terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Ai tirolé

Serra da Lousã
Janeiro 2018



O cérebro busca o prazer - talvez por isso fazemos palermices, sabendo que, mais tarde, pagaremos as favas.
Um dos elementos do prazer é a beleza. Eu encontro beleza nos fios de água que se metem por entre pedras e folhas e ramos secos e cores e o som das moléculas que colidem com as pedras e os fios de luz que se metem por entre as árvores na floresta húmida e sombria. E etc.

 Os riachos renasceram na serra.









Depois, no mesmo comprimento de onda (da beleza) mas fora de fase (beleza com outras dimensões), há os líquenes, o musgo, as pequenas plantas e etc, em sinergia com as pedras da berma dos caminhos (tudo embrulhado num cheiro orgânico, intenso e húmido).



Para não falar dos insectos que por ali, entre as plantas, vivem.


Para além da cobertura líqueniana e musgofílica, as pedras cobrem-se de véus de água e a refracção da luz na água potencia as cores dos óxidos de ferro, clorofila das algas e outras substâncias (para dar um toque poético a isto).



Há muitos anos - caraças, há quanto tempo!, há quantas voltas ao Sol? - a minha avó ensinou-me uma cantiga.

Canta a calhandra na serra
lá no ar
a cotovia

e à beira do regato
canta o melro ao ver o dia

Ai tirolé
haja alegria
Ai tiroló
o novo dia

A minha avó cantava-a com uma voz aguda, muito limpa. E cantava muito feliz. Eu não a canto (nem me atrevo) mas, por vezes, a cantiga anda às voltas na minha cabeça.

É belíssima. Um dia destes toco-a na flauta de bisel  (ou no sax),  gravo-a e posto-a aqui. Ai tirolé.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O Açôr a mil

24 de Dezembro de 2017

Aos mil metros, sob nevoeiro empurrado a vento, o estradão que acompanha a cumeada sobre o vale do rio Ceira debruçava-se num abismo branco. Aqui mil, lá em baixo, onde corre o rio, quatrocentos. Na outra encosta, a que tinha subido, a barragem de Sta. Luzia aos seiscentos e tal metros. Dali, da cumeada, em dias soalheiros o olhar espraia-se até ao horizonte redondo da circunferência da Terra, tão longe a vista alcança.

Em dias brancos, no turbilhão do vento que bate sem direção definida, o horizonte é logo ali, nos dois palmos à frente do nariz que o nevoeiro fecha, e ando por ali a pedalar introspectivamente. As paisagens são as que o cérebro inventa.



Há aspectos invulgares (quer dizer, para leigos) nas pedaladas. Sobretudo nas pedaladas pelas serranias. Na bike, movemo-nos, viajamos, andamos por aqui e por ali, às vezes passando no mesmo local mas vindo de outra direcção. Parece vulgar! Mas há uma dimensão do movimento menos óbvia; viajamos na vertical. De carro andamos de um lado para ou outro, para cima e para baixo mas a dimensão que marca é a horizontal. Vamos daqui para ali. Subimos e descemos mas vamos de um sítio para outro. De bike subimos a um cume a partir do rio cujas margens percorremos, o mesmo vale, o mesmo rio, descemos ao vale do cume onde estivemos e subimos à cumeada da encosta que percorremos ... Subir e descer é uma dinâmica intrínseca às pedaladas, um aspecto marcante da "viagem". E isto, parecendo uma Lapalissada, sobretudo para leigos, não é - então pois claro, é preciso dar às pernas, fazer esforço, puxar a carroça, de carro isso não se sente, qual é a novidade? Dirão.  Não é o esforço da subida ou a adrenalina da descida; é a viagem a subir e a descer, o clima que muda, o chão que muda, o ar que muda, ... De bike não se pára para ver as vistas, faz-se parte da paisagem.
Aos mil fiz o videozinho ali em cima. Aos 600, junto à barragem de Sta. Luzia era assim. O espelho de água.



Partindo dos 600 tinha viajado hora e meia para chegar aos mil, afastando-me na horizontal uns meros três ou quatro quilómetros.


À medida que subia, as encostas por onde cavalgou o fogo em Outubro último, outrora verdes, davam-me a impressão de estar subir uma cratera em Marte


Esta e a outra e assim sucessivamente. Tirando uns pinhais aqui e ali que foram poupados ao fogo, os montes estão nus.


Contornei o vale em anfiteatro e, do outro lado, apontei o telemóvel para este local onde agora estou e disparei.

Terei que passar de novo além, subindo ao monte do meio, o que toca as nuvens, para descer o que subi para lá chegar e voltar para casa.


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Que puta de ironia

Serra do Açôr
(Dezembro 2017)


Há cerca de 10 anos plantei um castanheiro. Foi, tanto quanto me lembro, uns meses após o último grande incêndio que devastou estas serranias. Na altura, após o fogo, as encostas vieram por aí abaixo em enxurrada. Logo depois do fogo chovera a potes, em torrente. Pedras e muros antigos que delimitavam as pequenas parcelas de terreno em socalco foram arrastadas por "barrocos" que se transformaram em rios furiosos. Inacreditável. Inacreditável ver a horta onde tanto esforço tinha posto, os muros centenários, árvores inteiras numa vertigem turbulenta aos trambolhões arrastados pela água. Com as pedras que por ali se plantaram fiz muros, desenterrei cerejeiras e figueiras soterradas, cuidei das videiras e a coisa foi indo, tudo foi florescendo por entre as pedras. Depois vieram as silvas, os fetos e as giestas. E lá fui indo à força de braços (ali nem um pequeno tractor chega, tal os desconchavo do caminho de acesso), enxada nas unhas, sacos de estrume às costas, cuidando, estrumando, cortando, podando, roçando. Arranjei a mina. As cerejeiras floresceram, a figueira também e a tangerineira o mesmo, os pessegueiros nem por isso e as oliveiras rebentaram. Um dia, junto ao muro deitado abaixo, plantei um castanheiro. Este ano, pela primeira vez, o castanheiro tinha ouriços. Vi-os no Verão. O castanheiro, já mais alto que eu, ia dar castanhas. Deu. Assadas. Que puta de ironia. Gosto de castanhas assadas, o castanheiro que plantei deu castanhas pela primeira vez, assadas. Em Outubro passado, o fogo apareceu por baixo, pelo vale, poupou a aldeia (uma sorte pois tições de palmo e meio iam caindo pelos quintais mas, não tendo faltado a água da rede, foram sendo apagados pela meia dúzia de habitantes) mas queimou tudo à volta. As árvores e videiras que plantei, as oliveiras que tratei ... estão mortas, o terreno que cavei está negro. Os ouriços arderam no castanheiro. Encontrei castanhas assadas no chão e ainda algumas em dois ou três ouriços no castanheiro.




Foi a primeira vez que aqui vim depois do fogo. Previa o que encontraria. O caminho para lá, outrora verde, pejado de arbustos, tojos, raízes e etc,  era um livro aberto sobre o que se passara.


Uma devastação. Tudo morto.


O mesmo nas outras pequenas parcelas de terreno dos poucos e idosos habitantes locais. Oliveiras que davam azeite e que, sobretudo, lhes incutiam preocupação (e como a preocupação é essencial ao bom funcionamento do cérebro), cuidados, lhes permitiam fazer planos, ocupando-os, a horta com legumes frescos, videiras das quais fazia uma bela de uma surrapa imbebível mas era a surrapa deles (e que, quando me oferecida, a bebia com prazer) e umas batatinhas, poucas que a força para as cavar já não era muita, mais umas frutas, maçãs, pêras e cerejas ... Também estas ocupações morreram. Também esta força o fogo queimou. Aqui e em dezenas de outras aldeias espalhadas pela serra do Açôr. E não foi nem o destino nem o azar, foi alguém que ateou os incêndios. Não é uma fezada o que digo, é a Química que nos ensina isso (a energia de activação na reacção em cadeia, caro Watson). Parece que as causas não interessam a ninguém.




segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Silêncio extraordinário

Dia 25 de Dezembro
(Barragem de Sta. Luzia – Serra do Açôr)


Silêncio. Às vezes, em locais muito silenciosos, faço um jogo: tento perceber se consigo ouvir alguns sons, destrinçando-os depois como se desfizesse um novelo. Quando, aparentemente, há silêncio consigo ouvir um cão que ladra lá muito longe, um apito de alguma coisa que se perde na distância, quase impercepível, a minha respiração, um bater de asas de um pássaro, uma folha que cai na floresta, sim, em silêncio ouve-se uma folha a cair, o vento que sopra sabe-se lá onde, o ronco dos motores de um avião que passa a 10.000 m de altitude, um piar, um gemido um resfolhar, uma vertigem que fica suspensa na dúvida (ouvi? não ouvi? era alguma coisa? foi impressão?). Para não falar de ruídos urbanos. Em ambiente urbano o novelo de sons (em local silencioso) é muito mais complexo. É impressionante o número e diversidade de sons que se consegue identificar.
Mas estes são silêncios vulgares. Hoje, junto à barragem, sob nevoeiro, o silêncio não era vulgar; era um silêncio extraordinário. Silêncio. Nenhum som me entrava pelos ouvidos, ouvia apenas um som gerado internamente, no cérebro.
Nenhum som e apenas uma luz difusa, deixando o cérebro a preencher os espaços em branco.




Caminhar por ali gerava um ruído quase ensurdecedor.



Ontem, 24, foram as cumeadas acima dos mil metros (a ver se aqui ponho um videozinho que fiz). Hoje, 25, tinha ali chegado à margem da barragem por entre as únicas árvores que, em toda a região, escaparam ao fogo de Outubro. Dormi pouco, a noite tinha sido de comida, bebida, conversa, fogueira na rua, mas o apelo da manhã chuvosa e a previsão do que me esperaria junto ao plano de água da barragem foi incontornável. Acordei na cama quente, a ouvir a chuva a cair no telhado e a correr em bica pelos beirais, caindo na calçada. Nisto e a imaginar-me já a pedalar por entre o nevoeiro, sob a morrinha, nas margens da barragem. Os cheiros intensos do mato e da terra molhados. A luz difusa sobre a água, simulando um abismo.



Pelo caminho, aqui e ali, o chão pejado de medronhos.




Enchi a barriga. O que eu gosto disto. Fiquei preparadíssimo para o capão que ajudei a meter no forno, pela manhã, antes de sair.





Na volta, ao passar no açude, o nevoeiro tinha levantado. O vento que se pusera tinha limpo as vistas até lá longe onde se ergue o maciço central da serra da Estrela.


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Vai um ciclista extraordinário por ali fora,

(Serra da Lousã, Dezembro 2017)

pára para comer uma bucha e, às tantas, olha para o lado e ali andam eles. Pois, está bem, mas o ciclista extraordinário também não pára em qualquer local. Seja para aliviar os bolsos de comida ou para esvaziar bolsas internos de fluidos, o ciclista extraordinário escolhe locais com belas vistas. Há lá prazer maior do que um alívio (de bolsos e bolsas) acompanhado por um longo suspiro com belas vistas pela frente?

O ciclista extraordinário estava distraído. Ah e o ciclista extraordinário usa lentes. Mas, mesmo assim, embora o gajo, quer dizer o ciclista extraordinário, veja um boi à frente dos olhos, ao longe o ciclista extraordinário fica na dúvida entre um boi, uma pedra, uma árvore caída e outros vultos com o volume de um boi como, por exemplo, alguns presidentes de potências (com mísseis) nucleares com ou sem penteados ridículos cor de laranja ou não. Por isso, o ciclista extraordinário, ao virar a cabeça olhou mas não viu os gamos a pastar. Apenas quando um se mexeu o ciclista extraordinário teve o pressentimento de que poderia ser um veado; um pensamento cartesiano puro: se se mexe, se não está vento e se parece ter pernas compridas logo é um veado. Afinal eram dois.

O ciclista extraordinário apontou para lá o mobáile em zoom e, passado algum tempo, já na dúvida se algo se estava ou não a mexer, armou-se em parvo assobiou e berrou. Um berro bovino. Outro pensamento cartesiano: se berrar e se se mexerem são o que penso que são. E eram.

Note-se a elegância com que correm !


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Das neblinas e de como os riachos já levam um fiozinho de água

Dezembro 2017
(serra da Lousã)

Sou de neblinas como du soleil e do luar.

Nada esconde a neblina. Porque é que hei-de imaginar se para lá da cortina de neblina há outra realidade? Já basta pensar em multiversos e universos bolha e matéria negra para, olhando à volta, ficar intrigado. E, já agora, que processos gera a gelatina gorda a que chamamos cérebro, e que está debaixo daquele capacete naquele sítio e naquele momento, para se deleitar? Depois de saber isto talvez se possa, verdadeiramente, discutir a possibilidade de inteligência em robots. De facto, o nome que está na moda (inteligência artificial) é bem dado: artificial.




Os riachos na serra levam já um fiozinho de água. Apenas um fiozinho.
Oh robot o que é que achas deste fiozinho de água? Não, não me interessa se dentro em breve, com novas chuvas, engrossará, era mais o que achas do som que a água faz e que se esgueira por entre as árvores e se o verde dos fetos te parece mais verde e mais bonito com o fiozinho ou sem o fiozinho. Olha e não te apetece ensaiar um assobio que se esgueire também por entre as árvores, oh robot? Pois ..., parece-me que tens uma inteligência muito artificial.


Fecha-se o dia.



Horas de ir andando.



sábado, 9 de dezembro de 2017

nous sommes du soleil ... às vezes

Dezembro 2017

nous sommes du soleil,


(do álbum Tales from Topographic Oceans dos Yes)

du soleil. Vá, agora todos: nous sooooooommmmes du soleeeeeeil, du soleeeeeeeeeeil.

Vim uma vez o Yes, há uns anos, no coliseu do Porto. Uma coisa como deve ser, sentado confortavelmente na terceira fila, a meia dúzia de metros dos músicos. Não estava o maluco do Rick Wakeman nas teclas. Mas ainda bem, quando põe os dedos teclas nunca mais pára, sempre a mexer os dedos. Na época áurea dos Yes, o Rick Wakeman era conhecido por se rodear de uma parafernália de teclados, tocando-os todos ao mesmo tempo com tudo o que podia, com as mãos, com os pés, a ponta do nariz, a ponta da ... quer dizer, os cotovelos. Era impressionante. Mas, no concerto do Porto, tão perto que estava, pude ver os olhares cúmplices entre eles, os gestos, o movimento, a organização ... coisas que gosto de perceber (interessa-me pois, há anos trás, toquei num grupo de baile) e que para quem assiste ao concerto não tem qualquer interesse. Por isso não gosto de concertos em que estou a mil km do palco e apenas vejo ou o écran (sem piada) ou umas figuras ao longe. No Porto pude apreciar a classe do Steve Howe, a tocar impecável num território no palco só dele, as guitarras alinhadas sobre um tapete persa. Ver o esforço do Jon Anderson (os anos já pesavam nas cordas vocais) a fazer a voz invulgar que a natureza lhe deu.

Mas, du soleil ...
... às vezes. Outras, do luar


(Oblivion, Astor Piazzolla)

Ouvir Piazzola em frente ao Mar (rio) de la Plata, quer do lado de Montevideo quer do lado de Buenos Aires. À noite. Tempos em que ia para aqueles lados. Entranhou-se-me no corpo aquilo tudo (a música misturada com a luz reflectida no mar, a brisa e os sons que vinham da cidade, o empenhamento na amizade que ali se sente ...). Um dia hei-de voltar ao Sul.

Um dia, Vuelvo Al Sur




Du soleil ou do luar ...
ou tudo misturado, como na fonte fria, num dos caminhos da floresta na serra da Lousã. O Sol nas folhas e o luar no reflexo à superfície da água.
Pedalo por aqui muitas vezes e, embora de acesso relativamente fácil, em todos estes anos, as únicas pessoas que por aqui encontrei foram uns Ingleses (Profs na Universidade de Coimbra) que, aliás, na altura, e dada a beleza do local (nas suas palavras), confessaram a sua supressa por nunca encontrarem por ali alguém. Foi, pois, uma troca de surpresas (e gargalhadas, by the way).


 A fonte, naquele local, é uma construção impressionante. Tenho uma teoria para isso.


O Sol andava lá por cima, a ser colhido pelas árvores.


Segui, pois, caminho do Sol. Caminho temporário, como é sabido, dali a 2 min a luz andaria noutro sítio.


Para Oeste. O Sul é dado pelo Sol nas árvores. Não foi desta que fui para Sul.