segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O imenso Açôr sob um céu pardo

Agosto 2017

A paisagem poderia ser a da memória. A memória das cumeadas do Açôr. Dos horizontes longínquos. Mas não, foi o que se podia ver.
Somos peritos a preencher os espaços em branco. Olhamos e o cérebro preenche os espaços que faltam face ao padrão armazenado na memória. Muitas vezes, se distraídos, vemos apenas com a memória. Acontece na leitura e na paisagem. E, chegado a este topo, onde já tantas vezes passei tempo a olhar o horizonte, em dias límpidos e céu azul, seria “normal” que num dia como o de hoje - baço, com horizonte indistinto, montes apagados da paisagem pelo ar baço sob o céu pardo, e tendo na memória o recorte do horizonte que não vejo, o planalto da Estrela para Este, o cume da serra da Lousã para Oeste, o Caramulo para Norte, etc, - a minha memória reconstruísse a paisagem, preenchesse o horizonte. Mas não. Vejo o que me rodeia, sem reconstrução. Estou treinado para isso. Sempre fiz este tipo de jogos. Há anos que o faço. Dá-me gozo fintar a mim próprio, perturbar o cérebro, autoperturbar-se. Por exemplo, trabalhei durante muitos anos num local em que um dos acessos se fazia por um longo corredor com paredes revestidas com azulejos do séc. XVII. Mas não eram as paredes que mais me atraíam. No chão os ladrilhos desenhavam um padrão cúbico cuja tridimensionalidade poderia ser vista de duas maneiras. Quando só, caminhava pelo corredor com os olhos pregados no chão, alternando a visão tridimensional em cada passada. Tique taque, tique taque, tique taque, como nos ponteiros de um relógio, ver de uma maneira, ver de outra, ver de cima, ver de baixo, em cada passada, em cada segundo eu via o chão a três dimensões de duas maneiras distintas a partir do mesmo padrão a duas dimensões.

No Verão volto à serra do Açôr. Ao imenso Açôr. Às pedaladas sob céu azul, azulíssimo em todo o horizonte. Sob calor. À medida que se pedala pelas serranias acima, os braços e as pernas brilham; o suor reflectindo a luz do Sol. Mas, desta vez, o céu é pardo. Do marco geodésico onde estou, a cerca de 1100 m, os contornos das serranias diluem-se na distância. Os incêndios dos últimos dias (a toda a volta: da Lousã, a Vila de Rei, ao Fundão e a Castelo Novo) deixaram o ar pesado, turvo por micropartículas suspensas que apagam a paisagem.



Olho e vejo o que me rodeia. Naturalmente, sem qualquer esforço e sem pensar nisso (penso agora), evito que a memória preencha os espaços em branco. O treino permite-me ver sempre de modo novo. E isto, parecendo uma trivialidade, uma Lapalissada, é incomum.


(em baixo a albufeira da barragem de Sta. Luzia apenas com “uma pinga d’água”)

Pare Este, onde imponente se deveria erguer o planalto central da Estrela,  desenhando a linha do horizonte, há um céu baço.



(paragem para as primeiras amoras. Estas silvas rasteiras a esta altitude carregadas de amoras (à esquerda) é uma coisa nova. Não me lembro de por aqui as ver em anos anteriores)

Para Sul.




Este é o caminho (por assim dizer) que me levará lá abaixo, à barragem.





quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Foge-me a sombra

Agosto 2017


Foge-me e eu páro. Já não a conseguia agarrar. Daqui a pouco é noite. Fica por lá a sombra, a subir a serra. Eu desço. Daqui a pouco é noite, pois. E à noite todos os gatos são pardos e as sombras morrem. Diluem-se numa sombra gigante que liquefaz as sombras pequenas. Depois, pela manhã, vem a luz do Sol e mata a sombra gigante, fazendo nascer novas sombras aqui e ali. Ao longo do dia vão tomando diferentes formas, encontram-se umas com as outras e ainda bem porque se não houvesse sombras não sabíamos que havia luz. A maioria das vezes sabemos pelos contrastes. Por comparação. Observamos, comparando com um controlo, digamos assim.




Quando fugiu dei um grito. Embora tenha saído muito longe disso, o grito que queria dar era assim um grito como este que o extraordinário Bryan May - que além de guitarrista é matemático doutorado em astrofísica e um tipo dedicado ao bem estar dos animais, incluindo os humanos, e activo na defesa do ambiente neste planeta - faz neste solo de guitarra na Bohemian Rhapsody.



domingo, 30 de julho de 2017

Como é pedalar na serra? É partir do vale com 30 °C e aos 1000 m ser varrido pelo vento

Serra da Lousã

29 Julho 2017


Fim do dia. Mais um incêndio para os lados de Coimbra. De novo, com a predominância do vento de Norte, a Lousã estava sob uma nuvem negra. E eu pela serra acima de bike. Queria subir acima da nuvem, queria chegar ao Trevim, aos 1200 m de altitude. Cá em baixo, no vale, um ar abafado e cerca de 33 °C. À medida que subia, até lá acima são duas horas bem medidas, começaram a chegar umas nuvens do lado do mar. Negras. Mais ou menos negras que se misturavam com as do fumo. O ar ficava nitidamente mais fresco e o tempo mudava rapidamente. Percebia que o fumo tinha desaparecido. Não o cheirava. Tinha-se diluído, significando que provavelmente o incêndio tinha sido apagado. Ainda não tinha chegado ao planalto (a cerca de 900 m) e já pedalava envolto em nevoeiro. Um nevoeiro que, vindo de baixo, subia a serra puxado a vento.  Gosto disto. Do nevoeiro que varre a serra. Ferozmente. Em dois segundos a paisagem à nossa volta muda entre o opaco, ou translúcido e o claramente nítido. Tudo muda sob a ventania. Depois há o rugido do vento como banda sonora do reboliço à volta. Um grande reboliço.
Habituado a isto, nem me passou pela cabeça voltar para trás. Cortei para a estrada que da EN236 nos leva ao Trevim. Mais um caminho de cabras que uma estrada. Claro que nem vivalma. Nem durante a subida tinham passado carros. Provavelmente sozinho em todo o planalto da serra como tantas vezes acontece. Cada vez mais escuro. Sete da tarde e o lusco-fusco pousava por ali. Já não dava para chegar ao Trevim. O vento forte que inibia as pedaladas, o nevoeiro denso que não deixava ver, a luz a ir-se e o tempo a caminhar para a noite forçaram-me (bem que parte do meu cérebro me motivava a continuar: deixa-te de merdas pá, vamos lá, se caíres levantas-te, conheces isto caraças, se anoitecer qual é o problema não estás na selva amazónica ...) a voltar.
Aos mil e pouco metros, quando estava a  chegar à base do Trevim e seu cone me deveria surgir imponente em frente, dominando a paisagem, era assim:

(parece som de água a correr mas é tudo da ventania)



Aquela parte do cérebro de há pouco tentou convencer-me a descer por um trilho na floresta. Mas, vistas bem as coisas, as coisas não se viam muito bem. As ondas de nevoeiro ora embaciavam ora deixavam ver as árvores.
Devo ter estado para ali minutos sem fim a olhar à volta. Parece que o som forte do vento não conta, que não  perturba o silêncio. Tudo tão belo à volta.



Não era nada boa ideia, dizia-me a outra parte. O nevoeiro húmido e umas gotinhas de chuva fininha nas lentes dos óculos também não ajudavam muito. O friozinho pela espinha acima também não.  Ainda se me atravessa um animal à frente ... Bem, mas nestes dilemas nem sempre é a parte racional ganha.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O dia tem que terminar de alguma maneira; desta vez embrulhado em nuvens de cinzas

26 Julho 2017

Serra da Lousã


De novo um céu negro, cataclísmico, sobre a serra. Num fenómeno curioso a nuvem gigante de fumo e cinza elevava-se a uma altitude bem definida. Vinha do incêndio de Penacova empurrada pelo vento Norte. O Sol, ao pôr-se, espreitava por debaixo da mancha negra. Enquanto filtrada e dispersa pela nuvem a luz inundava de um amarelo estranho, um amarelo irreal, uma cor que deve ter ficado impressa (a fogo!!!) no nosso cérebro hominídeo durante a evolução porque imediatamente nos põe em sobressalto. Não sabemos o que é mas sabemos imediatamente que é alguma coisa ameaçadora.
Mas não uma ameaça dos rol das conhecidas, das normais, como por exemplo tempestade.





Caía uma cinza que, à medida que pedalava, ia pousando nos meus braços. A nuvem ia-se metendo pelo cimo dos vales. Percebia-se um véu translúcido que começava a cobrir o cimo dos montes. Isto amanhã vai estar mau. Se o incêndio não é apagado durante a noite lá vamos acordar no meio de uma nuvem de cinzas e fumo. Foi o caso.

Nota técnica sobre o fogo: para iniciar a reacção química da oxidação da matéria orgânica na presença de oxigénio é necessário ultrapassar a energia de activação da reacção (já agora: a energia da luz do Sol não é, em regra, suficiente).

Experiência demonstrativa: ponham-se umas folhas de eucalipto ou caruma de pinheiros ao Sol na varanda (ou na janela) num dia quente de Verão e espere-se pela combustão espontânea. Vá-se à vida sem stresse e espere-se.
Passados uns dias volte-se ao local. Tudo na mesma? Nesse caso acenda-se un fósforo e aproxime-se a chama das folhas. Observe-se. Há fogo? Então a energia da chama do fósforo forneceu a energia de activação necessária para iniciar a combustão das folhas.

Conclusão: 3x9 são 27 noves fora nada




domingo, 23 de julho de 2017

Pedalar na Serra? É mais ou menos assim (b)

Julho 2017
Serra da Lousã

(segunda arremetida, depois da primeira, para responder ao meu parceiro de reunião).

Na anterior mostrei uma subida pela floresta. À sombra. Desta vez, a subida é sob Sol intenso. Por uma cascalheira acima. Íngreme, embora não pareça. Cabeço da Ortiga nas costas. Também nas costas o vale da Beira a Oeste até ao mar (por vezes vê-se o mar - em dias limpos pós-chuvada das boas para limpar a atmosfera).  A chegar aos 1000 m de altitude. Em frente, para Este, as antenas do Trevim (o topo da serra da Lousã aos 1200 m). Para Sul, para o lado direito, o vale em anfiteatro por onde corre a ribeira de S. João. Nas encostas opostas àquela onde estou, e por entre os pinheiros, as aldeias de xisto (exlibris da serra).
Aos 1000 m o caminho por onde subo entronca no estradão das eólicas. Aqui, neste entroncamento, abre-se o horizonte. Para Norte até à serra do Caramulo. Para Nordeste a cordilheira da serra do Açôr com o planalto da serra da Estrela na linha do horizonte.


Aos 1min:24s cai-me o capacete (levava-o no guiador, não na cabeça).

Aos 3min:4 s sai-me sem querer uma exclamação: veados!

Parei. No meio do estradão, na curva ao fundo, 2 ou 3 veados parados a olharem-me. Belíssimos. No vídeo, devido às lentes do tlm, parecem mais longe do que, de facto, estão. Vejo-os claramente. Arranco na sua direcção. Fitam-me durante mais 10 s. Aos 3min:14 s fogem pela esquerda, ágeis, belos, velozes. São 3 e são jovens. Durante uns segundos conseguem ver-se, correndo encosta abaixo, logo depois da mancha verde dos fetos. Um bailado.





Fui parar para o repasto num bosque de carvalhos, um pouco mais à frente. Encostei a bike a um belo carvalho, cuja copa frondosa fazia uma sombra acolhedora, puxei da banana Porto Riquenha que descasquei devagar, num ritual que permite dar importância aquele pedaço de fruta como se fosse a última banana do deserto e dei a primeira dentada com prazer - ah pois, não é parar e abocanhar a banana, engolindo-ae sofregamente. Depois, um golo de água da torneira que trazia no cantil com a tecnologia PURIST de que já aqui falei (sem bisfenol, sem sabores de plástico, aprovada pela Food and Drug Adminstration para recipiente de alimentos - e estas coisas não são treta).

(o efeito é de uma aplicação que vi no blog da UJM que tinha visto no blog da Gina que tinha visto no blog da Linda Blue que tinha visto, likely, no telemóvel de um primo emigrante na Suíça)


quarta-feira, 19 de julho de 2017

Adagio em Sol neblínico menor

Serra da Lousã
(Julho 2017)

Floresta a 1000 m de altitude. Latitude é a que se quizer.

O Adagio do olhar transforma-se em Andante no coração (talvez uns 100 a 120 batimentos por minuto). Uma celebração da beleza.






Há uns anos, ouvi este Adagio como banda sonora de um filme. Não sinto melancolia nem tristeza quando ouço esta música, mas enlightenment - não me ocorre nenhuma palavra de jeito em Português (excitação encantatória hiper-realista é esquisito, não é?)



domingo, 16 de julho de 2017

Pedalar na serra? É mais ou menos assim

Julho 2017


Vários dias em Lisboa com reuniões de manhã à noite. Num dos almoços de trabalho (em mesa redonda) o parceiro do lado, sabendo, vá-se lá saber como (eu só falo de bicicletas e montanhas uma vez ou duas por hora), que eu gostava de pedalar pelas serranias, pediu-me sugestões sobre calções para ciclismo. Ele também pedalava. Quando demos conta os outros à mesa (que discutiam assuntos muito técnicos, profissionais  e importantes relacionados com as reuniões ) olhavam-nos de soslaio; é que estávamos a discutir programas de máquina de lavar roupa para usar com equipamento de BTT (programa para roupa suave, claro) e detergentes (os de sedas e lãs, obviamente) e temperatura a 30 graus C no máximo e centrifugar a não mais que 100 rpm. Coisas elementares e úteis.
Às tantas, perguntou-me: e como é pedalar lá pela serra?
No hotel, à noite, comecei a dar-lhe uma resposta.

Então, cá vai um "flavour".

Floresta acima por um belo caminho:


Uma vez lá em cima, no planalto aos 950 m, as vistas para Sul, por sobre o vale da ribeira de Alge, encontram-se pelo túnel que a copa das árvores faz na zona da Catraia da Ti Jaquina. É um deslumbramento, ir por ali fora, no túnel escuro e, às tantas, os horizontes abrem. As lonjuras ali à nossa frente. É uma transição belíssima. Tantas vezes ali passei e como que reprogramo o meu cérebro para a surpresa. Vou por ali, sei o que vai acontecer mas, ao mesmo tempo, estou preparado para me surpreender como se fosse a primeira vez. Na minha cabeça como que há uma parte do cérebro que prepara a surpresa para uma outra parte. Não queria especular, afirmando que há duas mentes na minha cabeça (ou mais, e, às vezes, como que uma assistindo na plateia ao que se passa no palco da outra - e quase que aposto que isto se passa com muitas pessoas).





Pela EN236 neblínica. Gosto destes dias. A realidade à nossa volta é menos previsível. Por regra, pedalo serra acima com os sentidos ao rubro. Sobretudo se pedalar por caminhos. Os encontros imediatos do terceiro grau com veados e javalis ocorrem com mais frequência e a distâncias em que quase sentimos o bafo quente que exalam.
Aqui, a subida neblínica pela estrada nacional que liga Lousã a Castanheira de Pêra, atravessando a serra.



Em "cranks". Na expectativa de, uma vez saído do túnel das árvores, ver clareiras de luz no céu.



Como é normal nas minhas pedaladas, primeiro sobe-se, depois desce-se. É assim. Raramente pedalo em plano, excepto nos planaltos das serranias, geralmente em cumeadas que separam as lonjuras de Norte das de Sul e as de Este das de Oeste. Aí sim, de resto ou subo ou desço. Deve faltar-me o gene  dos planos.

Já várias vezes tinha visto o caminho. Mais ou menos limpo (às vezes caminhos antigos na serram fecham com a vegetação reclamar o terreno). Uma zona onde nunca vi ninguém mas que parecia ir dar directamente ao cimo da Aldeia do Candal. Dos 1000 aos 600 m num pulo. Primeiro uma floresta que deve ser um refúgio para animais mais esquisitos, os que não querem ser incomodados. Depois um corta-fogo bem inclinado. Vou, não vou? Pronto vou só um bocado e depois logo vejo.

Correu tudo bem, fui indo, uma bela vista sobre o vale por entre as árvores, até ter encontrado o juvenil javali parado no meio do caminho a tentar perceber quem era eu.
Ia por ali fora e pareceu-me que qualquer coisa estava no meio do caminho. A PDI tirou-me acuidade visual e estava indeciso entre um tronco, uma pedra ou um pequeno javali. Parei. Percebi que era um jovem javali. Olhou-me. Depois de alguns segundos deu meia volta nas calmas e foi-se embora caminho abaixo, exatamente por onde eu queria ir. Os progenitores não deveriam andar longe. A minha descida foi abortada.


(a câmara GoPro usa uma grande angular e, por isso, o javali, que estaria a uns 10-20 m, parece muito mais afastado. Está no meio do caminho - uma pequena mancha preta - e aos 1m49s percebe-se que se move)


Além destas, há mais mil maneiras de pedalar pela serra. Seguem dentro de momentos.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

É um pássaro? É um avião? É o Super-homem? Não. São as moscas.

17 de Junho 2017

Nem sequer as ondas do mar ou o vento. É um som semelhante: são as moscas varejeiras.
Nos dias quentes, na zona sombria da floresta agrupam-se aos milhões.
Ia por ali acima, por um caminho que atravessa a floresta aos 900 m de altitude. Estavam perto de 40 graus C e o caminho que travessa a floresta sombria foi a opção para prosseguir. Era o mais fresco. O contraste da luz no caminho com a sombra sobre os cedros é quase inacreditável. De um lado Sol intenso, ofuscante, quase insuportável e, do outro, escuridão. Uma escuridão traiçoeira onde milhões de pequenos seres vivos pousados reagem a qualquer intruso levantando-se em nuvens aterradoras, ruidosas, vindas de todos os lados, mas? mas?! mas o que é isto?, que nos deixa à beira de um ataque de nervos. Sob as árvores a temperatura caía cerca de 7 a 8 graus.


Mas a temperatura era a única coisa que caía. Outras se levantavam. Já o previa. À medida que pedalava levantava-se um ruído como se fosse uma onda do mar. Com o ruído levantavam-se também milhões de varejeiras. Azuis ou esverdeadas, metalizadas, grandes, num alvoroço. O aspecto metalizado é o que mais me chateia.

Parei e dei uns passos, gravando o caos que se gerava à medida que avançava.

(ouvir com o som muito alto: em fundo dos meus passos e do trinar dos pássaros ouve-se (mal se vêem no vídeo) o som das varejeiras a voarem que nem doidas para logo pousarem. Na realidade o som é muito mais intenso mas o telemóvel deve ter problemas na gravação dos graves.)


As moscas e os mosquitos estão na base de uma das leis universais do BTT (aliás, já aqui, anteriormente, formulada).
O problema pode formular-se do seguinte modo:
à medida que o caminho fica mais íngreme a velocidade a que pedalamos tende a diminuir e, por outro lado, o suor tende a aumentar (escorre pela cara, vem para os olhos etc etc etc). Ora, o ponto crítico é quando a velocidade é inferior a 6-7 Km/h. É que a esta velocidade as moscas, mosquitos, varejeiras, moscardos e outros insectos CONSEGUEM ACOMPANHAR-NOS. E as moscas pousam na cara, e nos lábios, e nas orelhas, e o os mosquitos fazem uma nuvem à volta da cabeça e as forças para os enxotar já não são muitas, e se os enxotamos podemos perder o controlo da bike e é uma grande merda tudo isto.
PORTANTO, UMA REGRA BÁSICA DO BTT EM DIAS QUENTES E SEM VENTO É PEDALAR SEMPRE A UMA VELOCIDADE SUPERIOR ÀQUELA A QUE AS MOSCAS CONSEGUEM VOAR. De acordo com os meus cálculos - que são, aliás, baseados em várias observações reais no terreno -  é cerca de 7-10 Km/h. É pouco? Pois, depende da inclinação e da temperatura.
A velocidade inferior a 7 Km/h, em subidas íngremes, há uma grande probabilidade de pedalar com a cabeça metida num grande zumbido. No meu caso, um caso particularmente grave devido ao ódio aos mosquitos, os neurónios entram em ressonância e, às tantas, já não se sabe se o zumbido é fora ou dentro da cabeça. Nem pensar em parar. E não há solução para isto. Proferir alto e bom som uns vocábulos em linguagem tabernácula (por assim dizer, insultando, por exemplo, a mãe das varejeiras) alivia mas não resolve a coisa.


sábado, 8 de julho de 2017

No rescaldo

Junho 2017

Roda ante roda, na expectativa do que iria encontrar, lá fui indo, subindo, para ver o outro lado da serra.
No planalto da serra, pelo caminho de cascalho sobre o vale do Coentral que, para Sul, se estende até à Castanheira de Pêra tive a visão das coisas.



O Coentral sob o St. António da Neve. O fogo não tinha aqui chegado. Havia boatos: toda a encosta foi varrida pelo fogo, o Central também foi evacuado ...
Estava na expectativa. Não. Aqui não tinha chegado.


A carqueja já pálida e a ser substituída pela urze roxa mas o fogo não cavalgou estes montes.


Este é o lado Este. Desviando o olhar para Sul, pelo vale da Castanheira e pelas serranias que se estendem para o lado de Pedrogão (onde se vê a chuva a cair) viam-se, aí sim, as encostas queimadas, castanhas e negras, que traçavam o limite do fogo para estes lados.


O clima é um bom exemplo de um sistema caótico, sensível às condições iniciais, que determinam a bifurcação imprevisível. Como prever este céu carregado, lançando gotas de chuva sobre Pedrogão sob uma temperatura amena há 2 semanas? Mesmo conhecendo a velocidade e posição de todas as partículas a evolução do sistema é imprevisível (sabe-se lá quando é que uma borboleta bate as asas na Austrália para mudar de eucalipto).






quinta-feira, 6 de julho de 2017

Vento. Quente. Limpo.

Julho 2017
Serra da Lousã

Vento quente e bom. Um vento cheio de energia. Vindo não sei bem de onde. Sem direcção definida. Ou melhor, mudava de direção em cada folha do castanheiro. Vinha forte sobre a copa das árvores, espraiava-se como um delta, como uma rede capilar num órgão e, depois, recompunha-se à saída, renovado, pronto para outra. Metia-se pelo corpo adentro como a luz que atravessa a água. Acho que até aos neurónios chegou uma aragem suave.





sexta-feira, 30 de junho de 2017

E, ao segundo dia, Domingo, a luz desfez-se e o ar da manhã não era o ar da amanhã

Domingo, dia 18 de Junho.
(depois de ontem, Sábado, ter estado no Trevim à uma da tarde na tarde, um pouco antes do início do incêndio de Pedrogão)

Fumo. O amanhecer de Domingo cheio de fumo. Um fumo que formava gradientes à medida que se subia na serra. O incêndio andava na encosta do outro lado, do lado da Castanheira de Pêra, mas o fumo tinha subido a serra e começava a cobrir o lado de cá, vinha de cima, insinuando-se pelas rugas dos vales. Logo à saída da Lousã.



Eu, inquieto, não sabendo ainda da tragédia que ocorrera do outro lado (embora pelo reboliço da noite com carros e sirenes serra acima e serra abaixo sugerisse que algo grave se passara), pego na bike logo pela manhã e pensei subir ao cimo, ao Trevim pela EN236 (a que agora chamam da morte), onde tinha estado no dia anterior. Talvez dali percebesse a dimensão da coisa. Uma pedalada, duas pedaladas, um km, dois km, e parecia que subia ao Evereste. Caraças não consigo respirar. Mas mais um bocado. Quando tiver vistas para o Trevim terei uma ideia mais precisa do que se passa. E martelava este pensamento para me auto-estimular.
À medida que subia, o céu ficava cada vez mais estranho, amarelo, esquisito, marciano ou neptuniano, talvez uraniano. Tentei arranjar uma teoria que tranquilizasse o meu lado racional: a exposição a situações de stresse (ambiental) em baixas doses até é benéfico para a saúde. As minhas células vão sentir estes gases tóxicos e vão implementar a resposta ao stresse. Vão accionar os mecanismos da hormese. Isto até vai fazer-me bem. Um stressezinho em background é do melhor que há para manter a saúde, é até rejuvenescedor. Até comecei a sentir os genes a expressarem-se, proteínas de defesa celular a inundar as células, a glicólise a acelerar para compensar a hipóxia, uma agitação celular em todo o corpo. Nada como uma hormesezinha logo pela manhã para ficarmos mais jovens. Pronto tinha uma teoria e estava tranquilo. E embalado pela teoria fui pedalando e subindo.



Comecei a perceber que não iria longe.
 O Sol era assim, com contornos ... ou melhor sen+m contornos definidos.




Às tantas estava num ambiente estranho. Pedalava e, como quem pedala sabe, por vezes pedalamos porque a seguir a uma pedalada vem outra. Uma e outra ...
Só quem pedala entende isto. Outros dirão que é estupidez ou que é irracionalidade ou obessão. Não é. É uma vontade que se apodera de nós e nos impede de parar quando as coisas estão difíceis (que força é essa, que força é essa que trazes ...).



Depois, para mais, no meio de tudo aquilo, imerso naquele universo estranho, comecei a achar tudo muito belo à volta, a luz, as penumbras, o ambiente para-real, os contrastes






A EN236 ladeada de castanheiros, carvalhos, urze e pedras




Como bem sabia, tive que parar. Não conseguia mais. Na véspera tinha subido ao Trevim a 1200 m com temperaturas acima dos 40 graus. Nada comparado com isto.

Voltei para trás, muito para trás e meti-me por um estradão a meia encosta, paralelo ao vale, mantendo a altitude. O fumo estava lá a chegar. A floresta estava tranquila mas havia a expectativa de que a qualquer momento alguma coisa iria perturbar o silêncio. Ia ali percebendo cada segundo na expectativa do próximo. Como que acossado por aquele silêncio.



O fumo vinha aí, infiltrava-se por entre as árvores





O leito dos riachos furiosos do Inverno tinham umas poças aqui, outras ali, sem dinâmica nenhuma, uma pasmaceira


secos




a luz do Sol filtrada pelo fumo, amarela e laranja, como que incendiava clareiras no chão da floresta. Um deslumbramento






À volta estava tudo calmo e, no entanto, como disse, estava sempre na expectativa de um susto, de animais em alvoroço; cervos, javalis, ginetas ... Quantos terão ficado encurralados e morrido? E insectos e vermes na terra e , e, e, e, ... a terra esterilizada pelo fogo. Lembro-me que havia uns pássaros a esvoaçar mas não senti sinais de grande perturbação. Também eles respiram oxigénio e provavelmente estariam em hipóxia. É que já por ali também ali o fumo se adensava.

Desci para a vila o que me faltava descer.

No dia seguinte, saí do país para uma cidade no Norte da Europa. Que bem que me soube a chuva que por lá apanhei. Até a bebi, de boca aberta para o céu. Figuras tristes: à noite, de braços abertos, cabeça levantada e boca aberta, à chuva à porta do hotel. Are you OK? Sim, vou já, estou só aqui a apanhar um pouco de chuva. Hã!? Como é que eu explicar ia aquilo aos outros?





segunda-feira, 26 de junho de 2017

E, no Sábado, à 1 da tarde, eu andava por lá, na bike, lá em cima no Trevim, a olhar para o que iria arder daí a pouco no incêndio de Pedrogão

Junho, 17, 2017

A la una de la tarde ...

Não pedalava há mais de uma semana. O dia estava muito quente. Daqueles dias que só havia de vez em quando antes de se banalizarem. Resolvi subir ao Trevim, dos 200 aos 1200 m em 20 km, pelos caminhos da serra. A direito, serra acima. Tudo seco. Algumas bicas de água aqui e ali que bem conheço estavam mortas que nem um chamiço. Umas zonas húmidas onde no Verão sujo a bike de lama, nada. Apenas terra dura. Aos mil metros, a bica de água fria à beira do estradão das eólicas que já me salvou tantas vezes, e que em pleno Verão jorra sempre em força, estava mortiça. Irreconhecível. Ali sob os fetos.




A coisa estava difícil. Em andamento o termómetro na minha bike andava entre os 39 e os 40 C. Ali parado, na bica que fica no estradão das eólicas, sob as árvores estavam 33, uma frescura, tão bem que ali se estava. Ao fundo, o planalto da serra do Buçaco.





Mas não podia parar muito tempo. Estava já em cima da bike, tentando arrancar naquela inclinação (o que não é nada fácil), quando ouço um barulho ao meu lado, mesmo ali. Olho e, por entre os arbustos, sai um pequeno vulto. Uma galinha? Não. O estilo era o da galinha. Pé ante pé, olho em mim, de lado, desconfiado. Um javali muito jovem, muito bonito e pequenino, com listas coloridas no dorso. Ali, a dois metros. Eu estava em cima da bike mas com os pés no chão. Lentamente levei a mão ao bolso de trás para tirar o telemóvel mas, mal pressentiu o meu movimento, assustou-se e fugiu, metendo-se por entre os arbustos. Foi nesse momento que ouvi um urro. A mãe. Estava ali. E eu ao pé da cria. Deveriam vir também beber à bica onde eu estava. Foi o costume. Cabelos em pé, adrenalina por todos os poros, encaixei os pés nos pedais e pedalei o que pude, fugindo por ali acima.
Estava quase no Trevim. Difíceis, muito difíceis aqueles últimos 200 m em altitude.
Nestas circunstâncias não se percebe a paisagem em redor como se a víssemos num écran. Percebia que, de vez em quando, o Sol se escondia nas nuvens. Mas a sensação era a de um céu azul azul por cima. Lembro-me de ter olhado para o céu e pensar que havia umas nuvens estranhas. Mais manchas esfarrapadas que nuvens. Apareciam e desapareciam.
Cheguei ao Trevim, parei. Olhei para Este, para as serranias do Açôr até à Estrela, como já fiz um milhão de vezes. Às tantas olhei para o termómetro na bike: 42 graus C. Estava a 1200 m de altitude.


Só agora percebo, ao ver a fotografia, que para estes lados o céu não estava azul. Castanheira de Pêra e Pedrogão ficam para a direita, fora da fotografia. Comecei a descer por esse lado, dando, depois, a volta para a Lousã. Tive um pensamento estúpido: vai ser das últimas vezes que ando por aqui a pedalar sem fumo.
Ao cimo de Castanheira entrei numa parte da floresta onde há uma bela fonte. Cheguei lá por um caminho entre pinheiros sobre o Coentral. Aí tive um novo encontro imediato do terceiro grau. Desta vez um corço, também jovem, salta para o caminho uns 20 m à minha frente. Belo. Não me esperava porque eu ia silencioso. Correu um pouco, afastando-se e logo se meteu na mata.

Já na fonte 
 

O bem que sabe estar ali num dia como este ia. Mas nunca a vi tão jorrar tão tímida.



Olhei para cima, tentando ver o céu,



 e fui-me embora.

No dia seguinte, Domingo, tentei voltar aqui.  Mas o dia era outro. O incêndio tinha feito o seu caminho. Conto para a próxima.