sábado, 15 de junho de 2019

O Rally passou por aqui. E, como alguém dizia, não havia necessidade porra.

Serra da Lousã
Maio 2019

Obviamente, o estradão a meia encosta da serra que atravessa soutos onde corços, veados, aves, esquilos ... fazem a sua vida, foi escolhido para que os pilotos pudessem desfrutar das belas paisagens, observar os animais, ouvir o canto das aves e a música dos riachos, e deixar-se deslumbrar pela beleza das  árvores. O mesmo se aplica ao público. Milhares de pessoas ali se concentraram atraídas pela beleza do local, pese embora as nuvens gigantes de pó que não deixavam ver um palmo à frente do nariz, quanto mais a copa das árvores. E, sobretudo, porque longe dali, no vale, em zonas deflorestadas, não havia por lá estradões onde o Rally pudesse passar com reduzido impacto ambiental.

Cá está um pedaço do troço, na parte designada tecnicamente por "zona rápida". Naturalmente que todo o ecossistema, incluindo insectos, aves, pequenos mamíferos etc se divertiu imenso com as nuvens gigantes de pó (já para não falar das folhas das árvores que precisam de fazer a fotossíntese) e com os roncos dos motores ...não arredando pé dali, daquela zona. As fotografias foram tiradas 15 dias antes da passagem do Rally. Hoje a zona está silenciosa. Insectos, aves e etc devem ter iniciado a sua migração anual em direcção à Antárctida que ali, na floresta, no Verão faz muito calor.




Uma vez que no dia do Rally as estradas de acesso à meia encosta estavam fechadas a partir da Vila, muitos jipes tentaram o acesso aos troços pelo lado de cima, pelo cume da serra, indo à volta. Fizeram-se até marcações e colocaram-se placas. Portanto, a confusão instalou-se numa grande área em toda a encosta Norte da serra.
Cá está um dos acessos, logo acima do troço onde passaram os carros mostrado nas fotografias anteriores.

 e outro


e outro



e outro. Logo ali, um pouco mais à frente, encontrei uma placa de metal cravada no chão com a indicação de "ponto de encontro". Pareceu-me adequado. Em vez de uma mensagem do tipo: pessoal, arrancamos por ali abaixo e, depois do pequeno bosque sombrio de abetos onde luz mal atinge o chão, corta-se à esquerda até cruzar um riacho onde às vezes os veados vão beber. Depois seguimos e quando começarem a ver as belas Bétulas e, já agora, se desligarmos os motores ou não os forçarmos a roncar com intensidade, talvez tenhamos a sorte de observar alguns esquilos que por ali costumam andar. O ponto de encontro é logo a seguir junto aos pequenos carvalhos e castanheiros. Mas não, em vez da mensagem, como se estivéssemos num cruzamento movimentado de uma cidade, espeta-se ali um ferro com uma placa de metal e já está. Muito mais prático. E, além disso, a malta não sabe distinguir uma bétula de um castanheiro e, como na serra não há rede net, era uma merda não poder checkar no telemóvel a diferença entre bétula e esquilo (ou era castanheiro?).




Parece, pois, inquestionável que estes são os lugares mais adequados para se vir acelerar.  Sobretudo, como disse, porque lá em baixo no vale, há estradões com curvas e depressões, locais excelentes para Rally mas não têm a exuberância paisagística que extasia, que enleva pilotos e público.


Dada a taxa de extinção de espécies, de destruição de ecossistemas e da perda de biodiversidade actuais, com consequências imprevisíveis para a nossa mas sobretudo para as gerações futuras, todas as acções contam. Ah e tal, daqui por uns meses volta tudo ao mesmo, a floresta recupera, os animais voltam, os ecossistemas reconstituem-se, blá, blá,, blá e se amanhã não chover é capaz de fazer Sol, dirão alguns com a leveza de pensamento de quem nunca ouviu falar da dinâmica dos sistemas complexos. É que, paradoxalmente, há hoje a preocupação com a prevenção de incêndios na florestas e, no entanto, o impacto negativo provocado por estas actividades parece ser genericamente aceite.

domingo, 9 de junho de 2019

The Earth from below, uma ou duas vezes de lado e outra above from below

Junho 2019

E depois da Earth from above, o ciclista extraordinário completa a trilogia com Earth from below e uma ou duas vezes de lado. E, ainda, um above from below.

Para observar a Terra from below, com os pés bem assentes, olha-se para cima. E esta ideia, aparentemente tão simples, é bizarra para muitos.







Esta é uma excepção. É from above mas a 1 m de altitude.


À beira do caminho, a meia encosta, um fio de água que corre pela ponta de uma pedra fazendo uma bica (onde o ciclista extraordinário saciou a sede com vistas para o mar)


Com vistas para o mar, pois claro! O traço brilhante que se vê na linha do horizonte acima das dedaleiras do centro é o mar (na região da Figueira da Foz).



Esta é from above mas por below, como é bom de ver.



E, como este é um blog about bikes:
From below com bike


e sem bike



Outra excepção: esta de lado


E, quando se acaba a floresta,



 umas pedaladas adiante, abrem-se os horizontes. E aqui já estamos from above, fechando o círculo.





sexta-feira, 7 de junho de 2019

Earth from above ou ver para crer



O fotógrafo Yann Arthus-Bertrand tem várias colecções de fotografias intituladas (mais de 60 livros publicados): Earth from above.
Anda há dez anos a pairar umas centenas de metros acima do solo em balões, helicópteros e outros dispositivos voadores, com a máquina fotográfica apontada para baixo.

Algumas fotografias de desertos:

Uma única árvore no Tsavo National Park in Kenya


Troncos de árvores abatidas, flutuando no rio Amazonas (esta não é de um deserto mas, atendendo à velocidade da deflorestação, a região caminha a passos rápidos nessa direcção).


Cabanas  de povos africanos do deserto, evidenciando as cercas de protecção


Camelos no deserto


Uma povoação no deserto


Desta não consegui a descrição


Montanhas desérticas


Vila de Araouane, Norte de Timbuktu, Mali


Deserto no planalto da serra da Lousã, evidenciando as ruínas das cabanas usadas pelos provos primitivos que aqui habitaram há cerca de 5000 anos e, sobretudo, o complexo sistema de canais de irrigação por eles construído.



Viciando o cérebro em alguns padrões é fácil associar novos padrões à mesma ideia mesmo não estando com ela (a ideia) relacionados. É muito fácil enganarmo-nos a nos próprios, em suma. Vi com os meus olhos, dizem uns. Pois, mas era outra coisa! Ver para crer? Talvez seja mais interessante pensar em ver para duvidar.




quarta-feira, 5 de junho de 2019

O vale em que as Beiras Litoral e Alta se encontram

Maio 2019

Num dos limites da espinha dorsal montanhosa que, oblíqua, se eleva no Centro-Norte de Portugal, abre-se a Norte o imenso vale em que as Beiras Litoral e Alta se encontram. A Estrela separa-as da Baixa.

Começando a Oeste, na primeira ampliação vê-se Coimbra e o vale do Mondego (em dias límpidos vê-se o estuário do Mondego na Figueira da Foz e o oceano Atlântico). Depois, a ampliação seguinte é feita sobre o planalto da Serra do Buçaco. Mais um pouco e surge a serra do Caramulo (amplio a zona do Caramulinho - um cone granítico no topo da serra). Por trás do Caramulo, percebem-se as serranias mais a Norte. Continuando a rodar entra-se na Beira Alta, percebe-se Viseu ao longe e, mais perto, Oliveira do Hospital. Por ali, pelo vale fora, além de correrem o Mondego e o Alva, corre também a mítica EN17. Depois, para Este, surge a Estrela (última ampliação sobre o imenso planalto granítico). Um pouco à direita da Estrela destaca-se o cone do Picoto da Cebola na serra do Açor. A cordilheira do Açor estende-se na minha direcção até à serra da Lousã, onde estou.



Depois de ouvida a brisa e o silêncio das terras altas da Beira, por um acaso a memória trouxe-me  "the sound of silence", de Paul Simon, nas cordas da guitarra de Pat Metheny.




sábado, 1 de junho de 2019

InstaGramar o blog

Maio 2019

Suspeito que devo estar no horizonte de acontecimentos de um buraco negro pessoal e especial; suga-me o tempo e, embora um bocadinho menos, o espaço. A gente pensa que à medida que a carreira se desenvolve e se assumem posições de maior responsabilidade a coisa fica mais - ora deixa cá escolher uma palavra com cuidado - plástica (!? no sentido em que se dispõe do próprio tempo e se determina a sua agenda), resiliente (!? no sentido em que se falham os compromissos mas sempre por motivos de força maior), levezinha (!? no sentido em que ... olha que se lixe já não tenho paciência para isso) ... whatever.
Em suma, não dou conta do recado aqui no blog. E não dou porque gostava de aqui postar fotografias das pedaladas que vou dando, devidamente acompanhadas das respectivas histórias e contextos mas o tal buraco que me acompanha anula o tempo a que deveria ter acesso. Portanto, à falta de melhor ideia, hoje vou Instagramar o blog. Posto as fotografias e já está. Quanto muito meia dúzia de palavrinhas mal alinhavadas a decorar as fotografias.

A long and winding road

E, já agora


Da série: esperemos que para o ano não ponham o rali a passar por aqui já que este ano fizeram o troço a meia encosta da serra da Lousã, pelo meio de soutos onde veados, esquilos, aves etc etc tinham uma vida tranquila e obviamente quem vai para ali ver os carros passar poderia fazê-lo noutro local pois, seguramente, não era a natureza que os atraía mas os carros. O mesmo se aplica aos pilotos pois não me parece que vão ali a apreciar a paisagem. Aliás, tarefa impossível para espectadores e pilotos dadas as nuvens de pó que servem de cenário à passagem dos bólides,  por assim dizer.



Hey that's my bike


Não me posso esquecer que para Instagramar isto como deve ser não posso ultrapassar os 140 caracteres.

Os carqueijais do Colmeal. Não deixar de ver os outros no sopé do St. António da Neve - o sítio dos extraordinários Poços da Neve da serra da Lousã .



A highway to heaven. Perdão: o caminho entre muros de pedra para o Catarredor.



Este é que é o outro. Aliás, nem sequer é um caminho, é uma escadaria. Aliás, percebe-se bem que o Jimmy Page se não chegou já ao céu, pelo menos está nas nuvens.







segunda-feira, 27 de maio de 2019

Um dia inteiro e limpo (antes do outro, do original) no Açor

Serra do Açor
(Abril 2019)


Na véspera das pedaladas, pelo anoitecer, fui a pé até à barragem. Subi ao penedo do lado Sul, ao miradouro, e olhei o Adamastor (o picoto da Cebola, cume da serra do Açor). "Amanhã, por Osiris ou por Afrodite, as pedaladas hão-de levar-me lá". O céu caudaloso deixou-me todavia uma pequena preocupação a dançar na cabeça. Caso chovesse, umas molhas em cima do pêlo ali pelas serranias àquela altitude e a solo fariam mossa.
Até então, a uma semana da comemoração do dia inicial inteiro e limpo, os dias de Abril tinham ido farruscos; ventanias, chuva e frio.

(à esquerda, dos 3 picos o Picoto da Cebola é o do meio. Ao centro na linha do horizonte o maciço central da serra da Estrela)

O dia seguinte abriu inteiro e limpo, o primeiro depois de muitos cinzentos. Foi tudo rápido. Impaciente, logo de início pus-me a pedalar em força (erro crasso), passei rapidamente pela barragem, parei à pressa na fonte para encher os cantis (dois, pelo menos, que a sede vai apertar até lá acima), subi ofegante até à casa do Guarda e, em vez de virar à direita para o estadão das eólicas, segui em frente e, só aí, com o Adamastar à vista, parei para respirar. Estava já aos 900 m de altitude, sob o vale do rio Ceira e com a ponte de Fajão à vista. Dores nos músculos, nos tendões, nos joelhos ... (falta de aquecimento inicial e a idade não perdoa e blá, blá, blá ...  que se lixe e vamos mas é embora que se faz tarde - o que eu tenho que pedalar para lá chegar).

(o picoto da Cebola é o cone que se vê ligeiramente à direita na linha do horizonte)

Nada a fazer senão continuar. E continuar forçando os músculos com uma bela subida. Voltei atrás para o estradão das eólicas. Iria a direiro em vez de fazer a meia encostas como planeara de início. Uma a uma as dores foram desaparecendo e a procissão ia ainda no adro. Mais um pouco e Fajão, avistado por entre paredes de xisto, ia ficando longe e cada vez mais em baixo. Para Norte céu limpo. Haveria ainda de descer para, de novo voltar a subir. E o céu foi limpando, algumas nuvens a Este dissiparam-se, e a luz encheu as serranias intensamente.


Pouco me detive até ao cume do Adamastor. Não quis parar, não quis tirar fotografias, queria apenas pedalar pelas cumeadas sem qualquer objectivo, sem pensar em disparar o telemóvel, apenas interessado em pedalar contra o vento,  deixar vadiar o olhar, sentir os odores e a distância.
O estradão das eólica fez-se rapidamente. À medida que nos aproximamos, o Adamastror vai-se erguendo imponente, vai-se agigantando, tapando parte do céu.



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( aldeia de Ceiroco que surge na série de televisão "Benvindos a Beirais" como sendo Beirais!)

Fajão estava para trás, escondido na encosta dos penedos de Fajão em forma de bossa ao fundo do vale por ponde serpenteia o jovem rio Ceira (nascido por ali, um pouco acima)



Estava já sobre Ceiroco quase no sopé do Adamastor. Tinha pedalado bem mas faltava dobrar o cabo. Que as musas me acompanhassem !



No sopé, no cruzamento da Covanca, corta-se à direita para o estradão e sabe-se que, a partir daí e até lá acima será o que o cabo da Boa Esperança foi para Bartolomeu Dias, um cabo das tormentas. O estradão sinuoso e ondulado formando pequenas ondas dificultam a subida, a gravilha solta faz derrapar a roda e a inclinação dá a ideia de que aquilo não vai dar a lado nenhum. A road to nowhere. Eu nunca penso em chegar lá acima, apenas pedalo, uma e outra vez, quase em transe. Às vezes, nas serranias pedalo por caminhos tão inclinados (um dia, num grupo com parceiros, todos a soltar umas imprecações tabernáculos, subindo a custo, alguém mediu a inclinação: íamos numa inclinação de 30%) que tenho que me deitar sobre a roda da frente da bike para evitar que levante e me estatele de costas com mortal encarpado à retaguarda. Há uma disciplina intrínseca que nos mantém ali, e nos move. Nem sequer passa pela cabeça desistir ou pensar que não se é capaz. Depois de tantos anos a pedalar entro facilmente neste estado de pouca lucidez. Não é uma subida em êxtase, olhando a paisagem; "olha lá está o belo vale do rio Ceira e que extraodinárias estão as encostas cobertas de flores, já para não falar do fantástico maciço da estrela coberto de neve ..." Por vezes espreito e vejo tudo isto mas na maior parte do tempo as paisagens que se me atravessam na mente são interiores; são as que tenho inscritas na memória. Vêm-me ideias, revejo situações, vou em mind wandering, tomo decisões sobre aspectos da minha vida sem perceber que as tomei e, mais tarde, nas situações em que a decisão se efectiva, ao contrário do que gostamos de pensar, não foi o resultado de uma análise racional. A decisão já estava no cérebro em resultado do mind wandering. E, pelos vistos, nós fazemos isto com frequência.

Cheguei. Pus-me a olhar. Quando olho as lonjuras nada fixo. Não vejo detalhes, apenas a paisagem inteira. Fico a olhar para lado nenhum. Depois de muito tempo a olhar, por vezes, dou conta de detalhes; umas casas ao longe, árvores e pedras, estradas, aves que por ali planam ...  Em muitos outros aspectos da vida faço o mesmo; só me interessam as coisas na globalidade, passo à frente de detalhes e pormenores, interessam-me os conceitos e a global picture. Às vezes perguntam-me de que cor é o cabelo de alguém com quem estive, como é o nariz, se usa barba, se usa óculos,  etc. e muitas vezes não sei dizer. Tenho que tentar descontrair para tentar recordar os detalhes. Sei outras coisas que não me perguntam.

Tinha feitos os últimos metros pelo estradão ladeado de torgas sem disso ter dado conta. 



Uns farrapinhos de neve no maciço da Estrela e as encostas cobertas de torgas a perder de vista.´


Encosta-se a bike ao marco geodésico do picoto aos 1400 m como quem pede um café faxavor numa esplanada qualquer.  Com a maior naturalidade. Afinal apenas subi o que havia para subir. Enquanto lá não penso em nada. Às vezes quando, aqui em casa, vejo as fotografias quase que tudo me parece irreal porque não me lembro de quase nada, de detalhes.



Do Picoto, diz-se, avista-se cerca de um terço do território Nacional. Já o fiz anteriormente e postei-o aqui mas, de novo, fiz um videozinho a 360 graus no Picoto. Começa a Este, no planalto da Estrela. Depois viro para Sul, percebendo-se a serra Gata e Espanha e, logo depois, a serra da Gardunha. Seguem-se as terras para os lados das portas de Rodão (e talvez a serra de S. Mamede). A luz inunda a terra e os contrastes perdem-se. Continuando a rodar amplio a barragem de Sta Luzia de onde parti e, depois, para Oeste a serra da Lousã (que também amplio). Para Norte surge a Serra do Caramulo (nova ampliação para mostrar o cone do Caramulinho) e por detrás as serranias ainda mais a Norte.






Não posso ficar ali todo o dia. Life must go on somewhere else. Às vezes, muitas vezes, descer é uma desilusão. 



Horas e muitas pedaladas depois estava de novo nas margens da barragem de Sta Luzia. Local de partida. Entretanto, as nuvens tinham voltado e coberto parte do céu a Este.





O dia terminava. O penedo do lado Norte da barragem reflectia o Sol poente, em contraste com a noite que já se instalava nos vales.