sexta-feira, 15 de março de 2019

Estrela, um dia luminoso (2 de 2)

Serra da Estrela
(Março 2019)


(o som está péssimo, sorry mas não encontrei melhor)

Chegado ao planalto da Torre e contemplado o Açor fiz de conta que elaborei planos para a descida: "Ora, trinta km até aqui contando com umas voltas, sigo até ao Covão da Ametade, vale glaciar do Zêzere, Manteigas (ou Verdelhos?), Valhelhas ... isto dá mais umas dezenas."
Iria fazer mais 70 km (claro que furei o plano, ou melhor mantive-o como rumo principal mas fui dando umas voltas por ali e por ali, para espreitar o rio, para lavar as vistas no planalto sobre o vale glaciar ...).

Parei mal tinha iniciado a descida. A pequena lagoa junto à Torre estava gelada. Não me faltou a vontade de tentar dar uma pedaladas sobre a superfície mas caraças pá não sejas parvo - gritaram os neurónios do cérebro envolvidos nos mecanismos da razão.




A descida é uma vertigem. O conta-quilómetros rapidamente aumenta para as várias dezenas, a atmosfera quase que se torna uma barreira (como quando se põe a mão de fora da janela de um carro a alta velocidade), o corpo a chocar contra as moléculas e partículas da atmosfera (então se houver vento !!!), os horizontes, no entanto, mantêm-se distantes, tal como deve acontecer ao velejar em alto mar.
A descer (a velejar) a grande velocidade, logo depois da curva do Cântaro Magro, travei a fundo. Parei outra vez. Os vultos nas pedras mal se viam mas eram uma boa medida para se perceber a escala do que daqui se observa.




Nos Piornos, tal como planeado. Segui para o Covão da Ametade. Mal tinha feito meia dúzia de curvas,  furei o plano e cortei para o planalto sobranceiro ao lado Oeste do vale glaciar. Piso pesado, mole, ensopado de água devido ao degelo. Alguma neve nas bermas ainda. Afastava-me do Covão da Ametade (na base do Cântaro Magro que se vê à direita na fotografia) e aproximava-me cada vez mais de um dilema. O planalto onde estava é belíssimo. Pedalar ali, àquela altitude, é uma bela de uma sensação. Caindo para a direita iria por Valhelhas (como fiz já noutras pedaladas), pela esquerda pelo Poço do Inferno. Em ambos os casos um percurso que me levaria de volta à Covilhã. Mas e o Covão da Ametade? Salomónico, decidi: dou aqui umas voltas e, depois, volto para trás, volto à estrada que deixei e que me vai levar pelo vale glaciar.




De novo na estrada asfaltada dos Piornos para Manteigas que tinha deixado, parei na fonte da Jonja. Fonte da Jonja?
Parei pela água mas, sobretudo,




porque sentado na fonte de costas para água que corre abre-se à frente uma paisagem esculpida pelo gelo há 20 mil anos; o Vale Glaciar do Zêzere. Um visão avassaladora. No fundo corre o rio Zêzere.





Antes de acompanhar o Zêzere, descendo a estrada que serpenteia pela meia encosta do vale, parei no Covão da Ametade. Belíssimo, no sopé do Cântaro Magro, é hoje um local turístico muito frequentado. Bem diferente do tempo em que, adolescente e com um amigo aqui acampámos e à noite, sozinhos ali no planalto da serra, uivámos à volta de uma fogueira até sentirmos um calafrio que se nos meteu pelo corpo dentro ... o eco devolvia-nos os uivos mais intensos, mais graves e intermináveis ... o eco do eco do eco de mil ecos. Ficámos petrificados. Caiu-nos em cima a solidão, a imensidão granítica que nos rodeava sob a via láctea bem nítida e sei lá que mais. Metemo-nos na tenda em silêncio, à escuta, sós no Universo ...



(há uns tempos a cor dominante na fotografias que aqui tirei era o branco)

Descendo o vale glaciar, os riachos bem nutridos, alimentados pela neve, contornando pedregulhos gigantes, compunham a banda sonora que me embalava a descida. E como eu gosto desta banda sonora.

Depois, mais umas curvas fechadas na long and winding road que me levaria a Manteigas, a Fonte de Paulo Martins. Icónica. Tentei um ângulo de modo evitar apanhar os garrafões de águagarrafões de plástico alinhados e o tipo que os enchia na fonte.



No vale, há anos, havia os casais, casas cobertas de colmo com um pequeno redil para as ovelhas. Hoje - fiquei com essa impressão - algumas estão transformadas em casas de férias.





Legenda:


O vale glaciar traz-nos das terras altas, da montanha para um outro, mais ameno, bucólico, escolhido também pelo Zêzere para fazer o seu caminho. A tarde avançava. No fim do vale, após a curva do viveiro das trutas, planeei uma paragem estratégica em Manteigas para um café e um pastel de feijoca, especialidade da terra, na padaria/pastelaria Floresta. Pouco tinha comido até aí. Horas que nem dei pela fome. Tinha bebido vários cantis de água, comido uma banana, um pão e mais nada.

Meti-me pelo vale que me iria levar à Cova da Beira, quase a Belmonte. A partir da estrada asfaltada, uma estrada de inclinação suave que percorre uma das encostas que limita o vale do Zêzere desde Manteigas até Valhelhas, por vezes consegui pedalar mais junto ao rio, por entre freixos e pedras rolantes. Alguns dos troços marcados como "grande rota do Zêzere".




O Sol a cair sobre a encosta Oeste acentuava sombras horizontais, penumbras e contra-luzes que a luz intensa e mais vertical do meio-dia oculta. O entardecer. Além de uma bela palavra, é um dos momentos do nosso ciclo circadiano de 24h, inscrito nas nossas células, no nosso corpo, que para mim é muito sedutor. 



O entardecer junto ao rio Zêzere (que eu vinha a acompanhar há vários quilómetros) em Valhelhas.




É curioso mas, durante as pedaladas, a memória vai em standby. Ali, no tranquilo e belo vale que o Zêzere percorre, não me assaltou a memória das altas paragens que tinha percorrido antes de ali chegar


É o presente  que se impõe. Do mesmo modo, mais tarde, já quase noite na Cova da Beira a caminho da Covilhã, o vale do Zêzere era uma recordação hibernada, tal como as pedras no fundo do rio onde se escondem as trutas e que eu tanto gosto de olhar. Quando novo, metia-me em rios destes e bem sei o que escorregam estas pedras cobertas de algas.


O fértil vale onde, depois de impetuoso e caudaloso por entre rochas  no vale glaciar, o rio Zêzere se espraia, formando espelhos de água tranquilos. Percorri o vale, aqui sim, como um passeio no parque.
Por vezes, sem dar por isso, vou embalado com músicas que se me atravessam na memória. Às tantas vinha por ali a pedalar e a assobiar Fly me to the moon.


O telemóvel com a bateria quase esgotada refreou-me o ímpeto de fotografar. Mais uma ou duas, pensei. Uma, olhando para trás: o rio e as montanhas, lá em cima, por onde pedalara horas atrás.


Ao percorrer o vale, atravessou-se-me uma música na memória. Acontece-me muitas vezes, vou por ali fora a pedalar com uma música na cabeça e só muito tempo depois , numa paragem, num imprevisto etc, dou conta que vinha embalado em melodias.
Desta vez foi Caçador de Mim, cantado por Milton Nascimento, o genial Milton, e o Fly me to the moon numa versão tocada em saxofone.

And, here it is, Fly me to the moon para dois saxofones, em que um deles é o ciclista extraordinário (vamos lá a ver se a file abre, gravada à primeira, sem ensaios, e a tentar sussurrar para não abafar o outro):



A Cova da Beira fez-se já ao ocaso. Passei perto de Belmonte, terra de Pedro Álvares Cabral e com tradição na comunidade judaica em Portugal.


Pomares de pessegueiros em flor ladeavam a estrada.





Guardei ainda uma última fotografia para registar a capela da Sra. do Carmo e o largo onde, na minha infância, havia a festa em Agosto. ainda hoje se realiza mas os homens não vão vestidos com os seus fatinhos de Domingo feitos de grossos tecidos pretos e com gigantescas melancias à cabeça e o chapéu de chuva pendurado no casaco junto ao cachaço no pescoço (nunca se sabia quando havia uma "bulha" e era preciso um bastão). O Verão quente, o pó do largo onde se fazia a feira e que cobria a roupa e a garganta, os animais, a roupa que abafava e fazia suar em bica, a confusão, o vinho que corria a rodos, a festa, a música, as procissões ... era um grande acontecimento.

Hoje há uma via rápida logo ao lado e o sítio tem um aspecto asséptico.
A Covilhã ao longe, a 10Km de distância. Uma distância suficientemente grande para permitir que a noite descesse sobre o vale. Chegada de noite, sem luz e a experimentar o friozinho finíssimo que se instala nos vales com o anoitecer, 9h após ter partido e 100 km pedalados. Foi a Estrela a 100.










sexta-feira, 8 de março de 2019

Estrela, um dia luminoso (1 de 2)

Serra da Estrela
Março 2019


Durante a subida, como tem sido hábito nos últimos anos, páro para olhar o vale onde nasci e passei parte da infância; a cova da Beira do lado encostado à Estrela. É difícil sobrepor o que vejo actualmente às memórias dessa altura. Da infância. Se o contasse seria para muitos insólito, to say the least. Eu próprio, que gosto de navegar na mudança, quase que desacreditaria na memória não fosse ela tão viva. Até os rostos e os cheiros estão ainda esculpidos a escopro e martelo nas sinapses do meu cérebro.







Daqui, deste sítio, a meio da subida para o "sanatório" (hoje hotel), quase que nos debruçamos sobre a Covilhã, fazendo jus ao nome do local: varanda dos Carqueijais. Que belo nome. Ao fundo, no horizonte, o monte granítico de Monsanto. A espreitar do lado direito, a Serra da Gardunha.








Sol intenso. Dia luminoso. E, pouco a pouco, pedalada a pedalada pela subida íngreme vamos embrenhando-nos na granítica paisagem. Sente-se o impacto do granito a toda a volta. A subida não é um passeio no parque de cabelo ao vento e sorriso nos lábios. Com o esforço, entro com frequência em "mind wandering"; vou por ali Estrela acima a pedalar com a cabeça nas estrelas. Como que num transe. Olhar fixo na roda da frente. Por vezes, sim, olho à volta, para logo depois retomar o transe. Pedalada a pedalada.

Um pouco mais de azul, isto é um pouco mais de altitude, quase nas Penhas da Saúde, a Gardunha fecha e traça a linha do horizonte a azul.








Passadas as Penhas, e passado o lago Viriato (apetece dizer: onde a terra se acaba e o céu começa),









o maciço central. Caraças, o maciço central ! Vai-se impondo na paisagem à medida que cada pedalada nos aproxima. Que força é essa que trazes nas pernas, que força é essa amigo?

Percebia-se que a neve cobria parte do Cântaro Raso.









O vale glaciar da Nave de Sto. António. Na moreia central vê-se claramente visto o "poio do Judeu", a pedra enorme que se destaca de todas as outras.

Contra o céu de nuvens difusas, o recorte dos três cântaros: o raso à esquerda (onde fica a Torre, identificável pela cúpula arredondada do radar), o magro  e o gordo (à direita). Aqui aos 1600 m de altitude faltam apenas 400 para subir à Torre. Basta seguir a estrada que serpenteia cântaros acima.

Na curva ao cimo da moreia, hei-de espreitar o Covão da Ametade na base do Cântaro Magro, centenas de metros lá em baixo. E, depois, durante a descida hei-de lá ir.








O dia ameno e a subida dura obrigava à paragem nas fontes. Bicas que jorram de paredes de granito.








Curva sobre o Covão da Metade. Parei. O belíssimo vale ao fundo onde nasce (um pouco acima) o rio Zêzere. Do lado direito percebe-se a ruga gigante na serra esculpida há cerca de 20 mil de anos por um glaciar: o vale glaciar do Zêzere, o maior vale glaciar da Europa com mais de 10 km de extensão.

Aqui o espaço engana. Os sentidos baralham-se. É que a serra é imponente. Parece logo ali, as bétulas e carvalhos do vale parecem uns pequenos arbustos acastanhados, mas basta reparar na curva da estrada asfaltada à entrada do vale e no tamanho dos carros estacionados para perceber o engano.








No mesmo local, para a direita, as paredes de granito que um dia, há mil anos, eu adolescente, quando estas paragens eram visitadas apenas por pastores, tentei subir (hoje dir-se-ia escalar em free solo) sem qualquer suporte logístico até ficar preso num pequeno patamar (a meio do Cântaro Magro ao fundo à direita) de onde nem para cima nem para baixo. E ali fiquei até que fiz qualquer coisa da qual não tenho memória nítida mas que não me custa imaginar e lá consegui sair dali mais ou menos incólume. Na altura era especialista em saltar de pedra em pedra. Andar por ali em passo de corrida, por estas paredes gigantes fora, saltando de pedra em pedra. A decidir ao microsegundo, enquanto se vai no ar, onde colocar os pés e ganhar balanço para o salto seguinte. E, por vezes, era um pequeno arbusto na falha de uma pedra que, servindo de apoio à mão, salvava o salto.





Ali, entre a imponência majestática do granito, as violetas da serra





Continuei. Depois do túnel, já sobre o vale de Unhais da Serra, as pedaladas começam a ficar mais pesadas. Aos 1800 m a hemoglobina contida nos meus eritrócitos que viajam aos trambolhões no sangue tem já uma certa dificuldadezinha em saturar de oxigénio e as mitocôndrias nas minhas células musculares não acham piada nenhuma a isso. Vale olhar o vale. E ao sentir-me arrebatado pela beleza que me entra pelos olhos sei que pelo menos os meus neurónicos têm ainda oxigénio e energia suficiente para se manter em forma; de outro modo, se estivessem a morrer com falta de oxigénio, como poderiam orquestrar a sensação de beleza que se sente ao olhar o vale? QED.







A chegada ao cimo da serra, à Torre, fez-se sem grandes surpresas, apenas a anormalidade do costume: carros, carros e mais carros, muitas pessoas, a maioria com merdelhices de plástico na mãos procurando um pedaço de neve para escorregar ... de resto nada de especialmente imprevisível.

Tirei a fotografia da praxe, aproveitei para comer um belo de um snack que levava no bolso traseiro do blusão e pus-me a andar dali para fora.







Bem, primeiro ainda fui ao lado Oeste do planalto. Tinha que ir. Tinha que ir olhar o Açor e as serranias por ali fora.

O Açor, o imenso Açor. A medula espinal montanhosa oblíqua no centro de Portugal: Estrela-Açor-Lousã.




Em primeiro plano, à esquerda, o cone quase perfeito do Picoto da Cebola (1400 m). À direita os outros dois dos três gigantes do Açor; o São Pedro e o Culcorinho. Entre eles, o vale onde nasce e corre jovem o Rio Ceira. Na encosta do Culcorinho, a desaparecer do lado direito, o vale do Rio Alva (este que nasce aqui perto do planalto da Torre, ali um pouco a Norte no Vale do Rossim). Ao fundo, na linha do horizonte à direita o St. António Neve e o Trevim (1200 m) na serra da Lousã. Por todos estes vales e picos já pedalei. Pelas cumeadas entre o Picoto da Cebola até ao Trevim. Chego aqui como se olhasse para as serranias pela primeira vez, como um conjunto mas, pouco a pouco, sem querer (e fazendo o que não gosto), descontruo a paisagem e começo a dar nomes aos montes e vales e lembro-me dos sítios e dos caminhos e dos rios ...


(os pequenos vultos na neve servem de régua para se entender a dimensão do que daqui se avista)





Afastado umas centenas de metros da multidão que enchia o largo da torre não dei conta que uma mulher se tinha aproximado. Vendo-me ali, talvez há tempo de mais, aproximou-se (afastando-se do pequeno grupo onde estava - percebi depois) e perguntou-me: ficava aí uma bonita fotografia? Olhei para trás e disse-lhe que sim. Clique.




Tinha feito uns 30 Km. Decidi ir para os lados de Manteigas, passando pelo Covão da Metade, depois Valhelhas .... Iria fazer mais cerca de 70. Foi a Estrela a 100.
(Começa a ficar pesado o carregamento das fotografias. Vou deixar o resto das pedaladas para o próximo post) 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

(Blue), (red) ... yellow is the warmest color (pelo menos durante uns dias)

Serra da Lousã
Fevereiro 2019

De modo sincronizado, com poucos dias de intervalo, as acácias na serra explodem em amarelo.

Amarelo em todas as direcções. Na direcção do azul



dos verdes panorâmicos



até das silhuetas pretas dos castanheiros 



e do escuro do asfalto


Com o vento as acácias tremendamente floridas oscilam e as pequenas flores caem em nuvens como se fossem flocos de neve. Neve amarela. Fico por ali uns instantes e, quando dou conta, estou coberto de pequenas flores amarelas. Dizem que são alergénicas (e, de facto, a época da floração torna dramática a vida dos asmáticos). Eu não me importo. Devo ter nascido com o gene do "que se lixe" (to say the least !). Gosto, os aromas são belíssimos e não me provocam qualquer reacção alérgica.
Pela manhã, manhãzinha, mal o frio da noite se vai e a brisa suave começa a varrer a serra, ondas de aromas invadem a atmosfera. Tsunamis de aromas. E eu vou por ali acima a cavalgar (quer dizer, a pedalar) a crista do tsunami.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

O dia tem que começar de alguma maneira (de 1 a 6 na escala de Richter)

Fevereiro 2019


On the nature of daylight (again and again): de 1 a 6 na escala de Richter !


(Max Richter - on the nature of day light)


1
(ligeiros arrepios na pele)



2
(abalos intensos no peito)



3
(palpitações por todo o corpo, insanely ciclying towards light, desmoronamento da razão)



4
(réplicas, regresso ao estado fundamental, apaziguamento, recuperação da visão)



5
(the end)



6
("no safety or surprise, the end my friend")


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Gone with the (wind), the (rain), in a (mystery tour), the … who cares.

Serra da Lousã
(Fevereiro de 2019)


Gone.




Hey! Come back (to life)

(David Gilmour back to Pompeii 45 years later - e, pelos vistos, o primeiro espectáculo público ali feito nos últimos milénios !)



Back.

Ir na proa do navio em dia de tempestade, tal como o mexilhão quando o mar está bravo, era o que eu sentia. Chuva puxada a vento em todas as direcções. Invernia na serra. Eu por ali acima a solo. Pedalada após pedalada. Mas que raio é que andas aqui a fazer sózinho, pá? No meio da serra em dia de tempestade? Perguntas desnecessárias porque não me apetece pensar na resposta. O fio do pensamento estava noutro lado: não em elucubrações sobre a minha passagem efémera pela vida no planeta mas porque é que há sempre um gota de chuva gigante que se desprende de uma árvore e que, no momento exacto em que vou a passar por baixo, acerta entre as aberturas do meu capacete e se estatela na minha cabeça? Através dos óculos embaciados percebia vagamente a paisagem à minha volta. Se me aparecesse um cabo das tormentas à frente do nariz não daria por ele. Passá-lo-ia até perceber que já o tinha ultrapassado. Agora imagine-se a excitação do Bartolomeu Dias quando deu por isso mesmo!
Por exemplo, um cabo das tormentas de quatro patas e focinho com dois dentes exteriores retorcidos e virados para cima. De vez olhava em sobressalto mas eram apenas folhas ou ramos levados pelo vento. Ou não. Nestes dias vai-se ali a pedalar como se se tratasse de um sonho. É mesmo assim. Não há sequências lógicas na transição entre as imagens que se vêem, assalta-nos a dúvida de ter ou não visto isto ou aquilo ... tanto estamos ali a insultar a chuva e a mãe dela como nos deliciamos e rimos com a situação frágil em que estamos ...

Invernia na serra.

Um pouco mais abaixo, na meia encosta o tempo compôs-se. Já foi possível tirar as luvas, parar e olhar à volta bem acordado. E tirar o telemóvel para fazer um videozinho.


Não posso deixar de concordar que os Creedence Clearwater Revival colocaram uma questão pertinente, por assim dizer. É que a chuva vê-se sentindo-a if you know what I mean. O que não é o caso quando se está protegido por um vidro de automóvel ou janela de casa.

(Have you ever seen the rain?)




quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

uns farrapos de neve aqui e ali e a Estrela branca no horizonte

Fevereiro 2019
Serra da Lousã



Comecei a encontrar uns farrapos neve por volta dos 700 m de altitude. Neve a esta altitude significava que a tempestade da véspera fora dos infernos.
Logo depois devo ter entrado em mind wandering, imaginando a tempestade: o vento forte, muito forte, em rodopio, trazendo a neve com força, não na vertical mas oblíqua, o assobio infernal do vento misturado com o rumor grave resultante da oscilação das árvores em fundo, talvez um vulto fugidio, procurando abrigo, noite escura, breu, vento, a neve a acumular-se, um rebuliço ...

Não era o caso do dia, o desalinhamento de Neptuno com o buraco negro do centro da nossa galáxia sob influência de Vénus por sua vez altamente influenciado por Europa a lua de Júpiter que como toda a gente sabe tem água e provavelmente uns seres verdes com grandes cabeças não esquecendo obviamente a conjugação gravítica com a lixeira dos restos de naves espaciais que orbitam a Terra conjugada com o satélite Chinês que está em orbita estacionária no lado escuro da Lua, determinou um dia de sol. Mas quantas vezes fui já a rider on the storm.




Nascido o dia, um dia com céu azul, os raios de Sol incidindo na neve transformavam-na em gotas de água. Não de um modo abrupto mas lentamente, passando por um estado sólido translúcido intermédio que reflectia a luz.


E, com grande probabilidade, muitas daquelas gotas irão ser absorvidas pelas plantas verdes logo ali através das raízes, subir até às folhas e aí, juntamente com o dióxido de carbono da atmosfera, e aproveitando a luz do Sol, servir para fabricar (entre outras coisas) o oxigénio que respiramos.
Talvez que nas moléculas de oxigénio que por ali avidamente respirei, alguns dos átomos de oxigénio tenham feito parte de cristais de gelo a água ali no chão. Os átomos que já tinham sido neve andavam agora no meu sangue!



Uma pedalada e mais outra e mais um suorzinho nas costas que o Sol não aquece só a clorofila nas folhas das plantas para fazer a fotossíntese. Caso seguisse num carro com vidros fechados e bem insonorizado parecer-me-ia que o dia seguia tranquilo e solarengo - a bonança depois da tempestade. Seria um engano de alma ledo e cego. Os riachos enchiam o ar do som da água corrente, em turbilhão, contornando pedras, ultrapassando outras, percorrendo novos caminhos fora do leito normal.










Já acima dos 900 m de altitude, o lado Sul dos pequenos bosques parecia em chamas. Sob Sol intenso via-se um clarão ao fundo contra o qual se recortava a silhueta da  árvores, enquanto que o lado Norte, sombrio, retinha ainda os farrapos de neve da tempestade da véspera.



Mas ia com pressa. Na minha cabeça via já, elevando-se sobre as serranias a Este, o maciço central da Estrela branco, coberto de neve. Faltavam ainda vários quilómetros, muitas pedaladas a subir até que, na curva da estrada já perto do cume, do Trevim, aos cerca de 1100 m avistaria o que esperava avistar. Quando isto acontece, quando nos atinge em cheio a vontade de chegar a um cimo qualquer para olhar o horizonte, mete-se um obsessão no corpo que nos leva a pedalar sem consciência do esforço. Uma e outra e mais outra e é como se fosse uma dança, as pernas a oscilantes, os braços flectidos, permitindo deitar ligeiramente o corpo sobre a bike, o chão que passa sob as rodas ... 1, 2 minutos, meia hora, uma?

Cheguei. Lentamente, à medida que dava a volta ao sopé do Trevim (o cume da serra da Lousã)  e virava para Este, foi surgindo a cordilheira da serra do Açor e, no horizonte, tal como tinha imaginado, o maciço da Estrela coberto de neve.






E, já que estava ali, terminei a espiral que me levou ao Trevim. A ventania e o frio aumentavam a cada pedalada. O frio estava escrito nas pedras à beira da estrada, nas aparentemente improváveis estalactites de gelo.




O termómetro marcava 3 ˚C. A ventania que varria o cimo da serra, fazendo as árvores oscilar e gemer como os mastros dos veleiros em dia de tempestade, trazia a sensação térmica para muitos graus abaixo de zero. Cinco, seis, sete? Sem luvas, com o telemóvel na mão gelada, comecei a reparar que o click do disparo, normalmente um som rápido, se tinha transformado num cliiiiiiiick arrrraaaaassstaaaddooo. Às tantas, apesar de estar com bateria a 60% a florzinha de estuda do iPhone desligou-se e, mais do que isso, recusou-se a ligar novamente. Foi a segunda vez que tal me aconteceu, com o frio o telemóvel desligou-se.
Num rasgo de inteligência dirigi-me ao telemóvel em linguagem tabernácula na vã esperança de que tal estratégia resultasse. Cheguei-me para o Sol, enquanto fazia o plano para a descida.
Estava do lado Norte e, daqui, via claramente o picoto da Cebola (o cone à direita do planalto branco da Estrela)


A descida é o maior problema; vinte e tal km a descer sem aquecer, com o vento frio que até os dentes arrefece, dá para ficar num estado próximo das estalactites de gelo que tinha encontrado na subida ao Trevim.

Optei pela estratégia do costume: "em vez de descer pela estrada, meto-me pelos caminhos a pique, a direito serra abaixo, cheios de calhaus e com o stresse e o receio de cair nem vou sentir o frio." Uma estratégia que normalmente tem sucesso, caso não se dê um trambolhão pelas cascalheiras abaixo.



Joelhos, cotovelos e ombros quase inarticuláveis, mãos agarradas aos travões como as garras da águia  pesqueira quando agarram um peixe, vim por ali abaixo e voltei às meias encostas onde jorravam as cascatas. Fechara-se o ciclo, voltei para onde tinha começado as pedaladas.

From the beginning (ELP)



Pus-me ao Sol a descongelar devagarinho. Ali sentado na pedra a ouvEr o turbilhão ao meu lado. O iPhone ressuscitou e para o testar apontei-o para a água. A ribeira em not so slow motion que, embora obedecendo às mesmas leis leis de Newton que quando vista na velocidade a que o nosso cérebro se habituou a ver as ribeiras a despenhar-se encostas abaixo, nos parece de um mundo regido por outras leis.