Não é a transição do dia para a noite. O anoitecer não é uma passagem como quem cruza uma ponte para a outra margem. O anoitecer é o anoitecer, tal com a manhã é a manhã. Não é só a paisagem que muda. Nós também. A luz tem influência nos ciclos circadianos que influenciam (governam?) o nosso organismo, a nossa fisiologia. Não me surpreende, portanto, que os "olhos" com que vemos o anoitecer sejam outros que não aqueles com que olhamos o Sol do meio-dia.
No anoitecer nas serranias respira-se até aos ossos. O ar impregna-nos. Tanto mais hoje, um os primeiros dias quentes do ano. A aragem começa a refrescar. Tudo se aquieta. Nem tudo, percebem-se nas escuridão olhos brilhantes, tal como as luzes das aldeias encravadas nos vales. Distinguem-se vultos que esvoaçam, fugazes. Caçadores nocturnos. Para alguns animais a noite é a manhã de outros.
Na paisagem os vales ficam indistintos, cobertos de neblina. Sobressaem os cumes, como ilhas no mar gasoso e volátil.
(Sobre a albufeira da barragem de Sta. Luzia percebe-se ainda, na linha do horizonte ao centro-esquerda, o planalto central da Serra da Estrela)
Devagar, muito devagar a luz vai morrendo nas serranias.
E ao pedalar a esta hora pelas serranias - agora que penso nisso e que preciso de uma palavra para acabar a frase - fica uma sensação de despojamento.
Há muito anos, quando era muito novo, era vulgar trovoadas noturnas abaterem-se sobre sobre a vila, lá no sopé da serra onde vivia. Tão certo como Abril águas mil, a electricidade faltava pouco depois. Era bem sabido. Casas, ruas, céu, tudo às escuras. Um escuro fundo que, cortado pelos relâmpagos, tornava o escuro uma experiência perturbadora: não era escuridão mas a ausência completa de luz. Eu achava a trovoada sobre a serra uma coisa deslumbrante. Os trovões ecoavam e o som andava por ali em sucessivas vagas, os relâmpagos iluminavam durante uns segundos as encostas e a vila e depois aquilo ia-se repetindo, eu sempre na expectativa do próximo trovão seguido do clarão do relâmpago. A maioria da pessoas fechava-se em casa, janelas fechadas, à luz de velas.. Eu vinha sempre para a porta ou para janela. Ficava fascinado. Lá tinha que resistir aos apelos (to say the least) da minha mãe para sair dali e ir para dentro. E havia o cheiro, o cheiro a trovoada. Não apenas o cheiro da terra mas o da trovoada. Sei hoje que é o ozono. As descargas eléctricas geram ozono. Muitas vezes a trovoada vinha com chuva em torrente, gotas grossas, rápidas que batiam nos telhados, ricocheteavam no chão e nos objectos, fazendo um barulho intenso. Outras vezes era granizo.
Se na vila era assim, na serra a coisa era elevada ao cubo. Mil vezes mais intensa, mil vezes mais arrepiante. Um dia, acampado no Vale do Rossim, nas Penhas Douradas, no coração da serra da Estrela, percebei o que era estar "no centro" da trovoada. Os trovões sentiam-se nos ossos, sobretudo no esterno (quando se está num concerto em frente à colunas dos baixos sentem-se, do mesmo modo, os graves no esterno) e a simultaneidade de clarões e do eco dos trovões que parecia vir das entranhas da terra e não do céu deixou-me num sobressalto mas, ao mesmo tempo, encantado. Uma coisa do outro mundo.
Ainda hoje, onde vivo, quando há trovadas fico sempre na expectativa que a luz em casa e na vila "vá abaixo". Mas, claro, hoje os sistemas são mais estáveis e isso raramente acontece.
Pedalei serra acima. Precisava de lonjuras, de estender a vista sobre os horizontes. Na subida encontrei um companheiro com quem dei belas e muitas pedaladas há anos atrás. Pedalámos algum tempo juntos, saboreando a companhia mútua e refrescando laços de companheirismo. O tempo ameaçava uma bela chuvada e, por vezes, ouvia-se um rugir ao longe vindo do céu. A trovoada andava por ali.
Chegados ao planalto, aos mil metros, separámos-nos. Virei para Sul, para os lados das serranias sobre o vale da ribeira de Alge.
Chão duro, rude e belo. Os pequenos tufos arbustivos são tojos misturados com flores que, vistos ao nível do chão, são mais exuberantes
De vez em quando, os trovões longínquos lembravam-me que talvez fosse boa ideia ir descendo e sair dali do planalto. O vento era forte. Um vento forte e bom. Morninho.
Desço pelo Gondramaz? Mas se a borrasca me apanha pelo caminho estou a dezenas de km de casa. Pela meia encosta, pelo caminho que vai dar à floresta? Pois, é isso mesmo. As árvores sempre dão alguma protecção em caso de chuva torrencial. E vamos embora que se faz tarde. Segui, tentando apanhar o caminho que me levaria à floresta. Tinha 800 m em altitude para descer até ao vale.
Às tantas ... mas que raio ?!. O caminho estreito que conhecia estava transformado num estradão. Provavelmente mais umas das "medidas preventivas" contra incêndios.
Apanhei uma boa velocidade. Uns bons 15 minutos a pedavelejar pelo estradão sobranceiro ao vale, entre os calhaus e as nuvens. Estas, à minha frente eram brancas mas pelas costas aproximavam-se ameaçadoras, negras, puxadas a vento, a querer cobrir o céu. Mas, no fundo estava a borrifar-me para as nuvens; queria lá saber se a trovoada me apanhava ali, se iria chover a cântaros - não me vou deixar empurrar pela borrasca. Fui pedalando em grande gozo.
Fiz o estradão. Começava a cheirar intensamente a chuva. Pois é, a chuva também se cheira. De vez em quando caíam umas pingas vindas de longe arrastadas pelo vento. Desci uma cascalheira bem inclinada para sair do estradão e entrei na floresta. Entrei com vontade de a passar rapidamente e descer mas ... tudo tranquilo. Ouviam-se sons de passarada e de paus e galhos e pedras pisados e partidos sob as rodas da bike. De vez em quando um riacho. Mas tudo tranquilo.
Parei. Ao contrário da ventania que tinha sentido lá em cima, ali apenas uma brisa agitava as folhas das árvores. Fiquei com aquela sensação familiar de que alguma coisa está para acontecer. Fiquei por ali algum tempo. Bem sabia que andava por ali sozinho. Quase que desejava que a tormenta me caísse em cima. No bolso de trás da camisola levava o impermeável da Louis Garneau. Esse detalhe dava-me muita segurança.
Ao chegar ao vale, após a descida, o céu desabou-me em cima da cabeça. Era seguramente disto que os irredutíveis Gauleses (Asterix e companhia), temerosos, falavam: que o céu lhes caísse em cima da cabeça. Uma cortina de água torrencial, trovões e uns relâmpagos. Uma festa.
EN236. Longa e tortuosa como convém às pedaladas. A uma curva segue-se outra, mantendo-se acesa a curiosidade sobre o que está para lá da curva seguinte. Antecipando-me - e sabendo-se que à subida se segue a descida e, mais ainda, que enquanto que a subida é lenta a descida é feita de cara ao vento a boa velocidade - quando a tortuosa EN236 foi feita a descer, curvando bem inclinado nas curvas, sentindo um friozinho no umbigo ao desfazer cada curva na expectativa de nada me aparecer pela frente, às tantas atravessa-se-me um javali. Àquela velocidade nada poderia fazer. O bicho apareceu-me pela direita e atravessou a estrada a correr na perpendicular à minha frente. Só percebi o que raio era aquele vulto quando o foquei mesmo à minha frente, ali, dois metros à frente da roda da bike; um corpo redondo entre o cinzento e o castanho, peludo, com um focinho bicudo e saliente. Nem tive tempo de travar. Quer dizer, ainda travei durante uns segundos. Caraças, se tivéssemos chocado teria sido uma grande merda (para mim claro). Vejo-os com frequência nos caminhos e trilhos da floresta e da mata mas nunca ali, em pleno dia, a atravessar a estrada. Mas o dia estava Novêmbrico e silencioso e eu deveria ter pensado nisso. Nestes dias os animais vagueiam mais à vontade. Uma vez, indo eu em boa pedalada num trilho estreito plano lá no cimo da serra, entre arbustos que não permitiam sair do caminho, sinto um cheiro intenso e, no mesmo instante, salta-me um javali para a frente. Eu a pensar se deveria parar ou continuar a pedalar e o bicho enorme ali a correr à minha frente no mesmo trilho perseguido por mim. Por fim, enquanto eu não me decidia, ele tomou a iniciativa e meteu-se por um buraco entre os arbustos, serra acima. Lá parei a tentar que o coração me saísse da boca e voltasse ao seu lugar no peito.
The long and winding road ...
... I´ve seen this road before
it always leads me here
Um dia de Junho, mais Novêmbrico que Júnhico. Aos dias de chuva na serra tinham-se sucedido dias quentes e de Sol aberto. A humidade era intensa quando, neste dia, o céu se tapou sobre a serra, mas apenas sobre a serra, e a temperatura baixou um pouco. Em todo o vale o céu era aberto e azul, vendo-se a serra coberta por um manto gasoso e branco. Um fenómeno curioso, uma neblina que se assapava sobre as encostas e o cume, que permanecia ali, nem se dissipando nem se movendo (como o outro que nem coisa e tal nem sai de cima), andava por ali lentamente a vaguear, abafando sons e tornando a estrada ainda mais tortuosa e longa.
I´ve heard this song before:
(Ray Charles with the Count Basie Orchestra - the long and winding road)
Vi já, por diversas vezes, javalis a saciarem-se nestes fios de água, aqui, neste sítio. Mas não são os javalis que nos escapam. Esses, até os comemos. Em boa verdade, comemo-nos todos uns aos outros. Escapa-nos que vista da sonda Voyager (nós que a construímos e a mandámos para o espaço) a 6 mil milhões de km de distância, a Terra é um ponto no espaço, um pixel numa fotografia. E que a humanidade dissociada da biosfera será uma aventura com um tempo de vida muito limitado. E que a perturbação da biosfera (biodiversidade, poluição, degradação de ecossistemas, quer física quer esteticamente como, por exemplo, tornar feio o belo - e isto é muito importante, embora não sejavoz corrente ...) nos atinge pela razão óbvia de que somos parte integrante da biosfera.
O homo erectus, o nosso primo, andou por cá 1 milhão de anos (mais coisa menos coisa). Nós, os sapiens, os sapiens sapientíssimos, os sapiens biónicos, que andamos por aqui há uns meros 70 mil anos (mais coisa menos coisa) a construir a humanidade, estamos a fazer a cama onde nos vamos deitar.
Vídeozinho às Sextas: riacho sobre o grande castanheiro num dia de brisa fresca.
Na realidade é uma superfície mas o cérebro não se contenta com apenas 2 dimensões e constrói a realidade com padrões que já lá tem na memória.
Mesmo que compliquemos a coisa (i.e., os padrões) em essência nada muda, apenas é necessário mais tempo para o cérebro construir a imagem da realidade.
O ciclista extraordinário passou muitos dias montado em cadeiras almofadas, em vez do selim com 3 dedos de largura, andou iluminado por luzes de tecto e de palco, em vez do Sol, sentiu a brisa dos ares condicionados, e não do vento que sopra na serra, ouviu sons de vozes e falas em muitas línguas que durante a coisa propriamente dita se resumia a apenas uma (... any further questions ... I wonder if ... my question is ... thank you ... ) e não do sussurro das folhas das árvores da floresta e por aí fora.
Depois de tantos dias na cidade, mal pôde, o ciclista extraordinário meteu-se serra acima até uma floresta. O ciclista extraordinário escolheu uma área remota da serra. Aos anos que o ciclista extraordinário não ia para aqueles lados. Apesar da existência de caminhos, o isolamento para aqueles lados é grande.
(O ciclista extraordinário tentou uma pose heróica mas é fácil de ver que lhe saiu ridícula)
O ciclista extraordinário estava nisto - em pose para a fotografia - quando ouviu logo ali ao lado, a uns 30 metros, um urro, ou um gemido? Um som que se lhe meteu pelo corpo dentro, eriçando-lhe os pêlos. Logo a seguir outra vez, e outra. Mais uns segundos e novamente. Olhou à volta. Uma árvore para trepar? Não, muito altas. Pô-se atento. Um javali? Não, não lhe parecia. Mas os veados não bramam assim. Às tantas, cauteloso, deu uns passos pela esquerda, por detrás de uns arbustos e viu, logo ali, um gamo aos saltos, subindo a encosta. Nesse momento outra vez o som, como que um protesto. Outro tinha ficado por ali. Estaria ferido? O ciclista extraordinário ficou com a impressão que tinha interrompido qualquer coisa entra os gamos. Para tristeza sua, talvez um love affair.
O caminho para ali chegar tinha-lhe dado água pelas barbas. Íngreme, rochoso e lamacento. De facto, após tantos anos a pedalar naquela serra, o ciclista extraordinário nunca ali tinha passado.
De um lado do caminho, do lado Norte, do lado de baixo, sobre o vale imenso até às serra do Buçaco e daí até à do Caramulo, ... a luz. O vale inundado de uma luz coada por nuvens altas servia de cenário contra o qual se perfilavam árvores. Apesar da proximidade das árvores a sensação era de grandes horizontes, do horizonte que se percebia até à serra do Caramulo.
às vezes, a densidade do matagal tapava quase tudo
Do lado de cima, bem, do lado de cima do caminho, era isto
e pequenos riachos por ali abaixo, abrindo caminho por entre pedras, fertilizando musgos e outros seres vivos de beira de água. A natureza desarranjada, intocada, bela.
A bike que me leva para estes sítios
Horas por ali isolado. Há que confiar na bike. O ciclista extraordinário sentiu ainda os odores orgânicos dos animais, sem os ver (odor parecido ao que se sente junto a um rebanho de ovelhas). Sente-se mas nada se vê, sabendo que os nossos primos mamíferos de quatro patas e um belo ar de cornos andam por ali, seguramente observando-nos. Tão próximos que somos e tanta gente que não percebe isto. Provavelmente tendo consciência de si próprios e com sentimentos de afecto, tal como nós. Ah e o aroma dos musgos e do chão húmido .. e ecos de aves que andavam lá por cima nas árvores.
Maio outonal. Quando atravessei a floresta aos 800 m de altitude, a grande floresta de coníferas, a temperatura rondava os 10-12°C e não via para além de meia dúzia de árvores à frente do nariz. A neblina, a luz coada, o silêncio cortado por cantos de aves, por bater de asas e, de vez em quando, por cascos que batiam no chão. O sentido principal para perceber o que se passava à minha volta não era a visão, mas a audição e o olfacto. Por vezes sentia o cheiro orgânico dos animais que por ali andavam mas que não via. Ouvia. Uns galhos quebrados, uns sons cavos sem eco.
Um dia branco. Na subida percebi que a neblina pousava sobre as copas logo aos 500 m de altitude, recortando os perfis das árvores magníficas contra o céu branco.
Mais um pouco e cheguei lá. Cheguei húmido, ofegante. A neblina condensava na roupa e na cara. Suado. As pedaladas têm que ser dadas com convicção, em bom ritmo. Ir por ali acima como quem vai numa corrida nem pensar, mas feito um ponhónhó também não. Depois, parei e, como já tinha experimentado outras vezes, é-se esmagado pelo silêncio, pela sensação de irrealidade.
Os caminhos ainda com as poças de águas das tempestades dos últimos dias. Belíssimos.
Mil fotografias não contariam a beleza da floresta neblínica.
E eu, furtivo, por ali fora a pedalar como quem veleja no mar alto, sinto-me em casa.
Subi mais um pouco. Aos mil metros, meti-me por um carreiro que serpenteia por uma mata de pinheiros alpinos.
O chão pejado das pinhas pequenas (pouco maiores que nozes) e intensamente perfumadas.
De vez em quando, sob os pinheiros, há uns carvalhos.
E ... blue is the warmest color.
Naquele lusco-fusco azul, de meus anos colhendo doce fruito num engano de alma ledo e cego, lembrei-me que a cadela estava em casa sozinha à minha espera. Cheguei num instante; foi só o tempo de pôr um lenço na cabeça por baixo do capacete, olhar à vota, respirar fundo, apanhar duas pinhas, espreitar para longe na expectativa de ver algum veado que por ali andasse, ajeitar os óculos, sacudir as gotas de água que caídas das árvores cobriam a roupa, encaixar os sapatos nos pedais e voar serra abaixo durante 20 km.