domingo, 1 de outubro de 2017

Serra da Lousã neblínica e de como as árvores colhem a água e a transformam em chuva

Serra da Lousã
Finais de Setembro de 2017


É o tempo da brama. Ao final do dia, o bramar dos machos ecoa pelos vales. Possante. Sobretudo ao final do dia, quando a luz do Sol se mete pelos vales e incide rasante nas cumeadas. Pelo menos é quando os ouço com mais nitidez. De súbito aquele som enche os vales, ergue-se sobre o silêncio que se instala com o por-do-Sol. Por vezes também os ouço durante o dia mas sem sentir o arrepio pelas costas acima provocado pelo bramar dos começos da noite. Começa  lento e baixo, vai aumentando, atinge o auge e depois decresce de intensidade. Depois, fica o eco. Como uma estrela cadente que se aproxima como um risco de luz e que explode antes de morrer.  O timbre não é tão grave como se poderia esperar. Não é nem um trompete nem um contra-baixo, é mais um saxofone tenor. 
A serra está seca, os riachos ruidosos do Inverno estão mortos. Num ou noutro apenas um fiozinho de água. E penso muitas vezes onde vão os veados beber. Devem andar cheios de sede. E são muitas centenas, milhares até. Sobretudo nesta altura da brama, em que procuram as fêmeas para acasalar. Com a actividade física adicional ainda devem ter mais sede. As perseguições (deles) e as fugas (delas), os encontros, as lambidelas, o roçar de cabeças, o levantar e baixar e colocar em posição, e por aí fora, faz sede. Tenho evitado as únicas fontes que, na serra, ainda jorram. Os animais também as procuram e encontros imediatos do terceiro grau com javalis sedentos podem ser "desagradáveis". No dia do incêndio de Pedrogão, um javali jovem, provavelmente sedento, aproximou-se da fonte onde eu estava; a mãe vinha logo ali.
Ia a pensar nisto enquanto pedalava serra acima. O dia estava densamente neblínico. Quase que não via um palmo à frente do nariz. Abria a boca, experimentando a sensação da humidade. Sente-se a humidade na ponta da língua. Os veados devem fazer o mesmo, pensei. Ou, às tantas, chupam as folhas da vegetação húmida.
Levava a comida do costume, pão com marmelada e banana mas, à medida que subia por caminhos de terra, fui comendo medronhos e castanhas. Começa a altura deles e delas (dos medonhos e das castanhas). Nos medronheiros reparei que só havia frutos vermelhos acima da minha altura (1,80m), abaixo estava tudo rapado. Ah, pois é! Os veados vêm aos medronhos. O chão junto aos medronheiros pisado suportava a ideia. A partir de hoje apanho só os mais altos, deixo-lhes os outros.

A primeira parte da subida foi feita por entre pinheiros e num silêncio abafado. Pelos pinhais que cobrem as encostas mais baixas da serra. O chão atapetado de caruma e o o ruído das rodas pisando-a era o som mais intenso que ouvia. De vez em quando um chilreio, um assobio; aves que por ali andavam.


Às tantas, olhei para o lado e tive uma sensação de dejá vue. Caraças, como é possível?


Pintei isto à dezenas de anos. Uma floresta. Era novo e foi uma altura em que pintava muito, ou melhor na medida em que tinha dinheiro para tintas, papel e pincéis. Em vez de estudar, que era o que andava ali a fazer, pintava. Mudámos de milénio e só agora, pela primeira vez, passo na floresta que tinha na cabeça e que pintei no anterior milénio.


Ia ganhando altitude, esperando que o Sol abrisse. Mas nada. Ao contrário, o nevoeiro, mesmo quando a mata permitiria ver mais longe, tapava ainda mais a paisagem.



Por ali fora com os sentidos em alerta; olhava à volta, ouvia e interpretava os ruídos, cheirava ... não queria apanhar um susto com algum encontro inesperado.

Fui subindo até que cheguei à floresta das grandes coníferas (cedros e abetos com carvalhos e castanheiros lá pelo meio).
Aqui, nesta floresta e neste ambiente, perdem-se a dimensões do espaço (as do tempo ainda se vão primeiro). Tudo invulgar. Parece haver só uma dimensão a toda a volta. Não há para a frente ou para trás, para cima ou para outro lado. É preciso estar lá para perceber.


Meti-me um pouco por ali adentro e, de repente, estava a levar com chuva em cima. Caíam-me gotas
de água em cima. O chão todo molhado.


Fora das árvores, no caminho largo que atravessa a floresta, tudo seco, a bike a levantar o pó à medida que pedalava.


Lá dentro chovia.




Sob o céu, fora das árvores, apenas nevoeiro. Não chovia.



Ia na expectativa de, a todo o momento, ver um vulto furtivo por entre o nevoeiro. Esgueirando-se por entre as árvores, por detrás da cortina de neblina.


Sabia que os veados andavam por ali. De vez em quando ouvia sons de folhas pisadas, outras vezes, mais de meia-dúzia, sentia um cheiro intenso. Um cheiro semelhante ao que se sente quando se está perto de um rebanho de ovelhas ou de cabras. Um cheiro de que gosto. Orgânico, fundo. O cheiro dizia-me que tinham por ali passado momentos atrás. No chão os cascos impressos na terra, frescos, confirmavam que por ali andavam. Não os vi. Via as folhas dos carvalhos a agitarem-se ligeiramente, ouvia o som da chuva que caía sobre as folhas no chão da floresta, parecia-me ver um vulto e logo percebia que era um tronco cortado, um ramo ao vento ou talvez tivesse visto. Devemos ter-nos cruzado nos caminhos mas o ambiente invulgar fazia-me perder referências de espaço, de orientação e, até, do entendimento dos dias normais.


Eles facilmente me pressentiriam. As rodas da bike fazendo o caminho sobre as folhas caídas, pisando-as ruidosamente, assinalavam a minha presença. Era como se levasse uma campainha.



Nem no estradão passaria despercebido. Não seria um fantasma para eles como parecia que eles eram para mim (cheiro-os, ouço-os, vejo as pegadas mas não os vejo).

Talvez ainda por ali andassem, por entre o nevoeiro, imóveis, observando-me. Talvez me vissem como um fantasma que se afastava na paisagem, diluindo-se no nevoeiro








Pedalava inquieto; chovia apenas de um e de outro lado do caminho. Até no caminho, sob a copa das árvores, o chão estava molhado, enquanto que nas zonas sem árvores encontrava-se seco.
E que colecção de cores, com o véu de neblina em cima ! Nas árvores, nos arbustos e no chão. O que eu gosto deste chão. Um chão virgem, vivo, dinâmico, aparentemente caótico.








Sob os grandes cedros a chuva era tão intensa que fazia poças de água no chão. Mas apenas sob a árvore. Impressionante.


Logo ao lado, afastando-me, saindo de baixo da árvore, tudo seco.




A fronteira é clara no chão. Seco do lado esquerdo (a parte clara) e molhado do direito (a parte escura).

O nevoeiro era intenso. Condensava no guiador da bike, formando pequena gotas de água, nos óculos ... e nas folhas das árvores. As folhas das árvores, aos milhares, serviam de antenas de condensação da água da atmosfera (na forma de aerossol, nevoeiro), facilitando a formação de gotas que, pela gravidade, caíam para o chão. Milhares de folhas, cada uma com muitas (dezenas, centenas ?) gotas de água, davam origem à chuva, simulavam uma bela chuvada. Ouvia-se, via-se e sentia-se. Extraordinário. As árvores colhiam a água da atmosfera, devolvendo-a ao solo. Assim, as árvores colhem a água e devolvem-na ao solo, regando as plantas que nascem por ali e ... elas próprias. As folhas, especializadas em colher a energia da luz do Sol (fotossíntese), para unir átomos que formam moléculas mais complexas que, por sua vez, alimentam animais ... colhem também a água que vai alimentar as suas raízes. As folhas são impermeáveis e a água de que precisam para a fotossíntese vai chegar-lhes mas através das raízes, numa longa viagem pelo tronco acima (só possível porque a água é uma substância cheia de segredos - por exemplo, quando se detecta água em Marte ou em Europa associa-se a sua presença à vida). Eu conheço um dos segredos da água.

Pela primeira vez este ano, que vai seco, seco, devido ao nevoeiro, a floresta estava húmida. Havia poças de água no chão. Pensei que os animais deviam estar satisfeitos.

Fui subindo, esperando que a partir de certa altitude o céu se abriria em azul. Antevia a visão do vale imerso em nevoeiro (como já noutras ocasiões aconteceu). Cheguei a Cabeço Marigo, aos mil metros e os palmos que via à frente do nariz eram sempre os mesmos, muito poucos.


Talvez no Trevim, no cume da serra. Duzentos metros mais acima (em altitude). Talvez aí tivesse a visão que antecipara quando comecei a subir a serra: ao Sol, sob céu azul, acima das nuvens que cobririam o vale. Mas já não tinha tempo para ir até ao Trevim. Pedalei por ali, no planalto. Sem grandes subidas conseguia uma maior velocidade, sentindo mais intensamente o ar fino e húmido. A certa altura, levantou- se um vento vindo de baixo que trazia o nevoeiro dos vales que em golfadas dobravam o planalto, passando para o outro lado da serra. A paisagem transformava-se de minuto a minuto, ora fechada e cinzenta ora aberta e azul. Voltei para trás, estava na hora de descer e, quando passava de novo no Cabeço Marigo, viam-se já os cumes da serra sob o céu azul.
O Sol dissipava rapidamente o nevoeiro.


Mais abaixo, a luz entrava também pela floresta, deixando ver o que o Outono traz.



A memória das pedaladas serra sombria acima, horas atrás, dissipava-se tão rapidamente quanto nevoeiro com o Sol. A serra neblínica varrera-se-me da memória, ficara nas fotografias.

















terça-feira, 26 de setembro de 2017

Encontro imediato do 3º grau. Que macho belo !

Serra da Lousã
(Setembro 2017)


A par do Binómio de Newton e da Vénus de Milo. Talvez meio passo à frente. Ou melhor, meio casco.

Tinha parado no vale aberto por trás do cabeço da Ortiga, com vistas para o Trevim, para comer o pão com marmelada que trazia no bolso da camisola. Já lá iam uma hora e tal a pedalar serra acima. As torradas com doce de cereja (com caroços, obviamente - gosto de enrolar os caroços na língua) que tinha comido ao pequeno almoço já tinham dado a glucose que tinham para dar.  Durante a subida as pedaladas tinham-me levado por caminhos estreitos por entre mimosas, por picadas inclinadas e poeirentas, estradas de terra a meia-encosta e, pouco antes de ali chegar, por uma floresta cheia de sombras. Gosto de parar neste sítio. Vistas largas. Para um, outro e outro lado da serra, sobre o vale e, para cima, a visão do Trevim. Aos 900 e tal metros já se sente o ar mais fino, há um sabor bom, um aroma a montanha.
Deixei a bike e o capacete no caminho à sombra de um pinheiro. Ao dar uns passos com o cantil da água numa mão e o pão com marmelada na outra reparei que logo ali, um pouco à frente, rente aos arbustos e sobre os pinheiros pequenos, parecia planar uma ave. Vi mesmo alguma coisa? Havia qualquer coisa de estranho. Por isso duvidei. O planar era demasiado estável e lento para uma ave.



Fui espreitar, aproximando-me ao largo, em semicírculo. Com cuidado. De novo, um pouco mais à frente, mas muito perto, vi o que desta vez parecia ser uma cauda. Fiquei imóvel. Lentamente pousei o cantil e o pão no chão. Olhei em redor, tentando encontrar um pau. Porra, nada. Não me mexi. Estava na expectativa. Que caraças é que vai aparecer por entre os arbustos? Se fosse um cão teria que ser pelo menos do tamanho de um serra da Estrela. Silêncio. Eu imóvel. Nada na mão, nada na manga. Sem dar por mim (não havia vento) em leve trote, elegante, soberbo, afastando-se do local onde eu estava, surgiu de entre a vegetação um macho. Uma armação impressionante. Grande, imponente, magnífico, sem pressas, majestático, como quem percorre o seu território. Ali. Logo ali. E eu imóvel. Em silêncio. Não deu por mim. Foi indo, possante e leve ao mesmo tempo. Já vi muitos veados na serra. No dia anterior tinha feito vários avistamentos. Vários fêmeas que se assustavam à minha passagem. Setembro-Outubro é a época da brama. As fêmeas andam inquietas e os machos muito mais tentando atraí-las. No final elas escolhem. É sempre assim, as fêmeas escolhem os parceiros. Desta vez, o encontro imediato, a poucos metros, foi tranquilo. Eu imóvel e o belo macho passou calmo sem me pressentir, como se eu não ali estivesse. Afastou-se, subindo o monte, saltando (quase que voando) sobre as pedras e os arbustos. Que elegância. Então, e só então, levei a mão ao bolso de trás da camisola, tirei o telemóvel e apontei para o local onde se encontrava, já um pouco longe. Clique, clique, clique. Acho que aí ele pressentiu alguma coisa. Espevitou-se e num galope mais esforçado afastou-se. Atravessou o estradão das eólicas.

Ei-lo.






Claramente, tinha dado conta que eu estava por ali. Fui ao seu encontro. Fugiu a galope. Atravessou o estradão e desapareceu encosta abaixo. Como é possível galopar por ali?



Que par de cornos ! Foi a última coisa que vi.


Peguei na bike, pedalei pelo estradão, tentando vê-lo, serra abaixo. Sem sucesso. Sumira-se por ali abaixo. Rapidamente deve ter chegado aos pinheiros lá ao fundo.
Fiquei ali especado a olhar o horizonte: o planalto da serra da Estrela na linha do horizonte ao centro e, á direita, o cone quase perfeito do picoto da Cebola, o cume da serra do Açôr onde tinha estado umas semanas atrás (3 posts mais abaixo)





sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Da natureza da luz entre o dia e a noite

Agosto 2017

Serra do Açôr





6 min e 14 s. É este o tempo para olhar as fotografias, para mergulhar na imagem e passar para o lado de lá. É este o tempo que Max Richter usou on the nature of day light.



Quando se começar a sentir o vento, um sopro morno vindo do lado direito que vai e vem como as ondas, está-se quase lá. Está-se a passar para lá.



A bike ali no meio do caminho. Quer dizer, aqui não há caminhos ou, pelo menos, há um caminho que se desdobra e multiplica em mil outros.


As cumeadas aos mil metros.
A luz morre nos vales. Vales que se afundam umas centenas de metros.  A erva rasteira, dobrada ao vento, reflecte-a nos cumes.








quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Os vulcões da serra do Açôr

Agosto 2017

The Açôr´s ring of fire

Os nomes perdem-se na memória de quem por ali vive. Já ninguém se lembra de onde vêm os nomes originais. Nomes estranhos. Murmuram-se nas noites frias de Inverno na penumbra dos cantos que a luz da fogueira não invade. Diz-se que, de vez em quando, os monstros acordam. Mais nos Verões quentes. O fumo aparece primeiro, a anunciar as chamas, depois, com o tempo, é o ar se torna quente, denso e translúcido. Ultimamente todos os anos. Um castigo e valha-nos isto e mais aquilo. E vão mas é dar uma volta que o problema resolve-se num ápice, caso se queira. A fatalidade nos olhos e nas mãos levadas à cabeça de quem por lá vive aflige. E murmura-se. Dizem que há muitos anos não era assim.


Este é o vulcão  Eyjafjallajökull. Em Português moderno significa: "outra-vez-o-caraças-de-um-fogo-posto".

Expele um fumo cinzento com partículas em suspensão. A nuvem primeiro eleva-se em bolsadas, como num vómito, depois abate-se sobre o chão, quilómetros em redor, deixando-o coberto de cinza. 
 


Este é o Monte Damavand. Em Português moderno: "é-todos-os-anos-a-mesma-merda".

Um cone quase perfeito já acima dos mil metros de altitude. Tinge o azul do céu com uns borrões cinzentos e castanhos. Do lado de lá é o inferno; deste a terra rude, bela e limpa sob o céu azul.





Aqui temos  Ol Doinyo Lengai. Em português "eh-pá-a reacção-de-combustão-precisa-de-energia-de-activação-para-se-iniciar-qualquer-químico-sabe-isto-por-exemplo-um-fósforo-é preciso-fazer-um-desenho?".

Este é como as lagartixas. Corta-se-lhes o rabo e torna a crecer. Apaga-se de um lado e, passado algum tempo, está a brotar fumo do chão ao lado. Fenómeno estranho. Uma dança de fumo e fogo. Imprevisível.





Não muito longe, ali logo ao virar da esquina o Etnadoaçôr. Ou seja, "se-o-vento-vira-estamos-quilhados-vem-para-cá"

 Tímido, inicialmente, logo se agiganta à medida do vento e do calor do dia.



Sobre a barrragem de Sta. Luzia, um dos maiores, o "Dassss-que-visão-infernal".




Este é um dos que é activo só pela manhãzinha, ao nascer do Sol. Aqui percebe-se a origem do nome "Filhos-da-puta-nem-dormem". No original: Ale Bagu.



O "Dassss-que-visão-infernal" visto de um outro ângulo. Um ângulo obtuso.




E as noites frias de Inverno são passadas frias no esquecimento dos vulcões activos no Verão. E alguém diz: deixem chegar o Verão e verão. Mas ninguém liga.