Serra do Açôr
Setembro 2018
... pensava eu. Foi ao contrário. Mas comecemos na véspera, ao anoitecer.
Um vento fino à superfície, a luz do anoitecer, os aromas a lodo e urze típicos da barragem, do grande lago a 700 m de altitude. Pouco mais que isso. Ao fundo, as cumeadas do Açôr cobertas por uma névoa branca. Cumeadas que percorreria de bike no dia seguinte sob Sol e chuva numa sequência improvável e, ao centro, no horizonte, quase invisível, o maciço central da Serra da Estrela.
Na manhã seguinte, o Sol quentinho puxava a que me despachasse antes que se fizesse tarde para pedalar sem pressas, com genica, que eu não gosto nem de pedaladas lerdas nem que a meia dúzia de neurónios na zona do cérebro que hiper desenvolvemos na actividade profissional - aquela zona que nos conta os minutos e está permanentemente a chamar a atenção para nos despacharmos porque temos um compromisso a seguir e mais um conjunto de merdices para fazer - me estrague as pedaladas, inibindo-me de ir por ali ou por além porque se faria tarde.
As subidas têm que ser duras e feitas pedalada a pedalada para que as cumeadas saibam bem. Sabe bem chegar. Assim temos a ilusão de que conseguimos alguma coisa.
Aos mil e tal metros, na cumeada Sul sobre o vale do rio Ceira - ah como eu gosto deste sítio - olho pela milionésima vez como se fosse a primeira o picoto da Cebola.
O cone à direita pica aos 1400m e, por trás, ao centro, sob as nuvens, o maciço central da Estrela aos 2000m. Mas hoje não é dia de subir ao picoto.
Hoje é dia de pedalar por aqui, por estes caminhos de pedras de que tanto gosto
e lambuzar-me a encher a barriga de amoras. Comi à fartazana. Às tantas, algumas souberam-me um pouco ácidas e aromáticas. Não me digas que ...! Nestes silvados pejados de amoras ( e a mesma regra se aplica noutros frutos que encontramos pelo caminho) deve seguir-se uma regra de ouro (outra das leis do BTT): apanhar apenas as amoras que se encontrem a uma altura razoável e sobretudo no meio do silvado onde um javali, um veado, cão vadio, raposa, gineta e outros, alçando a perna para se aliviarem, não atinjam com o jacto líquido. Na ânsia de apanhar amoras devo ter-me descuidado e apanhei algumas mais rasteiras ali à mão de semear (para mim) e de alçar a perna (para um javali). Em todo caso, fosse o que fosse era seguramente biológico ! Urina biológica de javali deve ser um petisco para o nosso microbiota intestinal; uma refeição suculenta, bem regada e nutritiva para a bicharada que nos habita.
(cá estão elas, as amoras)
Algumas nuvens acastelavam-se. O céu azul da há umas horas atrás estava a cobrir-se de cinzento. Durante a subida, o Sol luminoso mostrava bem a aridez da paisagem após o incêndio de Outubro passado. Outrora cobertos de árvores, os montes hoje estão nus. Ou quase. Até onde a vista alcança.
Já antes, ao terminar a subida, junto ao marco geodésico, de onde a imensa barragem parece um laguito para sapos, notara os castelos de nuvens
Já tinha poucas dúvidas; vinha aí uma borrasca. O vento arrefecera ligeiramente e o horizonte a Sul, lá mais em baixo, manchado de negro na vertical dizia-me que chovia a potes. Horas de me pôr a andar.
Na descida iria contornar a borrasca pelo lado Oeste mas, bem o sabia - é uma coisa que me está nos ossos; sei, sem fazer esforço, em qualquer local, de onde sopra o vento, onde nasce o Sol ... - o vento estava de Este e, portanto, mais cedo ou mais tarde estaria em cima de mim. Lá ao fundo, iria virar à esquerda, para Este, para debaixo do céu negro.

O Sol e o ar ameno aqui aos mil metros não deixa perceber muito bem o que se passa lá em baixo. Lá ao fundo junto à barragem para onde terei que pedalar to get back home. Aqui compreende-se a chuva; estou ao nível das nuvens e vejo as cortinas de água que, das nuvens, varrem a terra lá em baixo. Quando lá estiver, também a ser varrido, a levar com ela em cima, terei, seguramente, uma outra visão das coisas. Enquanto que aqui me deslumbro, esboço um sorriso e solto uns suspiros de prazer, lá em baixo, most likely, proferirei umas imprecações tabernáculas sobre a chuva e a respectiva mãe e sobre a minha condição sexual momentânea, if you now what I mean. No mínimo. Curioso isto.



A descida foi feita a cerca de 70Km/h. Olhar fixo em frente, trajectórias cuidadas, tenso, atento, um dedo no travão de trás - como se isso servisse para alguma coisa - bike bem apertada entre os joelhos, um fiozinho frio nas costas mas, ao mesmo, tempo, uma bela de uma sensação. Ia numa corrida contra os lençóis de chuva. Varriam já uma extremidade do grande lago e eu iria passar na outra. Estrada seca até lá baixo. Cheguei num instante. Comecei a sentir, não água, mas uns impactos nos braços, tal a violência das gotas. A estrada de alcatrão começou a pintar-se de grandes manchas. Às tantas, o meu receio - o mesmo dos gauleses comandadas pelo Ordafabeltix, que, diga-se, odiava a música do Assurancetourix - concretizou-se: o céu caiu-me em cima da cabeça. As gotas pareciam pedras a bater no capacete, nos braços e nos tubos da bike. Foi uma festa. Um pouco antes, num exercício de ginástica, sob uma pedra, tirei o telemóvel do bolso para fotografar a superfície da barragem fustigada pela chuva. A superfície lisa e espelhada da véspera era agora rugosa e encrespada.

Pensava que seriam as últimas pedaladas este ano no Açôr sob Sol quente, antes das invernias que, bem as conheço, por ali se instalam. Mas, afinal, foi apenas uma bela de uma chuvada em cima, dura mas morna. As próximas, espero eu, serão seguramente sob invernia a sério.