sábado, 4 de fevereiro de 2017

O ganso da neve? Ora, é apenas um temporal!

Fevereiro 2017

Que temporal? A chuva varre a serra em ondas laterais. Isso vai ver-se no vídeo. Em cima da bike a sensação é outra. É a da chuva maluca. Uma gotículas de água que dançam em todas as direcções levadas pelo vento, excepto como é costume; quer dizer, de cima para baixo. Vêm de lado, de baixo, de esguelha, de todo o lado. As gotas da chuva não caem, antes esvoaçam como um ganso. Ensopam devagar. Um barulho ao meu lado. Susto. Um barulho invulgar. As acácias gemem e chiam sob o vento. Isso conheço bem. Mas este foi um som cavo. Uma árvore partiu ao meu lado. Caraças, ainda levo com alguma em cima. O temporal na serra faz um rugido de fundo. Uma coisa assim parecida com o mar mas mais orgânico (o que quer que isto queira dizer). Mais de o sentir com o externo, a meio do peito, reverberando nas costelas. Já o previa; a ribeira de S. João cantava pela primeira vez este Inverno. Parei cá em cima, sobre a ribeira, de um dos lados do vale. Do outro, lá ao cimo, a aldeia do Talasnal. Na encosta em frente, o canal de água da Central transbordava, originando cascatas que se precipitavam sobre a ribeira, uns cem metros abaixo. O som furioso da água a correr enchia ao vale. Gosto deste sítio. Ao cimo do vale alinham-se os montes até se perderem na neblina. Bem sei o que está para lá dos montes mas faço de conta que não, que para lá é terra que não conheço.


Em mais detalhe a água que se precipita no vale. A encosta é tão íngreme que deverá ser muito difícil ir até lá.



(Snow Goose dos Camel. Aos 40 segundos resolve-se o enigma do assobio no vídeo ali em cima)






quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O caminho para a aldeia de xisto

Fevereiro 1, 2017

Once there was a way, aliás mais do que um, e todos iam dar à aldeia. Hoje, o caminho está ainda lá. Mas, na história recente, transformou-se mais num caminho de saída do que de chegada. Já ninguém chega por ali a casa.



Ninguém? Não. Pelos vistos há quem resista (como a aldeia Gaulesa ao invasor Romano) e que está a dar a volta à história do caminho, transformando-o de novo num caminho de chegada.


Fui ver, aproximando-me da casa cuja reabilitação foi, à distância, denunciada pelas telhas novas e vermelhas.


Atravessei a bridge over troubled water







Ó da casa ! 


Ninguém. Só ouvi a música do riacho ali à porta. 


Outros habitantes sempre por ali andaram, tecendo as suas vidas entre pedras que já foram paredes e portas.


OK, Sir Paul, força aí (una vez hubo un camino !!!): 




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Apanhado pela noite na serra (a morrinha não conta, foi um prazer)

Janeiro que se acaba (em 2017)

Ao princípio até era interessante. Levantava-me cedo, tomava o pequeno almoço com miúdos que tinham todo o ar de andar em viagem pela Europa, grupos de estrangeiros que me pareciam tipos da mafia de leste, casalinhos com ar apaixonado e por ai fora. Gostava do hotel. Depois saía e caminhava meia-hora até ao local onde se iniciavam as reuniões. As ruas cheias de gente apressada, muitas a falar sózinhas (ao telemóvel), tinha que ziguezaguear para avançar ao longo dos passeios. Chegava ao largo do Rato, vermelho pára, verde avança, páre, escute e olhe. E eu fartava-me de olhar. As pessoas, as casas, os carros, a dinâmica de tudo. Era sobretudo a dinâmica, o movimento que me agradava. Rua de S. Bento abaixo e passava junto a uma loja curiosa; cá fora, pendurados em cordas, havia penicos de esmalte (tenho na memória o som metálico dos jactos de urina nos penicos), lá dentro panelas e tachos de alumínio e mais não sei o quê. Às tantas lá chegava. Reuniões até às sete.
Estava sempre na expectativa da meia hora de caminhada de regresso. O jantar era sempre rápido porque à noite, no hotel, havia que apanhar com o tsunami de emails desse dia. Pizzaria? Ora deixe cá ver. Tipo simpático este do hotel, pensei. Ah sim, atravessa a avenida, segue em frente e depois corta à direita e em frente ao hospital de Sta. Marta há uma muita boa, a Luzzo, vai ver que vai gostar. Belíssima. Acolhedora, bom ambiente, e a pizza Popeye com uma base fina feita em lenha, um queijo bom e uma cobertura de espinafres frescos estava muito boa.  Quase duas semanas em Lisboa. Mas isto foi na segunda semana. A primeira foi junto ao rio. Um hotel 4 estrelas rascas, debaixo da ponte, acho que a zona se chama Alcântara. Uns dias com tempos livres em grupo um bocado a fazer de conta. Ah e tal aqui é o bairro alto. Jantar no Cantinho do Avidez. Nada que em impressionasse. Em primeiro lugar nem via as lascas de bacalhau tão mortiça era a luz. Safou-se o tinto, um monocasta de Syrah da região de Lisboa. Uma bela surpresa. A visita ao Pestana Hotel foi em marcha acelerada. À entrada uma galeria de retratos onde me pareceu ver a Melania Trump. Arre gaita, como diria a minha avó. O almoço junto ao rio no Clube Naval (acho que era assim que se chamava) foi, aí sim, delicioso, uma dourada feita nas brasas com brócolos e batatas cozidas. Um branco Planalto e já está. Sair e dar com o rio e com a luz foi a melhor sobremesa. Quase duas semanas em Lisboa. No regresso, à primeira oportunidade meti-me em cima da bike serra acima.
Fui para onde já não ia há tempos, para os lados da aldeia de xisto do Gondramaz. Aquilo é uma bela de uma subida para lá chegar.
O nevoeiro lambia a serra. Nestas circunstâncias, a dúvida que assalta o espírito de quem anda pela serra ao entardecer é se o nevoeiro vais subir ou descer.


O Gondramaz é uma aldeia ex libris da região. Foi reabilitada e, embora muitas casas sejam habitações de fim-de-semana, mantém-se viva durante todo o tempo



Passei ao largo, pelo lado de cima, junto à última casa da povoação. Parecia-me que o nevoeiro iria descer mas decidi voltar a casa pela serra a meia encosta em vez de descer ao vale.









Finalmente, este Inverno começa a ver a água a correr e os riacho a cantar. Ao percorrer as rugas da serra a meia encosta, os riachos começam a dar sinais de vida. São muito belos estes riachos.




Depois, começou a morrinha. O Sol deveria já ter-se posto e, embora tivesse levado o GPS, os caminhos por ali eram vários e em teia. Facilmente me meteria por onde não me deveria meter. Pedalei um bocado à bruta, sabendo que para Norte iria no sentido da estrada asfaltada que passa no vale. Às tantas, depois de tanto pedalar, estava apenas do outro lado do vale do Gondramaz (em frente, à direita na fotografia).




Os pinheiros do caminho estragavam não só a visibilidade mas escureciam o meu GPS mental. O nevoeiro nem subia, nem descia. Se tivesse adivinhado, do Gondramaz teria subido à cumeada da serra e descido para casa. Um trajecto mais curto mas arriscado caso fosse apanhado pelo nevoeiro e pela noite.
A meia encosta fui apenas apanhado pela noite. A morrinha não conta, foi um prazer.

Ser apanhado pela noite na serra era há muito tempo - no tempo em que eu era muito pequeno e ouvia o meu pai e o meu avô contarem histórias de avistamento de lobos e das noites de nevoeiro em que os lobos desciam à povoação; histórias verdadeiras porque eu próprio me lembro, teria uns 7 ou 8, ou 9 anos , de ver numa povoação uma furgoneta com vários lobos, uns 4 pelo menos, mortos e pendurados de cabeça para baixo na caixa aberta da furgoneta em exposição após a batida de que tinham sido alvo - uma possibilidade de provocar um friozinho pela espinha acima. Hoje estão extintos em Portugal. Parece que há apenas uma alcateia que, por vezes, entra na fronteira Norte vinda de Espanha.

E vieram-me estas memórias enquanto tentava chegar ao vale.
Finalmente, numa curva do caminho, o vale abriu-se à minha frente e vi Espinho e um estradão que me levaria ao vale.





Ouvir estes sons à noite, na serra, seria, quer dizer, bom, é difícil imaginar, mas não deveria dar o sono.











domingo, 15 de janeiro de 2017

O frio

Janeiro 2016

Tinha frio. A energia cinética das moléculas da atmosfera à minha volta andava pelas horas da morte. Isto não é o frio. Este fenómeno físico é percebido pelo cérebro e o frio é a tradução que o cérebro faz da Física para a Biologia. Há menos moléculas do ambiente a chocar comigo e com menos energia. E tem que ser assim depois de mil milhões de anos de evolução. As biomoléculas que nos constituem ficam apáticas a baixas temperaturas (a temperatura é uma uma maneira de medir o frio), não interagem entre si e, em essência, as interacções são quase tudo. Nos electrões, nas biomoléculas e nos humanos. Os processos biológicos desaceleram (não é só para evitar crescimento bacteriano que colocamos os alimentos - ou seja, pedaços de outros seres vivos - no frigorífico). Claro que geramos calor interno. O nosso metabolismo é tremendamente pouco eficaz. Mais de metade do que comemos, da energia que ingerimos dissipa-se na forma de calor. Mas ainda bem. Esta imperfeição energética possibilita a vida. Há até estratégias para aumentar a nossa ineficiência energética. Por exemplo, à nascença geramos mais calor (temos mais tecido adiposo castanho) do que uns anos depois, tal como os animais que hibernam; o metabolismo torna-se menos eficiente de modo a gerar calor. A percepção da energia cinética das moléculas da atmosfera pelo cérebro teve que ser um processo bem afinado ao longo da evolução. Tão afinado que o quentinho dá prazer (quando está frio) e o ar fresco o mesmo quando está calor. E o prazer, tal como a bola colorida nas mãos de uma criança, comanda a vida. Já uma vez, no Norte da Finlândia, saí esbaforido de uma sauna tradicional numa cabana da floresta e saltei para um lago de água gelada. Foi um prazer. Tivesse entrado com frio e teria morrido gelado.

Às vezes acho que na paisagem se vê o frio. Os bosques ficam parados, as cores desmaiadas, o ar mais denso, acho que até os riachos correm mais lentamente. Quando nos dias de Inverno, nas noites de céu limpo, olho as estrelas cheio de frio imagino o frio no espaço interestelar. 


O Inverno tem ido seco, muito seco. Está frio mas até as geadas são contidas. 





As folhas dos carvalhos caídas no asfalto cobertas de gelo parecem fósseis


Na subida da serra, o frio da curvas sombrias cobertas de gelo




era tanto como em Cabeço Marigo, ao Sol. O frio torna nítida a distância.




quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A natureza da luz, o BTT e outras danças

Janeiro 2017

Alguns fotões escapam das reacções nucleares no núcleo do Sol. Vão dar uma grande volta, entre intercepções e re-emissões e, um milhão de anos depois, chegam à camada externa do Sol e começam a viagem no espaço. Cerca de 8 minutos depois chegam à Terra e, to make a long story short, alguns deles atingem a retina nos nossos olhos. Se a beleza está nos olhos de quem vê (que raio é que isto quer dizer!), é preciso ver que o azul do mar (para não citar outros exemplos) nasceu na colisão de núcleos de hidrogénio no Sol. Há uma beleza nisto. No azul do mar e no conhecimento da história dos fotões.

"A natureza da luz do dia". Era nisto que ia a pensar quando, pela manhã, húmida, fria e límpida pedalei serra acima. Mais ou menos pedaladas sairia do nevoeiro e veria  luz do Sol.




























Os fotões com 1 milhão de anos chegaram no seu esplendor à minha retina uma dúzia de km acima.



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O dia tem que desacelerar de alguma maneira

Janeiro 2017

por exemplo, a acelerar a meia encosta da serra, por entre carvalhos e castanheiros nus.



Por entre sombras e frestas de Sol rasante, amarelo, poente.



Em essência, ao passar por ali, sou uma sombra. Passo e tudo fica na mesma. Faço talvez algum ruído, os pneus da bike na terra, uma coisa leve, momentânea, mas, depois de passar, uns segundos depois, é como se nada se tivesse passado. Se voltar atrás e passar novamente no mesmo local, por entre as mesmas árvores, pisando as mesmas folhas, desviando os mesmo ramos, bebericando no mesmo fio de água que por ali corre, escutando os mesmo ruídos (que nunca sei se são ramos a cair, se animais que por ali andam ou outra coisa), sentindo o mesmo vento fresco e húmido ao pôr-dos-sol ... é como se fosse a primeira vez. Portanto, está provado: é como se nada se tivesse passado. Excepto para mim, claro. Fim.





quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Aldeia submersa na barragem de Sta. Luzia - Serra do Açôr

28 de Dezembro de 2016

A  barragem de Sta Luzia foi construída na década de 30 do século XX (entre 1931 e 1942). Na altura, para os habitantes destas serranias foi um oportunidade para ganhar algum dinheiro; homens habituados à enxada que faziam o trabalho não especializado que fosse preciso, mulheres e crianças com produtos agrícola em cestos à cabeça que por lá iam vendendo aos trabalhadores (muitos de fora) ... Conheço muitas histórias contadas por quem as viveu.
Cheia a barragem, a cota da água ficaria acima do cimo da aldeia do Vidual de Baixo. No problem, estava-se numa ditadura, alguém haveria de dar a ordem e a contestação seria feita à boca fechada no murmúrio das noites nas casas de pedra alumiadas por candeeiros de petróleo e pela fogueira ou à boca mais aberta nas tabernas de volta de uns copos de tinto. Mas morria aí. Havia também os melhores campos de milho na margem do rio mas, paciência, o milho teria que ser semeado noutro sítio.
Por vezes, quando o nível da água desce na barragem, ficam expostos os muros de pedra e o que resta das casas e das ruas. É uma visão impressionante. Não porque revela destruição ou, à la Indiana Jones, porque revela o passado como se fossem páginas de um livro de história, mas porque parece irreal. Aparece e desaparece em função do nível da água.

Quem está do outro lado da espinha granítica que dá origem ao vale onde a barragem se aninha, do lado Este, não suspeita o contraste da paisagem com o lado Oeste. Este lado onde estou. Ali à esquerda a ponta cónica do penedo granítico que, embora daqui pareça apenas mais um na passagem, quando visto do outro lado com a água em primeiro plano é imponente.


Eu, que conheço estas serranias surpreendo-me sempre com a transição quando passo deste para o outro lado da espinha rochosa (eh pá, estou ali com um ar decidido !!!)


Mas vamos lá. Dar a volta pelos rochedos e começar a descer pelo outro lado em direcção à barragem. Lá está, ao fundo. Parece aqui tão perto. À direita o penedo cónico visto já deste lado. Do lado Este.


Já lá em baixo, no centro da barragem (quando vazia, uma península permite atingir a ilha que se forma quando está cheia) as pedras ainda organizadas permitem perceber as construções que por ali havia. Em primeiro plano algumas e muitas outras na margem em frente








E, provavelmente, por baixo do espelho da água há outras ...




Por ali às voltas fui dar ao centro da "ilha" onde no ponto mais alto a água nunca chega, permitindo o crescimento de pinheiros.





Cheguei aqui pelo lado de cima. Vinha dos penedos, como disse. Trazia a GoPro presa ao capacete e registei a descida: 4 minutos em andamento aparentemente rápido mas controlado. Logo no início, olhando para a esquerda, percebe-se o planalto da Estrela ao longe, no horizonte. Para o final, a visão vai abrindo, os penedos vão-se erguendo na paisagem e chega-se como se se tivesse aterrado de avião.

Não me surpreenderia se à chegada ali encontrasse uma orquestra sinfónica a tocar  o adágio do concerto para clarinete de Mozart. O som de madeira do clarinete é um som belíssimo mas é preciso ouvi-lo com olhos de ouver.