sexta-feira, 8 de abril de 2016

As falésias neblínicas do Alentejo

Costa Alentejana, Agosto de 2009
Carvalhal da Rocha (Brejão) - Cabo Sardão

Com os anos transformou-se numa clássica: ir ao cabo Sardão e voltar pela falésia, rente ao mar e rente ao abismo. Ao longo dos anos fiz este percurso mil vezes e, como em muitos outros sítios, é como se cada vez fosse a primeira, tal a beleza.

A chegada foi já ao pôr-do-sol. Encostei a bike ao forno. O Sol baixo reflectia no mar aquela luz doce do ocaso que inunda e se insinua por todo o lado de mansinho, como quem não quer a coisa.


À partida,  contrastando com a chegada, a neblina tornava difusa a paisagem, ampliava os aromas do mato rasteiro (mil aromas que há por ali, tenho-os na memória há anos)




 e camuflava o abismo.



Às vezes a neblina levantava e recordava-me a "topografia potencialmente geradora de riscos em função das Leis de Newton que, como toda a gente sabe, resulta do facto de a massa da Terra ser maior do que a do meu corpo somada à da bike e, portanto, eu a bike somos atraídos para o centro do planeta e não vice-versa" (para dizer isto de uma forma poética).


E vai-se por ali fora, sob a neblina e sobre o mar que, muitas vezes não se vê mas se ouve, a pedalar, e é tudo muito real. Nada tem de sonho. Sente-se tudo na pele.




Paro com frequência. Há gaivotas que fazem vôos rasantes à falésia, como esta. E ... olha a bike da altura, pesadona e robusta ! É como estar hoje a olhar para um Fiat 600.


E é tudo imenso


O caminho mesmo ali à beira e o som do mar que por ali sobe faz com que um friozinho se instale em permanência pelas costas acima (pela espinha acima !). E isto é bom. Evita vertigens.



Demoro muito tempo a a fazer uma dúzia de Km. É inevitável parar.






Às tantas percebe-se ao longe o farol do cabo Sardão, elevando-se à medida que pedalo, como se fosse o mastro de um barco que se aproxima na linha do horizonte.



Que sítio este! Olhamos e, sem dar por isso, sai-nos das entranhas: Fooooooooodddddddddaaaaassssssssssssseee!



É um local poderoso, de grande intensidade, de pele arrepiada, este.





 

A volta, pois, há sempre uma volta, foi pelo lado do Cavaleiro, a povoação junto ao cabo.


Mas rapidamente mudei de ideias e voltei pelo percurso da ida. É outro percurso, não é o mesmo. Uma coisa é vir para Norte, outra é ir para Sul. Parece claro.

Quando o Sol abre a paisagem transforma-se


Na volta, ainda espreitei os ninhos de cegonha, 4 em linha pelo penhasco abaixo, mas, nesta altura do ano, os juvenis já voaram do ninho. Já os observei noutros anos, por alturas do início da Primavera, ali no ninho, protegidos pelos progenitores, a levarem com ventanias e espuma das ondas, estas ainda ferozes nessa altura do ano.


Pedalo com frequência nos mesmos sítios. Nunca me canso. São sempre diferentes, todos os dias. Tenho tantas fotografias de pedaladas na costa do Alentejo mas numa área relativamente pequena, entre Aljezur (já Algarve) e cabo Sardão. Tenho que as lançar aqui. Tal como fiz com estas. Estava para aqui, a 450 km de distância destes caminhos, a olhar pela janela e, de repente, atravessou-se-me a memória das falésias na mente. Fui rapidamente à procura de fotografias e as primeiras que me apareceram foram estas, de 2009.
Para além da costa do Alentejo, os sítios recorrentes onde pedalo são as Serras da Estrela, do Açôr e da Lousã. Falésias, montanhas e serranias. Ora, afinal há apenas (como em quase tudo) uma linha ténue que separa o granito da Estrela do mar no Alentejo.

Gosto de chegar ao por-do-sol, de ver a luz refletida no mar e as gaivotas, em bandos, por ali às voltas como quem vai para qualquer lado.






quarta-feira, 6 de abril de 2016

A vertigem do vale da ribeira de S. João

Serra da Lousã
(Vale da ribeora de S. João)

Foram sobretudo as águas de Março que fizeram rugir a ribeira. Passa lá ao fundo no vale. Não se vê, ouve-se. Nunca fui lá abaixo. É que os sapatos de encaixe com sola de poliamida e aplicações de metal para encaixar nos pedais da bike não são a primeira opção para uma caminhada encosta abaixo e acima.
Cá em cima, na estrada, ouve-se sempre um som de água a correr, mesmo no Verão, mas é quando vêm umas belas chuvadas que a ribeira parece acordar de uma espécie de hibernação. Furiosa (imagino eu cá em cima), a correr por entre pedras, abrindo caminhos novos e levando tudo à frente, paus e folhas e o que aparecer. É isto que o som me diz.
Páro ali com frequência sobre o vale e quase que sinto uma vertigem, um canto de sereia que me atrai até lá abaixo.
Ao cimo do vale, o Trevim (a 1200m) e, na encosta em frente, ao cimo do souto, a aldeia do Talasnal.
Som deslumbrante este, o da ribeira, acompanhado pelo pio de um pássaro ali perto.



Cá em cima, correm com pressa pequenos riachos que vão alimentar a ribeira,


fazendo pequenas cascatas.


É curioso pensar porque é que este som não soa como ruído (pelo menos para mim). Pode até fazer-se um exercício, imaginando um som (aparentemente) parecido com o da água que corre na ribeira. Por exemplo, o som de um rádio mal sintonizado é aparentemente semelhante a este mas, enquanto que o da água que corre é "natural", até tranquilizador, o do rádio é perturbador.

domingo, 3 de abril de 2016

Soirée de Domingo para lá do céu do Missouri

Abril 2016
(Serra da Lousã)

Seguramente. Do Missouri à serra da Lousã é longe. É preciso atravessar um oceano. E, nevertheless (como diriam no Missouri), o céu é o mesmo.
Mensagem para um amigo é a música para acompanhar os vídeozinhos ali em baixo. Para se sobrepor à da água em pequenos fios que corre pela floresta.
Comprei este álbum de Pat Metheny com Charlie Hayden no século passado, em vinil. Foi um deslumbramento.


Há algum tempo que não vinha para estes lados, para o lado Norte da encosta do Trevim.
Depois das tempestades de Março, que transformaram os pequenos riachos tranquilos em torrentes impetuosas que tudo levavam à frente, os fios de água que descem pela floresta parecem ter voltado à timidez do costume. São os sobreviventes das águas de Março. Este, por exemplo, dá ali uma volta, contornando a árvore que se ergue para o céu (do Missouri e da serra da Lousã).

Acho muito interessante que, no chão, a desordem das folhas e dos ramos, das texturas e das cores formam, para mim, um conjunto harmonioso. Tudo está no seu lugar, como cadeiras arrumadas à volta de uma mesa. Provavelmente, isto é verdade para toda a gente. É que, com a Evolução, temos inscrito no cérebro este tipo de padrão. Para nós deve ser natural. E, no entanto, não são aparentes linhas ou figuras geométricas, um padrão sequer, que pudesse racionalmente dar corpo à ideia de ordem. Não há ali uma geometria Euclidiana. Há, talvez, uma geometria fractal que o nosso cérebro percebe como familiar, intuitivamente, que fica para além de uma análise racional.




Mais acima, aos 800 m. Esta parte da floresta tem um aspecto desolado. De Verão é escura, escuríssima, de onde jorra como água de  uma fonte um zumbido intenso que denuncia milhões de moscas gigantes que ali se abrigam (não sei se se abrigam) mas juntam-se ali como que fugindo do Sol, formando uma nuvem como se fossem um organismo gigante com 1 milhão de de amplificadores de zumbidos. Fico com os cabelos em pé só de passar ali perto. No Inverno e no Outono é suave, cores suaves, silêncios, clareiras por onde uns raios de luz filtrada atingem o solo, este atapetado sem grandes contrastes, castanhos pálidos ... e o fiozinho de água hesitante ... Mas, há um certo mistério nisto tudo quando se olha à volta.


Horas de me pôr a andar


é que ... le temps va, tout s'en va.


Depois, ah depois, são os horizontes. Na linha do horizonte à direita aproximo-me para ver o planalto da serra da Estrela com uns farrapos de neve dispersos.


E, como é hábito, fica ali o caminho para acabar de fazer. Monto na bike e sigo.





quarta-feira, 30 de março de 2016

Caminhos sem fim estes ... y si fuera mujer?

Julho 2014
(Serra da Lousã-Penela)

Passo grande parte da minha vida a pensar: onde é que isto vai dar?


E já senti a pele arrepiada com as palavras de Mario Benedetti em Montevideo.

Y si dios fuera mujer?
...
qué venturosa espléndida imposible
prodigiosa blasfemia.







Caminhos ventosos estes

Abril 2015
(Serra da Lousã)

Passo grande parte da minha vida a levar com o vento nas ventas.


E já Piazzolei nas ruas de Buenos Aires




Caminhos de cabras estes

Março 2016
(Serra da Lousã)

Passo grande parte da minha vida em caminhos de cabras.



E já percorri as streets of Philadelphia




domingo, 27 de março de 2016

De bike na ponte Eiffel sobre o rio Ceira

Março 2016
(Vale do rio Ceira, entre Serpins e Vila Nova do Ceira)

Rio Ceira em Serpins. Ponte feita exclusivamente de ferro.


Com um aparafusamento muito semelhante ao desta torre, mais coisa menos coisa.


Mas não é esta a ponte construída por Gustave Eiffel em Serpins, sobre o Ceira, no final do século XIX.


É a outra, a do comboio lá atrás, mais acima.


Daqui, mais acima, vê-se bem. Imponente e formosa mas falta-lhe a graça e a imperfeição da mais pequena ali em baixo, onde tirei a fotografia com a bike.


Do outro lado de Serpins, no sentido montante do rio, outra ponte. Esta com mais séculos de água a correr-lhe por baixo. E, em anos de cheias, a correr-lhe por cima.


Segui o Ceira. Gosto de seguir rios porque, nestas ocasiões, há um objectivo que se impõe com naturalidade: seguir o rio.  E, nas pedaladas, por vezes convém ter objectivos, de outro modo posso passar muito tempo no mesmo sítio ou páro com muita frequência. Olha ali um sítio tão bonito ... ah mas não posso parar, estou a seguir o rio.

O rio meteu-se por um vale fechado e, à medida que pedalava monte acima, o rio ficava cada vez mais afastado, entalado no fundo do vale. Na Sra. da Candosa, lá no alto, abre-se para o outro lado um vale magnífico, o vale de Vila Nova do Ceira.


O rio lá no fundo (à frente do guiador da bike)


anda por ali no vale às voltas com o cenário das terras altas do Açôr, onde nasce, ao fundo na linha ténue do horizonte à direita.


Pedalo com frequência pelas serranias da Serra do Açor (por exemplo, aqui). E já pedalei junto à nascente do Ceira. Há anos.
Fui tentar encontrar umas fotografias. Encontrei umas de 2012. O rio Ceira nasce aqui, neste vale aos 1200 m de altitude onde estou (lá em cima o Picoto da Cebola aos 1400 m, cume da serra do Açôr - quantas vezes não pedalei já até lá acima !). Olha, a minha antiga bike!


Aqui tinha acabado de deixar a nascente logo ali atrás, era um fiozinho de água que corria por ali vindo de lado nenhum. Ainda hoje, passados 4 anos, ao olhar a fotografia vem-me a memória viva do Sol, do calor, do aroma intenso da urze, da beleza rude, do vento, do caminho que me feria as pernas, da sede e da fome (são muitas horas por locais remotos), da sensação extraordinária de sentir todo o meu corpo deitado na realidade ...
Tenho que lançar aqui as fotografias dessa volta (tal com de tantas outras do passado).


Voltando, ao presente, a Sábado. Em baixo, sob a Sra. da Candosa, há uns penedos que apertam o rio, tornando-o mais wild.


O Douro, lá em baixo? Não, é o Ceira na Candosa, fazendo a transição entre o vale de Vila Nova do Ceira e o de Serpins.

Planeei o regresso pelo dantes designado "troço da Candosa do rali de Portugal"; 10 km com a serra da Lousã como cenário.

Mas, à saída da Sra. da Candosa dei com esta placa.


As autarquias inventam estas coisas na tentativa de promover o turismo; a autarquia de Góis achou que esta é a rota do mel e do azeite (como provavelmente acharam mais 50 outras autarquias do país). Uma história interessante é a disputa entre Miranda do Corvo e Vila Nova de Poiares pelo selo de capital da chanfana. Segundo se conta, em Miranda havia o barro e as olarias para fazer as caçoilas mas, por seu lado, Poiares tinha os rebanhos de cabras. Nesta guerra entre caçoilas e cabras, ambas  necessárias à chanfana, as duas Vilas reclamam ser a capital da Chanfana. Então, um dia, conduzia eu pela estrada da Beira e, à saída da Lousã, vi um cartaz que anunciava: Miranda do Corvo, capital Nacional da chanfana. Uma semana depois, junto ao primeiro estava um segundo cartaz: Vila Nova de Poiares, capital Universal da chanfana. Portanto, em todo o universo, quem quiser comer uma bela de uma chanfana já sabe onde é. Aliás, como é bem sabido, uma chanfana é das coisas que caem bem quando se viaja numa nave espacial. Tivesse Poiares o mesmo presidente em 1969 e Neil Armstrong teria levado um outdoor para espetar na superfície da lua, ao lado da bandeira americana, com uma seta a apontar para a Terra: chanfana a mais ou menos 380 mil Km.
No pódio da criatividade das capitais de qualquer coisa, para mim, o lugar mais alto vai para a Pampilhosa da Serra. À entrada da vila anuncia-se num enigmático cartaz: Pampilhosa da Serra, capital do silêncio.

No regresso à Lousã, no troço da Candosa, percebi que a serra era açoitada por chuva puxada a vento. E a estrada que me levaria à Lousã passa ali, a meia encosta.


A partir daqui, as pedaladas restantes contam-se rapidamente. Tinha o quadro da bike e o casaco cheios de lama acumulada de várias semanas (é que há coisas que não se lavam - a água estraga o material) e cheguei com ambos muitíssimo bem lavados. Lavei também as luvas, o capacete e os sapatos. Tudo bem levado, por fora e por dentro.

Ah!, afinal não atravessei a ponte Eiffel de bike. Foi a outra, a mais gira.