domingo, 19 de fevereiro de 2017

Épico - Global Positioning System, Lousã mountain, perdão, serra da Lousã

Circuito Epic GPS de 2017
Primeira etapa: Serra da Lousã 2017

18 de Fevereiro

Éramos para aí uns 800, distribuídos por três distâncias: 30, 60 e 80 Km.  Partida e chegada a Miranda do Corvo, no sopé da serra. Todos os trajectos em autonomia e com orientação por GPS. Havia apenas umas febras grelhas na aldeia de xisto do Catarredor oferecidas pela organização.

Vamos aos 80? OK P, vamos lá. Fomos. Eu, o P e o F. Oito e pouco da manhã e já pedalávamos em caminhos com inclinação generosa, daquelas que nos fazem inclinar para a frente para mantermos o centro de gravidade onde ele deve estar; muitos outros iam já a passear a bike à mão. Pelo amanhecer, uma hora antes, o céu sobre a serra tinha umas nuvens brancas estilhaçadas, nada ameaçadoras, e umas clareiras de azul. Não era agora o caso. O cume da serra estava "tapado".



O P bem avisou: vamos meter-nos na nuvem. Metemos. Rapidamente ficámos molhados, tal como as pedras (escorregadias p'ra caraças) e a terra batida dos caminhos transformou-se em mousse. E ainda ia a procissão no adro. Quer dizer, ainda íamos apenas a meia encosta. Quanto mais subíssemos, mais intensa seria a chuva.
Eu não ia preparado para a chuva. Os outros setecentos e tal, incluindo o P e o F, também não. Alguns iam até de calções e perninhas ao léu, como se de um dia ameno se tratasse.

Dadas as circunstâncias, o F expressou a sua opinião de um modo sucinto e peremptório: estamos, muito provavelmente, numa situação que, por influência da intempérie que se avizinha, poderíamos eventualmente classificar de muito problemática. O F tem uma grande capacidade de síntese e resumiu tudo numa palavra. E a palavra não foi "quilhados". Pois estamos, respondemos nós (o P e eu). E bem.

Ao princípio, nas primeiras rampas, aquilo era uma avalanche de MAMIL's (middle aged men in lycra) côr de rosa, verdes alface, laranjas, azuis eléctrico etc, pela serra acima. Depois, já com uns km nas pernas, era uma fila de pequenos grupos arfantes e molhados.
O percurso passava na floresta onde tantas vezes passo sózinho. A floresta estava belíssima, imersa em nevoeiro. Era estranho ver por ali uma multidão.
Ali vai o P e o F


depois surgiram outros companheiros de pedalada


Passámos pelo Catarredor, comemos as febras e oh que delícia. Chegámos lá por um belo de um single track (perigoso como o raio) sobranceiro a uma ribeira (um descuido, um derrapanço numa pedra molhada e iríamos ter lá abaixo)




Tinha que ser. Tínhamos que dar com o ribeiro na curva do vale. Aqui a coreografia da travessia era variável. Enquanto que uns, como o meu amigo P, seguiam uma linha mais ortodoxa, pés na água e que se lixe,


outros abraçavam um bailado mais contemporâneo, com coreografias mais arrojadas, ensaiando movimentos de perna com raízes no tango Argentino, tentando passar o ribeiro sem molhar os pés e levando ao mesmo tempo a bike.


Ainda nem sequer estávamos a meio do percurso (e a meio da encosta) e esta foi a última fotografia que tirei.
A partir daqui não poderia mais tirar as luvas, nem sequer tinha sensibilidade para tal. Descemos um pouco e fizemos a subida até ao cume, ao Trevim. O que dizer? Frio, chuva, vento, nevoeiro e as pernas que teimavam em manter-se em rotação, pressionando os pedais. Depois, tudo piorou.  Mal se via a 50 m de distância, subimos ao pico gémeo do Trevim, o Santo António da Neve, aos 1200m de altitude. Na subida levámos com uma carga de água gelada em cima. Literalmente, e como diriam os irredutíveis Gauleses da aldeia que resistia e sempre ao invasor, o céu caiu-nos em cima da cabeça. Chegados lá acima, a coisa mudou, apanhámos com uma tempestade de neve. Minúsculos pedaços de neve misturados com chuva fria arremessados pelo vento contra a cara, lateralmente, como se fosse areia. Foi aqui que as coisas começaram a ter um toque cinematográfico, to say the least. O F desanimou. Parou. Não consigo, dizia, acabou, não estou bem, não estou nada bem. Nós, eu e o P, gelados, encharcados, sem sequer conseguir parar, não querendo quebrar a rotina das pedaladas, sorríamos, dizíamos piadas, como se fôssemos na maior. O F, tirou a luva e embrulhou a mão num saco plástico (onde levara comida) para a proteger do frio. Já nem sequer tinha sensibilidade para pressionar o manípulo das mudanças no guiador.  Foi tudo muito difícil. Nestas circunstâncias o que há a fazer é continuar a pedalar. Entrávamos a direito pelo charcos de água que se tinham formado no caminho sem sequer pensar no que havia abaixo da superfície da água (pedras traiçoeiras, buracos ...), descíamos as cascalheiras de pedras de xisto afiadas com o coração na boca, esperando não rasgar um pneu (esta era a minha grande preocupação - se algum de nós tem que parar por causa de um pneu, estamos feitos), a pedalar como autómatos. Às tantas, o percurso GPS atravessava a estrada EN236. Disse-lhes: conheço bem isto, podemos deixar o troço e seguir diretamente para o Gondramaz e daí para o ponto de partida em Miranda, estamos a cerca de 15Km. Era necessário descermos rapidamente.  Outros companheiros pedalantes que por ali estavam desesperados, a tentar "checkar" o percurso no GPS, ouviram-me. Um dizia que já nem sequer sabia se estava a pressionar a manete do travão. Ninguém quis ouvir mais nada a não ser seguir directamente para Miranda do Corvo. Segui. Às tantas olhei para trás e trazia uns dez companheiros em hipotermia  atrás de mim, encolhidos em cima da bike (tal como eu) na esperança de que os levasse dali para fora. Descemos dos 1000 para os 700 m e daí, rapidamente, para os 200.
À chegada, cobertos de lama, com o tempo mais ameno, o Sol a espreitar no vale, olhámos para o cume da serra coberto de nuvens negras despedimos-nos com um sorriso. Foi épico diziam, uma bela volta, afinal isto era o Epic GPS, até à próxima. Isto do BTT é difícil de explicar.
À noite, em casa, o que mais me doía eram os músculos entre as costelas, de tanto ter contraído o peito com o frio, tolhido em cima da bike, durante tanto tempo.

Hoje, o dia amanheceu azul, com o Sol brilhante e aroma intenso das acácias.
Fui esticar as pernas e aspirar os aromas. Já nem me lembrava do que tinha passado no dia anterior.


Que bem me soube apanhar o Sol quente.


Fui até ao Candal. Na subida encontrei um parceiro que também tinha feito o Epic GPS da véspera. Contou-me que, na descida do St. António da Neve, depois da tempestade de neve, no meio do nevoeiro e da ventania, encontrou dois miúdos parados à beira do caminho. Tinham tido um furo. Parou. Eles nem bomba de ar tinham. Não podia parar. Bem sei que é difícil perceber isto mas é mesmo assim. Deixou-lhes a bomba dele próprio, desejou boa sorte e continuou a pedalar. Fez o possível para os ajudar. Naquelas condições, mesmo que houvesse rede de telemóvel, seria penosíssimo parar (parado o arrefecimento é exponencial) e tentar arrancar novamente.


Ah os aromas das acácias












quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

the water flow in us


A água, tal como os sons de poet acts, flui mas sem escoamento. Flui em círculo, em ondas que vão e vêm.




No tempo pré-telemóvel, em que pedalava na serra da Lousã com uma máquina fotográfica a sério, tirava fotografias para calendários de parede de garagem.



domingo, 12 de fevereiro de 2017

Neve na serra da Lousã e as pedaladas para lá chegar

11 Fevereiro 2017

Cá de baixo, do ambiente ameno da Vila, a visão do cume da serra era enigmática. Nem sim nem sopas. Tanto podia estar uma tempestade dos infernos como um nevoeiro fofo e macio, uns salpicos de neve ou um nevão como deve, daqueles com os ramos dos abetos curvados sob o peso da neve, os caminhos brancos e frios. Portanto, o plano era óbvio:  eh pá, pedalas até lá acima e depois logo vês como estão as cenas.

Iniciei as pedaladas.
Fui a direito. Nada de curvas para suavizar a subida. A direito e em força. Pelos caminhos. Em meia dúzia de quilómetros passa-se dos 200 para os 900m de altitude. Nem são as pernas que mais doem, mas os músculos na zona dos glúteos e dos rins. Na subidas íngremes pedala-se com tudo o que se tem e, para os menos iniciados nestas coisas da pedalagem, os glúteos são fundamentais. Não se faz uma subida sem uns belos de uns glúteos. Os caminhos de terra pesados devido à chuva que tem caído e o tapete de caruma dos pinheiros estimulavam umas imprecações tabernáculas. Subi pelo lado Oeste, pela encosta do anfiteatro que se abre no sopé do Trevim, para ter a visão do cume o mais rapidamente possível. Às tantas, num relance, por entre a parede cerrada das árvores que ladeavam o caminho, vi manchas brancas lá em cima, junto às antenas (estas camufladas pelo nevoeiro). Havia neve. Estava feito o avistamento. Agora tinha um objectivo ... e uma dúvida. Vou meter-me além, na nuvem que cobre o cume, o Trevim? Como se pudesse haver duas respostas possíveis a esta pergunta.

E, na curva do caminho, vi claramente visto o cume esbranquiçado.



Para lá chegar há que subir aqui pela esquerda, para Norte, afastando-nos em em ângulo recto até à cumeada que, então, progredindo para Este, nos leva ao Trevim.
Na cumeada os horizontes abrem-se sobre a Beira Alta, a Norte,



e, a Este, sobre o esqueleto dorsal montanhoso que atravessa o País ao centro; a serra da Estrela, a do Açôr e a da Lousã (onde estou). Ao centro, na linha do horizonte, o cone imponente é o picoto da Cebola (onde estive em Agosto passado), o cume do Açôr e, por trás, em jeito de cenário, o que parece ser uma nuvem branca brilhante por baixo de um traço de nuvens negras é o planalto da Estrela coberto de neve. Um fenómeno curioso porque  está sob Sol intenso (daí o brilho branco)


O vento era fortíssimo. Quando me soprava de lado obrigava-me a fazer uns Ss com a bike. Deve ter caído um belo nevão durante a noite. Aos 1000 m de altitude o solo entre as árvores tinha uma bela camada mas o estradão e os caminhos expostos ao Sol que por vezes abria estavam já um lamaçal.




Estava na última parte da subida. Em vez de fazer o estradão que me levaria a direito até às antenas, cortei à esquerda para me meter na floresta. Não pedalei até aqui para encher a bike de lama e estragar material. Pedalar na neve não iria ser pêra doce mas deve ter por ali passado um jipe cujos rodados me facilitaram as pedaladas.


Quase lá, nas antenas, no Trevim, aos 1200 m de altitude, no cume da serra da Lousã. O vento estava endiabrado. Curiosamente parecia haver ali menos neve que um pouco mais abaixo, em locais mais abrigados. Sabendo isso, estava na expectativa de, uma vez começada a descida pelo outro lado, pela estrada asfaltada, passar pelo bosque de Bétulas. Deveria estar belíssimo; os troncos brancos com riscos castanhos e pretos como os tigres contra o chão branco de neve ... 


No Trevim, estava um carro e um par de namorados (most likely). Ela tirava fotografias, ele atirava-lhe bolas de neve. Riam. Ele acenou-me, com a mão fechada e um dos dedos erectos (um OK, OK?).  Meteram conversa. Tiraram-me uma fotografia.


Na descida, feita devagar porque o vento era tal que quase me atirava pela encosta abaixo, os ramos mais exteriores e frágeis dos cedros que cobrem o lado Sul oscilavam tombados na mesma direcção, como que uma cabeleira soprada pelo vento. Parei junto ao bosque de Bétulas. Que beleza. Tirei as luvas e puxei pelo telemóvel. Não tinha bateria.

À noite, em casa, dei com a Lua a espreitar por entre as nuvens sobre a serra. Quase Lua cheia, chuvisca, lá em cima deve ser neve. Um friozinho varreu-me os neurónios. Que vontade de me por a pedalar serra acima. Talvez, com sorte, desse com a luz da Lua reflectida nos montes cobertos de neve. Porque é que não faço isso? Há razões que, aparentemente, são óbvias (noite, temporal e sabe-se lá mais o quê, sózinho ...) mas nenhuma me parece muito relevante.





























Foi o primeiro nevão deste ano na serra da Lousã. Um nevãozinho se comparado com o grande nevão de há um ano atrás.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

a realidade vista de um lado

Fevereiro 2017

Vista de Norte para Sul, de dentro para fora, em dois planos e em várias dimensões. Vista dentro de um prisma e do cimo da falésia.




Quando passo neste bosque não o encontro como o deixei a última vez. Reconheço o cheiro, as árvores, as cores, a geometria e etc. É a realidade. Apanho folhas e sinto-as e toco nas árvores. São reais. Huummmmm ... uns fotões colidem com umas células na minha retina, gera-se uma corrente eléctrica e vvvvrrrrrrruuuuummmmmm, à velocidade da luz, num passe de mágica, acendem-se uns neurónios no meu cérebro que representam árvores e folhas e cores e ... e esta é a realidade. A minha cadela, (os cães não têm cones sensíveis ao vermelho e ao verde na retina), caso aqui estivesse, veria a sua realidade. E o meu cérebro que faz a representação da realidade e que a perscruta é também parte da realidade. Na actividade que exerço aprendi a não ter a ilusão da certeza. E se na Física a descrição do mundo pode ser feita através de equações, no caso da Biologia (que é mais que a soma das partes físicas que a compõem) a complexidade pode estar para além da nossa  capacidade para a compreender. O nosso intelecto pode chocar com barreiras intransponíveis. Porquê? O teorema de Pitágoras é inacessível aos orangotangos, possuidores de um cérebro semelhante ao nosso. Se o intelecto dos orangotandos tem barreiras que o nosso reconhece e ultrapassa, então é provável que o nosso cérebro biologicamente semelhante ao dos orangotandos ... três vezes nove vinte e sete noves fora nada. É só fazer as contas.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Janeiro: the rest of the best

Janeiro 2017

The lunatic is on the grass.





Road to nowhere ... and the future is certain.





Mil anos depois, descubro um caminho novo na serra. Depois da subida longa em expectativa, em dois segundos, na curva do caminho, revelou-se-me o sítio.


Estava sobre Silveira Machu Picchu de Cima, a aldeia fantasma.

 A fazer a curva, ainda não, mais um pouco.


Lá está, o que resta da Silveira de Cima.


Vista daqui, do alto, em dia solarengo, é um detalhe na paisagem.
Vista de baixo, da estrada, num dia neblínico, dias ideais para se pronunciarem os nomes das aldeias perdidas na serra, é um mito.
A Silveira de Cima? Fica lá em cima, nos montes cobertos de neblina.









sábado, 4 de fevereiro de 2017

O ganso da neve? Ora, é apenas um temporal!

Fevereiro 2017

Que temporal? A chuva varre a serra em ondas laterais. Isso vai ver-se no vídeo. Em cima da bike a sensação é outra. É a da chuva maluca. Uma gotículas de água que dançam em todas as direcções levadas pelo vento, excepto como é costume; quer dizer, de cima para baixo. Vêm de lado, de baixo, de esguelha, de todo o lado. As gotas da chuva não caem, antes esvoaçam como um ganso. Ensopam devagar. Um barulho ao meu lado. Susto. Um barulho invulgar. As acácias gemem e chiam sob o vento. Isso conheço bem. Mas este foi um som cavo. Uma árvore partiu ao meu lado. Caraças, ainda levo com alguma em cima. O temporal na serra faz um rugido de fundo. Uma coisa assim parecida com o mar mas mais orgânico (o que quer que isto queira dizer). Mais de o sentir com o externo, a meio do peito, reverberando nas costelas. Já o previa; a ribeira de S. João cantava pela primeira vez este Inverno. Parei cá em cima, sobre a ribeira, de um dos lados do vale. Do outro, lá ao cimo, a aldeia do Talasnal. Na encosta em frente, o canal de água da Central transbordava, originando cascatas que se precipitavam sobre a ribeira, uns cem metros abaixo. O som furioso da água a correr enchia ao vale. Gosto deste sítio. Ao cimo do vale alinham-se os montes até se perderem na neblina. Bem sei o que está para lá dos montes mas faço de conta que não, que para lá é terra que não conheço.


Em mais detalhe a água que se precipita no vale. A encosta é tão íngreme que deverá ser muito difícil ir até lá.



(Snow Goose dos Camel. Aos 40 segundos resolve-se o enigma do assobio no vídeo ali em cima)






quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O caminho para a aldeia de xisto

Fevereiro 1, 2017

Once there was a way, aliás mais do que um, e todos iam dar à aldeia. Hoje, o caminho está ainda lá. Mas, na história recente, transformou-se mais num caminho de saída do que de chegada. Já ninguém chega por ali a casa.



Ninguém? Não. Pelos vistos há quem resista (como a aldeia Gaulesa ao invasor Romano) e que está a dar a volta à história do caminho, transformando-o de novo num caminho de chegada.


Fui ver, aproximando-me da casa cuja reabilitação foi, à distância, denunciada pelas telhas novas e vermelhas.


Atravessei a bridge over troubled water







Ó da casa ! 


Ninguém. Só ouvi a música do riacho ali à porta. 


Outros habitantes sempre por ali andaram, tecendo as suas vidas entre pedras que já foram paredes e portas.


OK, Sir Paul, força aí (una vez hubo un camino !!!):