domingo, 8 de maio de 2016

Da Lousã ao Trevim

30 Abril 2016
(Serra da Lousã)


Escolhi ir a direito. Da Lousã ao Trevim. Duro como o raio. Uma diferença de mais de 1000 m em altitude em pouco mais que 18 Km. Mas escolhi. Vou por ali. Que se lixe. Podia ir dar uma volta mais suave. Mas escolhi ir a direito. Não poder escolher é uma merda. Isso dá cabo da vida.  Por isso, raramente me queixo. Do trabalho, das pedaladas, das escolhas que fiz (se me arrependo? Isso é outra coisa). Porque escolhi. E, para além do resultado final, poder escolher é sempre um caso feliz.  Estou agora a lembrar-me que há um livrinho escrito pelos dois físicos que detectaram a radiação de fundo do Universo, Penzias e Wilson, onde este falam disto. E, já agora, não é aquela ideia do famoso cântico negro de José Régio porque até parece que a escolha dele está predeterminada e é, portanto, imune à novidade, logo não está a fazer escolha nenhuma (mas, não me vou meter por aqui).

Fui a direito. Já o fiz dezenas de vezes. Tirei duas fotografias e fiz dois vídeos.

A primeira sobre a Lousã aos 900 m de altitude, percebendo-se Coimbra lá ao fundo à esquerda por detrás dos montes.


 A segunda também sobre a Lousã mas mais acima (esta é apenas um pretexto para mostrar a urze em flor).


 A terceira (afinal são 3) no mesmo sítio mas tirada para o outro lado, para Este, para a sequência quase-infinita de cumeadas, de cores e de texturas. As serranias da Lousã, Açôr e Estrela.


O vídeo, também no mesmo sítio, não deixa tanto à imaginação mas abre o ângulo do horizonte desde Oeste até Este.  Ao vir de Oeste, a Norte vê-se a Serra do Buçaco (parece uma meseta), depois a do Caramulo e, já no final, a do Açôr (o cone do picoto da Cebola aos 1400m é óbvio)  com a da Estrela (imponente) na linha do horizonte



Ah, os últimos metros da subida. Gosto da rudeza dos caminhos.



Subiu-se logo desce-se.  Here we go!
A estrada, em mau estado, segue a linha das eólicas. Ainda hei-de filmar isto como deve ser, à velocidade real, nem que seja com o telemóvel preso nos dentes. Às vezes vou por ali abaixo e vejo os falcões e outras rapinantes a planar mas, ao contrário do que é normal, pelo dorso, é que estão mais baixas do que eu. O som do vento que bate (mas não sopra a chuva, ora bolas!) é real. É o som que se ouve quando se veleja em cima da bike por ali abaixo. Aliás, a ventania no rosto, nos ouvidos, em todo o lado, é um lado pouco óbvio para quem nunca experimentou andar de bicicleta acima dos dos 30 km/h (mais ou menos) mas que traz às pedaladas uma intensidade e novidade sensorial  viciantes. É que, estou convencido, o prazer é uma força evolutiva (motora) inscrita no cérebro (digamos assim) que motiva muitas das nossas acções.



quarta-feira, 4 de maio de 2016

Quem somos, de onde vimos, para onde vamos, porque é que não há mais pessoas a a andar de bicicleta?

Serra da Lousã
(1 de Maio de 2016)

O encontro ocorreu logo depois de ter estado a fotografar as paredes coberta de água, coloridas, brilhantes por onde corria um fiozinho de água; o que restava de uma queda mais ou menos exuberante de algumas semanas atrás. Vem o Sol, o tempo aquece e irrompem as cores. Ao contrário, os riachos minguam.

Mas, estava ali a olhar para os brilhos e as cores da parede onde agora irrompiam pequenas plantas quando vejo um tipo a aproximar-se de bicicleta, uma ar distraído, a olhar à volta, só lhe faltava assobiar, com aquela atitude de cordialidade contida.


Mas os roxos? De onde é que vêm os roxos? Era isto que mais me intrigava


Passou. Eu fiquei mais um pouco. Depois, fui atrás dele pela serra acima. Que diabo o tipo pedalava bem. Vi que levava uns rabiscos a servir de mapa. Meti-me com ele, ofereci-me para lhe dar sugestões, dicas, respostas. O plano dele era simples mas difícil de concretizar. Subir ao topo da serra e depois descer pelo outro lado.
Entretanto chegou a mulher. Vinha numa e-bike (bicicleta auxiliada por um motor eléctrico). É que assim consigo acompanhá-lo, disse-me, apontando para o marido com a cabeça e expressão de quem quer dizer que ele é um tolo das bikes.
Eram Holandeses. Lá lhes dei uma sugestões, falámos de várias coisas. Ela dizia-me que gostavam muito das variantes do verde e eu percebia bem o que ela dizia. Ele, o marido, ia sorrindo. Às tantas, ele sai-se com esta:
-        Isto é tudo tão bonito. Porque é que não há mais pessoas a andar de bicicleta?

à    Às vezes fazem-se estas perguntas sem querer saber a resposta (perguntas de retórica) mas quando ele ficou a olhar para mim de olhos abertos percebi que era genuíno, que o intrigava a pergunta, que queria que eu dissesse alguma coisa. Disse-lhe que, ainda assim,  por vezes há mais pessoas a pedalar por ali. Mas que quando se trabalha (os que trabalham) e se tem um ordenado miserável, como é o caso de mais de 30% das famílias (e jovens) portugueses, pedalar pelos campos e serras apreciando a beleza pode ser uma ideia remota. Tal como ir ao cinema, ou a uma exposição, ou a um concerto, ou outra coisa. Mas que também achava que há coisas que têm que ser ensinadas e que, ao contrário de emoções como o medo, por default não temos inscrito nas redes neuronais outras que resultam de estímulos diversos e associações complexas (a beleza que ele percebia incluía não só o que via mas também os aromas, e a luz e os sons de aves e água a correr, e mais mil e uma coisas).

     Despedi-me e fui andando mas, km à frente, quando parei numa fonte improvisada (uma telha num riacho) que está ali há anos



     olhei para trás e via-os perto. Pedalavam que se fartavam. Eu todo bem equipado, calções como deve ser, sapatos de encaixe, uma bike jeitosa e tal, e ele com uns sapatos de pano finos que nem conseguia colocar o pé no pedal, um alforge, uma pasteleira.

Ao chegar ao planalto tirei mais umas fotografias: umas árvores num pequeno bosque. É que estava tão bonito!





Na descida tirei outras, desta vez a um souto que começa a folhear, fazendo contrastes de sombra em machas no chão das folhas mortas do ano passado.


E daqui apanhei depois o caminho (este é dos caminhos para algum lado) que me levou lá abaixo ao vale. Gosto desta descida porque  o vale começa a vislumbrar-se (como que a nascer no horizonte), percebendo-se  lá em baixo, e depois se vai abrindo, imenso, à medida que nos aproximamos.






sexta-feira, 29 de abril de 2016

Abril no Açôr - O Adamastor

Serra do Açôr
(Abril 2016)

Plano: Ir nas calmas até à barragem, ficar para ali um bocado extasiado a olhar, parar na fonte para encher o bidão, respirar fundo, olhar de soslaio para as cumeadas lá em cima,  proferir uma imprecação tabernácula e força nas canetas até lá acima aos mil metros. Depois, já com o Adamastor à vista, pedalar por onde me der na gana.

Mal saí, poucas pedaladas adiante, parei para verificações técnicas. É que a bicicleta é o equivalente dos tubarões no meio biológico mas não é perfeita. A evolução quase que atingiu a perfeição ao seleccionar estas espécies. Pouco há a melhorar, estão optimizadas e, por isso, quer os tubarões nos últimos milhões de anos quer as bicicletas nos últimos cem anos permaneceram, em essência, a mesma coisa. Mas, como dizia, apesar da perfeição estruturo-estetico-aerodinamico-funcional da bike, por vezes há furos.


Parei na barragem para apreciar o monolito (seguramente inspirado no do 2001 Odisseia no Espaço do S. Kubrick - e, de facto, pesando bem, parte do filme poderia ter sido feito aqui nestes rochedos) que ali pespegaram. Como é hábito o plano estava a ser seguido à risca ; já devia ir a meio da subida e ainda aqui estava.



Apliquei-me e, num esforço suplementar, rapidamente deixei a barragem não apenas para trás mas sobretudo para baixo. Nas serranias, a sensação de deixar para baixo dá uma vertigem que a de deixar para trás não dá. Dá um certo ânimo olhar para trás e ver lá ao fundo a barragem onde tinha passado.


Mais para abaixo ainda significa que eu estou mais para cima. Como? Que ##"%(#"...?


Já acima do mil metros de altitude (1100 mais coisa menos coisa), sobre a aldeia de Fajão, abre-se para Norte o horizonte.  É aqui, a pedalar nestas cumeadas agrestes, remotas, que se experimenta a indescritível sensação de velejar nas serranias, a essência das pedaladas.


Apanhado o estradão dos aerogeradores para Este e ... lá está ele, o Adamastor do Açôr, o picoto da Cebola aos 1400 m de altitude. Hoje não vou dobrar esse cabo, como fiz já muitas vezes. É preciso tempo e astúcia. Segundo se diz, é o local de onde se avista mais território português, cerca de 25 %. Tenho por aí, no blog, umas fotografias a 360° que o atestam.


E segue-se por ali a levar com o vento que traz os aromas da urze (este ano só agora a florir) como quem passeia nos Champs-Élysées


E vamos lá velejar neste videozinho em direcção ao Cebola. Não sopra a chuva mas bate o vento.


Seguindo o plano à risca nos aspectos técnicos, aproximei-me do gigante


e, uma vez ali tão perto, deu-me na gana virar para ... ora deixa cá ver ... já bronzeei do lado direito e, portanto, agora preciso do Sol a afagar-me as perninhas do lado esquerdo ... viro para Oeste, afastando-me do Adamastor a meia encosta a caminho de Fajão.

Registei parte do percurso (um estradão a cerca de 1100 m de altitude) num vídeo.  O vale do rio Ceira lá em baixo, ainda jovem, acabado de nascer à sombra do Cebola. É um deslumbramento tranquilo. Vai-se por ali fora em estado fundamental.





Parei sobre a aldeia e os penedos de Fajão. Do lado de lá do vale, a cumeada do S. Pedro do Açôr (que pica aos1400m) por onde andei no Verão passado.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Abril no Açôr - barragem Sta. Luzia

Abril 2016
(Serra da Açôr - barragem de Sta. Luzia)

De volta. É essa a sensação nítida, limpa. Tantas pedaladas que por aqui já dei. De volta. E, como de costume, nada está como dantes. Desta vez a barragem está cheia, inundou pinhais em volta e caminhos que fiz noVerão desapareceram.

Hoje era este o caminho para lado nenhum. A road to nowhere, como encontrei já no Alentejo.


Mas as estradas para lado nenhum têm sempre o sentido oposto. São infinitas.


Tinha passado cá em cima mas não era claro se conseguiria contornar a barragem pelos caminhos. Um manto denso de nuvens cobria o planalto da Estrela.
O selim da bike lembra um dos falcões que por ali sobrevoam as matas, olhando para baixo. Um belo desenho o perfil do selim. Tenho cá para mim que o desenho não tem a ver com ergonomias e protecções prostáticas (tal como é publicitado) mas foi antes inspirado nas pombas de Picasso.


Porque é que está ali o pneu, rude e tosco? Para mim há ali uma força telúrica, uma integração na paisagem, percebo bem o pneu a rolar no chão dos caminhos lá em baixo. A agarrar-me ao chão mas, ao mesmo tempo, a impelir-me para a frente e para cima. Talvez só quem ande de bike pelos caminhos da serra perceba isto.


Raramente encontro alguém quando por aqui ando. 


No dia anterior tinha tentado um outro caminho para contornar a barragem mas a água tinha também tomado conta dele. Fiz um pequeno vídeo onde, além do chilreio ambiente, se ouve a força dos pneus no chão. Parei num local mais inclinado. Com o telemóvel numa mão a tentar fazer enquadramentos  torna-se mais difícil levar a bike por ali abaixo.



Mas esta última parte dá uma ideia mais aproximada do que é andar em cima da bike.










segunda-feira, 25 de abril de 2016

Abril no Açôr

25 de Abril de 2016
(Serra do Açôr)

Um dia inteiro e limpo


Ao longe, na linha do horizonte ao centro, o planalto da serra da Estrela com uns farrapos de neve.


Vê-se bem cá de cima, dos penedos. À esquerda, o Adamastor do Açôr, o picoto da Cebola. Andei por lá ontem.



sexta-feira, 22 de abril de 2016

Apanhado pela noite

Serra da Lousã
(Abril 2016)

pela noite e pelo espanto.

Sete e meia da tarde. Hummmm, vai fazer-se de noite num instante. E ainda agora caiu uma carga de água tal que as gotas da chuva faziam ricochete no chão. Ir para a serra com este tempo é capaz de não ser boa ideia. Mas parece que está a abrir além para aqueles lados e deve estar um sossego lá para cima ... 

O percurso foi feito ao longo do vale da ribeira de S. João. É um vale fundo, a ribeira corre lá em baixo e nós vamos cá em cima na estrada. Por regra, a ribeira é "ouvível" mas não visível. Hoje, além do rugido que fazia, via-se. Raros devem ter sido os anos em que se agigantou desta maneira. Há água a correr por todo o lado no vale.

Nos vídeos ali em baixo ao som de fundo da ribeira soma-se, de vez em quando, o de cascatas extemporâneas que se formaram cá em cima na estrada.


(importei para aqui este vídeo do Paul McCartney e aqora que o queria apagar não consigo)


Olha, olha lá esta ela, a ribeira de S. João, e parece estar ali tão perto.
(Medi no Google Earth o desnível neste local e a diferença em altitude da ribeira para a estrada são cerca de 110 m !!!)


A caminho das oito da noite a visibilidade era boa, as condições atmosféricas excelentes (a humidade que se lixe, temperatura à volta dos 12 graus C), não se prevendo percalços de maior. Formavam-se pequenas nuvens da água que evaporava e que subiam pelo vale acima e, depois, pelas encostas mais altas até ficarem por ali em estado estacionário (nem subiam nem desciam, ficavam por ali). É curioso este fenómeno, as nuvens organizam-se em camadas e permanecem a altitudes fixas - isto vê-se bem dos aviões ou de locais na montanha altos.


Pedaladas mais acima e o Sol pôs-se. Encostei a bike. Estava na hora de voltar. O ambiente estava sereno, uns fiozinhos de luz, um chilrear intenso de pássaros, uns belíssimos aromas no ar e ... por aí fora ...


Às oito e tal o céu estava ainda claro - e eu sabia que estamos quase na lua cheia e que, portanto, nunca,  apesar das nuvens densas, escureceria completamente - mas as sombras tinham descido sobre os muros, as árvores e o chão. Com o telemóvel numa mão registei os 2 minutos anteriores à chegada à cascata da estrada. Os últimos raios de Sol espreitavam ao fundo por baixo do manto de nuvens. 


Conheço bem a estrada e a não ser que surgisse algum imprevisto (uma pedra, um ramo, um animal) na estrada a descida correria tranquilamente. Quer dizer, com os sentidos a 150% mas tranquilamente. 
Curiosamente, sentiam-se aromas cada vez mais intensos e doces (flores). Para cima tinha reparado que as giestas estavam a florir mas há também cerejeiras bravas em flor, além de outras árvores e arbustos. E, a esta hora da noite, uma noite húmida mas mais ou menos amena, o ar estava carregado de aromas.


À chegada leva-se com a vista da vila iluminada. Há um certo alívio quando se começam a ver as luzes mas há também uma certa pena de a descida às escuras (feita quase em transe) ter acabado.





quarta-feira, 20 de abril de 2016

Por água abaixo em slow motion

Serra da Lousã
(Abril 2016)

Assim de repente, lembrei-me do modo slow motion. Desmontei da bike mal vi a enxurrada pela parede abaixo e já levava a mão ao bolso de trás onde trago telemóvel quando me lembrei do slow motion. A dificuldade é ver os detalhes no écran do telemóvel. Apesar de levar lentes de contacto, estas só são úteis para ver para além da roda da frente da bike. Seis palmos à frente do nariz. Um metro bem medido. Para ver mais perto tenho uns óculos bifocais para desporto que mandei vir dos EUA e que têm incorporado uma lente de ampliação no lado inferior. É como andar com uns óculos para ler na ponta do nariz com outros de sol por cima. Apesar deste aparato tecnológico (por assim dizer) tenho que fazer uma ginástica de esgares e piscar de olhos para ler as letras pequenas e a colecção das imensas sinalefas que aparecem no écran. Mas, às tantas, lá consegui seleccionar o slow motion.

O slow motion é uma outra interpretação da realidade. Temos a mania que vemos tudo mas, de facto, vemos muito pouco do que nos rodeia. Da luz vemos apenas uma faixa estreitíssima do espectro eletromagnético que nos banha (entre os 400 e 700 nanómetros), aqui à superfície do planeta. Até os insectos vêem no ultravioleta. O número de imagens na unidade de tempo que conseguimos processar também é limitado, E isso é evidente quando vemos imagens em câmara lenta. Nestas ali em baixo, por exemplo, vemos "flocos" de água e espuma a saltar, violentas, a traçar piruetas e percursos estranhos que não apenas os de "por água abaixo" em torrente que se vêem à velocidade normal.

Mas, o mais interessante é que havia mil riachos a esgueirar-se pelos encostas dos vales, contornando as árvores e as pedras grandes que não podiam levar à frente, na enxurrada. Percebia-se o som da água a correr por todo o lado. Quedas de água inventadas (quer dizer, de existência fugaz após uma belas chuvadas porque durante o resto do ano nem uma pinga de água por ali corre), fiozinhos de água tímidos no Verão que se transformaram em valentonas correntes quando o céu desaba na serra.

Resolvi colocar umas músicas para colar às imagens mas, bem "ouvistas" as coisas, parece-me que as duas coisas (imagens e sons) se subtraem, não se adicionam. Em todo o caso pode desligar-se a música e ouvir apenas o rugido da água em slow motion.