Munique 2016
Um tipo vê isto
ou isto
e, depois, na esquina a seguir, vê isto, um vulto que se confunde com o pilar onde se encosta. Percebe-se que há uns olhos no vulto
Depois, quando se prepara para atravessar a passadeira, dá com isto
e, alto, vêm mais
quando começa a atravessar, dá com isto
Diversidade cultural? Liberdade de escolha? Como? É que algumas destas mulheres, se o quiserem fazer, embora não gostem ou achem feio ou se sintam desconfortáveis, podem vestir uma burka e dar um passeio. Podem, se o decidirem, fazê-lo. Outras, se quiserem usar um vestido leve fresco na tarde quente e dar uma volta de bike, embora não gostem ou achem ridículo, não o podem fazer. Estas últimas não são as que andam por ali de bike.
A memória das pedaladas. Foi esta a principal razão. O blog é, assim, uma espécie de dispositivo virtual de reforço sináptico.
quinta-feira, 8 de setembro de 2016
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
As linhas rectas da água
Serra do Açôr
(Barragem de Sta. Luzia, Agosto 2016)
Não é só a cor ou o ondular (aquela dinâmica sensual das ondas ...).
É também a substância, o estado físico, a fluidez.
Podemos penetrar a água, sentir a resistência suave e o arrepio na pele (... isto está a ficar um pouco NSFW.) Podemos encher as mãos de água que, depois, corre para o chão. O estado líquido é um fascínio mas é tão vulgar que não damos conta da singularidade da água. A água é uma substância extraordinária. Há a água da chuva, a de Verão e a de Inverno, e a água do mar e dos rios e dos lagos e dos fios de água que corre na floresta, e das fontes ... e há as gotas de água nas folhas das plantas e nos vidros das janelas ... e o som da água. A água ondula e a água corre.
E, já agora, the river, pelo Boss
E há o que está debaixo da água. A água às vezes é uma cortina que se abre quando se passa, quer dize se evapora ou corre para outro lado.
(Barragem de Sta. Luzia, Agosto 2016)
Não é só a cor ou o ondular (aquela dinâmica sensual das ondas ...).
(barragem de Sta. Luzia e ao fundo, na linha do horizonte, a Torre, serra da Estrela)
É também a substância, o estado físico, a fluidez.
(a moldura aqui é o picoto da Cebola e a serra da Estrela, a imponente cordilheira no centro de Portugal)
Podemos penetrar a água, sentir a resistência suave e o arrepio na pele (... isto está a ficar um pouco NSFW.) Podemos encher as mãos de água que, depois, corre para o chão. O estado líquido é um fascínio mas é tão vulgar que não damos conta da singularidade da água. A água é uma substância extraordinária. Há a água da chuva, a de Verão e a de Inverno, e a água do mar e dos rios e dos lagos e dos fios de água que corre na floresta, e das fontes ... e há as gotas de água nas folhas das plantas e nos vidros das janelas ... e o som da água. A água ondula e a água corre.
E, já agora, the river, pelo Boss
E há o que está debaixo da água. A água às vezes é uma cortina que se abre quando se passa, quer dize se evapora ou corre para outro lado.
Às tantas há uma raiz biológica para o fascínio, a beleza, a atracção que a água exerce sobre nós. Há uma teoria que postula que o
crescimento e complexidade do cérebro (que nos separou de outros primatas não
humanos vivendo em florestas), se deveu
à deslocação dos nossos antepassados para orlas marítimas (deixando para trás os nossos primos símios nas florestas a saltar de ramo em ramo) com a consequente dieta rica em peixe (e, logo em ácidos
gordos polinsaturados omega 3, críticos à estrutura e funcionamento do
cérebro). O cérebro é, curiosamente, o órgão "mais gordo" do nosso organismo.
Desde o início da aventura da nossa espécie que, pelos vistos, gostamos de estar sentados na doca a ver os barcos passar
Desde o início da aventura da nossa espécie que, pelos vistos, gostamos de estar sentados na doca a ver os barcos passar
(Otis Redding, (sitting on) The dock of the bay)
Pronto, está bem, já se sabe que sem água não conseguimos sobreviver (basta ver que a NASA busca água noutros locais no Universo fora da Terra como sinal de vida) e, também por isso, a maior parte da população mundial vive perto de água (oceanos, mares, rios, lagos ,…). Mas, …. e a beleza. Pode ser apenas um mecanismo de “recompensa” no cérebro proporcionado pelo bem estar de (depois de termos evoluído junto à água) nos encontrarmos junto à água?
(O Adamastor do Açôr - picoto da Cebola )
Para desconversar sobre a beleza e o fascínio acho que há ainda um elemento mais
subjectivo, de natureza mais “plástica”: a simetria das linhas da água. E a simetria é uma das condições para a existência de uma beleza objectiva (ao contrário da tese de
que a beleza está nos olhos de quem vê). Na face das pessoas é óbvio a ligação entre a simetria e a beleza, para citar o exemplo mais comum. As linhas rectas da superfície da água (rios, lagos e mares) contrastam com a geometria fractal óbvia, as curvas, a aparente irregularidade da paisagem à volta dos rios, lagos e mares. Pronto fica teoria. Ficava para aqui a escrever mais umas páginas sobre isto quando o que queria ,quando iniciei este post, era mostrar umas fotografias.
(ao centro, na linha do horizonte, a Torre a 2000m de altitude)
Para acabar, um “slow”: many
rivers to cross de Jimmy Cliff (o mesmo do anúncio fantástico do nescafé: a falésia, ao nascer do Sol, ela chega de carocha, as luzes apagam-se, há um suspiro e, pouco depois, com a caneca de café entre as mãos e I can see clearly now, the rain is gone. Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=sWnTWNDPTJo)
Daqueles slows de bailes de garagem. A pele ao rubro, a luz
ténue, o coração aos saltos, o suor (a água que corre?), o aproximar lento dos corpos, quentes, o tocar, o
sentir a respiração próxima, ao ouvido, a cabeça que cai e as mãos que
percorriam montes e vales, explorando, atrevendo-se … quantos rios para
atravessar!
domingo, 28 de agosto de 2016
O Açôr tonitruante e a luz na água lisa da barragem e as cores ... aaaaahhhh as cores
Serra do Açôr
(Agosto 2016)
Ribombante, troante, triunfante, conflitante, ressonante ... assim:
E a luz parcial sobre a água na barragem, assim:
O céu fechado, o som contínuo dos trovões e os relâmpagos a rasgar o horizonte. Estava ali, aos 1000 m de altitude, a olhar o céu a Sul, sobre o vale do rio Zêzere. Que visão!
Tinha chegado ali sob um céu azul. Tudo aquilo foi de repente. O céu desabava sobre o vale do Zêzere. Verifiquei a direcção do vento: Norte. A trovoada andava a Sul, logo, pensei, estou safo. Até dá para tirar uma fotografia, tendo a tormenta como cenário:
Estúpido pá! Não vês que, provavelmente, a trovoada é multicêntrica? Às tantas estás a olhar para Sul a ver o espectáculo e aparecem-te umas nuvens negras a Norte, pelas costas, e estás encurralado pá.
Cinco minutos depois da fotografia comecei a ser alvejado por gotas de chuva gigantes a velocidade tal que pareciam pedras. Pedalei dali para longe à velocidade que pude. A descer conseguia manter a bike a rolar acima dos 45km/h na direcção do céu mais claro, para Oeste, na direcção da barragem de Sta. Luzia.
Olhava em frente quase hipnotizado, fitando para o céu claro que sobrava, enquanto sentia nas costas (além da chuva) o céu negro e ouvia o ribombar.
Mas, apesar da aflição (e se me atinge um raio? Dois caíram nos montes à direita, por ali, não muito longe da estrada em que seguia) não conseguia ficar imune à beleza da paisagem, à luz extraordinária, à cores invulgares e aos contrastes.
A Norte, o Adamastor (Picoto da Cebola) estava ainda sob um céu tranquilo
Mas percebia-se que ia fechar, a luz quase extinta anunciava-o
Fui pedalando sob aquele som, bruummmm, bbbrrrruuummmmmm, brrruuuuuummm e a chuva pelas costas ia abrandando. Quando cheguei aos limites da barragem parecia que teria tempo para enxugar, antes de chegar a casa, a tormenta teria ficado para trás.
Enganei-me novamente, fintado pela tempestade. Como é que podia usar o senso comum e duas ou três variáveis (sentido do vento, cor das nuvens, abertas no céu ...) para avaliar um sistema caótico, como é o caso da tempestade. É a Física pá, agora querias olhar para o céu, molhar o dedo para verificar o sentido do vento e prever a evolução de um sistema caótico? Que asno pá.
Este é o mesmo sítio por onde passei na ida?
Meti-me pela mata que circunda a barragem ainda sob chuva mas, às tantas, inesperadamente parou. Deve ter havido um efeito exercido pela toalha de água da barragem sobre atmosfera, sobre as nuvens polarizadas da tempestade. É o meu palpite. Respirei fundo, abrandei e ainda deu para parar e apanhar umas amoras nas silvas do caminho.
(Agosto 2016)
Ribombante, troante, triunfante, conflitante, ressonante ... assim:
E a luz parcial sobre a água na barragem, assim:
O céu fechado, o som contínuo dos trovões e os relâmpagos a rasgar o horizonte. Estava ali, aos 1000 m de altitude, a olhar o céu a Sul, sobre o vale do rio Zêzere. Que visão!
Tinha chegado ali sob um céu azul. Tudo aquilo foi de repente. O céu desabava sobre o vale do Zêzere. Verifiquei a direcção do vento: Norte. A trovoada andava a Sul, logo, pensei, estou safo. Até dá para tirar uma fotografia, tendo a tormenta como cenário:
Estúpido pá! Não vês que, provavelmente, a trovoada é multicêntrica? Às tantas estás a olhar para Sul a ver o espectáculo e aparecem-te umas nuvens negras a Norte, pelas costas, e estás encurralado pá.
Cinco minutos depois da fotografia comecei a ser alvejado por gotas de chuva gigantes a velocidade tal que pareciam pedras. Pedalei dali para longe à velocidade que pude. A descer conseguia manter a bike a rolar acima dos 45km/h na direcção do céu mais claro, para Oeste, na direcção da barragem de Sta. Luzia.
Olhava em frente quase hipnotizado, fitando para o céu claro que sobrava, enquanto sentia nas costas (além da chuva) o céu negro e ouvia o ribombar.
Mas, apesar da aflição (e se me atinge um raio? Dois caíram nos montes à direita, por ali, não muito longe da estrada em que seguia) não conseguia ficar imune à beleza da paisagem, à luz extraordinária, à cores invulgares e aos contrastes.
A Norte, o Adamastor (Picoto da Cebola) estava ainda sob um céu tranquilo
Mas percebia-se que ia fechar, a luz quase extinta anunciava-o
Fui pedalando sob aquele som, bruummmm, bbbrrrruuummmmmm, brrruuuuuummm e a chuva pelas costas ia abrandando. Quando cheguei aos limites da barragem parecia que teria tempo para enxugar, antes de chegar a casa, a tormenta teria ficado para trás.
Enganei-me novamente, fintado pela tempestade. Como é que podia usar o senso comum e duas ou três variáveis (sentido do vento, cor das nuvens, abertas no céu ...) para avaliar um sistema caótico, como é o caso da tempestade. É a Física pá, agora querias olhar para o céu, molhar o dedo para verificar o sentido do vento e prever a evolução de um sistema caótico? Que asno pá.
Este é o mesmo sítio por onde passei na ida?
Meti-me pela mata que circunda a barragem ainda sob chuva mas, às tantas, inesperadamente parou. Deve ter havido um efeito exercido pela toalha de água da barragem sobre atmosfera, sobre as nuvens polarizadas da tempestade. É o meu palpite. Respirei fundo, abrandei e ainda deu para parar e apanhar umas amoras nas silvas do caminho.
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
Serra do Açôr neblínica em Agosto
Serra do Açôr
Agosto 2016
A Sexta-feira de meados de Agosto
amanheceu com céu branco e neblina a lamber as cumeadas dos montes mais altos
do Açôr. Depois do calor abrasador dos últimos dias, este amanhecer era
surpreendente. Olhei à volta e joguei o jogo do costume: isto não é nada, daqui
a pouco a neblina vai levantar e o Sol vai aparecer. Claro que ao organizar
esta ideia no cérebro, simultaneamente a ideia de que a neblina não iria
levantar e, pior, aquilo ia dar em chuva, tomava corpo de um modo tão vincado
como a primeira. É curioso, pensamos simultaneamente que a coisa vai melhorar,
sabendo que não mas, no fundo, escolhemos a que preferimos, sabendo que é uma
ilusão. Mas é mesmo assim. O cérebro busca o prazer (em sentido lato). Fazemos
isto todos os dias. Optamos racionalmente por uma opção ao mesmo tempo que, lá
atrás, uma voz longínqua a que não ligamos nos diz que nos estamos a enganar.
No fundo, a decisão racional é a assumpção de que nos estamos a iludir mas não
queremos saber disso para nada porque nos interessa a ilusão.
A ideia era subir à crista do S. Pedro do
Açôr (que fiz o ano passado, em Setembro, aqui e aqui). Entre o Picoto da Cebola (onde
estive há dois dias) e o S. Pedro fica o vale fundo onde nasce e corre o jovem rio
Ceira. Cá em cima, de ambos os lados, estamos aos cerca de 1400 m e, lá em baixo,
aos cerca de 700 - 800 m.
As pedaladas começaram brancas e neblínicas (a partir da Malhada Chã), sempre na expectativa que a neblina levantasse e as verdes e rugosas encostas do outro lado, do lado do Picoto da Cebola, surgissem à frente dos olhos quase verticais, e que a o planalto granítico da Estrela ao fundo, a fechar o horizonte, completasse o cenário da subida Mas não, foi ao contrário. Quanto mais subia, mais o nevoeiro cerrava. De vez em quando, pelo vale do Ceira abaixo, havia umas abertas, o nevoeiro puxado pelo vento permitia uns vislumbres do vale. Mas depressa tudo fechava.
Mas foi uma subida belíssima. Silenciosa e fresca. O aroma das ervas secas molhadas era intensíssimo, inebriante, quase que alucinogénico. É um êxtase, sobretudo àquela altitude (o ar fino e húmido compõe o ramalhete) e naquelas condições neblínicas. Há vinhos que lembram este aroma.
Mas foi uma subida belíssima. Silenciosa e fresca. O aroma das ervas secas molhadas era intensíssimo, inebriante, quase que alucinogénico. É um êxtase, sobretudo àquela altitude (o ar fino e húmido compõe o ramalhete) e naquelas condições neblínicas. Há vinhos que lembram este aroma.
No cimo a neblina transformou-se em chuva miudinha puxada a vento. Rapidamente fiquei encharcado. Agosto? Ontem 30 e tal graus? Hoje assim?
Ainda pedalei pela crista uns km com enganos na estrada à mistura e voltas-atrás. À volta tudo branco, as ervas curvadas pelo vento, os óculos embaciados (sem óculos a chuva picava os olhos) e isto parece mas é a serra da Estrela (lá é que tive experiências de dias assim no pico do Verão).
Devagar para não dar por ali um derrapanço e ficar estatelado no chão e, às tantas, ... um cruzamento!
A placa é muito bonita, num estilo grafitado. Estava sobre o Piodão, a 2 ou 3 km.
Um belo pretexto para uma fotografia da bike. Note-se a harmonia e equilíbrio das cores, as curvas sensuais, o trapézio estilizado do quadro, ... (e mais não digo que ainda me diagnosticam uma mania qualquer).
Em dias assim (sob esta luz) a cores transfiguram-se e há contrastes novos que não são existem sob céu limpo e aberto. Nota-se bem nas pedras e, por isso, gosto de olhar as barreiras.
O estradão foi ter a uma estrada asfaltada. Já estava à espera.
A ideia era continuar (tal com fiz o ano passado), cruzando a estrada asfaltada, e continuar pela crista por terra em direcção Este, para os lados de Fajão, mas ia molhado e com frio. Além disso, com as mãos molhadas não conseguia utilizar o GPS (o écran táctil não respondia). Há por ali um labirinto de estradas e caminhos e o GPS pode ajudar a tomar decisões porque um erro com descida involuntária ao vale pode implicar uma subida violenta em altitude. Decidi descer pelo asfalto em direcção à Córnea e à Covanca. As placas lá estavam, encostadas às giestas, imutáveis. Para este lado assim.
Para o outro lado assim. O que eu gosto destas placas; tortas, ferrugentas, com nomes invulgares, inesperadas, no cimo das serranias ...
Já na descida, parecia que "o tempo estava levantar". Bela expressão esta que se usa na serra (se calhar no mar também).
Tinha que descer até ao fundo do vale, atravessar o rio Ceira e subir do outro lado até à altitude em que me encontrava agora. A estrada para subir via-a claramente em frente, a serpentear pelo monte acima até uma clareira de luz que se abriu no nevoeiro.
Aqui de novo. É para além, para aquela crista lá em cima que vou.
Que vales estes!
Encravados no fundo dos vales, há vestígios (casas, currais, muros, agricultura...) de outros tempos. Tempos próximos, não muito longínquos: há umas dezenas de anos vivia-se aqui em quase isolamento.
Já perto do Ceira, alguma terras parecem ser ainda cultivadas
Um curral ainda operacional. Imponente, ali naquele topo na base da encosta para o Cebola
Rapidamente cheguei ao Ceira e agora só faltava subir a encosta que tinha visto lá de cima.
A subida é dura, a meio olhei para trás. A crista por onde tinha andado estava ainda sob as nuvens mas claramente o tempo abria. Lá em baixo a Covanca, onde passei depois de ter cruzado o Ceira.
O vale do rio Ceira visto deste lado
Feita a subida da Covanca estava no cruzamento que me levou há dias ao pico da Cebola. Olhei de novo para trás, para a crista por onde andei e para os montes que subi e desci e fica uma sensação de bem-estar.
Aqui não há nada que enganar, as placas apontam sempre para algum lado.
Olhei para a frente. Só me faltava apanhar a crista das eólicas lá em cima (à esquerda) e descer para a barragem de Sta. Luzia. Pelos vistos iria ainda meter-me no nevoeiro outra vez.
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