Vemos com o cérebro, usando como cenário representações e padrões quer resultaram da nossa experiência anterior. Como que construímos padrões novos em cima de memórias. Por vezes até olhamos e vemos apenas os padrões que já temos inscritos no cérebro, não o que se nos depara. A não ser que percebamos que há ali alguma coisa estranha - e aqui a geometria é dos factores críticos. Uma perspectiva que colida com os padrões que já possuímos é detectada facilmente. Por isso, nem sabemos muito bem se o que vemos se sobrepõe ao que os outros vêem. Há quem argumente que o cérebro se engana a si próprio mas se é o cérebro que constrói a representação não é um engano. É o que é. É a realidade. Estatisticamente estamos (nós todos) de acordo nos objectos/paisagens vulgares à nossa volta mas apenas estatisticamente, acho eu. Cada um de nós (porque cada cérebro é único) vê de uma maneira única.
Um acontecimento único: o por-do-Sol no cume do Monte Fuji no Japão. A luz do céu foi artificialmente filtrada para evidenciar a que inunda as nuvens que cobrem o vale no sopé do monte.
Ou
o por-do-Sol na vale da Ribeira de S. João na Serra da Lousã.
Noite de lua cheia sobre a floresta, percebendo-se, ainda que ténues, algumas estrelas (provavelmente a constelação da Cassiopeia).
Ou
o Sol reflectido nas águas serenas do rio Ceira
depois de se ter levantado sobre a serra da Lousã, ao fundo, no horizonte.
E, já agora, sempre que por aqui pedalo, ou junto a rios que correm escondidos por entre filas de árvores, começo a perceber sons e palavras na minha memória lá ao longe, distantes, quase imperceptíveis. Uns acordes de guitarra ... takes you down ... to her place near the river ... she feeds you tea and oranges ... crazy ... you want to be there ... Depois, cada vez mais próximos, límpidos, chegam e inundam-me. Quase que me afogo.
Aqui. No Açôr (Picoto da Cebola) com a Estrela no horizonte. Há cerca de 1 mês atrás. Cheguei de bike, suado, rente às pedras, lento, cheio de pó. A chegada soube a chegada. Foi muito bom.
Aqui. No horizonte do Açôr com o Açôr no horizonte. Há uma semana atrás na Estrela. Cheguei de carro, rapidamente, camisa branca, sapatos limpos. Parei para olhar o horizonte mas chegar aqui soube a passagem.
Quero dizer, no horizonte do Açôr olho o horizonte para o local onde estive (Serra do Açôr, Picoto da Cebola, seta) a olhar para aqui, para o horizonte, para a Estrela.
Para que fique claro. Aqui, no Picoto da Cebola na serra do Açôr a olhar o horizonte, serra da Estrela, de onde olhei para aqui (seta).
Mas, em essência, o horizonte nunca é aqui. É que o horizonte deve ser inatingível, mesmo de bike.
Estivesse aqui um dos irredutíveis Gauleses e teria a prova de que é possível o céu cair em cima da cabeça. Lá atrás o céu desaba, imensas cortinas de água tapam a luz no horizonte, por debaixo das nuvens.
Mas, presumo que enquanto o Ordenalfabétix se encolheria nas saias da Iélosubmarine, o Assurancetourix puxaria da lira e daria largas ao seu talento, tomando os raios e os trovões como suporte sinfónico de fundo.
E até os calejados ouvidos de Thor, deus dos trovões, seriam sensíveis à estridência insuportável da voz do bardo. O céu abrir-se-ia para Oeste mas
momentaneamente, apenas momentaneamente, o tempo suficiente para suspeitar que afinal a tempestade não passaria ao largo, lá para Sul. O tempo suficiente para parar, encostar a bike, sentir o sangue a correr mais devagar e o ar a encher os pulmões, olhar à volta, ao longe, a luz nas pedras, a luz inexplicável e começar a sentir uma picada nos braços e nas pernas - as gotas de chuva que começariam a cair, arremessadas com força das nuvens. O céu fechar-se-ia a Norte e a Oeste. E esse seria o momento de sentir um friozinho pela coluna acima, de uma pressa em sair dali e chegar a casa, de pedalar à bruta, de sentir um instinto primitivo de sobrevivência até vir devagar ao de cima uma impressão oposta; caem raios e ribombam trovões mas seria tudo tão belo. E, às tantas, ir-se-ia por ali a pedalar tranquilamente, de peito cheio do ar húmido, em estado de deslumbramento e a sorver as gotas de chuva salgadas que escorreriam pela cara e lavariam o suor.
Sobreviveria?
(isto é o que dá ter que guardar fotografias num outro suporte porque tenho o disco cheio. Dei com estas que "sobraram" de um post que fiz sobre a tempestade no Açor:
Provavelmente, até, pós-concretista, ou, talvez, concretista-eucaliptó-belluciana.
Uma corrente estética marcada por traços vincados de palavras traçadas a negro num contexto oxidado e com curvas pronunciadas.
Há exactamente 3 anos, a 19 de Setembro de 2013, pedalava penosamente por uma das encostas da serra do Açôr, para os lados da barragem de Sta. Luzia, num caminho pedregoso e íngreme, um ermo, ninguém km em redor quando, num pinheiro do caminho, surgiu - devo confessar que caso tivesse encontrado a Monica Bellucci por ali a andar de bicicleta a supresa não teria sido maior - esta "instalação".
Há um balanço, uma mensagem clara e criativa, uma lógica demolidora....
O contraste de cores é inesperado. E, depois, há uma certa ironia na mensagem; é que a tristeza pelos eucaliptos não inibiu o autor de pregar uma placa de metal com vários pregos num pinheiro, árvore que, como bem se percebe, não entra no poema.
"O corno que me arrancou os eucaliptos tem os cornos grandes se não tivesse os cornos grandes não tocava nos eucaliptos"
Num ermo destes o autor esperava seguramente que o "corno" voltasse ao local do crime. Aliás, o autor sabe, seguramente, quem é o "corno". É que a probabilidade de alguém estranho passar por ali (além do corno que arrancou os eucaliptos só um tolo de bicicleta que cá de baixo pensou: este caminho deve ir ter lá acima e tal e apanho logo a estrada ... ) é próxima de zero. Por isso, é uma provocação ao "corno", esperando que ele se desmascare. O "corno" é um conhecido e a ira do "corno" pode desmascará-lo. Um "corno" irado é como um javali ferido.
Em todo o caso, ainda bem que não apareceu a Monica Bellucci; é que não teria escrito este post nem teria tido o prazer da leitura concretista naquele local ao Sol.
Voltarei pelas neblinas e o vento, pela chuva e o frio. Pelo menos espero voltar. Lá para Novembro ou Dezembro. Nessa altura, o vento varrerá os cumes por onde pedalei suado, sob Sol intenso, e sentirei frio. O verde será menos verde e a serra ainda mais castanha e laranja e rosa e por aí fora.
Os horizontes serão mais próximos e adivinharei que por entre a neblina lá estará o picoto da Cebola, o S. Pedro do Açôr, o Gondufo e o planalto da Estrela. Vê-los-ei, de facto, na memória.
E o céu azul lá estará, mas coberto por manchas negras e brancas. E haverá chuva. E o prazer de beber a água fresca das fontes sob o calor de Agosto será substituído pela indiferença à água que corre nas fontes. Bem, nem tanto, hei-de ficar a olhar e a ouvir a água que corre. E não hei-de sentar-me numa pedra nos cumes, custar-me-ia levantar, arrefeceria e seria penoso descer com o frio.
As pedras de xisto aguçadas lá estarão também, mas húmidas e mais traiçoeiras.
E não me lembrarei de Agosto. Pedalarei com o prazer do frio, da chuva, do vento. Baterá a chuva e soprará o vento, ou vice-versa.
São meia dúzia de km entre dois Gigantes, o S. Pedro e o Gondufo. Mas a distância pouco importa como medida das pedaladas. A Física diz-nos que o aumento da velocidade leva à dilatação do tempo: Quanto mais rápido mais lentamente passa o tempo. Aqui nas serranias, as pedaladas contradizem a Física: quanto mais lento mais rapidamente passa o tempo !!!:)
É um ar que se lhe dá!
Este percurso, é a parte alta da espinha dorsal montanhosa que se ergue a meio de Portugal. Os 1200m de altitude fazem rarear ligeiramente, só ligeiramente o oxigénio, o Sol, quando há Sol, ainda há 2 ou 3 dias atrás passei por aqui envolto em chuva e nevoeiro, mete-se pela pele como calor, e a luz inunda os vales, e vai-se por ali como que a velejar sobre as aldeias do lado Norte, Piodão, Chãs de Égua ..., o Gondufo lá à frente, por detrás, a Estrela. Olhamos para onde? Para esquerda, para Norte? Lá está o terceiro gigantes do Açor, o Colcurinho
Para a frente? O Gondufo e a Estrela. E o tempo passa. Ao fundo vejo o caminho que serpenteia pelo Gondufo acima. É lá que tenho que passar. Mas não é um objectivo. Hei-de lá passar mas até lá muitas pedras hão-de rolar por debaixo das rodas da bike, muitos aromas resinosos e aromáticos me hão-de entrar pelo nariz, muitas descargas de dopamina no meu cérebro irão transformar o olhar à volta em prazer e, provavelmente, comerei ainda uma banana.
E o tempo passa.
Go!
Ali, neste vale, aos pés do Picoto da Cebola, o Adamastor do Açôr, nasce o rio Ceira
Num berço verde. Fico para ali a olhar e o tempo passa.
Já a subir o Gondufo, abre-se a paisagem para Sudeste. Um colecção de serranias vistas de cima que intensifica a sensação de velejar na serra em isolamento.
Contornado o Gondufo, nunca se está preparado para levar com isto
Olha-se ao longe e ao perto, a sensação de estar só é muito intensa, e são necessários uns minutos para recuperar do impacto, do extraordinário encantamento. Mas estou ali como se estivesse em casa.
Nunca sei ao certo quanto tempo fico nestes locais. Mas nestas alturas a teoria da relatividade geral não se aplica. Há depois um momento em que, às tantas, começamos a pensar nas rotinas, e que há alguém à espera e há horas de almoço e de jantar e coisas para fazer e por aí fora. A seta do tempo (irreversível) atinge-nos então com força. Tenho tempo de ir até lá abaixo e voltar, dou a volta por ali, volto já para trás ou ...?
Ainda me atrevi a descer um pouco mas percebi que a subida pela cascalheira iria levar-me muito tempo
Finalmente, fiz o que estava a adiar: olhei para trás. E vi daqui o caminho a serpentear de onde tinha visto o caminho onde agora estou. À direita, com o marco geodésico a encimar o cone, o S. Pedro do Açôr, para onde vou e, à esquerda, o Adamastor (picoto da Cebola).
Go?
Mas, voltando atrás, é como se iniciasse um novo caminho. Tudo parece novo. E, de facto, é. É a ideia de voltar atrás que muitos vezes tolda a visão, adormece o cérebro, impedindo-o de ver. Mete-se a ideia na cabeça como se metêssemos a cabeça numa nuvem.
A passar sobre o Piodão, lá em baixo
E a chegada ao S. Pedro do Açôr
Com o Adamastor nas costas
O tempo passou rapidamente. Para mais, os Físicos parece que resolveram já a controvérsia sobre irreversibilidade do tempo. É que a distribuição de massa e carga no núcleo dos átomos é assimétrica (em forma de pêra rocha) e, logo, dizem eles (como é que se entende este"logo"?), tal observação indica a irreversibilidade do tempo.
Lembrei-me agora de um tipo que me encheu tardes e noites de música e que um dia encetou um percurso religioso inesperado. Por preconceito, deixei de o ouvir. Como é que podia ouvir a música de um tipo que apoiava a fatwa sobre Salman Rushdie? Mas, volta e meia, algumas das suas músicas acordam na minha memória. Esta é uma delas:
e, depois, na esquina a seguir, vê isto, um vulto que se confunde com o pilar onde se encosta. Percebe-se que há uns olhos no vulto
Depois, quando se prepara para atravessar a passadeira, dá com isto
e, alto, vêm mais
quando começa a atravessar, dá com isto
Diversidade cultural? Liberdade de escolha? Como? É que algumas destas mulheres, se o quiserem fazer, embora não gostem ou achem feio ou se sintam desconfortáveis, podem vestir uma burka e dar um passeio. Podem, se o decidirem, fazê-lo. Outras, se quiserem usar um vestido leve fresco na tarde quente e dar uma volta de bike, embora não gostem ou achem ridículo, não o podem fazer. Estas últimas não são as que andam por ali de bike.