sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ó rama ó que linda rama

Outubro 2015
(serra da Lousã)

 ... ó rama da oliveira ...

(ouvEr o vídeo com o som no máximo,
... de outro modo perdem-se as nuances tímbricas, a sequência perfeita dos silêncios emoldurados por imprevisíveis contra-pontos de jorros sonoros, a alternância fluida das frequências graves com as agudas ...)


video

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A primeira como deve ser

25 de Outubro, 2015
(Serra da Lousã)

De manhã abri os estores e as gotas da chuva penduradas nas folhas que ainda restam na cerejeira (uma cerejeira que me entra pelo quarto adentro, literalmente) diziam-me que, ao contrário do previsto, chovera durante a noite. E pela manhã também, o ar estava húmido denso e os aromas intensos. A temperatura era de Abril, não de Outubro, 11 graus Celsius. Os caminhos na serra deveriam estar pesados, lamacentos nos troços de terra e escorregadios nos pedregosos e com raízes. Enquanto fazia umas contas de cabeça (daasssssss... tinha planeado dar as primeiras pedaladas a valer na Merida nova - umas 3 ou 4 horas com umas boas subidas por caminhos pela serra acima ... e afinal vou-me atascar na lama e apanhar uma bela molha) começou a chover. Olhei o céu para Sul, para Nordeste e para Sudeste e convenci-me que o "tempo ia abrir" e, assim, toca a despachar que se faz tarde (comer, equipar, preparar tudo ...).  Na dúvida avança-se.

Subida da serra por Vale Nogueira, tal como pensado na véspera. É que isto de quebrar planos deixa uma mal-estar que se instala no espírito e é muito difícil sair. Chovia e pensei que talvez fosse boa ideia ir para outro lado mas, num rasgo racional e de uma lógica imbatível pensei: que se lixe, vou por onde pensei ir. Com sorte avistarei uns veados, como aconteceu já algumas vezes por aqueles lados.

Fiz a primeira paragem logo à saída da Lousã. Gosto de ver o tanque de pedra aninhado sob o castanheiro, sobretudo nos dias de chuva. Apanhei duas castanhas que fui roendo enquanto pedalava serra acima.


Ganhei altitude, o "tempo abriu" e na passagem por Vale de Nogueira, o Sol aparecia, dissipando a neblina encostada nos vales e que eu via agora por cima. O caminho pesado, como previsto, atapetado de folhas (sobretudo de castanheiro) ia-se fazendo com a dose de esforço que sabe bem fazer; é que é preciso experiência para acertar na pedalada certa.
Quase a chegar ao marco geodésico do Espinheiro e apenas uns farrapos de neblina sobravam da manhã húmida.


Lá ao longe, para os lados de Penacova, percebia-se, no entanto, uma neblina cerrada sobre o vale por onde corre o rio Mondego.



A passagem pelo Espinheiro é um momento especial. O grande prado, no planalto de altitude, segundo me dizem, é o local onde na Primavera os veados se reúnem ao final do dia. Contorno-o pela parte superior porque  ideia é subir.


Subir para atravessar a floresta dos abetos, dos castanheiros e dos carvalhos acima dos 800 m de altitude. Estava na expectativa para ver o Sol por entre as árvores


a fresta de luz sobre o caminho escuro


as cores contrastando com os ramos a contra-luz


o chão coberto de folhas e os aromas húmidos da terra e das folhas em decomposição.


A partir daqui, o dia estava cheio mas fui ainda virar ao Cabeço Marigo


E, depois, a descida rápida para atingir a estrada asfaltada no Terreiro das Bruxas até Cacilhas foi o plano escolhido. Fazia-se tarde.


Foi abrir por ali abaixo, apenas com uma paragem para apanhar umas castanhas e roer duas ou três a 50 km por hora.



Pouca kilometragem mas bela e dura como convém na primeira como deve ser. A primeiras pedaladas a valer na Merida. Agora sei o que consigo fazer com esta bike.

sábado, 24 de outubro de 2015

Dia branco, céu baixo e Suzanne

24 de Outubro de  2015

Dia branco, céu baixo, neblina ... dia de ir ver o o rio Ceira e a serra ao longe filtrada pela cortina da chuva


e voltar



Banda sonora para o caminho (a rodopiar na minha memória): Suzanne
A chuva a bater na cara e os acordes iniciais da guitarra a martelar na cabeça, e a memória das palavras a ficar cada vez mais nítida ... her place near the river ...  she feeds you tea and oranges ... only drowning men could see him ... you touched her perfect body your your mind... and you can trust her...


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O dia tem que começar de alguma maneira

Outubro 2015
(Serra da Lousã - S. Lourenço)


a cores


ou a preto e branco ...


... mas tem que começar de alguma maneira.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Merida, verde, branco e preto (versão "hard rain´s a-gonna fall")

Outubro 18, 2015

As primeiras pedaladas na Merida numa versão a hard rain's a-gonna fall:

em verde (no momento em que a ventania traz as grossas gotas de chuva escondidas pela aparentemente inofensiva neblina);



em branco (entre duas bátegas vai dar para dar umas pedaladas , oh vãs pensamentos ...),


em preto (e a neblina assapou-se pelos montes abaixo);


e amarelo (que entra na história à última hora).


E agora tudo junto (e molhado), e com um traço a vermelho.


Concretizou-se a chuvada torrencial mas, como me disse uma vez J. Santana do alto dos seus 70 anos e com a voz firme e tranquila de quem revela o óbvio, não é por estar a chover que deixamos de andar de bicicleta.

Resumo da história: uma bela de uma bike.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Cont.

... o último post, ali em baixo, ia longo e penoso.  Parecia um epitáfio. Não foi. Foi o que este blog é; um mecanismo virtual de reforço sináptico. Poderia ter sido menos longo mas, bem vistas as coisas, foi muito breve em face do que haveria para reforçar sinapticamente (o que quer que isto signifique !). 

Indo ao que interessa (porque para além da memória me interessa - muitíssimo - a imagem). Quero pôr mais estas no post anterior:


os detalhes do caminho


ou o caminho sem detalhes


sábado, 10 de outubro de 2015

A KTM, o vinho e a memória

9 de Outubro de 2015

Tenho que dizer isto de uma maneira que pareça racional porque, de outro modo, parte do meu cérebro começa a ter sérias dúvidas sobre o que se passa noutros locais dentro da caixa craniana.

Talvez seja como o vinho. Quando um dia, no Dão, no solar do vinho do Dão (oh que privilégio), à volta de uma mesa com vitivinicultores da região e alguns enólogos, fiz uma das figuras mais lamentáveis de que me lembro ter feito em toda a vida: ah et tal, depois há aqueles comentários curiosos sobre o vinho ... os laivos de feno cortado ... os vestígios prolongados de amêndoas doces -disse com ar divertido. Subitamente, cessou o ruído dos talheres nos pratos, as conversas terminaram, num passe de magia todos os comensais se transformaram em estátuas brancas à volta da mesa, inquirindo-se entre si com o olhar; quem explicaria a este ignorante duas ou três coisas elementares sobre o vinho. Um deles, enólogo, sob o olhar de todos, calmamente limpou a boca com o guardanapo, colocou-o novamente no colo, pegou num copo de vinho, ergueu-o à altura do nariz e, com a voz calma de quem contém os insultos, atirou: humm, humm, perdão Sr. JL, é a memória, o vinho pode despertar essas memórias. Manteve o olhar focado no meu como quem pergunta: percebeste ó ignorante? Corri com os olhos os olhos de todos os outros à volta da mesa que me fitavam com ar seríssimo.  Fui um asno, pensei.

Por isso, pá, quando sentires uma comoção ao olhar para a bike que deixaste de ter a partir de hoje ...

 Como, por exemplo, na serra da Estrela


ou na serra da Lousã


Ou aqui na Estrela, outra vez


Ou na Lousã em Cabeço Marigo


Ou na serra do Açôr, na chegada ao picoto da Cebola


Ou com muito, muito frio, a trilhar caminhos de neve intocados

Ou com muito, muito calor na Costa Alentejana

Ou, o que é isto?


isto é a bike


Junto à água, tranquila


 ou junto à água a correr furiosa


ou em vales perdidos (para os outros que para mim que estou ali são o caminho para algum lado)




nas meias encostas



 nesta a comemorar o 25 de Abril de 2013 (Coimbra no horizonte)

 ou nas cumeadas aos 1000 m em dias azuis

(outra vez porque gosto muito)

ou menos azuis




Ou no Alentejo com o mar ao fundo, a 50 m de altitude

(canal junto ao Rogil)
 em Aljezur

(a caminho do Brejão, o sol põe-se, vou chegar de noite ao mar)

A 1400 m de altitude na Serra do Açôr


ou a 1400 m de altitude na Serra da Estrela (que lugar este !)



Por estradões

ou por caminhos


Ou na nascente  do Rio Ceira


Ou à beira-mar, na Samouqueira, junto ao xisto solarengo


ou na serra junto ao xisto neblínico


A explorar caminhos nas falésias Alentejanas







Ou na serra da Lousã em roads to nowhere
com paragem em paragens que o foram há muito tempo



Ou sobre o Sabugueiro


Ou a caminho de Unhais da Serra, na serra da Estrela


Ou a chegar ao Trevim, no coração serra da Lousã


Com a serra ao longe


No Inverno neblínico








Ou no Inverno destes assim!


Em Primaveras quentes



Ou em Outonos pálidos



Em prados de altitude


ou na floresta


De noite, na Lousã


Ou de dia, com a Torre (Serra da Estrela) como cenário



Junto a cedros de pé


ou junto a cedros arrancados pela tempestade da véspera


ou junto a castanheiros inesquecíveis


em plano 


a descer


a subir



ou em pose no Cântaro Magro (Serra da Estrela)


e por aí (e por ali) fora ...







foram dias luminosos


... não te preocupes pá, a comoção que sentes é das memórias pá, a bike era só uma bike. Quando olhas para as fotografias com a bike pá, tu não olhas para a bike pá, olhas para a paisagem pá. E é isso que te traz as memórias e te deixa nesse estado, percebeste pá. Porque os lugares não são só os lugares, são a representação que tu fazes deles dentro do teu cérebro pá e isso é muito mais complexo. Uma árvore é uma árvore é uma árvore. Mas se olhares para o grande castanheiro ali em cima pá a árvore não é só a árvore. Achas belo não é pá? Agora explica lá porque é que uma árvore é mais bela que outra? Ou porque uma árvore é tão bela como a Vénus de Milo? Hã? Já percebeste? A realidade exterior é uma coisa pá, a representação que dela fazes no teu cérebro é e realidade que conta mas, é provavelmente diferente da realidade do teu vizinho if you know what I mean, pá. É como o vinho.