segunda-feira, 10 de julho de 2017

É um pássaro? É um avião? É o Super-homem? Não. São as moscas.

17 de Junho 2017

Nem sequer as ondas do mar ou o vento. É um som semelhante: são as moscas varejeiras.
Nos dias quentes, na zona sombria da floresta agrupam-se aos milhões.
Ia por ali acima, por um caminho que atravessa a floresta aos 900 m de altitude. Estavam perto de 40 graus C e o caminho que travessa a floresta sombria foi a opção para prosseguir. Era o mais fresco. O contraste da luz no caminho com a sombra sobre os cedros é quase inacreditável. De um lado Sol intenso, ofuscante, quase insuportável e, do outro, escuridão. Uma escuridão traiçoeira onde milhões de pequenos seres vivos pousados reagem a qualquer intruso levantando-se em nuvens aterradoras, ruidosas, vindas de todos os lados, mas? mas?! mas o que é isto?, que nos deixa à beira de um ataque de nervos. Sob as árvores a temperatura caía cerca de 7 a 8 graus.


Mas a temperatura era a única coisa que caía. Outras se levantavam. Já o previa. À medida que pedalava levantava-se um ruído como se fosse uma onda do mar. Com o ruído levantavam-se também milhões de varejeiras. Azuis ou esverdeadas, metalizadas, grandes, num alvoroço. O aspecto metalizado é o que mais me chateia.

Parei e dei uns passos, gravando o caos que se gerava à medida que avançava.

(ouvir com o som muito alto: em fundo dos meus passos e do trinar dos pássaros ouve-se (mal se vêem no vídeo) o som das varejeiras a voarem que nem doidas para logo pousarem. Na realidade o som é muito mais intenso mas o telemóvel deve ter problemas na gravação dos graves.)


As moscas e os mosquitos estão na base de uma das leis universais do BTT (aliás, já aqui, anteriormente, formulada).
O problema pode formular-se do seguinte modo:
à medida que o caminho fica mais íngreme a velocidade a que pedalamos tende a diminuir e, por outro lado, o suor tende a aumentar (escorre pela cara, vem para os olhos etc etc etc). Ora, o ponto crítico é quando a velocidade é inferior a 6-7 Km/h. É que a esta velocidade as moscas, mosquitos, varejeiras, moscardos e outros insectos CONSEGUEM ACOMPANHAR-NOS. E as moscas pousam na cara, e nos lábios, e nas orelhas, e o os mosquitos fazem uma nuvem à volta da cabeça e as forças para os enxotar já não são muitas, e se os enxotamos podemos perder o controlo da bike e é uma grande merda tudo isto.
PORTANTO, UMA REGRA BÁSICA DO BTT EM DIAS QUENTES E SEM VENTO É PEDALAR SEMPRE A UMA VELOCIDADE SUPERIOR ÀQUELA A QUE AS MOSCAS CONSEGUEM VOAR. De acordo com os meus cálculos - que são, aliás, baseados em várias observações reais no terreno -  é cerca de 7-10 Km/h. É pouco? Pois, depende da inclinação e da temperatura.
A velocidade inferior a 7 Km/h, em subidas íngremes, há uma grande probabilidade de pedalar com a cabeça metida num grande zumbido. No meu caso, um caso particularmente grave devido ao ódio aos mosquitos, os neurónios entram em ressonância e, às tantas, já não se sabe se o zumbido é fora ou dentro da cabeça. Nem pensar em parar. E não há solução para isto. Proferir alto e bom som uns vocábulos em linguagem tabernácula (por assim dizer, insultando, por exemplo, a mãe das varejeiras) alivia mas não resolve a coisa.


sábado, 8 de julho de 2017

No rescaldo

Junho 2017

Roda ante roda, na expectativa do que iria encontrar, lá fui indo, subindo, para ver o outro lado da serra.
No planalto da serra, pelo caminho de cascalho sobre o vale do Coentral que, para Sul, se estende até à Castanheira de Pêra tive a visão das coisas.



O Coentral sob o St. António da Neve. O fogo não tinha aqui chegado. Havia boatos: toda a encosta foi varrida pelo fogo, o Central também foi evacuado ...
Estava na expectativa. Não. Aqui não tinha chegado.


A carqueja já pálida e a ser substituída pela urze roxa mas o fogo não cavalgou estes montes.


Este é o lado Este. Desviando o olhar para Sul, pelo vale da Castanheira e pelas serranias que se estendem para o lado de Pedrogão (onde se vê a chuva a cair) viam-se, aí sim, as encostas queimadas, castanhas e negras, que traçavam o limite do fogo para estes lados.


O clima é um bom exemplo de um sistema caótico, sensível às condições iniciais, que determinam a bifurcação imprevisível. Como prever este céu carregado, lançando gotas de chuva sobre Pedrogão sob uma temperatura amena há 2 semanas? Mesmo conhecendo a velocidade e posição de todas as partículas a evolução do sistema é imprevisível (sabe-se lá quando é que uma borboleta bate as asas na Austrália para mudar de eucalipto).






quinta-feira, 6 de julho de 2017

Vento. Quente. Limpo.

Julho 2017
Serra da Lousã

Vento quente e bom. Um vento cheio de energia. Vindo não sei bem de onde. Sem direcção definida. Ou melhor, mudava de direção em cada folha do castanheiro. Vinha forte sobre a copa das árvores, espraiava-se como um delta, como uma rede capilar num órgão e, depois, recompunha-se à saída, renovado, pronto para outra. Metia-se pelo corpo adentro como a luz que atravessa a água. Acho que até aos neurónios chegou uma aragem suave.





sexta-feira, 30 de junho de 2017

E, ao segundo dia, Domingo, a luz desfez-se e o ar da manhã não era o ar da amanhã

Domingo, dia 18 de Junho.
(depois de ontem, Sábado, ter estado no Trevim à uma da tarde na tarde, um pouco antes do início do incêndio de Pedrogão)

Fumo. O amanhecer de Domingo cheio de fumo. Um fumo que formava gradientes à medida que se subia na serra. O incêndio andava na encosta do outro lado, do lado da Castanheira de Pêra, mas o fumo tinha subido a serra e começava a cobrir o lado de cá, vinha de cima, insinuando-se pelas rugas dos vales. Logo à saída da Lousã.



Eu, inquieto, não sabendo ainda da tragédia que ocorrera do outro lado (embora pelo reboliço da noite com carros e sirenes serra acima e serra abaixo sugerisse que algo grave se passara), pego na bike logo pela manhã e pensei subir ao cimo, ao Trevim pela EN236 (a que agora chamam da morte), onde tinha estado no dia anterior. Talvez dali percebesse a dimensão da coisa. Uma pedalada, duas pedaladas, um km, dois km, e parecia que subia ao Evereste. Caraças não consigo respirar. Mas mais um bocado. Quando tiver vistas para o Trevim terei uma ideia mais precisa do que se passa. E martelava este pensamento para me auto-estimular.
À medida que subia, o céu ficava cada vez mais estranho, amarelo, esquisito, marciano ou neptuniano, talvez uraniano. Tentei arranjar uma teoria que tranquilizasse o meu lado racional: a exposição a situações de stresse (ambiental) em baixas doses até é benéfico para a saúde. As minhas células vão sentir estes gases tóxicos e vão implementar a resposta ao stresse. Vão accionar os mecanismos da hormese. Isto até vai fazer-me bem. Um stressezinho em background é do melhor que há para manter a saúde, é até rejuvenescedor. Até comecei a sentir os genes a expressarem-se, proteínas de defesa celular a inundar as células, a glicólise a acelerar para compensar a hipóxia, uma agitação celular em todo o corpo. Nada como uma hormesezinha logo pela manhã para ficarmos mais jovens. Pronto tinha uma teoria e estava tranquilo. E embalado pela teoria fui pedalando e subindo.



Comecei a perceber que não iria longe.
 O Sol era assim, com contornos ... ou melhor sen+m contornos definidos.




Às tantas estava num ambiente estranho. Pedalava e, como quem pedala sabe, por vezes pedalamos porque a seguir a uma pedalada vem outra. Uma e outra ...
Só quem pedala entende isto. Outros dirão que é estupidez ou que é irracionalidade ou obessão. Não é. É uma vontade que se apodera de nós e nos impede de parar quando as coisas estão difíceis (que força é essa, que força é essa que trazes ...).



Depois, para mais, no meio de tudo aquilo, imerso naquele universo estranho, comecei a achar tudo muito belo à volta, a luz, as penumbras, o ambiente para-real, os contrastes






A EN236 ladeada de castanheiros, carvalhos, urze e pedras




Como bem sabia, tive que parar. Não conseguia mais. Na véspera tinha subido ao Trevim a 1200 m com temperaturas acima dos 40 graus. Nada comparado com isto.

Voltei para trás, muito para trás e meti-me por um estradão a meia encosta, paralelo ao vale, mantendo a altitude. O fumo estava lá a chegar. A floresta estava tranquila mas havia a expectativa de que a qualquer momento alguma coisa iria perturbar o silêncio. Ia ali percebendo cada segundo na expectativa do próximo. Como que acossado por aquele silêncio.



O fumo vinha aí, infiltrava-se por entre as árvores





O leito dos riachos furiosos do Inverno tinham umas poças aqui, outras ali, sem dinâmica nenhuma, uma pasmaceira


secos




a luz do Sol filtrada pelo fumo, amarela e laranja, como que incendiava clareiras no chão da floresta. Um deslumbramento






À volta estava tudo calmo e, no entanto, como disse, estava sempre na expectativa de um susto, de animais em alvoroço; cervos, javalis, ginetas ... Quantos terão ficado encurralados e morrido? E insectos e vermes na terra e , e, e, e, ... a terra esterilizada pelo fogo. Lembro-me que havia uns pássaros a esvoaçar mas não senti sinais de grande perturbação. Também eles respiram oxigénio e provavelmente estariam em hipóxia. É que já por ali também ali o fumo se adensava.

Desci para a vila o que me faltava descer.

No dia seguinte, saí do país para uma cidade no Norte da Europa. Que bem que me soube a chuva que por lá apanhei. Até a bebi, de boca aberta para o céu. Figuras tristes: à noite, de braços abertos, cabeça levantada e boca aberta, à chuva à porta do hotel. Are you OK? Sim, vou já, estou só aqui a apanhar um pouco de chuva. Hã!? Como é que eu explicar ia aquilo aos outros?





segunda-feira, 26 de junho de 2017

E, no Sábado, à 1 da tarde, eu andava por lá, na bike, lá em cima no Trevim, a olhar para o que iria arder daí a pouco no incêndio de Pedrogão

Junho, 17, 2017

A la una de la tarde ...

Não pedalava há mais de uma semana. O dia estava muito quente. Daqueles dias que só havia de vez em quando antes de se banalizarem. Resolvi subir ao Trevim, dos 200 aos 1200 m em 20 km, pelos caminhos da serra. A direito, serra acima. Tudo seco. Algumas bicas de água aqui e ali que bem conheço estavam mortas que nem um chamiço. Umas zonas húmidas onde no Verão sujo a bike de lama, nada. Apenas terra dura. Aos mil metros, a bica de água fria à beira do estradão das eólicas que já me salvou tantas vezes, e que em pleno Verão jorra sempre em força, estava mortiça. Irreconhecível. Ali sob os fetos.




A coisa estava difícil. Em andamento o termómetro na minha bike andava entre os 39 e os 40 C. Ali parado, na bica que fica no estradão das eólicas, sob as árvores estavam 33, uma frescura, tão bem que ali se estava. Ao fundo, o planalto da serra do Buçaco.





Mas não podia parar muito tempo. Estava já em cima da bike, tentando arrancar naquela inclinação (o que não é nada fácil), quando ouço um barulho ao meu lado, mesmo ali. Olho e, por entre os arbustos, sai um pequeno vulto. Uma galinha? Não. O estilo era o da galinha. Pé ante pé, olho em mim, de lado, desconfiado. Um javali muito jovem, muito bonito e pequenino, com listas coloridas no dorso. Ali, a dois metros. Eu estava em cima da bike mas com os pés no chão. Lentamente levei a mão ao bolso de trás para tirar o telemóvel mas, mal pressentiu o meu movimento, assustou-se e fugiu, metendo-se por entre os arbustos. Foi nesse momento que ouvi um urro. A mãe. Estava ali. E eu ao pé da cria. Deveriam vir também beber à bica onde eu estava. Foi o costume. Cabelos em pé, adrenalina por todos os poros, encaixei os pés nos pedais e pedalei o que pude, fugindo por ali acima.
Estava quase no Trevim. Difíceis, muito difíceis aqueles últimos 200 m em altitude.
Nestas circunstâncias não se percebe a paisagem em redor como se a víssemos num écran. Percebia que, de vez em quando, o Sol se escondia nas nuvens. Mas a sensação era a de um céu azul azul por cima. Lembro-me de ter olhado para o céu e pensar que havia umas nuvens estranhas. Mais manchas esfarrapadas que nuvens. Apareciam e desapareciam.
Cheguei ao Trevim, parei. Olhei para Este, para as serranias do Açôr até à Estrela, como já fiz um milhão de vezes. Às tantas olhei para o termómetro na bike: 42 graus C. Estava a 1200 m de altitude.


Só agora percebo, ao ver a fotografia, que para estes lados o céu não estava azul. Castanheira de Pêra e Pedrogão ficam para a direita, fora da fotografia. Comecei a descer por esse lado, dando, depois, a volta para a Lousã. Tive um pensamento estúpido: vai ser das últimas vezes que ando por aqui a pedalar sem fumo.
Ao cimo de Castanheira entrei numa parte da floresta onde há uma bela fonte. Cheguei lá por um caminho entre pinheiros sobre o Coentral. Aí tive um novo encontro imediato do terceiro grau. Desta vez um corço, também jovem, salta para o caminho uns 20 m à minha frente. Belo. Não me esperava porque eu ia silencioso. Correu um pouco, afastando-se e logo se meteu na mata.

Já na fonte 
 

O bem que sabe estar ali num dia como este ia. Mas nunca a vi tão jorrar tão tímida.



Olhei para cima, tentando ver o céu,



 e fui-me embora.

No dia seguinte, Domingo, tentei voltar aqui.  Mas o dia era outro. O incêndio tinha feito o seu caminho. Conto para a próxima.



sexta-feira, 16 de junho de 2017

The bike is a place of healing?

Há 4 anos atrás
(Julho 2013)


Era eu um rapaz novo e a esta fotografia tinha juntado estas ideias para entrelaçar com a paisagem:

"The bike is a place of healing, a source of dynamic challenges, a space for lofty dreams, a guide to inspiration, a vehicle of adventure, a tool to make friends, a sweat therapist, the key to mental and physical well-being, and a life teacher in graceful success and frustrating disappointments"
Sonya Looney


Sem poder pedalar há muitos dias, noto que algumas destas ideias têm um impacto tsunâmico.




domingo, 11 de junho de 2017

Belas e fatais mas mudemos de assunto

Junho 2017

Era para falar das belas e fatais plantas.
É uma história muito bonita em que o sódio e o potássio andam que nem galinhas tontas de um lado para o outro da membrana das células, gastando energia que se fartam pois é preciso uma bomba para os manter separados, o sódio sobretudo do lado de fora e o potássio do outro lado. E é uma chatice quando andam em rédea solta e se equilibram dos dois lados das membranas das células porque assim as coisas não funcionam como deve ser, o cálcio invade a célula como um tsumani, vesículas com neutransmissores precipitam-nos no abismo formado por espaços entre neurónios (e outras células), as fendas, e para rapidamente tirar os noves fora, no meio desta tempestade de moléculas à solta a célula morre que é como quem diz nós morremos. Pronto.
Uma toxina de um tipo de  corais, belíssimos, em alguns mares de águas mornas (por exemplo, mar das caraíbas) inibe a bomba que separa o sódio do potássio. É o tóxico orgânico mais potente. Bastam uns pózinhos, quase nada, para matar. Há outros inibidores desta bomba que põe o sódio e o potássio no seu devido lugar. Por exemplo, nesta planta que encontro por todo o lado durante as pedaladas: a dedaleira



Belas e potencialmente fatais, como, aliás, muitas outras plantas. É por isso curiosa uma idea que anda por aí nos media e na cabeça de muitas pessoas: tudo o que é natural é bom. Às vezes junta-se a esta uma outra ideia muito estúpida: é que é natural e não tem químicos. Até nos media fomentam este tipo de ignorância. É de ficar com os cabelos em pé.




(o cenário é o planalto da Estrela, na linha do horizonte e as fotografias das dedaleiras são apenas um pretexto para mostrar as lonjuras que daqui a vista alcança)

Era para falar nisto e ir por aí fora, dando exemplos de "plantinhas fofinhas" tóxicas, belas e fatais, e até podia incluir escaravelhos e escorpiões e, até, talvez, falar sobre utilização terapêutica destes venenos; o Botox poderia ser um bom exemplo - um dia destes ponho-me aqui a arengar sobre o botox e a toxina botulínica, um composto tóxico potentíssimo, e sobre as cerimónias vodu e às tantas até ponho um vídeo do Michael Jackson sobre os mortos vivos mas mudemos de assunto.

A água que corre na ribeira de S. João na serra da Lousã. A ribeira vai tímida, quase em jejum. Não chove e o ano vai seco. Noutros anos, por esta altura, corre ferozmente.

De onde vem o som da água que corre?

Eu tenho uma teoria (mas que agora não interessa).






Porque o que agora interessa é a água que corre e, como dizia o outro:

Let´s look at the "treilór"

(para ver o trailer com sons em fundo sob o som da água que corre fica aqui a versão de The sound of silence de Paul Simon por Pat Metheny)


e o treilór: