sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Calendário de garagem

Dezembro 2018


Num pulo, o olhar vai da terra ao alcance da mão, da terra que se toca, até ao horizonte. Os quase mil metros de altitude deixam o ar limpo. Ao longe, a neblina cobre já os vales mais fundos onde a noite se faz mais cedo.


Aqui o sol põe-se. Um belo por-do-sol e só falta colocar-me na paisagem. No caminho que percorro as pequenas lascas de xisto reflectem a luz oblíqua e brilham como pequenos espelhos.

Contraluz ao por-do-sol? Pelo menos dá para fazer um calendário para a garagem.




Com o anoitecer, além do céu incendiado, aparecem os gradientes de azul que dão distância à paisagem, tornando os montes ao longe cada vez menos visíveis. Planet Earth is partially blue and there´s nothing I can do.


É uma bela de uma sensação pedalar por ali aquela hora. Ali à beira, sobre o vale, gosto de sentir as rodas no chão, sobre as pedras.
Mas, um pouco mais de azul - e fora além. Quero dizer, um pouco mais e ... ia por ali abaixo. Faltou-me um golpe d'asa.



A luz rasante do Sol dispersa pelas poeiras na atmosfera acentua a cores quentes. Cor de fogo. De que cor são as folhas das árvores? São da cor que as vemos no momento. Agora vermelhas mas, sob a luz da manhã, incidindo sobre outro ângulo, diz-me a memória, talvez ainda verdes. É a realidade.


Caía a noite. Pés em força nos pedais; chegar ao vale lá ao longe ainda com luz do dia tornara-se impossível. Já por várias vezes desci a serra às escuras, por caminhos pedregosos com buracos e ramos de árvores que não se vêem. Mas a parte do cérebro que, enquanto vejo o por-do-sol lá no cimo, me avisa do perigo, antecipando o anoitecer (ground control to Major Tom, commencing countdown), outra parte adia o problema e convence-se que a coisa se vai resolver de alguma maneira. E as situações por que já passei!
Um aspecto interessante é que às escuras se perdem pontos de referência e, portanto, manter o equilíbrio em duas rodas deveria ser muito difícil. É estranho, sobretudo a curvar, mas, de facto, consegue manter-se o equilíbrio na bike de um outro modo; sente-se um centro de gravidade interno.



segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Ao longe, o Açor

Janeiro 2019

Tal como a ave que lhe dá o nome, as cumeadas do Açor planam sobre o vale que o limita a Norte, o vale do rio Alva, o rio vindo de longe, da Estrela, das penhas cujo granito sob a luz do poente se tinge de dourado, as Penhas Douradas, em contraste com o verde escuro e rasteiro das zimbreiras para, logo depois, uns instantes depois, à medida que a luz do Sol se esvai, se abrir o céu, um céu inimaginável porque de tantas as estrelas a sensação é de vogar no espaço, de completa ausência de dimensões, de em cima e de em baixo, e fazer esta viagem é uma memória difícil porque múltipla, não é só imagem, é também o arrepio da pele, o espanto, a admiração sublime de pertencer a um universo vastíssimo, a emoção que explode na boca e no peito, que nos emprenha, intemporal, sem antes ou depois, que nos esvazia e que, como se vê, passadas tantas décadas vem devagar como um fiozinho de água para logo se transformar numa torrente: o céu à noite na Estrela.

A serra do Açor, o imenso Açor visto do lado Norte:


(monte Colcurinho)





quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Lousã by night ou a véspera das pedaladas ou o big foot

Dezembro 2018


A véspera de pedaladas. Noite de lobos, como se dizia na minha terra; fria, nevoeiro cerrado, silenciosa, vultos que passam fugazes. Antigamente, contou-me o meu pai, nestas noites os lobos desciam à aldeia à procura de galinhas e coelhos. É que, nas casas, o piso térreo, a loja, era para os animais, ferramentas e alimentos a preservar durante todo o ano (batata, frutas ...). As pessoas viviam no piso por cima da loja e o acesso era feito por um balcão de pedra lateral à loja.

Hoje não há lobos. Encontrarei, provavelmente, gatos e talvez um cão vadio.

(soundtrack para o post - clicar nos dois vídeos em simultâneo, neste e no seguinte)



O passeio começa cinematográfico com a walk in the park.


Um belo parque. Hoje um belo parque sob nevoeiro. Um belo parque deserto sob nevoeiro. O coreto, ao fundo, faz a ligação para o auditório ao ar livre.



Passo a passo, passo nas ruas desertas.




O nevoeiro condensado nas pedras da calçada. As sombras da noite, formando ângulos novos desconhecidos durante o dia. Agora que penso nisto, de facto, esta é uma razão para a novidade (fascínio?) que a paisagem nocturna traz. É que as sombras da noite resultantes da posição relativa dos candeeiros, muito diferente da do Sol durante o dia, transformam a paisagem. Durante o dia a luz não vem do chão.







Às tantas, ouvi um som, como que uma respiração forçada, de aflição. Um susto. Olhei repentinamente para trás, telemóvel na mão pronto a disparar a fotografia e, tal como o Lucky Luke, a sombra foi mais rápida que a minha mão. Um vulto vindo não sei donde desapareceu antes de ter tido tempo para lhe desejar boa noite. Era, sem dúvida, o Big Foot da serra da Lousã. Nas noites de lobos sem lobos, o Big Foot desce à vila. Era a noite do Big Foot.


Passei junto ao pelourinho ainda em sobressalto. Comecei a ter visões de lobos do Ártico.


E, por falar em pelourinho, um parêntesis na noite para o mostrar à luz do Sol. Tem face de Janus em duplicado. Esperava-se de um pelourinho o aspecto austero. Nesse domínio não desilude mas o aspecto fálico remete para uma interpretação mais elaborada e este, obviamente, é um blog sobre bicicletas.


(mission accomplished, madame Antoinette)



Fechei o círculo, regressando ao parque onde tinha começado o passeio.
Na sociedade do conhecimento, numa época digital estas placas têm histórias para contar. Muitos turistas chegam de carro à Lousã com interesse nas aldeias serranas, as aldeias do xisto. Chegam ali ao inicio da estrada das serra onde estão as placas. Lá está indicado: aldeias serranas. No entanto, nove em cada dez viram para o outro lado, metem-se por becos e quelhas (bem o sei porque me passam à porta) onde mal cabe o carro, alguns voltam atrás, outros param e perguntam: olhe fáxavor, para a serra, para as aldeias? É lá mais abaixo, estão lá umas placas a indicar o caminho. Pois, nós vimos mas o GPS mandou-nos para aqui!
Muita gente esquece-se que a utilização da tecnologia requer, como em tudo, uma overview (to say the least) pelo nosso cérebro. De outro modo a utilização da tecnologia passa a ter um carácter dogmático (como se fosse uma religião). E os utilizadores a meros espectadores e não actores do filme.




Entrei. Então, ouvi uma algazarra. Vozes animadas, as únicas que ouvi em todo o passeio. Um grupo de adolescentes entrou no parque e, após terem passado por mim (como raposa por vinha vindimada), gritei: abram os braços, vou tirar-vos uma fotografia. A adesão a meu repto foi o que se vê. Ainda pensei avisá-los sobre o Big Foot mas, pensando bem, a personagem além de inofensiva não existe.


No instante seguinte, tinham desaparecido no nevoeiro.


Fiquei por ali uns instantes. Os plátanos podados a lembrar as "Joshua trees" do Joshua Tree Park, os ramos, como se fossem braços, a indicar o caminho: vinde, vinde este é o caminho para o paraíso!



Horas de ir para casa. Daqui a pouco deixa de ser véspera. No caminho passei pela estrada onde, amanhã, irei iniciar a subida da serra.




A caminho de casa vi um gato. Esguio e em corrida rapidamente se esgueirou por entre as sombras. Às vezes, iniciam a corrida, depois param, ficam quietos a olhar-me e, depois, retomam a fuga. Interessante. Ficam ali a fazer contas de cabeça. Ouvi também um bater de asas. Olhei à volta mas apenas o mesmo silêncio abafado e as luzes difusas, nada mais.




O dia das pedaladas veio branco. O cume da serra a espreitar por cima do nevoeiro que cobria o vale lembrava pinturas em biombos japoneses. Mas este é o dia a seguir à véspera e já não faz parte deste post.




domingo, 6 de janeiro de 2019

Cidade perdida no deserto da serra da Lousã

Janeiro 2019


A realidade é interpretada pelo cérebro usando padrões armazenados na memória, padrões do já interpretado. Tenho a certeza que vi, tenho a certeza disto e daquilo ... oh my dear, how can you be so sure? Vemos o que o cérebro interpreta. E a interpretação depende de variáveis e condicionantes (internas e externas).

Cidade antiga no deserto do Gobi:


Cidade perdida de Petra:


Lost city in Lousã Mountain:






QED


terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Da serra da Lousã à do Açor and back

Dezembro 2018

O dia todo em cima da bike. Uma volta pelas serranias das Beiras. Vamos lá ver se me amanho com isto. A quilometragem a ultrapassar os 3 algarismos. Cerca de 2000 m de acumulado positivo. Já o fiz várias vezes mas, bem vistas as coisas, do ponto de vista biológico a mera passagem do tempo é um factor patológico.  Depois das várias dezenas de voltas ao Sol que já dei, as minhas mitocôndrias já andam um bocado desacopladas e convertem energia com menos eficiência, as articulações já não articulam com a frescura de outro tempo e, sobretudo, a imprevisibilidade de uma dor aqui, outra ali, no tendão de Aquiles ou na cartilagem do joelho, podem trazer borrasca às pedaladas.
Temperatura prevista entre os 8 e os 10 ºC. Vento forte. Nuvens altas e luz coada. Começa-se devagar, sentindo o corpo. Contraído. Dentes cerrados. O frio húmido da manhã mete-se até aos ossos. Até nos dentes se sente o frio. Apesar de tudo, a base layer e o casaco ROS (rain or shine) da Castelli mantinham-me num estado minimamente confortável.
Anseia-se pelas primeiras subidas para aquecer. O nosso metabolismo é pouco eficaz; mais de metade da energia dos alimentos que ingerimos perde-se na forma de calor e, por isso, aquecemos quando aumentamos o metabolismo (correndo, pedalando, etc). Sorry mas somos viáveis porque somos imperfeitos. As curvas sombrias dos vales ainda com neblina. Depois, pouco a pouco, pedalada a pedalada, esquece-se o corpo e, à medida que se atingem os cimos dos montes, quando as lonjuras se percebem, o olhar domina e esquece-se o desconforto.

Já percorri este caminhos várias vezes mas é como se fosse a primeira vez. É sempre esta a sensação. O friozinho das primeiras horas impediu-me de parar, tirar as luvas e disparar o telemóvel para umas fotos. À medida que ganhava altitude, livrava-me da humidade, o ar ia ficando mais ameno e a visão dos farrapos de nevoeiro que se espalhavam pelo vale vincavam a sensação da travessia da serrania.
Depois dos penedos de Góis, já no Açor, o horizonte abre-se Sul. Estava na Portela do Vento, um nome extraordinário e bem adequado para um cruzamento de estradas no alto da serra. A luz coada pelo céu baixo, incidindo hesitante sobre as aldeias dos vales, dava a estas um aspecto ainda mais isolado do que, de facto, são. Aldeias encravadas ali nas meias encostas.


Cá em cima, na estrada, a paragem da camioneta de carreira foi, há anos, um upgrade excepcional para a vida das pessoas das aldeias lá em baixo. Não há um pingo de sofisticação, tudo tão enjorcado ... and yet eram locais de encontro e de partida, de viagens.



Dia de muitas pedaladas mas de poucas fotografias. Da Portela do Vento em diante as pedaladas fazem-se com o vale do rio Zêzere a Sul, ao fundo, coberto de nevoeiro sob um céu de nuvens altas que prolonga a paisagem. A linha do horizonte fica indiscernível.




Não era o único por ali a pedalar. Apanhei a estrada para Fajão, subi um pouco e parei a olhar a paisagem. Vi, então, mais atrás, um tipo esguio e alto em bicicleta de estrada, pedalando no mesmo sentido que eu. Inglês, 56 anos, vegetariano há 40 anos, passava os Invernos com a mulher para os lados de Góis e o Verão em Inglaterra. Tinha-se reformado. Vamos juntos, disse ele. Um sotaque fortíssimo, português incipiente (broken portuguese) mas, como me pediu para treinar o português, foi na língua de Camões que continuámos a epopeia, quero dizer a conversa. Além disso, era um gosto ouvir o sotaque britânico acentuadíssimo. Eu vou devagar. Não faz mal, eu tenho luzes, ripostou o Inglês com um sorriso. Gosto destas ironias e estabelecemos logo ali uma empatia. Pronto, vamos lá. Gosto de andal pol aqui porque há poucas carros e é really bonita a paisagem. Ora, ora, a quem o dizes meu. Mas vegetariano há 40 anos !? Tomas vitamina B? É que é fundamental à actividade de um complexo enzimático central no metabolismo que leva à produção de energia. Si, si é um assuontô quê euuu conhêiço bém.
Eu quis saber porque achei extraordinário um tipo com uma capacidade física excelente (parecia que deslizava na bike) ser vegetariano há tanto tempo. Interessava-me o aspecto biológico. Lá explicou a dieta em traços gerais. Dia sim, dia não ele fazia 6 a 7 h em cima da bike por toda a região, de ambos os lados das serra da Lousã e do Açor (Arganil, Góis, Piodão, Pampilhosa da Serra, Castanheira de Pêra, Lousã ...).
Pedalava com uma leveza extraordinária, sempre sorridente ... e sempre com um pingo na ponta do nariz comprido.
Separámo-nos no cruzamento (onde todas as separações deveriam acontecer) ao cimo da barragem de Sta. Luzia. Eu ia lá abaixo e um pouco ainda mais à frente, antes de voltar para trás. Ele ia fazer um loop: dali para Malhada do Rei, Piodão, Arganil ... Várias horas para ambos.


O nevoeiro fazia um tecto sobre a barragem. Na descida, à medida que mergulhava, de novo, no ar translúcido, um visão sublime: as ervas finas e brancas cobertas com mil gotas de orvalho reflectiam a luz difusa, dando a impressão de um manto de neve. Assombroso. Click, click, qual escolho para postar aqui? As duas.






Lá fui até à barragem. O horizonte fechado a Este não deixava ver o maciço da Estrela nem, mais próximo, o Adamastor do Açor (Picoto da Cebola). Um pão com marmelada empurrado com água da fonte. Teria comido o outro mas precisava de o manter como reserva para mais tarde.


Já na volta, depois de ter, novamente, atingido as cumeadas, o céu tingia-se já de amarelos e vermelhos a anunciar a descida do Sol. Precisava ainda de umas 3 horas de luz to get back home. E de 2 minutos para tirar uma fotografia panorâmica




Cá em cima, sob o ar seco, as ervas brancas que cobriam encostas não faziam de espelho como acontecera lá baixo sob nevoeiro.


Pedalada após pedalada, olhar após olhar, as cumeadas sucediam-se. Olhei para trás; lá estava o Adamastor á direita e, ao centro, o granítico maciço da Estrela.


Para Sul, o entardecer trazia aos vales a neblina fina e fria. Quase que o sentia daqui. Não queria que a noite me caísse em cima.


Ainda muita estrada para pedalar.
Still a long way from home.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

... after all these years

30 de Dezembro de 2018


still normal?




The answer is blowing in the wind.

Não fui a NYC, à Madeira ou à Austrália. Fui ao Cabeço da Ortiga arejar as ideias ao vento frio. Não pude ficar para a starry night.


Cabeço da Ortiga. Som alto ! Primeiro dedo: Trevim, cume da serra da Lousã; segundo dedo: maciço central da serra da Estrela. No vale em frente à minha sombra: serra do Buçaco (um pequeno planalto a meio do vale) e, no horizonte, a serra do Caramulo






quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Videozinho sobre a realidade propriamente dita

Dezembro 2018
Serra da Lousã


A biodiversidade afunila-se, reduz-se a uma velocidade que quase nem permite um ponto da situação, não de modo linear com o passar do tempo mas exponencialmente. A somar a isto, é largamente aceite que estamos numa nova época de extinção em massa (plantas e animais); dezenas de espécies por dia e, de novo, a uma taxa milhares de vezes maior que a que tem ocorrido no passado. Está-se a correr apara a extinção de 50% da espécies em dúzia e meia de anos. E a causa não se relaciona com catástrofes climáticas, vulcões, alteração da inclinação do eixo terrestre ... mas sim com a actividade humana. Ah e tal mas são sobretudo minhocas e insectos dizem os arrogantes, ignorando as relações e interacções entre as espécies. Convém ter presente que a vida confortável que temos nos designados países desenvolvidos só é possível porque a maior parte da humanidade vive no limiar da sobrevivência, sem acesso aos recursos que nós desperdiçamos, a água potável, a alimentos, sem fazer lixo, sem consumir e sem poluir ... para mais o marketing meteu na cabeça de tanta gente os "produtos biológicos", um negócio da china. Mas não vou por aí que daria pano para mangas. Depois temos a inteligência artificial, a transformação da organização da sociedade que tem necessariamente que ocorrer (os Finlandeses já estão a fazer experiências), a comunicação global ruidosa (no sentido em que o ruído perturba o sinal), o apelo do virtual (pronto usar e deitar fora, sem chatices), a possibilidade de editar o genoma humano (um gajo chinês já se chegou frente, anunciando o feito - como disse o Feynman, ele que participou no projecto Manhattan que levou ao desenvolvimento da primeira bomba atómica, a Ciência dá-nos a chave que pode abrir as portas do céu ou do inferno) e etc. Bem, era apenas para dizer que suspeito que o que se vê no videozinho, um videozinho vulgar que actualmente se pode gravar à porta de casa será, dentro de uns poucos anos, uma experiência trivial para poucos de nós, embora virtual para muitos.