A continuaciondepois da subida à Torre, já na descida, pedalando pela estrada, quando passava pelos Piornos, os caminhos graníticos cobertos urze do lado esquerdo, do lado do planalto que se estende até Manteigas, foram um chamamento irresistível. O vento trazia-me o som doce de cítaras e sonoras flautas tocadas por musas incautas, de cabelos de ouro, correndo e acendendo o desejo ... bem, quer dizer, a continuacion, nem dei conta. Quando dei por mim ia já no planalto a rodar no chão que conheço bem. Conheço-o de outros tempos, dos tempos em que por ali havia rebanhos, centenas de cabras e ovelhas e cães da serra grandes com coleira de picos que, percebendo-nos a km de distância, vinham ter connosco, mandando-nos dali para fora (com modos de cão da serra com coleira de picos, bem entendido). Tempos em que me perguntavam: mas o que é que vais fazer para a serra? E, na altura, seguindo o conselho de Pitágoras (tout n'est pas à dire), nada explicava porque estava seguro que às minhas palavras seria devolvido um olhar de estranheza e perplexidade (mas o que raio é que este gajo está a dizer, a falar das pedras e do vento e das raízes e do céu à noite ...?)
Agora há por ali um estradão de terra.
Percorrendo-o, dei com um dos "casais" usados para a pastorícia a grande altitude; uma pequena casa de pedra com coberto de colmo para os pastores e um curral adjacente. Em ruínas. Lembro-me destes planaltos acima dos 1400 m de altitude cobertos de ovinos a pastar.
Depois de velejar por ali, pelo planalto, estradão que não gerava preocupações de maior, uma travagem aqui, outra ali mas sem stress, mais ou menos plano, à bolina, por entre pedregulhos em equilíbrios impossíveis, o caminho estreitou-se e comecei a descer.
Logo depois, num passe de magia, ainda mal refeito da tensão que apanhei na descida, desviando-me de regos e pedras, travagens bruscas, equilíbrios para manter o centro de gravidade na bike, vi-me a percorrer caminhos por soutos a meia encosta.
Estava na hora de repor a glicémia com umas belas de uma castanhas. Frescas e boas, acabadas de sair dos ouriços (o cleat the metal do sapato de encaixe é um excelente extraidor de castanhas de ouriços, poupando assim os dedinhos às picadas).
Estando por ali, a olhar e a cheirar, às tantas, como acontece em tantos outros sítios na serra, chega aquela sensação estranha: se calhar é melhor ir andando, o Sol já vai baixo. Vem ao cimo a ideia de ter que ir embora.
Sigo? Por ali?
Vamos lá
Faltava ainda descer umas centenas de metros em altitude para o vale do rio Zêzere e tornar a subir para tornar a descer.
A cerca de 15 ou 20 km da chegada, ao aproximar-me da terra onde nasci, nas fraldas da Estrela, na periferia da cova da Beira, o Sol ia já muito baixo. Escondia-se por detrás da Estrela. A Gardunha, no horizonte, tinha ainda os cimos alumiados. A noite apanhou-me no caminho.
(cadeia montanhosa da serra do Açôr-serra da Lousã vista da Torre, serra da Estrela)
O magnífico Açôr.
Já este ano pedalei até ao cimo dos três gigantes do Açôr (Picoto da Cebola, S. Pedro do Açôr e Colcurinho). Estão por aí as fotografias. Também já este ano fiz a travessia do Açôr até ao Trevim (no horizonte), na serra da Lousã. Ainda hei-de pôr aqui as fotografias. Hoje, grande parte, sobretudo as encostas Norte - à direita - estão negras, ardidas.
(como toda a gente que anda de bicicleta sabe, quando andamos de bicicleta fazemos parte da paisagem)
visto da magnífica Estrela
(desfiladeiro de Loriga, 900 m de desnível, o maior da Estrela)
onde, mesmo nos dias mornos, ao anoitecer, corre o vento fino, finíssimo e frio que corta a pele e varre o planalto acima do 1900 m.
A continuacion les presentaremos otra galeria de fotos en próximo post
A las cinco en punto de la tarde tinha pedalado até meia encosta. Saíra tarde. O Sol põe-se às 6 mas não resistira ao apelo do cheiro da terra molhada, da mata húmida, dos vapores que a terra libertava, das plantas mortas no chão, dos arbustos e das árvores. Que se lixe, é tarde mas vou à mesma. Logo verei.
A las cinco en punto de la tarde a noite caía e com a noite um nevoeiro denso assentou por ali arraiais.
Pedaladas numa solidão intensa, um silêncio abafado pelo nevoeiro, o corpo contraído pela atenção.
It was dark and I did not go home. A perfect day
I took the road to nowhere
A escuridão caía rapidamente. A que a noite trazia era previsível. A que o nevoeiro acentuava não. Não iria haver lusco-fusco. Contava com isso mas a transição iria ser rápida; agora é dia, 5 minutos depois será noite. O apelo da serra tinha apagado a meia dúzia de neurónios que me iam alertando para a necessidade de voltar para trás. Mais abaixo não há nevoeiro, volta para trás enquanto podes. Mas, depois, parava, olhava à volta e ficar por ali mais uns momentos era uma apelo irrecusável. Via a situação como um privilégio.
Mas estava tenso. O silêncio intensíssimo, indescritível, quebrado aqui e ali pelo agitar das folhas, por um ramo que caía, um som de folhas pisadas (ou não?, animais por ali?), e não via a ponta de um chavelho à frente do nariz. Cada vez mais escuro e eu sem luzes na bike.
O que vais fazer pá? Voltar para trás? Pelo estradão de terra? Ainda há alguma luz mas e os buracos, as pedras, os paus ... ainda dou um malho ... talvez a melhor hipótese seja tentar atingir a EN236. Conheço-a bem, cada curva, o piso asfaltado é mais seguro ... mas isso quer dizer que tens que subir mais uns 2 ou 3 Km pá, só a consegues apanhar lá mais acima e subir 2 ou 3 Km leva tempo e nesta altura cada minuto conta e, além disso, quanto mais acima mais cerrado estará o nevoeiro, ah, é verdade!, hoje há Lua cheia, pois é, a Lua levanta-se ao começo da noite, posso apanhar mais nevoeiro mas a luz da Lua fará do nevoeiro um céu cheio da luz difusa e, mal desça alguns Km, o nevoeiro dissipa-se (ah ah ah ah ah diz-me a meia dúzia de neurónios que formam a estrutura que gera o bom-senso) e ainda vou fazer uma descida da serra belíssima sob a luz da Lua cheia. É isso. Continuo a subir e apanho a EN236 no cimo da serra.
Pedalei em força, o mais rapidamente que pude. Tenho que ter cuidado, os animais nestas condições andam mais à vontade e eles andam por aí. Posso chocar com algum. Grito, se me aparecerem à frente da roda, grito: sssshhhhôôôôôôô.
Levantou-se vento. De vez em quando, ao passar por baixo de ramos dos altos cedros, o vento sacudia os ramos carregados de gotas de água em cima de mim. Uma chuveirada que me agradava.
Cheguei ao cimo. Estava a cerca de 1000 m de altitude e a 18 Km da vila. A estrada de alcatrão molhada tinha um brilhozinho que me permitia ver uns metros. Talvez 2 ou 3 comprimentos da bike. Fui indo. Percebi que o equilíbrio em cima da bike nas curvas no meio da escuridão é instável, como que uma vertigem. O diabo é se há animais no meio da estrada. A pé? Com este sapatos com encaixes de metal nunca mais lá chego. Com alguma sorte passa um carro, vem devagar, concerteza, e eu aproveito a luz mas nada, nem um. Quem é que se iria meter na serra com uma noite de lobos destas? Seguia contraído, devagar, sempre a travar, curva à direita, ah pois é agora estou a passar junto aos carvalhos grandes, curva à esquerda, pois, agora aqui é o riacho e a fonte que alguns, erradamente, chamam de fonte fria. Um peso no peito e o nevoeiro que não se ia embora. Parecia que não vinha ali, que estava num filme. Tudo me parecia irreal. Apenas os "imbalanços" ao curvar na bike me diziam que estava ali. Às tantas, faço uma curva e uma grande alvoroço; 2 ou 3 veados, cada um a correr para seu lado, apanhados de surpresa, no meio do nevoeiro e da noite, aparece-lhes ali um vulto silencioso, lento mas suficientemente rápido para quase chocar com eles ao desfazer a curva. Os veados têm trilhos na serra (percebi isto há algum tempo: eles vão fazendo trilhos que depois usam para se deslocar) que, por vezes, cruzam a estrada asfaltada. Um deles derrapou à frente da roda dianteira da bike, correndo numa direcção para logo dar meia volta e fugir para o outro lado. Subiram todos pela barreira do lado direito. Eu levei um choque adrenalínico brutal, nem parei, foi tudo num instante, tive um arrepio pelo corpo todo, pêlos eriçados, caraças tinha que acontecer. Nem percebi bem o que se passou. Ver os corpos grandes ali à minha frente, em movimentos rápidos, nem sequer sei se travei ... na memória tenho apenas "fotografias" do que se passou, não tenho o "filme". Ou melhor, tenho o filme dos acontecimentos mas com espaços em branco. Como num sonho, em que não ligamos acontecimentos numa sequência temporal.
Mais abaixo já não havia nevoeiro. Pelo menos esta parte do plano estava a correr bem. Mas da Lua nada. O tecto denso do nevoeiro sobre a serra impedia que qualquer fiozinho de luz o penetrasse. Mas via melhor. Foi quando comecei a sentir frio. Até ali o meu cérebro não se preocupou com frio, tinha outras prioridades (fazemos isto no dia a dia: uma coisa que nos preocupa é tamponizada por outra de maior gravidade, há uma hierarquia na consciência que, provavelmente, imposta pela Evolução, é útil à sobrevivência). Sentia o frio nas mãos e nos pés.
Cheguei ao Candal, a única aldeia na EN236. Luz (durante 100 m).
Só faltavam 11 km até à vila.
Direita, esta é a curva do depósito de água, esquerda ... direita ... ao aproximar-me da vila, quando comecei a ver as luzes ao longe, percebi que tremia quase descontroladamente, e não era (apenas) do frio. Começaram a doer-me os maxilares, devo ter vindo a cerrar os dentes todo o caminho, os ombros e as mãos, colados no guiador, contraídos. Tive que me abanar, respirar fundo, berrar ... para regressar ao estado basal. Já antes tinha descido a serra de noite e sem luz mas nunca em modo tão potencialmente dramático.
Onde ontem (Sábado), a las cinco de la tarde, era assim,
hoje (Domingo) ali, ali perto, a la una de la tarde, era assim
Tinha parado. O caminho atravessa a floresta. Estava uma brisa fresca mas boa. Já levava mais de uma hora a pedalar serra acima. Cada vez mais me detenho pelas coisas mais insignificantes, para as ver com mais tempo; um pau, castanhas, musgo, um espelho de água, pedras, nuvens sobre os cumes, insectos, a brisa, o horizonte ... Em fundo, ouvia-se o som dos milhões de folhas a oscilar na brisa (como num farol se ouve o mar à noite) e, de vez em quando, um ruído mais perto, mais intenso; ouriços com castanhas que caíam dos castanheiros.
Eu ali, encostado à bike, sem fazer nada, apenas ali a olhar à volta. Às tantas, na encosta em frente, a uns 50 m, logo ali, uma manada de veados, talvez uns 8 ou mais, jovens, correndo pela meia encosta mas mantendo a distância para o local onde eu estava. Acho que de início não devem ter dado por mim. Tirei o telemóvel, tentei ligá-lo mas não ligava, punha o dedo, tirava o dedo e nada. Eles ia correndo, afastando-se. Lá ligou, já eles iam longe. O movimento dos gamos e veados é de uma beleza e elegância extraordinárias. Fiquei ali especado. Ao tempo que os não via. Com o tempo seco que tem ido não têm aparecido. Devem, talvez, repousar mais, poupando energia. Não andam tanto por ali, graciosos, como é seu hábito.
(fizeram a meia encosta à frente e em cima num percurso de 180 graus. Apareceram pela esquerda e foram-se pela direita)
Que momento ! Eles a olharem-me de esgelha, a medir-me, tentando progredir pela meia encosta mas prestando atenção aos meus movimentos. Depois, de novo, apenas o som do vento nas árvores em fundo e ouriços com castanhas a cair. Mas ..., espera, um ruído que não é de ouriços, folhas a serem pisadas, ali do outro lado, ali do lado de baixo do caminho, dois gamos pequenos muito jovens. Não deram por mim. E nesta altura tinha ainda o telemóvel na mão. Clique.
(Ao centro em baixo. Ampliando vê-se claramente um deles, entre a árvore grande mais perto e uma pequena ao fundo, a caminhar para a esquerda)
Liguei o vídeo. São dois. Estão em baixo, ao centro. Ampliando vêm-se bem. Tranquilos. Não deram por mim. Às tantas, assobio e começam a correr.
Foram-se. A brisa intensificou-se, como se os levasse, os ajudasse a correr, os empurrasse para longe.
Também eu me fui dali. Passei ainda na Fonte Fria. A água, geralmente limpa, estava parada. Folhas a boiar, reflexos baços, a fonte não parecia fria mas mortiça e morna.
O duende da fonte, que por lá já antes o tinha visto, apareceu de novo
Depois, sentado nos degraus de pedra da fonte, comi uma banana e vim-me embora; tinha umas postas de salmão para grelhar para o almoço. Vim na brisa também, a navegar à bolina.
Tudo a correr sobre rodas. É hoje ou amanhã que se declara a independência? Hoje às cinco da tarde - diziam muitos. Hum, amanhã, murmurava o tipo do bigode. Na agenda dos afazeres profissionais, num apurado e bem negociado exercício de corte e costura, consegui um buraco de 2h. And here we go. Duas horas às voltas. Já tinha topado onde ali perto havia lojas de aluguer de "bicis". Tudo organizado. Carris (ciclovias) no meio das avenidas, semáforos para peões, bicicletas e carros, cruzamentos marcados e por aí fora. Claro que sim, há sempre espaço para a improvisação pelo meio dos passeios com cuidado (o pior foi quando, junto à Sagrada Família, tentei furar pelo meio de um grupo de Japoneses: abordado por um polícia municipal e ameaçado com uma multa de 200 euros e que ali não era uma república das bananas, claro que não, disse eu, é mais bocadillos).
Tudo a correr sobre rodas. Eu seguramente. Nas esplanadas os bocadillos e as tapas corriam garganta abaixo empurrados por umas canas. Tranquilamente a vida rodava na forma do costume. Os meus colegas catalães preocupados, inquietos mas profissionais. O que achas, perguntava-lhes. Eles, pessoas educadas, informadas e formadas que, por regra, são assertivas, respondiam como nós fazemos sobre quase tudo aqui em Portugal; encolhiam os ombros, não sabiam. Uma delas (mulher), ao meu lado durante um jantar, reduziu a disputa Madrid-Catalunha a uma equação simples: demasiada testosterona.
Todos, no entanto, falando orgulhosamente como catalães, mas sem invocarem ideias de independência, afirmavam que tal como tem sido a relação (Catalunha-Madrid) não pode continuar. Acho que percebi a coisa. Portanto, eleições (como ouvi hoje, dia 27, o Sr. D. Rajoy anunciar em Madrid com aquele ar enfastiado dele de quem não convence ninguém) para ficar tudo na mesma como dantes (autonomia com trela) não me parece que resolva alguma coisa.
Junto à Universidade foi o único local onde vi alguma agitação
A Plaza de Espana (que ironia) tudo normal
That´s my bike. Parado no semáforo. Circular de bike é uma parte integrante do sistema de transportes em Barcelona. Uma situação a 50 anos luz da decoração ciclovílica que se faz nas nossas cidades para Inglês ver.
Tinha visitado a Sagrada Família há uns anos. Um espanto. Desta vez, fosse pelos mil milhões de turistas a toda a volta, as cercas de arame por todo o lado que lembravam Guantanamo, os acabamentos a betão claro em cima do que já está edificado, o ruído, os andaimes ou outra coisa qualquer, foi muito menos emotivo. Lá tirei a fotografia da praxe do único ângulo que consegui.
Num contraste mais ou menos óbvio com a catedral icónica, outro ícone vi por lá. O expoente do narcisismo: Absolut Warhol
Provavelmente, nada ficará como dantes. Nem na Plaza de Espana em Barcelona. E quando lá voltar vamos a ver se arranjo uma bike melhor.
Última reflexão: Das Bodegas Torres mas cultivado e produzido no Chile, um vinho do outro mundo
É Outubro. É Outono. As estações do ano são uma construção nossa determinada pelo movimento relativo da Terra à volta do Sol e pela inclinação do eixo da Terra relativamente ao Sol. A Terra recebe mais ou menos radiação, mais perpendicular ou mais oblíqua. Mas isso não interessa para o Outono. Nem para nós. O Outono é a memória do que tem sido. Temos o Outono na cabeça. Fumo de castanhas assadas que invade as ruas molhadas com carros a passar, gorro na cabeça para aguentar a chuva miudinha, luz baça ao fim do dia, as podas necessárias para, na Primavera seguinte, rebentarem as flores e frutos, terras e agriculturas que se amanham e preparam, folhas tingidas de amarelo, laranja, castanho e mil gradientes destas, o lume aceso, lenha que se armazena para o Inverno, chás quentes e mantas enroladas, livros lidos em mãos frias... cada um tem o seu Outono na memória. É a memória que fabrica os desejos e gera as expectativas.
O Outono na serra da Lousã, diz-me a memória, é um deslumbramento. Pedalar no Outono pelas florestas da serra, como já tantas vezes fiz, consolidou a memória do Outono na serra que, sem arte e engenho para o descrever, é melhor ficar-me por aqui. Como é que num texto vou juntar as cores aos aromas, a luz que se mete por entre as árvores à brisa que faz oscilar a folhagem, a neblina ao vulto fugidio por entre as árvores ou o chilreio dos pássaros às imagens eróticas das castanhas a sairem dos ouriços semiabertos num acto virginal?
Este ano as folhas caem não porque é Outono, e lá iriam elas em gradientes de laranja, amarelos, castanhos pousar no chão, mas porque estão secas. Secas como se tivessem sido postas num forno. Não caem moribundas, ainda com algum viço, ainda um pouco espessas e húmidas. Caem secas, estaladiças, sem um pingo de água, mais que mortas.
No chão, também seco, continuam secas e estalam quando as piso com as rodas da bike.
No Outono da minha memória, a temperatura elevada que se sente (acima dos 20 graus C) não "liga" às folhas secas, aos medronhos e às castanhas. Até as castanhas são pequenas este ano.
Apesar dos verdes, a floresta parece moribunda. Não se vêem esquilos, pássaros, veados, ginetas, javalis ... está tudo silencioso.
Ando por ali, atravessando a floresta, ora a descer
ora a subir, pisando as folhas
a juntar memórias à memória do Outono. O Outono era húmido e frio, as folhas caíam em gradientes de mil cores, nos caminhos corriam fios de água que transbordavam de riachos ... Para o ano, a memória do Outono será diferente da que tenho tido até agora.
Trinta e tal graus. Um ar que entra pelas narinas, secando-as, tal como os lábios e a boca. A pele também. Não é o calor, é a o ar seco que suga a humidade por onde passa. Já estive no dead valley nos EUA (70 m abaixo do nível do mar, um local seco, tão seco que a água se perde pela pele sem suor, sem formação de gotas de água) mas hoje, aqui na serra da Lousã, pedalar pela serra acima é uma experiência de secar as entranhas. O vento, em múltiplos furacões, sopra sabe-se lá de onde. De súbito, pega-nos de um lado e quase que nos viramos na bike para logo nos empurrar pelas costas. Deve ser uma coisa daquelas dos "bursts" mas em mini-formato. As folhas dos castanheiros estão castanhas e caídas, não por ser Outono (Outono? Qual Outono!) mas porque estão secas. Caíram dissecadas. Tenho fotografias de ontem que hei-de postar. Habituados a rotinas, ao correr plácido das estações do ano, às coisas normais virem depois de terem ocorrido coisas normais, admiramo-nos com a mudança, melhor, preocupamos-nos, tememos até a mudança. Na economia pelos vistos é assim; o mantra é estabilidade. O planeta não quer saber destas emoções do nosso cérebro. Aliás, devo dizer, que previsibilidade sempre me aborreceu. Sobretudo nas pessoas. Mas nestas coisas do clima olho para isto com os olhos de quem olha para isto. Quer dizer, sou muito analítico, não mando as mãos à cabeça e valha-nos S. Pisco abade. Ao longo da evolução a mudança é a regra, não a excepção. Acho até que no passado estávamos mais em sintonia (para dizer isto desta maneira) com a mudança. Quem nascia nos séculos anteriores (incluindo o sec XX) estava, naturalmente, preparado para mudanças. Hoje, cultiva-se a estabilidade como um valor. Acho natural que procuremos fazer planos, ter estabilidade mas, nesta sociedade business-oriented, atingiu-se uma situação em que princípios da economia contaminaram a nossa vida (estou a falar de aspectos conceptuais como a estabilidade e não da mercearia do dia-a-dia). A dinâmica do clima é encarada como uma excepção. E isto é um problema para o modo como temos que nos organizar em sociedade.
Mas vamos ao que interessa.
Começa a ser premonitório. De cada vez que pedalo serra acima até ao Trevim, sobretudo em dias de clima estranho, além do calor extremo, acontece uma desgraça. No passado, Sábado 26 de Junho, à la una de la tarde, estava no Trevim quando vi nascer o grande incêndio de Pedrogão. Hoje, vi o cogumelo atómico do grande incêndio de Lousã-Poiares-Penacova. Vi-o à nascença, com poucas horas de vida. Vi-o por cima. Um cogumelo atómico.
Depois o fogo devorou o que havia para devorar, daqui até Penacova, passando por Vila Nova de Poiares. A reacção em cadeia, a combustão, tem um início: é preciso vencer a energia de activação para iniciar a cadeia que, depois, se auto-propaga. Para tal, basta um fósforo. Isto aprende-se na Química. E, assim, reduz-se a problemática dos incêndios à equação mais simples. Tudo resulta deste momento inicial. Desta pequena quantidade de energia, desta pequena chama. Como um big bang. É neste momento que nasce a cadeia que se propaga tão mais facilmente quanto mais favoráveis forem as condições atmosféricas (ausência de humidade, vento que injecta oxigénio na reacção). A partir daqui, deste conceito, é que se pode, efectivamente, discutir o assunto. Se se pudesse reverter o tempo, andando para trás, e se inibisse esse momento inicial, a pequena chama (energia) que vence a energia de activação que inicia o processo, nada subsequentemente ocorreria. Os especialistas disto e daquilo que aparecem nos media deveriam dizer isto de forma clara.