quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

the water flow in us


A água, tal como os sons de poet acts, flui mas sem escoamento. Flui em círculo, em ondas que vão e vêm.




No tempo pré-telemóvel, em que pedalava na serra da Lousã com uma máquina fotográfica a sério, tirava fotografias para calendários de parede de garagem.



domingo, 12 de fevereiro de 2017

Neve na serra da Lousã e as pedaladas para lá chegar

11 Fevereiro 2017

Cá de baixo, do ambiente ameno da Vila, a visão do cume da serra era enigmática. Nem sim nem sopas. Tanto podia estar uma tempestade dos infernos como um nevoeiro fofo e macio, uns salpicos de neve ou um nevão como deve, daqueles com os ramos dos abetos curvados sob o peso da neve, os caminhos brancos e frios. Portanto, o plano era óbvio:  eh pá, pedalas até lá acima e depois logo vês como estão as cenas.

Iniciei as pedaladas.
Fui a direito. Nada de curvas para suavizar a subida. A direito e em força. Pelos caminhos. Em meia dúzia de quilómetros passa-se dos 200 para os 900m de altitude. Nem são as pernas que mais doem, mas os músculos na zona dos glúteos e dos rins. Na subidas íngremes pedala-se com tudo o que se tem e, para os menos iniciados nestas coisas da pedalagem, os glúteos são fundamentais. Não se faz uma subida sem uns belos de uns glúteos. Os caminhos de terra pesados devido à chuva que tem caído e o tapete de caruma dos pinheiros estimulavam umas imprecações tabernáculas. Subi pelo lado Oeste, pela encosta do anfiteatro que se abre no sopé do Trevim, para ter a visão do cume o mais rapidamente possível. Às tantas, num relance, por entre a parede cerrada das árvores que ladeavam o caminho, vi manchas brancas lá em cima, junto às antenas (estas camufladas pelo nevoeiro). Havia neve. Estava feito o avistamento. Agora tinha um objectivo ... e uma dúvida. Vou meter-me além, na nuvem que cobre o cume, o Trevim? Como se pudesse haver duas respostas possíveis a esta pergunta.

E, na curva do caminho, vi claramente visto o cume esbranquiçado.



Para lá chegar há que subir aqui pela esquerda, para Norte, afastando-nos em em ângulo recto até à cumeada que, então, progredindo para Este, nos leva ao Trevim.
Na cumeada os horizontes abrem-se sobre a Beira Alta, a Norte,



e, a Este, sobre o esqueleto dorsal montanhoso que atravessa o País ao centro; a serra da Estrela, a do Açôr e a da Lousã (onde estou). Ao centro, na linha do horizonte, o cone imponente é o picoto da Cebola (onde estive em Agosto passado), o cume do Açôr e, por trás, em jeito de cenário, o que parece ser uma nuvem branca brilhante por baixo de um traço de nuvens negras é o planalto da Estrela coberto de neve. Um fenómeno curioso porque  está sob Sol intenso (daí o brilho branco)


O vento era fortíssimo. Quando me soprava de lado obrigava-me a fazer uns Ss com a bike. Deve ter caído um belo nevão durante a noite. Aos 1000 m de altitude o solo entre as árvores tinha uma bela camada mas o estradão e os caminhos expostos ao Sol que por vezes abria estavam já um lamaçal.




Estava na última parte da subida. Em vez de fazer o estradão que me levaria a direito até às antenas, cortei à esquerda para me meter na floresta. Não pedalei até aqui para encher a bike de lama e estragar material. Pedalar na neve não iria ser pêra doce mas deve ter por ali passado um jipe cujos rodados me facilitaram as pedaladas.


Quase lá, nas antenas, no Trevim, aos 1200 m de altitude, no cume da serra da Lousã. O vento estava endiabrado. Curiosamente parecia haver ali menos neve que um pouco mais abaixo, em locais mais abrigados. Sabendo isso, estava na expectativa de, uma vez começada a descida pelo outro lado, pela estrada asfaltada, passar pelo bosque de Bétulas. Deveria estar belíssimo; os troncos brancos com riscos castanhos e pretos como os tigres contra o chão branco de neve ... 


No Trevim, estava um carro e um par de namorados (most likely). Ela tirava fotografias, ele atirava-lhe bolas de neve. Riam. Ele acenou-me, com a mão fechada e um dos dedos erectos (um OK, OK?).  Meteram conversa. Tiraram-me uma fotografia.


Na descida, feita devagar porque o vento era tal que quase me atirava pela encosta abaixo, os ramos mais exteriores e frágeis dos cedros que cobrem o lado Sul oscilavam tombados na mesma direcção, como que uma cabeleira soprada pelo vento. Parei junto ao bosque de Bétulas. Que beleza. Tirei as luvas e puxei pelo telemóvel. Não tinha bateria.

À noite, em casa, dei com a Lua a espreitar por entre as nuvens sobre a serra. Quase Lua cheia, chuvisca, lá em cima deve ser neve. Um friozinho varreu-me os neurónios. Que vontade de me por a pedalar serra acima. Talvez, com sorte, desse com a luz da Lua reflectida nos montes cobertos de neve. Porque é que não faço isso? Há razões que, aparentemente, são óbvias (noite, temporal e sabe-se lá mais o quê, sózinho ...) mas nenhuma me parece muito relevante.





























Foi o primeiro nevão deste ano na serra da Lousã. Um nevãozinho se comparado com o grande nevão de há um ano atrás.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

a realidade vista de um lado

Fevereiro 2017

Vista de Norte para Sul, de dentro para fora, em dois planos e em várias dimensões. Vista dentro de um prisma e do cimo da falésia.




Quando passo neste bosque não o encontro como o deixei a última vez. Reconheço o cheiro, as árvores, as cores, a geometria e etc. É a realidade. Apanho folhas e sinto-as e toco nas árvores. São reais. Huummmmm ... uns fotões colidem com umas células na minha retina, gera-se uma corrente eléctrica e vvvvrrrrrrruuuuummmmmm, à velocidade da luz, num passe de mágica, acendem-se uns neurónios no meu cérebro que representam árvores e folhas e cores e ... e esta é a realidade. A minha cadela, (os cães não têm cones sensíveis ao vermelho e ao verde na retina), caso aqui estivesse, veria a sua realidade. E o meu cérebro que faz a representação da realidade e que a perscruta é também parte da realidade. Na actividade que exerço aprendi a não ter a ilusão da certeza. E se na Física a descrição do mundo pode ser feita através de equações, no caso da Biologia (que é mais que a soma das partes físicas que a compõem) a complexidade pode estar para além da nossa  capacidade para a compreender. O nosso intelecto pode chocar com barreiras intransponíveis. Porquê? O teorema de Pitágoras é inacessível aos orangotangos, possuidores de um cérebro semelhante ao nosso. Se o intelecto dos orangotandos tem barreiras que o nosso reconhece e ultrapassa, então é provável que o nosso cérebro biologicamente semelhante ao dos orangotandos ... três vezes nove vinte e sete noves fora nada. É só fazer as contas.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Janeiro: the rest of the best

Janeiro 2017

The lunatic is on the grass.





Road to nowhere ... and the future is certain.





Mil anos depois, descubro um caminho novo na serra. Depois da subida longa em expectativa, em dois segundos, na curva do caminho, revelou-se-me o sítio.


Estava sobre Silveira Machu Picchu de Cima, a aldeia fantasma.

 A fazer a curva, ainda não, mais um pouco.


Lá está, o que resta da Silveira de Cima.


Vista daqui, do alto, em dia solarengo, é um detalhe na paisagem.
Vista de baixo, da estrada, num dia neblínico, dias ideais para se pronunciarem os nomes das aldeias perdidas na serra, é um mito.
A Silveira de Cima? Fica lá em cima, nos montes cobertos de neblina.









sábado, 4 de fevereiro de 2017

O ganso da neve? Ora, é apenas um temporal!

Fevereiro 2017

Que temporal? A chuva varre a serra em ondas laterais. Isso vai ver-se no vídeo. Em cima da bike a sensação é outra. É a da chuva maluca. Uma gotículas de água que dançam em todas as direcções levadas pelo vento, excepto como é costume; quer dizer, de cima para baixo. Vêm de lado, de baixo, de esguelha, de todo o lado. As gotas da chuva não caem, antes esvoaçam como um ganso. Ensopam devagar. Um barulho ao meu lado. Susto. Um barulho invulgar. As acácias gemem e chiam sob o vento. Isso conheço bem. Mas este foi um som cavo. Uma árvore partiu ao meu lado. Caraças, ainda levo com alguma em cima. O temporal na serra faz um rugido de fundo. Uma coisa assim parecida com o mar mas mais orgânico (o que quer que isto queira dizer). Mais de o sentir com o externo, a meio do peito, reverberando nas costelas. Já o previa; a ribeira de S. João cantava pela primeira vez este Inverno. Parei cá em cima, sobre a ribeira, de um dos lados do vale. Do outro, lá ao cimo, a aldeia do Talasnal. Na encosta em frente, o canal de água da Central transbordava, originando cascatas que se precipitavam sobre a ribeira, uns cem metros abaixo. O som furioso da água a correr enchia ao vale. Gosto deste sítio. Ao cimo do vale alinham-se os montes até se perderem na neblina. Bem sei o que está para lá dos montes mas faço de conta que não, que para lá é terra que não conheço.


Em mais detalhe a água que se precipita no vale. A encosta é tão íngreme que deverá ser muito difícil ir até lá.



(Snow Goose dos Camel. Aos 40 segundos resolve-se o enigma do assobio no vídeo ali em cima)






quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O caminho para a aldeia de xisto

Fevereiro 1, 2017

Once there was a way, aliás mais do que um, e todos iam dar à aldeia. Hoje, o caminho está ainda lá. Mas, na história recente, transformou-se mais num caminho de saída do que de chegada. Já ninguém chega por ali a casa.



Ninguém? Não. Pelos vistos há quem resista (como a aldeia Gaulesa ao invasor Romano) e que está a dar a volta à história do caminho, transformando-o de novo num caminho de chegada.


Fui ver, aproximando-me da casa cuja reabilitação foi, à distância, denunciada pelas telhas novas e vermelhas.


Atravessei a bridge over troubled water







Ó da casa ! 


Ninguém. Só ouvi a música do riacho ali à porta. 


Outros habitantes sempre por ali andaram, tecendo as suas vidas entre pedras que já foram paredes e portas.


OK, Sir Paul, força aí (una vez hubo un camino !!!): 




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Apanhado pela noite na serra (a morrinha não conta, foi um prazer)

Janeiro que se acaba (em 2017)

Ao princípio até era interessante. Levantava-me cedo, tomava o pequeno almoço com miúdos que tinham todo o ar de andar em viagem pela Europa, grupos de estrangeiros que me pareciam tipos da mafia de leste, casalinhos com ar apaixonado e por ai fora. Gostava do hotel. Depois saía e caminhava meia-hora até ao local onde se iniciavam as reuniões. As ruas cheias de gente apressada, muitas a falar sózinhas (ao telemóvel), tinha que ziguezaguear para avançar ao longo dos passeios. Chegava ao largo do Rato, vermelho pára, verde avança, páre, escute e olhe. E eu fartava-me de olhar. As pessoas, as casas, os carros, a dinâmica de tudo. Era sobretudo a dinâmica, o movimento que me agradava. Rua de S. Bento abaixo e passava junto a uma loja curiosa; cá fora, pendurados em cordas, havia penicos de esmalte (tenho na memória o som metálico dos jactos de urina nos penicos), lá dentro panelas e tachos de alumínio e mais não sei o quê. Às tantas lá chegava. Reuniões até às sete.
Estava sempre na expectativa da meia hora de caminhada de regresso. O jantar era sempre rápido porque à noite, no hotel, havia que apanhar com o tsunami de emails desse dia. Pizzaria? Ora deixe cá ver. Tipo simpático este do hotel, pensei. Ah sim, atravessa a avenida, segue em frente e depois corta à direita e em frente ao hospital de Sta. Marta há uma muita boa, a Luzzo, vai ver que vai gostar. Belíssima. Acolhedora, bom ambiente, e a pizza Popeye com uma base fina feita em lenha, um queijo bom e uma cobertura de espinafres frescos estava muito boa.  Quase duas semanas em Lisboa. Mas isto foi na segunda semana. A primeira foi junto ao rio. Um hotel 4 estrelas rascas, debaixo da ponte, acho que a zona se chama Alcântara. Uns dias com tempos livres em grupo um bocado a fazer de conta. Ah e tal aqui é o bairro alto. Jantar no Cantinho do Avidez. Nada que em impressionasse. Em primeiro lugar nem via as lascas de bacalhau tão mortiça era a luz. Safou-se o tinto, um monocasta de Syrah da região de Lisboa. Uma bela surpresa. A visita ao Pestana Hotel foi em marcha acelerada. À entrada uma galeria de retratos onde me pareceu ver a Melania Trump. Arre gaita, como diria a minha avó. O almoço junto ao rio no Clube Naval (acho que era assim que se chamava) foi, aí sim, delicioso, uma dourada feita nas brasas com brócolos e batatas cozidas. Um branco Planalto e já está. Sair e dar com o rio e com a luz foi a melhor sobremesa. Quase duas semanas em Lisboa. No regresso, à primeira oportunidade meti-me em cima da bike serra acima.
Fui para onde já não ia há tempos, para os lados da aldeia de xisto do Gondramaz. Aquilo é uma bela de uma subida para lá chegar.
O nevoeiro lambia a serra. Nestas circunstâncias, a dúvida que assalta o espírito de quem anda pela serra ao entardecer é se o nevoeiro vais subir ou descer.


O Gondramaz é uma aldeia ex libris da região. Foi reabilitada e, embora muitas casas sejam habitações de fim-de-semana, mantém-se viva durante todo o tempo



Passei ao largo, pelo lado de cima, junto à última casa da povoação. Parecia-me que o nevoeiro iria descer mas decidi voltar a casa pela serra a meia encosta em vez de descer ao vale.









Finalmente, este Inverno começa a ver a água a correr e os riacho a cantar. Ao percorrer as rugas da serra a meia encosta, os riachos começam a dar sinais de vida. São muito belos estes riachos.




Depois, começou a morrinha. O Sol deveria já ter-se posto e, embora tivesse levado o GPS, os caminhos por ali eram vários e em teia. Facilmente me meteria por onde não me deveria meter. Pedalei um bocado à bruta, sabendo que para Norte iria no sentido da estrada asfaltada que passa no vale. Às tantas, depois de tanto pedalar, estava apenas do outro lado do vale do Gondramaz (em frente, à direita na fotografia).




Os pinheiros do caminho estragavam não só a visibilidade mas escureciam o meu GPS mental. O nevoeiro nem subia, nem descia. Se tivesse adivinhado, do Gondramaz teria subido à cumeada da serra e descido para casa. Um trajecto mais curto mas arriscado caso fosse apanhado pelo nevoeiro e pela noite.
A meia encosta fui apenas apanhado pela noite. A morrinha não conta, foi um prazer.

Ser apanhado pela noite na serra era há muito tempo - no tempo em que eu era muito pequeno e ouvia o meu pai e o meu avô contarem histórias de avistamento de lobos e das noites de nevoeiro em que os lobos desciam à povoação; histórias verdadeiras porque eu próprio me lembro, teria uns 7 ou 8, ou 9 anos , de ver numa povoação uma furgoneta com vários lobos, uns 4 pelo menos, mortos e pendurados de cabeça para baixo na caixa aberta da furgoneta em exposição após a batida de que tinham sido alvo - uma possibilidade de provocar um friozinho pela espinha acima. Hoje estão extintos em Portugal. Parece que há apenas uma alcateia que, por vezes, entra na fronteira Norte vinda de Espanha.

E vieram-me estas memórias enquanto tentava chegar ao vale.
Finalmente, numa curva do caminho, o vale abriu-se à minha frente e vi Espinho e um estradão que me levaria ao vale.





Ouvir estes sons à noite, na serra, seria, quer dizer, bom, é difícil imaginar, mas não deveria dar o sono.