir lá em baixo. Em camas, em quartos, em casas, em andares ... e, se espreitarem à janela dão com um céu coberto de neblina e, e, e, e ...
Uma das coisas singulares das pedaladas na serra é que se olha para cima e para baixo. E isto, que mais parece uma Lapalissada, é importante e passa despercebido. É preciso pensar 1 minuto nisto para se perceber o conteúdo em toda a sua profundidade ! (por exemplo, também implica que estamos lá, no meio, lá dentro, fazemos parte ....). O desenvolvimento desta tese (?!) fica para outro dia. Por agora, sob o Sol intenso, são horas de voltar por ali abaixo, pelo vale da ribeira de S. João ainda sob nevoeiro.
E, de súbito, quer dizer, apenas com um aviso de véspera, um aviso em tons de luz coada, branca e difusa ... de súbito, a serra estava num turbilhão.
Um manto de neblina filtrava a luz e saturava o ambiente, criando a sensação de se estar in the middle of nowhere, rajadas de vento atiravam com folhas e ramos para a estrada e cortinas de chuva, puxadas a vento, varriam os montes.
É preciso aprender a pedalar à chuva. Sobretudo na serra. Somos habituados desde cedo a protegermo-nos da chuva. Fugimos da chuva. Evitamos a todo o custo levar com uns pingos na cabeça. Como se a chuva fosse um líquido tóxico. Tenho colegas que se lhes cai um pingo na cabeça enquanto circulam entre edifícios próximos correm a sete pés para um abrigo. Ou então abrem um guarda chuva para o fechar 5 passos depois.
Quando se aprende a pedalar à chuva é como se chovesse "lá fora". Pedala-se à chuva como se pedala ao Sol. Corre a água pelo capacete, os pés vão ensopados, mas pedala-se com naturalidade e com prazer. Por vezes, sob cargas de água torrenciais, começa a sentir-se uma humidade aqui e ali, de fora para dentro, em zonas do corpo que pensávamos mais ou menos inacessíveis. Quando se chega à fase de completamente encharcado, atinge-se o estado de equilíbrio dinâmico. É um sossego. Nada mais há para molhar. Nestas condições é importante que nos mantenhamos quentes.
Tive um professor de botânica, um homem famoso e muito conhecido, que andava à chuva como quem passeia à beira-mar num dia ameno de Verão. Um dia, à saída de uma aula, chovia a potes e ele, com grande naturalidade, pôs-se a caminhar rua fora. Eu, que seguia atrás dele com um guarda chuva, ofereci-lhe boleia. "Professor, não se quer abrigar, o chapéu dá para os dois". Olhou para mim e com uma voz tranquila mas tom desafiador disse: "obrigado, não é preciso, os cães também andam por aí à chuva". Fui com ele durante algum tempo. Mantive o guarda-chuva aberto (e ele ao meu lado a escorrer água), evitando apenas que os fios de água escorressem para cima do ombro dele. Já não sei de que falámos.
Pensei tirar fotografias. Mas como? O telemóvel no bolso traseiro interior significa que tenho que expor parcialmente as costas, levantando o casaco impermeável. Com vento e chuva esta acção requer a perícia de um contorcionista. As luvas encharcadas não se podem descalçar porque, uma vez cá fora, as mãos molhadas recusam-se a entrar novamente onde devem entrar. Mexer no telemóvel com as luvas não é, digamos, pêra doce.
Já a descer, lá consegui fazer um filmezinho sem tirar as luvas.
Estava sobre o vale da ribeira de S. João. O som da chuva misturava-se com o da ribeira.
Pela primeira vez desde o último Inverno ouvia-se a ribeira lá em baixo, no fundo do vale.
Passei lá pouco depois, numa aberta.
Ribeira de S. João. A água, geralmente cristalina, ia turva. A primeira enxurrada do ano arrasta detritos e lava as margens.
A despropósito, acordaram na memória (como tantas vezes) os acordes da guitarra de Steve Hackett no "firth of fifth".
Aqui em 2013, quarenta anos depois da sua publicação no álbum "Selling England by the Pound" dos Genesis. Falta a parte inicial do piano e a voz do Peter Gabriel: the path is clear though no eyes can see ...
Mas fica o solo.