A memória das pedaladas. Foi esta a principal razão. O blog é, assim, uma espécie de dispositivo virtual de reforço sináptico.
quinta-feira, 12 de abril de 2018
Isto tem dono
- Bom dia
- .....ddiiiaaa...
- Então isto tem dono?
- Tem sim senhora. É meu e o primeiro filho-da-puta que puser aqui os pés vai arrepender-se. Vêm-me às castanhas e às couves.
- Mas posso respirar o oxigénio que a árvore produz?
- Isso pode.
- Quer dizer, a parte da biosfera a que se refere a placa é só o solo, as plantas e o volume da atmosfera ocupado pelas árvores e os arbustos.
- Exactamente.
- Isso é de uma grande generosidade porque a árvore produz oxigénio que é libertado para atmosfera e que, depois, é usado pelo organismos e células aeróbias que habitam no terreno e fora dele. Eu, por exemplo, estou a respirar oxigénio produzido por uma árvore que é sua e portanto estou a respirar oxigénio que também é seu. Obrigado.
- De nada, pode respirar o meu oxigénio à vontade e até lhe digo, é oxigénio biológico porque não ponho aqui nada nas árvores.
- E a água que por aqui corre?
- A água também é minha.
- Mas espere. Qual é a água que é sua?
- Hã?
- Quero dizer, esta água que aqui corre neste momento vem dali de cima, da serra, e vai por aí fora até ao ribeiro, lá em baixo. Portanto ela é apenas transitoriamente sua. Apenas enquanto as moléculas de água passam aqui neste seu terreno lhe pertencem.
- Exactamente. Pode dizer isso, enquanto está aqui no meu terreno é minha.
- Já agora, as folhas das árvores que, levadas pelo vento, caem fora do terreno ...
- Ah, isso é lixo, pode ficar com elas.
- Nem queria ir por aí mas até que profundidade o solo lhe pertence? Por exemplo se fizer um túnel que passe por baixo do seu terreno, posso retirar raízes, minhocas e terra ou também são suas?
- Isso é tudo meu.
- Até ao centro líquido da Terra? Mas quem tem um terreno nos antípodas da Terra (na Nova Zelândia) pode argumentar o mesmo.
- Pois pode, mas isto deste lado é meu se ele quiser ir até ao centro da Terra é lá com ele, eu não vou.
- Caraças, picou-me um mosquito, desculpe. Este mosquito deve ter nascido aqui no seu terreno. Também é seu?
- Eu com mosquitos não quero nada.
- Agora baralhou-me. Já não percebo bem o que é seu. Os mosquitos também são seus. Não há dúvidas sobre isso. Estava no seu terreno, é seu. Tome lá o mosquito. Desculpe está morto mas é o que resta do seu mosquito.
- Já lhe disse, isto tem dono. É meu e já era do meu pai e não quero o mosquito.
- Desculpe mas o mosquito é seu. Se as árvores são suas, a terra, o ar, a água, as minhocas, as bactérias, etc os insectos também são seus. Porque é que está a excluir toda uma classe de animais, os insectos? E olhe que são a classe de animais mais numerosos à superfície da terra. Veja lá o que está a perder. Já agora no registo de propriedade está incluído o filo Chordata, em particular a classe dos anfíbios, é que estou ali a ver um sapo e uma salamandra?
- Olhe para lhe dizer a verdade, ainda há dias disse para a minha mulher que tínhamos que ver se os anfíbios também estão no registo mas sabe o que mais me preocupa? É o Filo Mollusca, sobretudo os gastrópodes. É que os caracóis comem-me as couves. Não deveria ter os gastrópodes no registo da propriedade.
- Ah pois é mas assim não vale. Não pode querer ser dono de um pedaço da biosfera e o filo Mollusca ficar de fora. Não estou a ver nenhuma conservatória de registo predial que lhe aceite isso.
Então bom dia até á próxima. Vou andando que ainda quero pedalar até ao cimo da serra.
- ... diiiiaaaa... (mas quem era este filho da puta?)
domingo, 8 de abril de 2018
Olhar para cima, para o voo das bicicletas e o subsolo da floresta
Serra da Lousã
Abril 2018
Num desnível no terreno, parte do tronco e das raízes das árvores estão expostas e, olhando, é ver de um outro lado.
upa, upa
acima
Abril 2018
Há 15 dias tinha sido o campeonato nacional de downHill. Hoje foi o campeonato europeu de downhill. A primeira parte da pista era a mesma. Estes, tal como os outros, também voavam. Talvez em voos mais longos, mais altos e mais elegantes
voavam descontraidamente como se pedalassem num estradão com vistas para o mar.
Um deles até me acenou com a mão esquerda
Outros, em voo, como as aves apanhadas de lado pelo vento, aproveitavam para umas danças aéreas.
Até ao início da pista, no Terreiro das Bruxas, a confusão era infernal (carros, caravanas, camionetas, bombeiros, lama, polícia, além das bikes). Dali para cima tudo tranquilo. Segui. Pois claro. Ouvi uns cânticos de aves que não conhecia por ali, na floresta, aquela altitude. Como que atravessara uma fronteira. Extraordinariamente a confusão lá de baixo contrastava com a quietude ali mais acima. Olhava em volta, como é habitual. Mesmo na bike por vezes é preciso parar para olhar. Por exemplo, olhar o chão por debaixo das árvores, olhando para cima.
Num desnível no terreno, parte do tronco e das raízes das árvores estão expostas e, olhando, é ver de um outro lado.
upa, upa
sem photoshop baixam-se os olhos e as cores reaparecem
acima
abaixo
upa, upa
Estava nisto e, às tantas, olhei para trás e vi o belo tronco moribundo. Ao lado as imponentes árvores que um dia serão moribundas como o belo tronco moribundo com coroa de musgo florescente. Antes delas, provavelmente, estarei eu. E, provavelmente, sem coroa de musgo fluorescente.
terça-feira, 3 de abril de 2018
Estes putos são completamente passados da cabeça
Serra da Lousã
Março 2018
Estes ali, a pé, no caminho à esquerda, mal conseguem descer tal a inclinação (todavia menor que no trais de downhill)
Março 2018
Eu também já fui assim, um destravado. "És um cabeça no ar"; quantas vezes ouvi isto!
Metia-me nelas e só a meio tentava ver como sair ileso. Nada de estranho, até aos 18-20 há mecanismos de feedback no cérebro que se estão a afinar. Às vezes, na rua, ouço pais a ralhar com os filhos: mas tu não vês que isso é perigoso, tu não está a ver que se fizeres isto pode acontecer aquilo?
Tenho vontade de lhes dizer (aos pais): não, ele não está a ver. O cérebro dele ainda não afinou o circuito que liga esse perigo a uma acção. Lembro-me que, um dia, na Nazaré, uma das primeiras vezes que fui a uma praia, teria cerca de 13 anos, enquanto os meu pais andavam por ali na praia a ver as sardinhas ao Sol a secar, fui para o outro lado da falésia, para os lados do sítio, e comecei a trepar a direito, falésia acima, até ficar pendurado quase lá em cima, nem para baixo nem para cima, e ali estava, não caí (seria morte certa) por um triz porque à tantas num movimento de desespero dei um salto, agarrei-me a umas canas e terminei a subida, uma subida que, naquelas condições, provavelmente nunca ninguém fez. Não me passou pela cabeça que se começasse a subir sem qualquer apoio, de sandálias e calções, às tantas poderia ficar na situação em que fiquei. Depois dos 13 anos a coisa piorou um bocado. Hoje, obviamente, sou um gajo responsável, pai de família, um profissional respeitado, ciclista nas horas que deveria estar a fazer outras cosias, que gosta de se meter serra acima no meio de invernias que ninguém, nem jipes xpto bem equipados, ousam desafiar, mas voltando ao assunto, sim senhor, direitinho, o respeitinho é muito lindo, e os outros é que são uns out of the box, que eu cá não e, sem mudar de assunto, vamos é ao que interessa.
Tenho vontade de lhes dizer (aos pais): não, ele não está a ver. O cérebro dele ainda não afinou o circuito que liga esse perigo a uma acção. Lembro-me que, um dia, na Nazaré, uma das primeiras vezes que fui a uma praia, teria cerca de 13 anos, enquanto os meu pais andavam por ali na praia a ver as sardinhas ao Sol a secar, fui para o outro lado da falésia, para os lados do sítio, e comecei a trepar a direito, falésia acima, até ficar pendurado quase lá em cima, nem para baixo nem para cima, e ali estava, não caí (seria morte certa) por um triz porque à tantas num movimento de desespero dei um salto, agarrei-me a umas canas e terminei a subida, uma subida que, naquelas condições, provavelmente nunca ninguém fez. Não me passou pela cabeça que se começasse a subir sem qualquer apoio, de sandálias e calções, às tantas poderia ficar na situação em que fiquei. Depois dos 13 anos a coisa piorou um bocado. Hoje, obviamente, sou um gajo responsável, pai de família, um profissional respeitado, ciclista nas horas que deveria estar a fazer outras cosias, que gosta de se meter serra acima no meio de invernias que ninguém, nem jipes xpto bem equipados, ousam desafiar, mas voltando ao assunto, sim senhor, direitinho, o respeitinho é muito lindo, e os outros é que são uns out of the box, que eu cá não e, sem mudar de assunto, vamos é ao que interessa.
Tinha decidido subir a serra pelo lado Este. No início, junto ao Bike Park da Lousã, dei com um estaminé impressionante, tudo com ar profissional, barracas com as marcas de bike, bandeiras, boxes, ciclistas com bike de suspensão total, carrinhas de equipas de ciclismo ... Comecei a pedalar serra acima e gente na estrada e metida nos pinhais, apitos ... aqui há gato, pensei. O gato era a taça de Portugal de Downhill. Um percurso sinuoso e a pique desde o Terreiro das Bruxas até Cacilhas. Cerca de 4 km que os craques (portugueses e estrangeiros) fizeram em cerca de 4-5 min. Como é possível? Voando. Baixinho.
de vez em quando lá punham as rodas no chão e pedalavam
Estes ali, a pé, no caminho à esquerda, mal conseguem descer tal a inclinação (todavia menor que no trais de downhill)
à vezes só uma roda
Mas grande parte é feita a voar serra abaixo
Andei por ali, de telemóvel na mão, agachado a disparar fotografias no meio dos profissionais com teleobjectivas e que olhavam para mim com ar de quem pensa "aquele gajo é capaz de estar a apanhar um belo ângulo mas a posição, ali agachado, é humilhante e eu sou um profissional conhecido, publico fotos nas revistas da especialidade e, além disso, aqui o pessoal à volta conhece-me, caraças, se calhar seria melhor agachar-me mas, no fundo, não há foto que valha a humilhação, deixo isto para este gajo que anda aqui todo pipi equipado com Castelli a disparar o telemóvel para o ar".
Continuei, serra acima, até ao local da partida. Um local belo no meio da floresta e já um tanto ou quanto devassado pela "pista".
Passados da cabeça estes putos.
Não sei como é regulada a abertura de trilhos e caminhos na floresta mas parece-me que estão a matar a galinha dos ovos de ouro. Hoje, já não é fácil encontrar uma área na serra equivalente a dois ou três campos de futebol que não seja atravessada por trilhos (bikes, motas e motoquatro). É tudo à balda. No último ano romperam-se trilhos por todo o lado (até já lá em cima no planalto). Nota-se nos animais. Em zonas onde frequentemente encontrava veados o vento traz agora apenas os roncos das motas e os gritos de de bikers que se lançam pelos caminhos abaixo. Tenho-os visto apenas em locais remotos, em encostas inclinadas onde só há pequenos caminhos antigos e de difícil acesso.
Parece-me que se não há uma gestão da abertura de caminhos e trilhos em zonas de rede Natura, parques e outras zonas protegidas, acontecerá o equivalente ao fenómeno da "algarvização". Já uma vez disse isto a propósito dos mexilhões na costa alentejana. Há vinte anos andava-se por ali, pelas rocha pejadas de mexilhões e ... de apanhadores. Um dia disse-lhes (para os lados do Brejão): vocês apanham isto a eito, rapam as rochas, levam tudo à frente, destroem os ecossistemas, qualquer dia não há mexilhões. Olha-me este, toda a vida houve aqui mexilhões, já o meu pai etc etc, respondiam em tom de risota. Desapareceram os mexilhões e depois de devassados os ecossistemas está, hoje, a tentar gerir-se o que resta.
But, what are you here talking about? Estamos talking about coisas destas na floresta de coníferas aos 700-800m
e coisas destas nos soutos aos 800 m de altitude (muitas vezes, os ferros e as fitas ficam por ali)
O espaço para o turismo de natureza (em franco desenvolvimento) começa a ficar comprometido pela falta de gestão dos trilhos.
Parece-me que se não há uma gestão da abertura de caminhos e trilhos em zonas de rede Natura, parques e outras zonas protegidas, acontecerá o equivalente ao fenómeno da "algarvização". Já uma vez disse isto a propósito dos mexilhões na costa alentejana. Há vinte anos andava-se por ali, pelas rocha pejadas de mexilhões e ... de apanhadores. Um dia disse-lhes (para os lados do Brejão): vocês apanham isto a eito, rapam as rochas, levam tudo à frente, destroem os ecossistemas, qualquer dia não há mexilhões. Olha-me este, toda a vida houve aqui mexilhões, já o meu pai etc etc, respondiam em tom de risota. Desapareceram os mexilhões e depois de devassados os ecossistemas está, hoje, a tentar gerir-se o que resta.
But, what are you here talking about? Estamos talking about coisas destas na floresta de coníferas aos 700-800m
e coisas destas nos soutos aos 800 m de altitude (muitas vezes, os ferros e as fitas ficam por ali)
O espaço para o turismo de natureza (em franco desenvolvimento) começa a ficar comprometido pela falta de gestão dos trilhos.
sexta-feira, 23 de março de 2018
EN236 Águas de Março
Serra da Lousã - EN236
(Março 2018)
É curioso que os musgos adquirem um verde intenso, como e fossem fluorescentes (há aqui um fenómeno que tenho que perceber), contrastando ainda mais com o céu branco baixo que cobre os ramos mais altos das árvores
(Março 2018)
As águas de Março no alcatrão da EN236, a estrada da serra. Céu baixo, vento vadio e atmosfera húmida, tão húmida que se sentia na ponta da língua (como nas saunas - aprendi esta técnica para dosear a lenha na fogueira em saunas tradicionais nas florestas da Finlândia). Desde pequeno que estou habituado a olhar para o céu para prever o tempo. Tenho alguma técnica e experiência adquiridos em função das condições locais (ventos predominantes, luz no horizonte ...) que hoje se alia aos modelos de previsão do tempo que podemos consultar na net. Eu uso Meteoblue. O tempo é um dos belos exemplos de sistema caótico cuja evolução é sensível a pequenas flutuações (às condições iniciais). Percentagem de chuva 40% para a próxima hora, diz-me o modelo. Olho para o céu e intuo que terei cerca de meia hora sem chuva. No local, o meu cérebro integrou informação múltipla (a experiência) e formulou a conclusão a que chamei intuição. Esta era a minha previsão.
Ao pedalar serra acima o nevoeiro foi-se-me fechando à volta. E como eu gosto disto! Os ramos das árvores que se perdem no espaço, as cores que se diluem ... o som intenso dos riachos por todo o lado que se cobrem e descobrem em função da densidade do nevoeiro ..
É curioso que os musgos adquirem um verde intenso, como e fossem fluorescentes (há aqui um fenómeno que tenho que perceber), contrastando ainda mais com o céu branco baixo que cobre os ramos mais altos das árvores
Cheguei ao Trevim, ao cume da serra aos 1200 m. Não via vivalma há muito tempo. Com o tempo que estava ninguém se mete pela serra acima. Como muitas vezes me acontece, deveria estar sózinho em todo o planalto da serra. À medida que pedalava e subia em altitude a névoa branca toldou-se de cinzento, o vento sossegou, uma calma abateu-se sobre a serra; sabia o que era. Mas só quando cheguei lá acima, ao topo junto às antenas, começou a cair. Ao princípio ainda misturada com chuva, em flocos pequenos como gotas. Com jeito, tirei o telemóvel e, com as luvas calçadas (nunca se tiram a luvas porque, uma vez húmidas, as mãos não voltam a entrar e descer a serra de bike sem luvas é um cenário impensável), resolvi tirar uma selfie !!! (smile, say cheese, mas nem por isso, vejo agora que estava com cara de preocupado, ou pelo menos atento à evolução do tempo). Depois, começou mais intensa. Estavam 2 G Celsius, a neve ia acumular-se. Tinha que voltar rapidamente para não arrefecer. Aos mil metros já não nevava e, enquanto fazia o planalto, antes da descida final, até abriu um pouco. Mal iniciei a última parte da descida (18 km) percebi uma nuvem negra vinda de Noroeste, metendo-se pelo vale da ribeira de S. João. Inevitável: vão ser 18 km debaixo de chuva torrencial. Enganei-me, foi não apenas chuva mas também granizo. Caía torrencialmente. É curioso que, por vezes, indo de carro com os limpa pára-brisas no máximo, penso como é perigoso ir a conduzir com um tempo assim. Na serra, apanhado pelas tempestades, a pedalar levando com a chuva e o granizo na cara, tudo me parece natural. É mesmo assim.
domingo, 11 de março de 2018
Do mundo fechado das lagartas do pinheiro ao universo infinito
Serra da Lousã
(Fevereiro 2018)
Já aqui falei da extraordinária epopeia das lagartas do pinheiro.
Durante o Inverno constroem um casulo (parece uma bola de algodão doce) nos ramos altos do pinheiros, saindo apenas para se alimentar das folhas dos pinheiros. Quando o tempo aquece, saem do casulo, descem o tronco do pinheiro e, em procissão, tocando-se umas às outras, procuram no solo um lugar onde se enterrar. Aí ficam, enterradas, até se diferenciarem em borboletas. Extraordinário: entram a rastejar como lagartas e saem a esvoaçar como borboletas. Num passe de magia alguns dos seus genes foram desligados, outros foram ligados e um outro ser surgiu da nova colecção de genes activos. As borboletas voam para os pinheiros fazendo um casulo e fechando o ciclo.
Em Fevereiro, a estrada da serra é atravessada por centenas de procissões de lagartas. Evito sempre passar com a roda da bike por cima porque são extremamente alergénicas.
Ia por ali a pedalar e vejo estas:
Escolheram o sítio errada à hora certa para se enterrarem; à beira da estrada numa camada de terra com apenas un poucos centímetro. Escavaram até ao alcatrão e ali ficaram, às voltas a tentar escavar mais. O seu mundo é esse. O meu é outro. Eu percebo que ali não vão a lugar nenhum porque atingiram o alcatrão e não o conseguem furar. Para mim elas estão no seu mundo fechado. Esta ideia, óbvia para mim, não está ao alcance do cérebro das lagartas.
Isto leva apensar que o cérebro humano tem limitações que não lhe permitem entender aspectos da realidade/natureza. Que há perguntas cuja resposta está para além do intelecto humano. Que evoluiremos, sim, e que usaremos computação integrada com o nosso organismo mas a lagartas do pinheiro poderão nunca perceber que furar o alcatrão não é a melhor estratégia para fazer o ninho. Porque não colocar ,esta hipótese a nós, o homo sapiens? Já hoje, o mundo quântico é um território mental estranho, to say the least. Entre nós e o chimpanzé o genoma difere em menos que 2%. Não há uma sistema biológico no chimpanzé que não partilhemos, não há uma substância química no nosso cérebro que não possa ser encontrado no cérebro de um chimpanzé. E, no entanto, o teorema de Pitágoras, é inacessível ao cérebro do chimpanzé. Há um universo que lhes esta interdito ao entendimento. Portanto, a mesma ideia se deve aplicar ao nosso.
Com a Evolução, provavelmente adquiriremos novas capacidades. Novas descobertas estimulam novos entendimentos, abrem-nos janelas para novos horizontes. Provavelmente, a maior revolução nas nossas cabeças, as janelas que mais horizontes deixaram entrar na mente humana foram as que nos permitiram passar de um mundo fechado, finito, orquestrado por deuses e mitos, ordenado, hierárquico, para um universo infinito. O espaço, o tempo, ideias novas na cabeça de alguns, desde os Gregos até Giordano Bruno, ele um frade treinado no mundo fechado. A primeira vez que fui a Roma quis ir logo ver a praça com a estátua do Giordano Bruno. Na cabeça da maioria dos seus contemporâneos passava a vidinha do dia-a-dia, na dele a infinitude do espaço (e do tempo).
E lá vai a procissão das lagartas. Aos 23 segundos, a procissão segue ao som da Mater dolorosa tocada em assobio. Quanto, há muitos anos, tocava na banda filarmónica, as marchas de procissão, sendo eu não crente, deixavam-me compungido. Em particular a Mater dolorosa. Tocava aquela música (não me lembro do autor) com uma emoção tal que, por vezes, me corriam lágrimas pela cara abaixo. Havia o "forte" com o som cheio, intenso tocado por todos os naipes que, depois, num ar que se lhe dava, se transformava num "piano" e era aí que nós, os saxofones, entrávamos com a melodia, enquanto os outros naipes faziam o acompanhamento. Eu sussurrava a música no sax, em vez de a soprar. Ficava de rastos.
Mater dolorosa tocada por uma filarmónica. A música não era esta mas a paisagem musical é semelhante.
E o que é que acontece quando a líder fica esventrada debaixo de um pneu de automóvel?
A procissão pára? Dispersa? Continua com outra líder?
Let´s look at the trailer
Mal a líder morre, a procissão pára. As lagartas imobilizam-se, durante 1 ou 2 minutos (filmei tudo mas só mostro um bocadinho). Há um sinal que é transmitido a toda a comitiva. Depois, as da frente (2 ou 3) exploram o território à volta do corpo esventrado das que iam à frente. Andam por ali às voltas, tentam re-arranjos de 4 ou 5 em procissão que se desfazem em novos rearranjos (filmei tudo), até que às tantas encarreiram de novo numa fila única. Depois, a procissão segue com uma nova líder como se nada se tivesse passado. Passa uma carrinha carregada de lenha, de novo as da frente quase que ficam debaixo da roda, mas a procissão segue.
O mundo fechado das lagartas não lhes permite entender o "perigo": isto por aqui, na estrada é perigoso, vamos para outro lado. Este entendimento não está ao alcance do seu cérebro. Simplesmente, têm uma palete de genes activos e proteínas a funcionar que, em função de estímulos que as suas células recebem, executam determinadas funções para as quais foram seleccionadas pela Evolução (é a isto que chamamos "instinto"). A maquinaria molecular é movida num ou noutro arranjo molecular pela cinética e pela termodinâmica. Não há leis especiais para os seres vivos.
terça-feira, 6 de março de 2018
Post para lavar os olhos
Serra da Lousã
(Março 2018)
Escolher um local silencioso e dosear a luz, impregnando-a no silêncio.
Misturar bem.
Ajustar a cadeira ou o computador ao colo.
De seguida colocar o som no máximo e temperar com desinteresse por tudo o que se passa à volta. Levar os olhos ao écran e deixar repousar durante uns segundos.
Então, adicionar o vídeo, carregando no "play".
Olhar fixamente durante 6 minutos até a mente entrar em ebulição.
Nota: temperar com música a gosto.
Para uma lavagem mais eficaz, repetir com o vídeo seguinte.
Nota: este pode também ser usado em separado para uma lavagem mais rápida, ainda que menos profunda.
Natureza quase-morta?
(Março 2018)
Escolher um local silencioso e dosear a luz, impregnando-a no silêncio.
Misturar bem.
Ajustar a cadeira ou o computador ao colo.
De seguida colocar o som no máximo e temperar com desinteresse por tudo o que se passa à volta. Levar os olhos ao écran e deixar repousar durante uns segundos.
Então, adicionar o vídeo, carregando no "play".
Olhar fixamente durante 6 minutos até a mente entrar em ebulição.
Nota: temperar com música a gosto.
Para uma lavagem mais eficaz, repetir com o vídeo seguinte.
Nota: este pode também ser usado em separado para uma lavagem mais rápida, ainda que menos profunda.
Natureza quase-morta?
quinta-feira, 1 de março de 2018
Não passo por um bosquezinho fractal como a raposa por vinha vindimada
Serra da Lousã
(Fev. 2018)
Não. Páro e vou lá. É que não vale a pena não ir.
Ainda na semana passada lia um artigo escrito por uns tipos que desenvolveram uma ferramenta bioestatística e que mostram que o arranjo do DNA no núcleo das células pode ser descrito por uma geometria fractal. Em cada núcleo, em cada célula, temos cerca de 2 metros de DNA enrolados num espaço com 1 micrómetro de diâmetro (cem vezes menor que a espessura de um cabelo). O enrolamento é extraordinariamente (to say the least) compacto com voltas e "loops" mas ... sem nós. O núcleo é um glóbulo fractal. Diz-se dos fractais que são uma dimensão geométrica escondida da natureza. Pois ! mais escondida que no núcleo das células é difícil de encontrar.
Ver o modelo aqui, por exemplo: arquitectura da cromatina no núcleo das células
Mas, vai um gajo por ali fora a pedalar de cabelo ao vento, não fora o capacete e a falta dele (do primeiro). Planalto da serra, acima dos mil metros, com vistas magníficas. Para um lado, o olhar alonga-se até à serra do Caramulo, para o outro pelo vale do Central e da Castanheira de Pêra, pelas serranias fora até não sei bem onde. Longe. Já o disse um milhão de vezes: passo nos mesmos locais e nos mesmos caminhos muitas vezes. Às vezes, olhando para o chão, reconheço uma pedra, um rego, uma raiz, mas cada vez é como se fosse a primeira, tal a descoberta e a surpresa do que vejo.
Logo ali, do lado de lá de uns pequenos cedros, antes do vale afundar para os lados do Coentral, um bosque. O emaranhado das copas nuas despertou-me uma vontade irresistível (também não sou muito de vontades resistíveis) de parar de pedalar, encostar a bike e ir até lá. Quis meter-me pelo meio do bosque, entrar na paisagem fractal.
Mas foi foi como buscar o arco-íris: penetrei no bosque de cabeça, como se mergulhasse num lago,
mas, à media que caminhava,
a geometria fugia-me à frente dos olhos. A paisagem ia-se reproduzindo sem nunca a atingir.
Foi a experiência fractal possível.
Foi interessante andar por ali às voltas, literalmente às voltas. Felizmente, ali no meio da serra àquela altitude não se encontra ninguém; de outro modo lá se ia a reputação de sanidade mental que carrego às costas (às vezes com alguma dificuldade).
Soube bem voltar à cumeada e continuar as pedaladas com vistas sobre as lonjuras.
Para depois voltar à vila de onde tinha saído, pela manhã, sob uma cortina de neblina.
(Fev. 2018)
Não. Páro e vou lá. É que não vale a pena não ir.
Ainda na semana passada lia um artigo escrito por uns tipos que desenvolveram uma ferramenta bioestatística e que mostram que o arranjo do DNA no núcleo das células pode ser descrito por uma geometria fractal. Em cada núcleo, em cada célula, temos cerca de 2 metros de DNA enrolados num espaço com 1 micrómetro de diâmetro (cem vezes menor que a espessura de um cabelo). O enrolamento é extraordinariamente (to say the least) compacto com voltas e "loops" mas ... sem nós. O núcleo é um glóbulo fractal. Diz-se dos fractais que são uma dimensão geométrica escondida da natureza. Pois ! mais escondida que no núcleo das células é difícil de encontrar.
Ver o modelo aqui, por exemplo: arquitectura da cromatina no núcleo das células
Mas, vai um gajo por ali fora a pedalar de cabelo ao vento, não fora o capacete e a falta dele (do primeiro). Planalto da serra, acima dos mil metros, com vistas magníficas. Para um lado, o olhar alonga-se até à serra do Caramulo, para o outro pelo vale do Central e da Castanheira de Pêra, pelas serranias fora até não sei bem onde. Longe. Já o disse um milhão de vezes: passo nos mesmos locais e nos mesmos caminhos muitas vezes. Às vezes, olhando para o chão, reconheço uma pedra, um rego, uma raiz, mas cada vez é como se fosse a primeira, tal a descoberta e a surpresa do que vejo.
Logo ali, do lado de lá de uns pequenos cedros, antes do vale afundar para os lados do Coentral, um bosque. O emaranhado das copas nuas despertou-me uma vontade irresistível (também não sou muito de vontades resistíveis) de parar de pedalar, encostar a bike e ir até lá. Quis meter-me pelo meio do bosque, entrar na paisagem fractal.
Mas foi foi como buscar o arco-íris: penetrei no bosque de cabeça, como se mergulhasse num lago,
mas, à media que caminhava,
a geometria fugia-me à frente dos olhos. A paisagem ia-se reproduzindo sem nunca a atingir.
Foi a experiência fractal possível.
Foi interessante andar por ali às voltas, literalmente às voltas. Felizmente, ali no meio da serra àquela altitude não se encontra ninguém; de outro modo lá se ia a reputação de sanidade mental que carrego às costas (às vezes com alguma dificuldade).
Soube bem voltar à cumeada e continuar as pedaladas com vistas sobre as lonjuras.
Para depois voltar à vila de onde tinha saído, pela manhã, sob uma cortina de neblina.
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