sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Sou um gajo sofisticado, frequento as melhores lojas

Agosto 2017

Devidamente dobradas e arrumadas em prateleiras, seguindo um critério funcional e elementar, não o do preço, mas o da estética. As de selim Brooks ( selim de cabedal feitos à mão pregado com rebites, um clássico) mais à esquerda, outras com material de série mais à direita, cores vivas em vermelho e azul criteriosamente colocadas numa disposição que contrasta com outras de cores mais sóbrias mas sempre com classe.
Impecavelmente dobradas no respectivo suporte. A estante preta, contrastando com a madeira de pinho do soalho.



À entrada uma desdobrada, em exposição e, ao lado, numa pilha, caixas com elas prontas a levar. Ao fundo, a oficina. As luzes estrategicamente orientadas para realçar os aros das rodas que, assim, contrastando com outros componentes, dá a ilusão de estar dobrada apenas em duas dimensões.

Grande discrição. Entramos, cumprimentamos, é-nos oferecida ajuda caso queiramos e somos deixados à vontade. Tocamos no material, tomamos-lhe o peso, passamos a mão pelo cabedal do selim (tentando manter a pulsação baixa e reprimindo a respiração ofegante que, de súbito, de nós se apodera), meia-volta para aqui, outra para ali, olhamos de soslaio os preços e, depois de um obrigado e boa tarde, voltamos à rua com aquele ar de quem vai saborear uma "ainéca" na primeira esplanada.


São as Brompton. Um objecto de luxo. Desdobráveis em 10 s, cabendo facilmente no porta-bagagens de um carro (deixa-se o carro estacionado à entrada da cidade e segue-se de bike).

Também se podem trazer (quase como adereço, combinando com a carteira, por exemplo) no metro e seguir depois, cabelos ao vento, pelas ruas da cidade onde se trabalha. O transporte? Elementar caro Watson:


(fotografia tirada da net cuja autoria não consegui identificar)

Claro que, sendo desdobráveis, há economia de tubos e limitações na robustez, circunstância que leva a perda de algumas funcionalidades face a outras mais clássicas.


(fotografia tirada da net cuja autoria não consegui identificar)



Com a ainéca despachada e a noite a cair, estava na hora de me pôr a andar.










segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O imenso Açôr sob um céu pardo

Agosto 2017

A paisagem poderia ser a da memória. A memória das cumeadas do Açôr. Dos horizontes longínquos. Mas não, foi o que se podia ver.
Somos peritos a preencher os espaços em branco. Olhamos e o cérebro preenche os espaços que faltam face ao padrão armazenado na memória. Muitas vezes, se distraídos, vemos apenas com a memória. Acontece na leitura e na paisagem. E, chegado a este topo, onde já tantas vezes passei tempo a olhar o horizonte, em dias límpidos e céu azul, seria “normal” que num dia como o de hoje - baço, com horizonte indistinto, montes apagados da paisagem pelo ar baço sob o céu pardo, e tendo na memória o recorte do horizonte que não vejo, o planalto da Estrela para Este, o cume da serra da Lousã para Oeste, o Caramulo para Norte, etc, - a minha memória reconstruísse a paisagem, preenchesse o horizonte. Mas não. Vejo o que me rodeia, sem reconstrução. Estou treinado para isso. Sempre fiz este tipo de jogos. Há anos que o faço. Dá-me gozo fintar a mim próprio, perturbar o cérebro, autoperturbar-se. Por exemplo, trabalhei durante muitos anos num local em que um dos acessos se fazia por um longo corredor com paredes revestidas com azulejos do séc. XVII. Mas não eram as paredes que mais me atraíam. No chão os ladrilhos desenhavam um padrão cúbico cuja tridimensionalidade poderia ser vista de duas maneiras. Quando só, caminhava pelo corredor com os olhos pregados no chão, alternando a visão tridimensional em cada passada. Tique taque, tique taque, tique taque, como nos ponteiros de um relógio, ver de uma maneira, ver de outra, ver de cima, ver de baixo, em cada passada, em cada segundo eu via o chão a três dimensões de duas maneiras distintas a partir do mesmo padrão a duas dimensões.

No Verão volto à serra do Açôr. Ao imenso Açôr. Às pedaladas sob céu azul, azulíssimo em todo o horizonte. Sob calor. À medida que se pedala pelas serranias acima, os braços e as pernas brilham; o suor reflectindo a luz do Sol. Mas, desta vez, o céu é pardo. Do marco geodésico onde estou, a cerca de 1100 m, os contornos das serranias diluem-se na distância. Os incêndios dos últimos dias (a toda a volta: da Lousã, a Vila de Rei, ao Fundão e a Castelo Novo) deixaram o ar pesado, turvo por micropartículas suspensas que apagam a paisagem.



Olho e vejo o que me rodeia. Naturalmente, sem qualquer esforço e sem pensar nisso (penso agora), evito que a memória preencha os espaços em branco. O treino permite-me ver sempre de modo novo. E isto, parecendo uma trivialidade, uma Lapalissada, é incomum.


(em baixo a albufeira da barragem de Sta. Luzia apenas com “uma pinga d’água”)

Pare Este, onde imponente se deveria erguer o planalto central da Estrela,  desenhando a linha do horizonte, há um céu baço.



(paragem para as primeiras amoras. Estas silvas rasteiras a esta altitude carregadas de amoras (à esquerda) é uma coisa nova. Não me lembro de por aqui as ver em anos anteriores)

Para Sul.




Este é o caminho (por assim dizer) que me levará lá abaixo, à barragem.





quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Foge-me a sombra

Agosto 2017


Foge-me e eu páro. Já não a conseguia agarrar. Daqui a pouco é noite. Fica por lá a sombra, a subir a serra. Eu desço. Daqui a pouco é noite, pois. E à noite todos os gatos são pardos e as sombras morrem. Diluem-se numa sombra gigante que liquefaz as sombras pequenas. Depois, pela manhã, vem a luz do Sol e mata a sombra gigante, fazendo nascer novas sombras aqui e ali. Ao longo do dia vão tomando diferentes formas, encontram-se umas com as outras e ainda bem porque se não houvesse sombras não sabíamos que havia luz. A maioria das vezes sabemos pelos contrastes. Por comparação. Observamos, comparando com um controlo, digamos assim.




Quando fugiu dei um grito. Embora tenha saído muito longe disso, o grito que queria dar era assim um grito como este que o extraordinário Bryan May - que além de guitarrista é matemático doutorado em astrofísica e um tipo dedicado ao bem estar dos animais, incluindo os humanos, e activo na defesa do ambiente neste planeta - faz neste solo de guitarra na Bohemian Rhapsody.



domingo, 30 de julho de 2017

Como é pedalar na serra? É partir do vale com 30 °C e aos 1000 m ser varrido pelo vento

Serra da Lousã

29 Julho 2017


Fim do dia. Mais um incêndio para os lados de Coimbra. De novo, com a predominância do vento de Norte, a Lousã estava sob uma nuvem negra. E eu pela serra acima de bike. Queria subir acima da nuvem, queria chegar ao Trevim, aos 1200 m de altitude. Cá em baixo, no vale, um ar abafado e cerca de 33 °C. À medida que subia, até lá acima são duas horas bem medidas, começaram a chegar umas nuvens do lado do mar. Negras. Mais ou menos negras que se misturavam com as do fumo. O ar ficava nitidamente mais fresco e o tempo mudava rapidamente. Percebia que o fumo tinha desaparecido. Não o cheirava. Tinha-se diluído, significando que provavelmente o incêndio tinha sido apagado. Ainda não tinha chegado ao planalto (a cerca de 900 m) e já pedalava envolto em nevoeiro. Um nevoeiro que, vindo de baixo, subia a serra puxado a vento.  Gosto disto. Do nevoeiro que varre a serra. Ferozmente. Em dois segundos a paisagem à nossa volta muda entre o opaco, ou translúcido e o claramente nítido. Tudo muda sob a ventania. Depois há o rugido do vento como banda sonora do reboliço à volta. Um grande reboliço.
Habituado a isto, nem me passou pela cabeça voltar para trás. Cortei para a estrada que da EN236 nos leva ao Trevim. Mais um caminho de cabras que uma estrada. Claro que nem vivalma. Nem durante a subida tinham passado carros. Provavelmente sozinho em todo o planalto da serra como tantas vezes acontece. Cada vez mais escuro. Sete da tarde e o lusco-fusco pousava por ali. Já não dava para chegar ao Trevim. O vento forte que inibia as pedaladas, o nevoeiro denso que não deixava ver, a luz a ir-se e o tempo a caminhar para a noite forçaram-me (bem que parte do meu cérebro me motivava a continuar: deixa-te de merdas pá, vamos lá, se caíres levantas-te, conheces isto caraças, se anoitecer qual é o problema não estás na selva amazónica ...) a voltar.
Aos mil e pouco metros, quando estava a  chegar à base do Trevim e seu cone me deveria surgir imponente em frente, dominando a paisagem, era assim:

(parece som de água a correr mas é tudo da ventania)



Aquela parte do cérebro de há pouco tentou convencer-me a descer por um trilho na floresta. Mas, vistas bem as coisas, as coisas não se viam muito bem. As ondas de nevoeiro ora embaciavam ora deixavam ver as árvores.
Devo ter estado para ali minutos sem fim a olhar à volta. Parece que o som forte do vento não conta, que não  perturba o silêncio. Tudo tão belo à volta.



Não era nada boa ideia, dizia-me a outra parte. O nevoeiro húmido e umas gotinhas de chuva fininha nas lentes dos óculos também não ajudavam muito. O friozinho pela espinha acima também não.  Ainda se me atravessa um animal à frente ... Bem, mas nestes dilemas nem sempre é a parte racional ganha.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O dia tem que terminar de alguma maneira; desta vez embrulhado em nuvens de cinzas

26 Julho 2017

Serra da Lousã


De novo um céu negro, cataclísmico, sobre a serra. Num fenómeno curioso a nuvem gigante de fumo e cinza elevava-se a uma altitude bem definida. Vinha do incêndio de Penacova empurrada pelo vento Norte. O Sol, ao pôr-se, espreitava por debaixo da mancha negra. Enquanto filtrada e dispersa pela nuvem a luz inundava de um amarelo estranho, um amarelo irreal, uma cor que deve ter ficado impressa (a fogo!!!) no nosso cérebro hominídeo durante a evolução porque imediatamente nos põe em sobressalto. Não sabemos o que é mas sabemos imediatamente que é alguma coisa ameaçadora.
Mas não uma ameaça dos rol das conhecidas, das normais, como por exemplo tempestade.





Caía uma cinza que, à medida que pedalava, ia pousando nos meus braços. A nuvem ia-se metendo pelo cimo dos vales. Percebia-se um véu translúcido que começava a cobrir o cimo dos montes. Isto amanhã vai estar mau. Se o incêndio não é apagado durante a noite lá vamos acordar no meio de uma nuvem de cinzas e fumo. Foi o caso.

Nota técnica sobre o fogo: para iniciar a reacção química da oxidação da matéria orgânica na presença de oxigénio é necessário ultrapassar a energia de activação da reacção (já agora: a energia da luz do Sol não é, em regra, suficiente).

Experiência demonstrativa: ponham-se umas folhas de eucalipto ou caruma de pinheiros ao Sol na varanda (ou na janela) num dia quente de Verão e espere-se pela combustão espontânea. Vá-se à vida sem stresse e espere-se.
Passados uns dias volte-se ao local. Tudo na mesma? Nesse caso acenda-se un fósforo e aproxime-se a chama das folhas. Observe-se. Há fogo? Então a energia da chama do fósforo forneceu a energia de activação necessária para iniciar a combustão das folhas.

Conclusão: 3x9 são 27 noves fora nada




domingo, 23 de julho de 2017

Pedalar na Serra? É mais ou menos assim (b)

Julho 2017
Serra da Lousã

(segunda arremetida, depois da primeira, para responder ao meu parceiro de reunião).

Na anterior mostrei uma subida pela floresta. À sombra. Desta vez, a subida é sob Sol intenso. Por uma cascalheira acima. Íngreme, embora não pareça. Cabeço da Ortiga nas costas. Também nas costas o vale da Beira a Oeste até ao mar (por vezes vê-se o mar - em dias limpos pós-chuvada das boas para limpar a atmosfera).  A chegar aos 1000 m de altitude. Em frente, para Este, as antenas do Trevim (o topo da serra da Lousã aos 1200 m). Para Sul, para o lado direito, o vale em anfiteatro por onde corre a ribeira de S. João. Nas encostas opostas àquela onde estou, e por entre os pinheiros, as aldeias de xisto (exlibris da serra).
Aos 1000 m o caminho por onde subo entronca no estradão das eólicas. Aqui, neste entroncamento, abre-se o horizonte. Para Norte até à serra do Caramulo. Para Nordeste a cordilheira da serra do Açôr com o planalto da serra da Estrela na linha do horizonte.


Aos 1min:24s cai-me o capacete (levava-o no guiador, não na cabeça).

Aos 3min:4 s sai-me sem querer uma exclamação: veados!

Parei. No meio do estradão, na curva ao fundo, 2 ou 3 veados parados a olharem-me. Belíssimos. No vídeo, devido às lentes do tlm, parecem mais longe do que, de facto, estão. Vejo-os claramente. Arranco na sua direcção. Fitam-me durante mais 10 s. Aos 3min:14 s fogem pela esquerda, ágeis, belos, velozes. São 3 e são jovens. Durante uns segundos conseguem ver-se, correndo encosta abaixo, logo depois da mancha verde dos fetos. Um bailado.





Fui parar para o repasto num bosque de carvalhos, um pouco mais à frente. Encostei a bike a um belo carvalho, cuja copa frondosa fazia uma sombra acolhedora, puxei da banana Porto Riquenha que descasquei devagar, num ritual que permite dar importância aquele pedaço de fruta como se fosse a última banana do deserto e dei a primeira dentada com prazer - ah pois, não é parar e abocanhar a banana, engolindo-ae sofregamente. Depois, um golo de água da torneira que trazia no cantil com a tecnologia PURIST de que já aqui falei (sem bisfenol, sem sabores de plástico, aprovada pela Food and Drug Adminstration para recipiente de alimentos - e estas coisas não são treta).

(o efeito é de uma aplicação que vi no blog da UJM que tinha visto no blog da Gina que tinha visto no blog da Linda Blue que tinha visto, likely, no telemóvel de um primo emigrante na Suíça)


quarta-feira, 19 de julho de 2017

Adagio em Sol neblínico menor

Serra da Lousã
(Julho 2017)

Floresta a 1000 m de altitude. Latitude é a que se quizer.

O Adagio do olhar transforma-se em Andante no coração (talvez uns 100 a 120 batimentos por minuto). Uma celebração da beleza.






Há uns anos, ouvi este Adagio como banda sonora de um filme. Não sinto melancolia nem tristeza quando ouço esta música, mas enlightenment - não me ocorre nenhuma palavra de jeito em Português (excitação encantatória hiper-realista é esquisito, não é?)