segunda-feira, 26 de junho de 2017

E, no Sábado, à 1 da tarde, eu andava por lá, na bike, lá em cima no Trevim, a olhar para o que iria arder daí a pouco no incêndio de Pedrogão

Junho, 17, 2017

A la una de la tarde ...

Não pedalava há mais de uma semana. O dia estava muito quente. Daqueles dias que só havia de vez em quando antes de se banalizarem. Resolvi subir ao Trevim, dos 200 aos 1200 m em 20 km, pelos caminhos da serra. A direito, serra acima. Tudo seco. Algumas bicas de água aqui e ali que bem conheço estavam mortas que nem um chamiço. Umas zonas húmidas onde no Verão sujo a bike de lama, nada. Apenas terra dura. Aos mil metros, a bica de água fria à beira do estradão das eólicas que já me salvou tantas vezes, e que em pleno Verão jorra sempre em força, estava mortiça. Irreconhecível. Ali sob os fetos.




A coisa estava difícil. Em andamento o termómetro na minha bike andava entre os 39 e os 40 C. Ali parado, na bica que fica no estradão das eólicas, sob as árvores estavam 33, uma frescura, tão bem que ali se estava. Ao fundo, o planalto da serra do Buçaco.





Mas não podia parar muito tempo. Estava já em cima da bike, tentando arrancar naquela inclinação (o que não é nada fácil), quando ouço um barulho ao meu lado, mesmo ali. Olho e, por entre os arbustos, sai um pequeno vulto. Uma galinha? Não. O estilo era o da galinha. Pé ante pé, olho em mim, de lado, desconfiado. Um javali muito jovem, muito bonito e pequenino, com listas coloridas no dorso. Ali, a dois metros. Eu estava em cima da bike mas com os pés no chão. Lentamente levei a mão ao bolso de trás para tirar o telemóvel mas, mal pressentiu o meu movimento, assustou-se e fugiu, metendo-se por entre os arbustos. Foi nesse momento que ouvi um urro. A mãe. Estava ali. E eu ao pé da cria. Deveriam vir também beber à bica onde eu estava. Foi o costume. Cabelos em pé, adrenalina por todos os poros, encaixei os pés nos pedais e pedalei o que pude, fugindo por ali acima.
Estava quase no Trevim. Difíceis, muito difíceis aqueles últimos 200 m em altitude.
Nestas circunstâncias não se percebe a paisagem em redor como se a víssemos num écran. Percebia que, de vez em quando, o Sol se escondia nas nuvens. Mas a sensação era a de um céu azul azul por cima. Lembro-me de ter olhado para o céu e pensar que havia umas nuvens estranhas. Mais manchas esfarrapadas que nuvens. Apareciam e desapareciam.
Cheguei ao Trevim, parei. Olhei para Este, para as serranias do Açôr até à Estrela, como já fiz um milhão de vezes. Às tantas olhei para o termómetro na bike: 42 graus C. Estava a 1200 m de altitude.


Só agora percebo, ao ver a fotografia, que para estes lados o céu não estava azul. Castanheira de Pêra e Pedrogão ficam para a direita, fora da fotografia. Comecei a descer por esse lado, dando, depois, a volta para a Lousã. Tive um pensamento estúpido: vai ser das últimas vezes que ando por aqui a pedalar sem fumo.
Ao cimo de Castanheira entrei numa parte da floresta onde há uma bela fonte. Cheguei lá por um caminho entre pinheiros sobre o Coentral. Aí tive um novo encontro imediato do terceiro grau. Desta vez um corço, também jovem, salta para o caminho uns 20 m à minha frente. Belo. Não me esperava porque eu ia silencioso. Correu um pouco, afastando-se e logo se meteu na mata.

Já na fonte 
 

O bem que sabe estar ali num dia como este ia. Mas nunca a vi tão jorrar tão tímida.



Olhei para cima, tentando ver o céu,



 e fui-me embora.

No dia seguinte, Domingo, tentei voltar aqui.  Mas o dia era outro. O incêndio tinha feito o seu caminho. Conto para a próxima.



sexta-feira, 16 de junho de 2017

The bike is a place of healing?

Há 4 anos atrás
(Julho 2013)


Era eu um rapaz novo e a esta fotografia tinha juntado estas ideias para entrelaçar com a paisagem:

"The bike is a place of healing, a source of dynamic challenges, a space for lofty dreams, a guide to inspiration, a vehicle of adventure, a tool to make friends, a sweat therapist, the key to mental and physical well-being, and a life teacher in graceful success and frustrating disappointments"
Sonya Looney


Sem poder pedalar há muitos dias, noto que algumas destas ideias têm um impacto tsunâmico.




domingo, 11 de junho de 2017

Belas e fatais mas mudemos de assunto

Junho 2017

Era para falar das belas e fatais plantas.
É uma história muito bonita em que o sódio e o potássio andam que nem galinhas tontas de um lado para o outro da membrana das células, gastando energia que se fartam pois é preciso uma bomba para os manter separados, o sódio sobretudo do lado de fora e o potássio do outro lado. E é uma chatice quando andam em rédea solta e se equilibram dos dois lados das membranas das células porque assim as coisas não funcionam como deve ser, o cálcio invade a célula como um tsumani, vesículas com neutransmissores precipitam-nos no abismo formado por espaços entre neurónios (e outras células), as fendas, e para rapidamente tirar os noves fora, no meio desta tempestade de moléculas à solta a célula morre que é como quem diz nós morremos. Pronto.
Uma toxina de um tipo de  corais, belíssimos, em alguns mares de águas mornas (por exemplo, mar das caraíbas) inibe a bomba que separa o sódio do potássio. É o tóxico orgânico mais potente. Bastam uns pózinhos, quase nada, para matar. Há outros inibidores desta bomba que põe o sódio e o potássio no seu devido lugar. Por exemplo, nesta planta que encontro por todo o lado durante as pedaladas: a dedaleira



Belas e potencialmente fatais, como, aliás, muitas outras plantas. É por isso curiosa uma idea que anda por aí nos media e na cabeça de muitas pessoas: tudo o que é natural é bom. Às vezes junta-se a esta uma outra ideia muito estúpida: é que é natural e não tem químicos. Até nos media fomentam este tipo de ignorância. É de ficar com os cabelos em pé.




(o cenário é o planalto da Estrela, na linha do horizonte e as fotografias das dedaleiras são apenas um pretexto para mostrar as lonjuras que daqui a vista alcança)

Era para falar nisto e ir por aí fora, dando exemplos de "plantinhas fofinhas" tóxicas, belas e fatais, e até podia incluir escaravelhos e escorpiões e, até, talvez, falar sobre utilização terapêutica destes venenos; o Botox poderia ser um bom exemplo - um dia destes ponho-me aqui a arengar sobre o botox e a toxina botulínica, um composto tóxico potentíssimo, e sobre as cerimónias vodu e às tantas até ponho um vídeo do Michael Jackson sobre os mortos vivos mas mudemos de assunto.

A água que corre na ribeira de S. João na serra da Lousã. A ribeira vai tímida, quase em jejum. Não chove e o ano vai seco. Noutros anos, por esta altura, corre ferozmente.

De onde vem o som da água que corre?

Eu tenho uma teoria (mas que agora não interessa).






Porque o que agora interessa é a água que corre e, como dizia o outro:

Let´s look at the "treilór"

(para ver o trailer com sons em fundo sob o som da água que corre fica aqui a versão de The sound of silence de Paul Simon por Pat Metheny)


e o treilór:



sábado, 10 de junho de 2017

Quintas ao anoitecer

8 de Junho 2017


As Quintas têm que terminar de alguma maneira.
Esta terminou assim, sob a luz quente e o céu rugoso, salpicado com formas aparentemente ordenadas, mas só aparentemente, de gradientes de cor, muito inesperadamente e muito oposta à manhã de Sexta seguinte passada sob o tecto baixo, de placas de contraplacado, numa cama ao lado de outras, sob a luz pálida, uniforme e nem sequer fria, apenas indiferente.



Cheguei, sem surpresa, após umas pedaladas pela mesma estrada por onde dei já mil pedaladas vezes mil, olhando as bermas e as encostas, e as árvores e tudo à volta. Faltava ver o céu. Penso muitas vezes que a maioria das pessoas não olha o céu, nem à noite nem de dia. E, no entanto, ... que dizer?


Nas linhas da bike há uma apelo de liberdade, como nas asas de uma ave. Uma heresia para muitos, bem sei. Basta pedalar por ali sob este céu, sentir o vento e a chuva, para facilmente o perceber.


Para que fique a data: 8 de Junho de 2017. E que há um céu sobre as nossas cabeças.





sexta-feira, 2 de junho de 2017

Another day at the office e a idade das árvores da floresta

Maio 2017

Quando eu nasci algumas destas árvores já aqui estavam, outra não. Outras terão nascido na mesma altura que eu. Tal como eu, as árvores envelhecem. Mas o envelhecimento não é a mera passagem do tempo. O meu fígado pode estar mais envelhecido que o meu cérebro e este mais que o meu coração. Há a ideia de que o perfil epigenómico pode indicar a taxa de envelhecimento. O envelhecimento? Pois, a degradação estrutural e funcional de orgãos e sistemas biológicos. E porque é que acontece? Ah pois. Só de há poucas décadas para cá é objecto de estudo pela Ciência. Há teorias; a dos radicais livres, a dos telómeros, há experiências de prolongamento do tempo de vida em moscas e em mamíferos mas, para me armar ao pingarelho, acho que nos está a escapar um conceito biológico qualquer, uma coisa fundamental. Não sei qual. A passagem do tempo é talvez e apenas um factor de risco. É isso mesmo: do ponto de vista biológico a mera passagem do tempo é um factor de risco para o envelhecimento. Mas "apenas" isso. Sou mais velho que uma destas árvores que nasceu no mesmo ano que eu? E a teoria da relatividade do tio Alberto que diz que o tempo passa mais lentamente quanto maior é a velocidade. E se eu sair daqui quase à velocidade da luz e for dar uma volta à galáxia chego com a mesma idade mas mais jovem? O epigenoma? Em essência, modificações químicas no DNA e nas proteínas em que o DNA se enrola (o DNA está aninhado e enrolado em proteínas) que modulam a expressão de genes ( e logo o que  nós ser vivos - incluindo as árvores - somos e como nos comportamos). Se o genoma fosse o tronco de uma árvore, o epigenoma seriam os ramos frágeis que se forma e partem e as folhas que caem, mantendo-se o tronco firme e intacto. A parte mais estranha é que o epigenoma está nas nossas mãos; o que comemos, o meio ambiente em que nos movemos, influencia a paisagem epigenómica. Como já alguém disse, o DNA dos nossos pais não é o nosso destino. E, no fundo, dos pais herdamos não só os genes mas também o ambiente em que viveram. E onde é que eu ia? Ah, as árvores e o envelhecimento. Apesar do envelhecimento do cérebro, parece-me que a disfunção não é global (não encontro palavra melhor) ou, pelo menos, não é à mesma velocidade em todas as funções. Por exemplo, a memória perde-se mas conceitos elaborados como a beleza e o amor nem por isso. Acho eu. A floresta é bela para mim hoje e, caso vivesse até aos 100, acho que também o seria nesse altura.

Há uns tempos que por aqui não pedalava. A última vez, há uns meses, foi debaixo de chuva. Fresquinha, como é a chuva aos 800 m de altitude
















O que se esconde por detrás da luz?



Este é o caminho que leva à Fonte Fria

Quase que foi uma surpresa dar com a fonte





Uma bela bike esta. Com ela vou seguir o caminho que se afasta da fonte.





domingo, 28 de maio de 2017

Road to nowhere

Maio 2017


São os caminhos que me atraem: a road to nowhere. Quando numa curva de uma estradão na serra vejo um pequeno trilho, um desvio, uma passagem ao lado quase imperceptível, é como um íman; é por ali que vou. Pode ser uma caminho antigo que a vegetação reclamou, fechando-o, ou pode ser um trilho feito por animais. Mas vou nervoso, atento, a ouvir, olhar  e a sentir o mais que puder, como que acossado, a pressentir um movimento, um aroma, um ruído. Se assim for, vou tranquilo, paradoxalmente. Porque na natureza essa é a natureza das coisas. Estar atento.


Entre árvores ou arbustos muito altos a coisa agudiza-se. Às vezes é quase uma decepção se nada acontece. Em locais abertos as "lonjuras" distraem e a atenção voa para longe.


Um segredo: os caminhos vão sempre dar a outros. E é sempre essa a expectativa quando se faz o primeiro desvio to nowhere.



sexta-feira, 26 de maio de 2017

Ter ou não ter aria

Maio 2017

Quando era pequeno, ouvia dizer, com frequência, que "este não tinha ária" para isto ou para aquilo e que aquele não tinha "ária" nenhuma, ou que estava sem "ária". "Ária" significava ter jeito para fazer alguma coisa ou, então, ter preguiça de o fazer. Tratava-se de uma palavra polivalente (que só ouvi lá na terra onde nasci) cujo significado estava dependente da entoação e das circunstâncias em que era dita.

Por exemplo, o J.S. Bach tinha ária para a música



(Ária na corda sol - suite nº.3 para orquestra de J. S. Bach)

Já eu, e embora tenha tocado em grupos e tal, sempre tive a noção de que não tinha grande ária para a música. Quer dizer, ária para criar música; embora tivesse alguma ária para tocar um belo instrumento de sopro.

(NOTA: para teste de stresse - e um stresse suave é bom para a saúde - pôr o som alto e ouvEr até ao fim)


(Não é um javali no mato a roncar, sou eu a assobiar)