quinta-feira, 14 de junho de 2018

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Junho 2018
Serra da Lousã

O ciclista extraordinário passou muitos dias montado em cadeiras almofadas, em vez do selim com 3 dedos de largura, andou iluminado por luzes de tecto e de palco, em vez do Sol, sentiu a brisa dos ares condicionados, e não do vento que sopra na serra, ouviu sons de vozes e falas em muitas línguas que durante a coisa propriamente dita se resumia a apenas uma (... any further questions ... I wonder if ... my question is ... thank you ... ) e não do sussurro das folhas das árvores da floresta e por aí fora.

Depois de tantos dias na cidade, mal pôde, o ciclista extraordinário meteu-se serra acima até uma floresta. O ciclista extraordinário escolheu uma área remota da serra. Aos anos que o ciclista extraordinário não ia para aqueles lados. Apesar da existência de caminhos, o isolamento para aqueles lados é grande. 


(O ciclista extraordinário tentou uma pose heróica mas é fácil de ver que lhe saiu ridícula)

O ciclista extraordinário estava nisto - em pose para a fotografia - quando ouviu logo ali ao lado, a uns 30 metros, um urro, ou um gemido? Um som que se lhe meteu pelo corpo dentro, eriçando-lhe os pêlos. Logo a seguir outra vez, e outra. Mais uns segundos e novamente. Olhou à volta. Uma árvore para trepar? Não, muito altas. Pô-se atento. Um javali? Não, não lhe parecia. Mas os veados não bramam assim.  Às tantas, cauteloso, deu uns passos pela esquerda, por detrás de uns arbustos e viu, logo ali, um gamo aos saltos, subindo a encosta. Nesse momento outra vez o som, como que um protesto. Outro tinha ficado por ali. Estaria ferido? O ciclista extraordinário ficou com a impressão que tinha interrompido qualquer coisa entra os gamos. Para tristeza sua, talvez um love affair.

O caminho para ali chegar tinha-lhe dado água pelas barbas. Íngreme, rochoso e lamacento. De facto, após tantos anos a pedalar naquela serra, o ciclista extraordinário nunca ali tinha passado.



De um lado do caminho, do lado Norte, do lado de baixo, sobre o vale imenso até às serra do Buçaco e daí até à do Caramulo, ...  a luz. O vale inundado de uma luz coada por nuvens altas servia de cenário contra o qual se perfilavam árvores. Apesar da proximidade das árvores a sensação era de grandes horizontes, do horizonte que se percebia até à serra do Caramulo.



às vezes, a densidade do matagal tapava quase tudo




Do lado de cima, bem, do lado de cima do caminho, era isto


e pequenos riachos por ali abaixo, abrindo caminho por entre pedras, fertilizando musgos e outros seres vivos de beira de água. A natureza desarranjada, intocada, bela.






















A bike que me leva para estes sítios




Horas por ali isolado. Há que confiar na bike. O ciclista extraordinário sentiu ainda os odores orgânicos dos animais, sem os ver (odor parecido ao que se sente junto a um rebanho de ovelhas). Sente-se mas nada se vê, sabendo que os nossos primos mamíferos de quatro patas e um belo ar de cornos andam por ali, seguramente observando-nos. Tão próximos que somos e tanta gente que não percebe isto. Provavelmente tendo consciência de si próprios e com sentimentos de afecto, tal como nós. Ah e o aroma dos musgos e do chão húmido .. e ecos de aves que andavam lá por cima nas árvores.
E não further comments fico-me por aqui.

domingo, 27 de maio de 2018

A floresta aos 800 m pôs-se neblínica

Serra da Lousã
Maio 2018


Maio outonal. Quando atravessei a floresta aos 800 m de altitude, a grande floresta de coníferas, a temperatura rondava os 10-12°C e não via para além de meia dúzia de árvores à frente do nariz. A neblina, a luz coada, o silêncio cortado por cantos de aves, por bater de asas e, de vez em quando, por cascos que batiam no chão. O sentido principal para perceber o que se passava à minha volta não era a visão, mas a audição e o olfacto. Por vezes sentia o cheiro orgânico dos animais que por ali andavam mas que não via. Ouvia. Uns galhos quebrados, uns sons cavos sem eco.

Um dia branco. Na subida percebi que a neblina pousava sobre as copas logo aos 500 m de altitude, recortando os perfis das árvores magníficas contra o céu branco.



Mais um pouco e cheguei lá. Cheguei húmido, ofegante. A neblina condensava na roupa e na cara. Suado. As pedaladas têm que ser dadas com convicção, em bom ritmo. Ir por ali acima como quem vai numa corrida nem pensar, mas feito um ponhónhó também não. Depois, parei e, como já tinha experimentado outras vezes, é-se esmagado pelo silêncio, pela sensação de irrealidade.




Os caminhos ainda com as poças de águas das tempestades dos últimos dias. Belíssimos.


Mil fotografias não contariam a beleza da floresta neblínica.






E eu, furtivo, por ali fora a pedalar como quem veleja no mar alto, sinto-me em casa.




Subi mais um pouco. Aos mil metros, meti-me por um carreiro que serpenteia por uma mata de pinheiros alpinos.
O chão pejado das pinhas pequenas (pouco maiores que nozes) e intensamente perfumadas.



De vez em quando, sob os pinheiros, há uns carvalhos.


E ... blue is the warmest color.


Naquele lusco-fusco azul, de meus anos colhendo doce fruito num engano de alma ledo e cego, lembrei-me que a cadela estava em casa sozinha à minha espera. Cheguei num instante; foi só o tempo de pôr um lenço na cabeça por baixo do capacete, olhar à vota, respirar fundo, apanhar duas pinhas, espreitar para longe na expectativa de ver algum veado que por ali andasse, ajeitar os óculos, sacudir as gotas de água que caídas das árvores cobriam a roupa, encaixar os sapatos nos pedais e voar serra abaixo durante 20 km.

terça-feira, 8 de maio de 2018

O ciclista extraordinário foi ver o mar

Maio 2018


O ciclista extraordinário acordou pela manhãzinha com vontade de ver o mar. O ciclista extraordinário, por regra, acorda pela manhã e pedala serra acima, até às cumeadas onde a vista se perde nas lonjuras (no mar também mas não é a mesma coisa).

Ir ver o mar implicava pedalar por estradas asfaltadas durante muitos quilómetros. O ciclista extraordinário fez umas contas de cabeça para tentar encontrar umas estradas secundárias e meteu-se ao caminho. Ah1 o ciclista extraordinário levou a bike de BTT, não de estrada, porque sempre que pudesse meter-se-ia por caminhos de terra. Um dos caminhos de terra que levava na cabeça eram os campos de arroz do baixo Mondego e do rio Pranto.

A saída foi em fúria, tentando não perder muito tempo. Pedaladas enérgicas. Havia muitas horas pela frente. Não muito tempo depois, o ciclista extraordinário parou e olhou para trás. Afastara-se já da serra. As sensação foi de traição às montanhas azuis no horizonte que, caso o ciclista extraordinário não tivesse acordado pela manhãzinha com ganas de ir ver o mar, estaria a subir. Olhou para o Cabeço da Ortiga, o Trevim logo à direita e todos os outros picos que bem conhece para, relutantemente, pedalar pela estrada nacional em direcção oposta.



Uma e outra e mais outra pedalada e mais meia hora e mais outra e mais um cruzamento e uma rotunda e uns sofás a meter nojo à beira da estrada junto a pinhais onde, provavelmente, há encontros de olhares murchos e almas penadas.

Uma paragem técnica e, afinal, o ambiente parecia familiar ao ciclista extraordinário. Não fora um rugido constante logo ali e o ciclista extraordinário poderia estar num prado de altitude na serra.



 Mas o ruído? logo ali, do lado de lá das árvores. O vento não era certamente e a chuva não batia assim, era talvez ... a autoestrada.



Já que ando nisto - pensou o ciclista extraordinário - na próxima Vila vou parar para um pastel de nata e um café.
Pedalou Vila dentro, procurou, procurou e viu um largo com um monumento aos heróis da I Grande Guerra (com aquelas estátuas de soldados achatadas), cafés à volta, muita gente e - pensou - é aqui mesmo.
"Deixe aqui a bicicleta e vá lá dentro homem que aqui ninguém rouba nada, os ladrões estão no governo". Foi com este convite que o ciclista extraordinário foi recebido por 4 marmanjos sentados na única mesa fora do café. "Pronto, vejam-me lá então do veículo". E lá entrei. Foram atrás de mim. Eu ao balcão e eles ali. Queriam conversa (e um copinho de branco). Mas então e a bike? Não se preocupe! Porra - pensou o ciclista - tenho que ir lá fora. Levou o café e o pastel para a mesa que entretanto os marmanjos tinham deixado e ... lá vieram eles atrás, com um copinho de vinho banco na mão. Então o amigo vai p´ra onde? Olhe, não tem nada que enganar. Segue, passa a linha e na rotunda corta à direita, passa outra vez a linha e quando encontrar não sei o quê corta para não sei onde, mas cuidado que antes há uma cortada que não sei que mais, e depois é sempre em frente, não corta para lado nenhum. Depois repetiram isto 6 vezes enquanto o ciclista extarodinário saboreava a nata e o café.


À saída da Vila, junto ao rio, anunciava-se uma cascata. Não uma mera cascata como as que o ciclista extraordinário conhece na serra, que furiosamente se precipitam por pedras e vales. Não, esta era uma "Cascata Municipal". O ciclista espreitou na direcção da seta mas viu apenas uns pequenos poços com água parada. Às tantas a cascata municipal não estava ligada! 


O Sol aquecia, o tempo passava. Estradas estreitas sem bermas, povoações com casas dispersas, contrastes de casas antigas com maisons de mau gosto. Estradas a serpentear pelo campo ao sabor das curvas de nível, a contornarem obstáculos ... Paisagens e estradas que activaram memórias na cabeça do ciclista extraordinário de tempos de antes das As, IPs, ICs e afins.






O ciclista extraordinário, já esquecido da serra, ia a a gostar de pedalar por aquelas estradas que lhe lembravam as que se percorriam na era pré-intinerários principais. E havia pequenas vinhas muito bonitas com os corredores de cepas separados por carreiros de flores


ou os corredores de flores separados por cepas



E, além das vinhas,  havia campos de oliveiras. Uns apenas com oliveiras e outros decorados com cartazes.



O texto, para ser lido com vagar, por quem passa perto a pé ou de bike


  O ladrão
   continua
  arroubr
 oliveiras.
   Por fabor
não roubar mais
oliveiras

ainda que com uma carga lírica notável, não tem a espessura literária do Corno dos Eucaliptos.

No seu todo a instalação é bem conseguida: um cavalete quadrangular com cinco pilares o que, ao adicionar dimensões múltiplas ao quadrado, o ciclista extraordinário diria que sugere influências de Escher. As sete tábuas paralelas de suporte ao texto seguem a mesma linha multidimensional ao apresentarem-se fora de plano e desalinhadas, estratégia que permitiu a dinâmica do espaçamento entre as letras no conjunto da palavra como entidade comunicacional.

Mas o ciclista extraordinário estava com pressa e após breve contemplação da instalação teve que se fazer ao caminho. E o caminho levou-o até ao extremo Sul dos arrozais do rio Pranto.


O ciclista extraordinário espanta-se com frequência porque olha à volta e vê muitas coisas espantosas. À beira da estrada, no meio das ervas, uma placa; não havia que enganar, estava na rua principal.


Os arrozais eram para ser pedalados por aí fora. Desceu e subiu até à povoação à beira dos arrozais, passando na rua Casal Dentro, junto uma bela casa em ruínas


e junto a outras casas de uma beleza mais ... complexa.




Pelos arrozais fora havia já uma claridade de mar e o ciclista extraordinário pedalava de nariz no ar, apanhando o vento e observando as gaivotas que já por ali se mostravam.


(para guardar arroz?)



Não se via vivalma. O ciclista levava um GPS mas, intencionalmente, deixou-se perder ali pelos campos. Inadvertidamente, o ciclista deu com uma piscina, ali no meio dos campos de arroz.


Como é que o ciclista extraordinário soube que era uma piscina? Não porque estivesse pejada de pessoas que ali, no meio dos campos de arroz, gozavam a frescura da água num dia quente. Não. O ciclista soube porque na árvore ali ao lado, um letreiro, afixado com uso a uma tecnologia já com alguns anos mas muito eficaz, a fita cola, anunciava claramente do que se tratava.


O ciclista extraordinário achou extraordinário o cuidado em manter o aviso live, nomeadamente a renovação das várias camadas de fita cola à medida que esta se ia degradando (ou a árvore ia crescendo). Neste contexto, os 10 litros de lixívia é um pormenor desinteressante (bem pensada a utilização da piscina dá para tomar banho e lavar a roupa em simultâneo).

O ciclista não se podia distrair, estava a muitos Km de casa e ainda não tinha chegado ao mar. E, embora os físicos debatam ainda a reversibilidade do tempo, o ciclista estava mais ou menos seguro que as horas iam passando sempre na mesma direcção (para o futuro) e que se tudo corresse normalmente o Sol iria pôr-se e anoiteceria, eventually. Por isso, pôs-se a pedalar as últimas estradas que faltavam com o fito de rapidamente chegar ao mar.


Debalde. Ali, num ambiente extraordinariamente bucólico o ciclista extraordinário parou porque não queria acreditar nos seus ouvidos. O ciclista ouviu, claramente ouvido por sobre o vento uma música dos Alphaville, uma banda dos anos 80 que, embora não seja a onda do ciclista extraordinário, lembra-se bem deles, sobretudo do Forever Young.
O ciclista fez um vídeo curtíssimo (para mais tarde verificar que tinha, de facto, ouvido, não fosse  o Sol de tantas horas na bike estar a interferir com a realidade na cabeça do ciclista) que deve ser ouvido com o som no máximo ... forever young, lá, lá lá, láááááá...





Ao longe a Figueira da Foz. Mais campo de arroz, menos campo de arroz e o ciclista extraordinário chegaria ao mar.


Não antes sem pousar o olhar em duas personagens do mural "A monda do arroz" numa parede de uma das povoações que ainda atravessou



Na monda havia um problema de género. Das sete figuras apenas uma é masculina, a do lado esquerdo na extremidade. Esta (o gajo) parece assobiar (bast ampliar para se ver a música a sair dos lábios), e apenas uma das outras lhe responde, provavelmente cantando. O ciclista extraordinário que não é de intrigas nem de teorias da conspiração já estava a imaginar que o gajo se meteu na monda apenas para fazer olhinhos a uma da meninas mas, provavelmente, não foi esta  mensagem etnográfica que o artista quis passar. Em todo o caso, a teoria do ciclista extraordinário tem o seu quê de verosímil.

E por falar em teorias e etnografia o ciclista documentou fotograficamente o quintal de uma vivenda que encontrou pelo caminho na expectativa de mais tarde observar todos os detalhes, algo que ali daria muito nas vistas (e também não sabia se a casa tinha um cão feroz).


Olha! o ciclista extraordinário !



Olha! o mar!



a praia para Sul


E, para Norte, a Figueira da Foz


O ciclista extraordinário ficou a olhar o mar e gostou de ter ido ver o mar.
O mar a que o ciclista está a costumado é um mar feroz como, por exemplo, as falésias neblínicas do Alentejo. Mas, não o tendo ao olhar, este mar soube bem.