(Vale do rio Ceira, entre Serpins e Vila Nova do Ceira)
Rio Ceira em Serpins. Ponte feita exclusivamente de ferro.
Mas não é esta a ponte construída por Gustave Eiffel em Serpins, sobre o Ceira, no final do século XIX.
É a outra, a do comboio lá atrás, mais acima.
Daqui, mais acima, vê-se bem. Imponente e formosa mas falta-lhe a graça e a imperfeição da mais pequena ali em baixo, onde tirei a fotografia com a bike.
Segui o Ceira. Gosto de seguir rios porque, nestas ocasiões, há um objectivo que se impõe com naturalidade: seguir o rio. E, nas pedaladas, por vezes convém ter objectivos, de outro modo posso passar muito tempo no mesmo sítio ou páro com muita frequência. Olha ali um sítio tão bonito ... ah mas não posso parar, estou a seguir o rio.
O rio meteu-se por um vale fechado e, à medida que pedalava monte acima, o rio ficava cada vez mais afastado, entalado no fundo do vale. Na Sra. da Candosa, lá no alto, abre-se para o outro lado um vale magnífico, o vale de Vila Nova do Ceira.
O rio lá no fundo (à frente do guiador da bike)
anda por ali no vale às voltas com o cenário das terras altas do Açôr, onde nasce, ao fundo na linha ténue do horizonte à direita.
Pedalo com frequência pelas serranias da Serra do Açor (por exemplo, aqui). E já pedalei junto à nascente do Ceira. Há anos.
Fui tentar encontrar umas fotografias. Encontrei umas de 2012. O rio Ceira nasce aqui, neste vale aos 1200 m de altitude onde estou (lá em cima o Picoto da Cebola aos 1400 m, cume da serra do Açôr - quantas vezes não pedalei já até lá acima !). Olha, a minha antiga bike!
Aqui tinha acabado de deixar a nascente logo ali atrás, era um fiozinho de água que corria por ali vindo de lado nenhum. Ainda hoje, passados 4 anos, ao olhar a fotografia vem-me a memória viva do Sol, do calor, do aroma intenso da urze, da beleza rude, do vento, do caminho que me feria as pernas, da sede e da fome (são muitas horas por locais remotos), da sensação extraordinária de sentir todo o meu corpo deitado na realidade ...
Tenho que lançar aqui as fotografias dessa volta (tal com de tantas outras do passado).
Voltando, ao presente, a Sábado. Em baixo, sob a Sra. da Candosa, há uns penedos que apertam o rio, tornando-o mais wild.
O Douro, lá em baixo? Não, é o Ceira na Candosa, fazendo a transição entre o vale de Vila Nova do Ceira e o de Serpins.
Planeei o regresso pelo dantes designado "troço da Candosa do rali de Portugal"; 10 km com a serra da Lousã como cenário.
Mas, à saída da Sra. da Candosa dei com esta placa.
As autarquias inventam estas coisas na tentativa de promover o turismo; a autarquia de Góis achou que esta é a rota do mel e do azeite (como provavelmente acharam mais 50 outras autarquias do país). Uma história interessante é a disputa entre Miranda do Corvo e Vila Nova de Poiares pelo selo de capital da chanfana. Segundo se conta, em Miranda havia o barro e as olarias para fazer as caçoilas mas, por seu lado, Poiares tinha os rebanhos de cabras. Nesta guerra entre caçoilas e cabras, ambas necessárias à chanfana, as duas Vilas reclamam ser a capital da Chanfana. Então, um dia, conduzia eu pela estrada da Beira e, à saída da Lousã, vi um cartaz que anunciava: Miranda do Corvo, capital Nacional da chanfana. Uma semana depois, junto ao primeiro estava um segundo cartaz: Vila Nova de Poiares, capital Universal da chanfana. Portanto, em todo o universo, quem quiser comer uma bela de uma chanfana já sabe onde é. Aliás, como é bem sabido, uma chanfana é das coisas que caem bem quando se viaja numa nave espacial. Tivesse Poiares o mesmo presidente em 1969 e Neil Armstrong teria levado um outdoor para espetar na superfície da lua, ao lado da bandeira americana, com uma seta a apontar para a Terra: chanfana a mais ou menos 380 mil Km.
No pódio da criatividade das capitais de qualquer coisa, para mim, o lugar mais alto vai para a Pampilhosa da Serra. À entrada da vila anuncia-se num enigmático cartaz: Pampilhosa da Serra, capital do silêncio.
No regresso à Lousã, no troço da Candosa, percebi que a serra era açoitada por chuva puxada a vento. E a estrada que me levaria à Lousã passa ali, a meia encosta.
A partir daqui, as pedaladas restantes contam-se rapidamente. Tinha o quadro da bike e o casaco cheios de lama acumulada de várias semanas (é que há coisas que não se lavam - a água estraga o material) e cheguei com ambos muitíssimo bem lavados. Lavei também as luvas, o capacete e os sapatos. Tudo bem levado, por fora e por dentro.
Ah!, afinal não atravessei a ponte Eiffel de bike. Foi a outra, a mais gira.




















































