segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Neve na Serra da Lousã


27 de Fevereiro de 2016
(serra da Lousã)

Sábado de manhã, a caminho do mercado, olhei para a serra e ... tenho que me despachar ... só pensava em pedalar pela serra acima ... pela neve.


Vinte minutos depois, já tinha a molhada de grelos, a couve, os coentros, as laranjas e as maçãs bravo esmolfe, as cebolas, umas batatinhas com belíssimo aspecto, os figos secos e uns sargos de mar mais uma posta de corvina. Faltava o bolo de Ançã e uns pães de leite mas na zona da padaria estavam pelo menos umas 5 pessoas. Ora, se cada uma fosse aviada em 3 min de conversa (pois, é que o mercado é um local de convívio) isso daria mais uns 15 min. Como a raposa que não chega à latada das uvas pensei: faz bem quebrar a rotina do pão com marmelada. E corri para casa.

Tinha que subir pela N236. Atolar-me-ia na lama e na neve caso subisse por caminhos de terra. A bike não está com pneus adequados para a neve.

A neve apareceu logo à saída da vila, no vale da ribeira de S. João. A GNR tinha colocado uma placa de trânsito proibido para a serra mas os carros passavam, borrifando-se para a placa.



Acelerei na expectativa das pedaladas lá mais para cima



mas, logo a seguir, parava novamente para tirar fotografias. Era o plano detalhado do costume: arranca-se por ali acima a pedalar e depois ... logo se vê. Perfeito. Pelo menos tem resultado ...  a maioria das vezes.




Estava a parar de 200 em 200 m. Aqui, onde páro muitas vezes, ao olhar a paisagem para os lados do Trevim (coberto por nuvens) atravessou-se-me na memória uma série televisiva de há muitos anos, Twin Peaks, onde me lembro de ver paisagens parecidas. E pronto, os Km seguintes foram feitos com a música que Angelo Badalamenti compôs para a série, com aqueles sons da guitarra baixo a ressoarem na minha cabeça, pooooong, pong, poooong. 




Isto está a ficar nostálgico. Mas que esta paisagem lembra Twin Peaks, lá isso ... A memória, sempre a memória. Sabe-se hoje que há uma base física para a memória mas, em todo o caso, a memória é um caso sério para o entendimento do cérebro.


E mais uma fotografia com a bike para "memória futura" (como se a memória não fosse sempre para o futuro).


Quando cheguei ao Candal, a 11 km da vila e a única aldeia serrana na N236, a neve tornara a paisagem na que, provavelmente, era a de há muitos anos atrás, quando os grandes nevões eram mais frequentes. Eu conheço o Candal verde e amarelo e laranja e castanho, mas não branco.


Muitas árvores não aguentaram o peso da neve. Este é um aspecto crítico para as árvores; o peso da neve. As árvores vergam e partem. As mimosas em flor curvavam-se até ao solo.


Ali, debaixo de uma árvore, encontrei um sítio mais ou menos limpo e sem neve para tirar uma selfie e me incluir na história


É curioso, conheço tão bem esta estrada, tantas vezes aqui pedalei e, no entanto, a neve trasnformava-a, fazendo com que perdesse os pontos de referência (uma pedra, uma árvore, outra coisa qualquer) que, sem ter anteriormente dado conta, me permitia inconscientemente identificar os locais. A estrada que tão bem conheço com a neve transformara-se num local novo.



As árvores partidas e caídas na estrada, sob o peso da neve, também ajudavam ao irreconhecimento (que palavra é esta?!)


Alguns carros, apesar das árvores caídas, insistiam em furar por ali fora. Furavam, furavam até que, como nos filmes da máfia em que o carro da vítima é bloqueado por outro dois, caía uma árvore à frente e outra atrás, emboscando-os.


Até de bike era preciso uma certa ginástica, quanto mais de carro!



A partir daqui, o mundo passou a preto e branco


A preto e branco e frio



A preto e branco e frio e belo


Há que reconhecer, todavia, que a protecção impermeável do meu capacete dava um leve toque de .... "cromaticidade" ao ambiente (a pose, de pernas abertas à futebolista foi completamente espontânea, não foi  ensaiada).


Agora, ao ver as fotografias, aqui na sala à lareira, sei que falta qualquer coisa. Acho que dão a impressão de um ambiente estático e "soft", tranquilo. Nada disso, quando ali, enquanto pedalava, era tudo dinâmico e rude e mais não sei bem o quê. Era tudo muito intenso.


Ouvi várias vezes árvores a partir e a tombar. Vi até duas a cair a poucos metros da estrada. O ruído foi assustador. Começava estridente e intenso, depois percebia-se que os ramos batiam nas outras árvores e partiam-se os ramos uns nos outros e tudo acabava com um som cavo da árvore a embater no chão.


Fui subindo, já não havia carros. Tinham passado uns jipes dos baldios e dos bombeiros. Nunca tinha feito um "single track" destes. Evitava a todo o custo meter os pés na neve pois, apesar da protecção de neoprene que levava sobre os sapatos, a neve molharia os pés por baixo, pelos encaixes.


A certa altura, vi uma árvore que, curvada sob o peso da neve, parecia um cogumelo gigante


Foi o local escolhido para uma paragem sem ensopar os pés na neve. Estava a chegar aos mil metros de altitude. A coisa estava a começar a ficar difícil. Tirar as luvas para as fotografias arrefecia e molhava as mãos. Calçar de novo as luvas não era como beber o gin que neste momento tenho ali ao lado e que vou bebericando. Os pés também já estavam molhados. A neve nos "cleats" dos sapatos (quando parava era inevitável não pisar a neve) quase impedia o encaixe nos pedais (tinha que bater com força no pedal com o cleat para sacudir a neve). Algumas vezes já pedalava sem conseguir encaixar um dos pés.
Comi a banana que ia no bolso de trás, enquanto ainda tinha sensibilidade para abrir fechos nos bolsos traseiros do blusão.
Fiz contas à vida e, com a determinação e a estupidez que me caracteriza, decidi continuar e subir até ao planalto.


É que estava tudo tão bonito!


Tirando a protecção do capacete, obviamente.


Obviamente.


Enquanto as árvores com folhas vergavam as outras, as nuas, mantinham, na medida do possível, a postura, estoicamente.
A neve fazia uns muretes ao longo dos ramos e ficava tudo assim muito bonito.
Depois, os carros deixaram de passar, tornando as pedaladas  por ali em isolamento mais interessantes.


Estava a chegar ao planalto. A neve atingia uns 30 cm


Não tinha pneus para andar ali na neve. Até no single track já patinava. Ainda me passou vagamente pela cabeça como seria, na volta, descer por ali, sem tracção.


O mundo a preto e branco passou a gradientes de cinzento. Começara a instalar-se uma neblina que tornava tudo à volta difuso. Parecia que tinha os óculos embaciados.


Estava a uns 500 m do planalto, do fim da subida.


200 m.


A tempestade de neve da noite anterior foi violenta. Via-se bem pelos cedros da floresta, pintados de branco de um lados do tronco.


Às vezes, olhamos para a frente e fica sensação de que vamos para a zona da neblina e que visibilidade vai diminuir mas, às tantas, olhamos para trás


e percebemos que afinal já lá estamos, imersos na neblina.


Tudo belíssimo.


Cheguei. Tenho fotografias desta parte da floresta no Outono com os amarelos, os castanhos, os laranjas. Por exemplo, aqui.

Encostei a bike.




e fiquei por ali olhar à volta




e para cima





A certa altura, a luz baixou, começou a ficar o céu de chumbo


abateu-se uma "grande calma". Era como se estivesse a ver um filme e, de súbito, as imagens começassem a passar em câmara lenta.


Eu sabia o que era. Lembro-me da sensação de quando era mais novo, na serra da Estrela. Vinha aí um nevão.

A neve começou a cair em pedaços pequenos mas, rapidamente, começaram a cair flocos grandes. Ah ! à tanto tempo que não vejo um nevão destes. E eu no meio dele.

Olhei para a bike. Está aqui muita neve. Vai cair muita mais. Horas de voltar.


O telemóvel desligou-se (soube mais tarde que, aparentemente, os iphones são muito sensíveis ao frio). Enfiei o balaclava, calcei o segundo par de luvas, fechei todos os fechos e peguei na bike.

Olhei para o céu e via riscos de flocos na direcção dos meus olhos. À volta a paisagem estava ainda mais desfocada pela cortina dos flocos de neve. Andava por ali sozinho. Não tinha visto ninguém e já não passavam carros há muito tempo. Ao mesmo tempo que achava aquele momento extraordinário pensava no single track (rodados dos carros na neve) que rapidamente iria desaparecer e que, portanto, tornaria a descida muito difícil.
Ainda fiquei por ali uns instantes. Estava ali no meio do nevão. estava muito frio. Sentia-me bem. Havia ali um entendimento da essência das coisas difícil de descrever.

A bike estava OK e isso dava-me segurança. Comecei a descer muito devagar (mais lentamente que na subida), a bike entrava facilmente em peão. Nunca fui ao chão. Os primeiros km foram difíceis.  A neve colava-se aos óculos. Baixei os óculos para a ponta do nariz, tentando que me protegessem do spray das rodas. Levava lentes de contacto e a falta dos óculos obrigava-me a fechar os olhos com frequência. Parei duas ou três vezes para sacudir a neve do casaco. A neve colava-se à bike e ao casaco. O frio nos dedos das mãos e dos pés passou a dor. Mais abaixo; à cota dos 700 m já não nevava. Foram 18 km a descer. 

Amanhã vai estar bom tempo, a neve vai manter-se mas o acesso será muito mais fácil e poderei ir até mais lá acima, ao Trevim - pensei.
E fui. Mas isso fica para outro post.





terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Lagartas do pinheiro

Serra da Lousã
(Fevereiro 2016)

(Ligar a televisão para o canal "Odisseia" à 7 da matina durante o pequeno almoço dá nisto: conhecer  histórias extraordinárias que se passam à nossa volta com animais de aspecto ordinário)

Há anos e anos. Desde para aí dos 7, 8 anos que conheço as filas de lagartas que parecem funcionar com um megaorganismo (como os cardumes de milhares de sardinhas, ou os bandos de milhares de pardais que, parecendo nuvens, se movem com se fossem um único organismo - isto é um assunto que me fascina mas é outra conversa). Os carreirinhos do "brugos" como diz o meu pai. Vão em fila indiana que se move com uma única lagarta mas, vendo bem, o movimento é individual, cada uma das largadas dobra-se e avança tocando na da sua frente.
Dantes, ir para o pinhal era um problema por causa dos "brugos". Já se sabia, vinha-se de lá com comichão e a pele vermelha, inflamada. Eu, que tenho uma pele que os mosquitos acham deliciosa, nunca tive problemas com os brugos. Andava pelos pinhais e saia incólume. Quanto muito com pedaços de resina agarrada à pele, ...

Hoje, nas voltas de bike pela serra, sobretudo depois do Inverno quando o tempo começa a aquecer, é muito frequente vê-las em fila indiana, encolhendo-se e esticando-se, com cadência, como se alguém estivesse a marcar o ritmo.
E, só agora, depois de tantas vezes me ter atravessado no caminho da fila das lagartas do pinheiro, aprendi para onde vão. Quem são e de onde vinham já sabia.

Depois do temporal dos últimos dias, o Sol deu um ar da sua graça e ... lá vão elas


Não se deve tocar-lhes. Quando se sentem ameaçadas, enrolam-se, abrindo uns poros que liberam uns pêlos microscópicos que difundem no ar e são altamente alergénicos. Eu, quando as encontro, dou guinadas no guiador da bike para evitar passar-lhes com a roda por cima.
Ali vão, à sombra da bike. São pelo menos umas 11 em fila.



Provavelmente este cordão já se separou de outro maior, à saída do casulo. Pois é, é que ela passaram o Inverno num casulo. Ali, naquele pinheiro, no casulo já muito estragado, no cimo à esquerda. Parece uma pinha grande.


No Inverno os casulos, enquanto ainda em bom estado, são brancos. O casulo é tecido de tal modo que mantém uma temperatura amena no interior (penso que acima dos 20 graus C), apesar do frio no exterior. É ali que passam o Inverno. Saem apenas para comer e, como o casulo não tem qualquer orifício, têm que furar para o atravessar. O que é comem? As folhas dos pinheiros. Por isso são uma praga para os pinheiros. Aliás os ramos que suportam os casulos não têm folhas (devem começar por comer as que estão à porta de casa)



Depois do Inverno bem passado ali no quentinho do casulo há um momento em que se inicia uma migração. Alguma coisa acontece que leva a que, em grupo, saiam alinhadas do casulo. A temperatura? A intensidade da luz? Estímulos olfactivos das flores que começam a despontar? Não sei se se sabe como é dado o tiro de partida mas a população de lagartas sai em fila, do casulo, desce o pinheiro, cada uma ligada à da frente e vão por ali fora em procissão até ... e agora isto é extraordinário ... a que vai à frente encontrar um local com areia adequado para se enterrarem (sim, enterrarem) no solo. Após tantos anos só agora sei para onde vão as filas dos "brugos". Vão enterrar-se por ali. Devo ter-me sentado muitas vezes em cima das lagartas enterradas, quando andava pela serra.
É durante a viagem em procissão que são alvo de predação por algumas aves. Um cão mais curioso que se aproxime o suficiente para levar com uma boa dose dos pêlos da lagartas que contêm toxinas pode sofrer lesões irreversíveis na língua e nas mucosas.
Não sei bem quanto tempo ficam para ali enterradas mas o suficiente para ocorrer a diferenciação celular e se transformarem em borboletas (não nas belíssimas de várias cores mas noutras mais modestas de aspecto deslavado, pequenas e menos elegantes, com aspecto obeso). As borboletas desenterram-se e voam dali para fora. Voam dali para os pinheiros onde vão fazer um novo casulo, fechando o ciclo. Parece que têm apenas 1 ou 2 dias para o fazer, pois esse é o seu tempo de vida.

Que história extraordinária.
Agora, quando pedalo na bike e me cruzo com a procissão das lagartas no caminho, vejo não uma mera procissão de lagartas no caminho que anda por ali perdida, ao acaso, mas uma epopeia colectiva, um desbravar de novos mundos para uma transformação (embora, não percamos isso de vista, o genoma é o mesmo) fantástica, de uma lagarta numa borboleta. Esta última voa para os pinheiros de onde as primeiras saíram rastejando.

Depois das lagartas fui à vida. Tinha subido a serra por uns caminhos secos e solarengos onde encontrei as lagartas (na fotografia, com a bike encostada a um sobreiro - a variedade da flora na serra é um deslumbramento - vê-se a aldeia de xisto do Gondramaz na encosta em frente)


mas nos vales mais fechados, na orla da floresta de cedros, assisti a outra transformação: os caminhos transformaram-se (não em borboletas - que piadola rasca !) mas em riachos



(acho isto muito bonito, os brilhos e as pedras amarelas rugosas ...)

até que, na curva do caminho, após uma descida, travei a fundo. Houston we have a problem. Como é que vou passar para o outro lado? Parecia simples, uma coisa de limpar o cú a meninos. O problema não era o riacho ter uns 4 ou 5 metros de largura ou a altura da água, era a irregularidade do terreno, as pedras escorregadias e as poças fundas camufladas e imprevisíveis. A água a correr com força tinha aberto buracos e caso lá metesse a roda da frente a probabilidade de ir ao charco seria maior que a de encontrar 1 milhão de pessoas na bicha do supermercado à minha frente quando estou cheio de pressa. E descer a serra encharcado provoca não só hipotermia mas também mau aspecto quando se chega a casa. Não conseguia contornar aquilo com a bike às costas.


Estudei a coisa, aproximei-me subindo para uma pedra, coloquei uns paus e umas pedras como guias a marcar o caminho, recuei uns metros com a bike, bloqueei a suspensão (quando enfiamos a roda da frente num buraco não queremos que este sirva de genuflexório, queremos é levantar a cabeça e sair dali, do buraco, rapidamente, para usar uma imagem que bem se aplica ao anterior e ao actual governo, respectivamente) e pedalei em frente. Correu bem.





É pena aqui na serra não haver pinguins, sobretudo os imperadores. É que dava-me uma deixa para contar a sua história. Esta conheço-a desde a adolescência ... o casal a substituir-se na protecção do ovo, enquanto um parceiro se vai alimentar em mar aberto (que fica a km de distância do local de nidificação na Antártida) o outro fica ali à espera, semanas a fio. Depois trocam. Se alguma coisa corre mal (uma encontro pouco amistoso com uma foca, por exemplo), se há atrasos ... bem mais isto é outra história. Uma história de sobrevivência notável.

E por falar em sobrevivência o pão de leite com marmelada comprado no mercado pela manhã foi comido com a satisfação do costume.