Abril 2017
Lembro-me bem que falar do tempo era importante. Dantes. Chove pouco, as coisas não medram. Chove muito e faz Sol está tudo a vir antes do tempo. Hoje não se fala do tempo a não ser para saber se o fim-de-semana vai estar bué da fixe para a praia e mais não sei o quê. E também já ninguém olha para o céu para saber se está a chover, consulta-se o telemóvel (há sempre uma app manhosa para qualquer serviço). Pronto, depois desta introdução à velho do Restelo convém não esquecer que a papinha que comemos (das plantas aos animais) está dependente do Sol e da chuva. Convém não esquecer que na Biosfera nos comemos uns aos outros. O Quino, genial a maioria das vezes, lembra bem isto quando a Mafalda vai ao frigorífico e grita para a mãe que está lá um cadáver (um frango). O carbono de alguns átomos que me constituem fizeram, muito provavelmente, já parte do organismo de outros seres vivos, de um insecto, a uma planta, a um outro humano.
Uma semana depois do nevão, no mesmo local, o Sol brilhava intensamente. Percebia-se no horizonte, no planalto da serra da Estrela uma risca branca. Ainda por lá havia neve.
Uma semana ante tinha ali passado sob frio, neve e nevoeiro intenso. Uma outra realidade e, por isso, um outro local. Pelo menos na minha cabeça era um outro local. Surpreendo-me sempre ao passar nas mesmas coordenadas GPS (para dizer isto de uma maneira que se entenda) mas vendo outros sítios nas mesmas coordenadas, como se fosse a primeira vez que por ali passo.
Olha o Trevim !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Olha o planalto da serra da Lousã !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Olha o Trevim outra vez !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Olha as serranias das Beiras, a Estrela, o Açõr, o Caramulo, Montejunto e o Buçaco que não ficou na fotografia mas estava logo ali à esquerda. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Mas há sítios destes? Há.
E olha outra vez o planalto da Estrela com uma risca de neve !!!!!!!!!!!!!!
e mais perto.
mas no mesmo sítio
A memória das pedaladas. Foi esta a principal razão. O blog é, assim, uma espécie de dispositivo virtual de reforço sináptico.
sábado, 8 de abril de 2017
quinta-feira, 6 de abril de 2017
Andanças e outras arquitecturas
Abril 2017
Dali
P'rá qui
Dali
P'rá qui
Gostei de ambas. Ali o Sol punha-se, aqui nascia.
Vêem-se poucas bikes a circular por Lisboa. Mas já se vêem algumas. Percebo que, dado o tráfego, o risco é grande. Mas se é possível em quase todas as grandes cidades que eu conheço porque é que em Lisboa (e Portugal em geral) não é? Por exemplo, um tipo chega a Tartu na Estónia e na praça central, a mais movimentada, vê placas com informação específica para ciclistas, ou a Berlin onde, no meio da confusão do tráfego , se pedala na maior descontração ou até na chuva em Cracóvia , para não falar em Kyoto - ah Kyoto, há quanto tempo ando para postar as pedaladas na cidade dos mil templos, a antiga capital imperial do Japão - onde os peões dão licença aos ciclistas para passar. A razão é a estafada falta de civismo? Não. É por estupidez.
domingo, 2 de abril de 2017
Riachos e suas circunstâncias (redondezas? margens? não!)
Serra da Lousã
"Primordial". É a palavra que me vem à cabeça. Primordial na perspectiva da Evolução. Uma sensação que já cá está e que é acordada, não alguma coisa que vem do exterior, nos perturba (bom ou mau) e nos provoca uma reacção. Chego ali e ao ouvir a água a correr, ao ver o musgo nas pedras e nos troncos, pequenas plantas a irromper por todo o lado, o Sol reflectido nas folhas das plantas, a complexidade das sombras ... acelera-me um fluxo cá dentro, um regato que já cá corre. Uma coisa primordial. Fazemos parte da Biosfera e há quem isso não entenda. De um ponto de vista da Evolução o Si bemol de um violino é muito posterior ao som da água que corre. Bem, às tantas a água corre, pelo menos de vez em quando, em Si bemol.
Há um bem-estar profundo (nada daquelas coisas tipo Zen e não sei quê; não, antes uma coisa com vida) que se instala naturalmente, que me deixa atento. De repente lembrei-me que, há muitos anos, por acaso, dei com uns rabiscos e uns borrões de tinta preta numa tela que me deixaram muito impressionado. Eram de Antoni Tàpies. Há uma linha ténue que separa os borrões do Tàpies dos troncos das árvores caídas. Ambas me atraem mas ... mas não sei bem o quê. Um dia destes ponho-me a pensar nisto.
"Primordial". É a palavra que me vem à cabeça. Primordial na perspectiva da Evolução. Uma sensação que já cá está e que é acordada, não alguma coisa que vem do exterior, nos perturba (bom ou mau) e nos provoca uma reacção. Chego ali e ao ouvir a água a correr, ao ver o musgo nas pedras e nos troncos, pequenas plantas a irromper por todo o lado, o Sol reflectido nas folhas das plantas, a complexidade das sombras ... acelera-me um fluxo cá dentro, um regato que já cá corre. Uma coisa primordial. Fazemos parte da Biosfera e há quem isso não entenda. De um ponto de vista da Evolução o Si bemol de um violino é muito posterior ao som da água que corre. Bem, às tantas a água corre, pelo menos de vez em quando, em Si bemol.
Há um bem-estar profundo (nada daquelas coisas tipo Zen e não sei quê; não, antes uma coisa com vida) que se instala naturalmente, que me deixa atento. De repente lembrei-me que, há muitos anos, por acaso, dei com uns rabiscos e uns borrões de tinta preta numa tela que me deixaram muito impressionado. Eram de Antoni Tàpies. Há uma linha ténue que separa os borrões do Tàpies dos troncos das árvores caídas. Ambas me atraem mas ... mas não sei bem o quê. Um dia destes ponho-me a pensar nisto.
domingo, 26 de março de 2017
Mais um bocadinho depois do equinócio ou este ano temos neve com fartura
Março 2017, Serra da Lousã
A partir de certa altura já não foi possível tirar as luvas. Sabia que, caso as tirasse, dificilmente as conseguiria calçar de novo. E isto, parecendo um detalhe, é mesmo um detalhe. Mas, como é bem sabido, o diabo está nos detalhes. Descer sem luvas com temperaturas reais negativas leva a que não sintamos as manetes dos travões e isso, insensibilidade para travar em cim da bike, ... não é bom. Por isso, as fotografias foram escassas. Aos 900 m já havia neve. Mas cheguei lá com os pés ensopados e frios, a perder calor pelos pés como se fossem um funil e o meu corpo um pipo de vinho; é que parte da subida foi feita sob chuva. Aos 900 m o tempo tempestuoso abriu umas brechas e vamos mas é aproveitar para comer o pão de leite com marmelada, enfiar o lenço no pescoço, correr os fechos, ir ali atrás de uma árvore num instante e tirar umas fotografias enquanto se consegue. Lá mais para cima - cheguei ao Trevim aos 1200 m onde estava uma ventania infernal e um tipo com um jipe que insistiu em me tirar uma fotografia - até desmontar da bike seria penoso.
E foi mais um dia de neve na serra e mais umas pedaladas por ali acima até à neve com períodos de stresse intenso, frio, vento, granizo na cara; o organismo, os orgãos, as células a responderem ao stresse, a activarem vias de sinalização que alteram a expressão de genes, o metabolismo a afinar, mantendo a homeostase. E, em cima disto, surpreendentemente, os mecanismos de recompensa no cérebro a funcionarem, a dopamina a disparar e vai-se por ali a pedalar neste estado com os dentes cerrados pois esta é a forma possível de sorrir quando os músculos da cara estão gelados. Esta é a minha visão da coisa. Outros veriam uma tolice, ou viriam com conversas clínicas de algibeira sobre a hipotermia e as consequências nefastas da exposição à intempérie e o perigo de não sei quê e o quentinho é que é bom (ah, eu gosto do quentinho) mas, de facto (quando se escreve "de facto" já se sabe que se quer impressionar), as situações de stresse são o dia-a-dia das células. E, de facto (!!!), o stresse de baixa intensidade é benéfico para a saúde. E já me ia a lançar para a "hormese", e a afirmar que este conceito científico se pode confundir com a homeopatetice, e que estas coisas da toxicologia e de efeitos nefastos de compostos para a saúde está cheia de dogmas, mas o plano inicial era apenas colocar aqui duas ou três fotografias. Sem mais delongas, um cheirinho da serra da Lousã com neve:

A partir de certa altura já não foi possível tirar as luvas. Sabia que, caso as tirasse, dificilmente as conseguiria calçar de novo. E isto, parecendo um detalhe, é mesmo um detalhe. Mas, como é bem sabido, o diabo está nos detalhes. Descer sem luvas com temperaturas reais negativas leva a que não sintamos as manetes dos travões e isso, insensibilidade para travar em cim da bike, ... não é bom. Por isso, as fotografias foram escassas. Aos 900 m já havia neve. Mas cheguei lá com os pés ensopados e frios, a perder calor pelos pés como se fossem um funil e o meu corpo um pipo de vinho; é que parte da subida foi feita sob chuva. Aos 900 m o tempo tempestuoso abriu umas brechas e vamos mas é aproveitar para comer o pão de leite com marmelada, enfiar o lenço no pescoço, correr os fechos, ir ali atrás de uma árvore num instante e tirar umas fotografias enquanto se consegue. Lá mais para cima - cheguei ao Trevim aos 1200 m onde estava uma ventania infernal e um tipo com um jipe que insistiu em me tirar uma fotografia - até desmontar da bike seria penoso.
E foi mais um dia de neve na serra e mais umas pedaladas por ali acima até à neve com períodos de stresse intenso, frio, vento, granizo na cara; o organismo, os orgãos, as células a responderem ao stresse, a activarem vias de sinalização que alteram a expressão de genes, o metabolismo a afinar, mantendo a homeostase. E, em cima disto, surpreendentemente, os mecanismos de recompensa no cérebro a funcionarem, a dopamina a disparar e vai-se por ali a pedalar neste estado com os dentes cerrados pois esta é a forma possível de sorrir quando os músculos da cara estão gelados. Esta é a minha visão da coisa. Outros veriam uma tolice, ou viriam com conversas clínicas de algibeira sobre a hipotermia e as consequências nefastas da exposição à intempérie e o perigo de não sei quê e o quentinho é que é bom (ah, eu gosto do quentinho) mas, de facto (quando se escreve "de facto" já se sabe que se quer impressionar), as situações de stresse são o dia-a-dia das células. E, de facto (!!!), o stresse de baixa intensidade é benéfico para a saúde. E já me ia a lançar para a "hormese", e a afirmar que este conceito científico se pode confundir com a homeopatetice, e que estas coisas da toxicologia e de efeitos nefastos de compostos para a saúde está cheia de dogmas, mas o plano inicial era apenas colocar aqui duas ou três fotografias. Sem mais delongas, um cheirinho da serra da Lousã com neve:

No Trevim (o tipo do jipe lá me tirou a fotografia)
sexta-feira, 24 de março de 2017
Um bocadinho depois do equinócio da Primavera
Amanhece. Três graus Celsius. As cerejeiras brancas aqui e lá ao fundo imersas no nevoeiro denso e branco. O Sol branco e frio. Oito da manhã, passámos o equinócio da Primavera há duas rotações da Terra atrás. As cerejeiras, vivas, responderam. Não sabem é que a órbita da Terra é quase circular e que a inclinação do eixo de rotação não varia.
domingo, 19 de março de 2017
The great wilderness ou a jovem ribeira de S. João
Serra da Lousã
Às vezes basta parar. Vai-se por ali fora a pedalar, ouve-se um riacho a cantar e basta parar. Ver de onde vem, se é possível segui-lo, o que nos diz o som sobre a natureza do riacho, se é calmo, ou selvagem, ou se vem de longe ... Depois, seguindo-o, o entusiasmo cresce à medida da beleza à volta e é difícil não ir mais e mais e mais.
Onde muitas vezes passo, numa ponte sobre a ribeira de S. João, decidi parar e ir dar uma vista de olhos à ribeira. Meti-me por um caminho que acabava logo ali, escondi a bike nuns arbustos, atirei com uns pedregulhos para o meio da ribeira no local mais estreito que encontrei, de modo a ter um ponto de apoio para saltar, passei para o outro lado e comecei a subir, seguindo-a na direcção da nascente.
Os sapatos de encaixe, sapatinho de sola rígida com aplicações de metal, são traiçoeiros para caminhar nas pedras mas as minhas competências a saltar pedras foram solidamente cimentadas durante a infância e adolescência nos pedregulhos da Estrela. Bem, não evitaram derrapanços, mas impediram que molhasse os pezinhos e o resto do corpinho. Uns percalços aqui e ali em que me agarrei a silvas para manter o equilíbrio (em coreografias que grupos de dança contemporânea mais radicais não desdenhariam ensaiar) mas, tirando isso (e tirando os espinhos das mãos), nada de especial.
Às tantas, numa curva, rolling stones, denunciando que nas invernias a ribeira corre furiosamente.
Na margem do lado esquerdo havia um "caminho" de pedras, um convite para continuar. Cheguei a um sítio muito bonito; a corrente mais tranquila, pedras nuas e outras cobertas e musgo, troncos partidos e caídos, desalinhados, o chão coberto ainda com as folhas outonais caídas dos castanheiros.
e ... um exuberante arbusto de azevinho. Ali à direita.
Fiquei por ali. Fiz um vídeo.
Às vezes basta parar e ir espreitar.
Às vezes basta parar. Vai-se por ali fora a pedalar, ouve-se um riacho a cantar e basta parar. Ver de onde vem, se é possível segui-lo, o que nos diz o som sobre a natureza do riacho, se é calmo, ou selvagem, ou se vem de longe ... Depois, seguindo-o, o entusiasmo cresce à medida da beleza à volta e é difícil não ir mais e mais e mais.
Onde muitas vezes passo, numa ponte sobre a ribeira de S. João, decidi parar e ir dar uma vista de olhos à ribeira. Meti-me por um caminho que acabava logo ali, escondi a bike nuns arbustos, atirei com uns pedregulhos para o meio da ribeira no local mais estreito que encontrei, de modo a ter um ponto de apoio para saltar, passei para o outro lado e comecei a subir, seguindo-a na direcção da nascente.
Os sapatos de encaixe, sapatinho de sola rígida com aplicações de metal, são traiçoeiros para caminhar nas pedras mas as minhas competências a saltar pedras foram solidamente cimentadas durante a infância e adolescência nos pedregulhos da Estrela. Bem, não evitaram derrapanços, mas impediram que molhasse os pezinhos e o resto do corpinho. Uns percalços aqui e ali em que me agarrei a silvas para manter o equilíbrio (em coreografias que grupos de dança contemporânea mais radicais não desdenhariam ensaiar) mas, tirando isso (e tirando os espinhos das mãos), nada de especial.
Às tantas, numa curva, rolling stones, denunciando que nas invernias a ribeira corre furiosamente.
Na margem do lado esquerdo havia um "caminho" de pedras, um convite para continuar. Cheguei a um sítio muito bonito; a corrente mais tranquila, pedras nuas e outras cobertas e musgo, troncos partidos e caídos, desalinhados, o chão coberto ainda com as folhas outonais caídas dos castanheiros.
e ... um exuberante arbusto de azevinho. Ali à direita.
Fiquei por ali. Fiz um vídeo.
Às vezes basta parar e ir espreitar.
flores amarelas e a consequente oxidação
Fotografias avulso das últimas pedaladas
Nas últimas duas semanas sempre que pedalava pelos túneis de acácias, se uma brisa se levantava, era como se estivesse a nevar. Mas uma neve amarela e com um cheirinho bom.
Em meia dúzia de dias, as acácias explodem em flor. O amarelo forte das acácias liga bem com o seu aroma intenso. Para quem sofre de asma é um pesadelo. Tenho a sorte (é mais uma deficiência) de não ter alergias. O capacete, o blusão e até as mudanças da bike ficam salpicadas de pequenas flores amarelas.
Depois, sobretudo se vêm umas chuvadas, as flores caem massivamente, cobrindo o chão de amarelo. Uns dias depois estão castanhas, oxidadas. O ambiente gasoso onde vivemos, devido ao alto conteúdo em oxigénio, é oxidante. Até no interior das nossas células o oxigénio pode oxidar biomoléculas, em processos mediados por radicais livres.
Um pouco mais acima, ganhando altitude, são os azuis.
Quando pedalo tento não me esquecer de olhar para todos os lados, incluindo o lado de cima.
Nas últimas duas semanas sempre que pedalava pelos túneis de acácias, se uma brisa se levantava, era como se estivesse a nevar. Mas uma neve amarela e com um cheirinho bom.
Em meia dúzia de dias, as acácias explodem em flor. O amarelo forte das acácias liga bem com o seu aroma intenso. Para quem sofre de asma é um pesadelo. Tenho a sorte (é mais uma deficiência) de não ter alergias. O capacete, o blusão e até as mudanças da bike ficam salpicadas de pequenas flores amarelas.
Depois, sobretudo se vêm umas chuvadas, as flores caem massivamente, cobrindo o chão de amarelo. Uns dias depois estão castanhas, oxidadas. O ambiente gasoso onde vivemos, devido ao alto conteúdo em oxigénio, é oxidante. Até no interior das nossas células o oxigénio pode oxidar biomoléculas, em processos mediados por radicais livres.
Um pouco mais acima, ganhando altitude, são os azuis.
Quando pedalo tento não me esquecer de olhar para todos os lados, incluindo o lado de cima.
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