terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Das neblinas e de como os riachos já levam um fiozinho de água

Dezembro 2017
(serra da Lousã)

Sou de neblinas como du soleil e do luar.

Nada esconde a neblina. Porque é que hei-de imaginar se para lá da cortina de neblina há outra realidade? Já basta pensar em multiversos e universos bolha e matéria negra para, olhando à volta, ficar intrigado. E, já agora, que processos gera a gelatina gorda a que chamamos cérebro, e que está debaixo daquele capacete naquele sítio e naquele momento, para se deleitar? Depois de saber isto talvez se possa, verdadeiramente, discutir a possibilidade de inteligência em robots. De facto, o nome que está na moda (inteligência artificial) é bem dado: artificial.




Os riachos na serra levam já um fiozinho de água. Apenas um fiozinho.
Oh robot o que é que achas deste fiozinho de água? Não, não me interessa se dentro em breve, com novas chuvas, engrossará, era mais o que achas do som que a água faz e que se esgueira por entre as árvores e se o verde dos fetos te parece mais verde e mais bonito com o fiozinho ou sem o fiozinho. Olha e não te apetece ensaiar um assobio que se esgueire também por entre as árvores, oh robot? Pois ..., parece-me que tens uma inteligência muito artificial.


Fecha-se o dia.



Horas de ir andando.



sábado, 9 de dezembro de 2017

nous sommes du soleil ... às vezes

Dezembro 2017

nous sommes du soleil,


(do álbum Tales from Topographic Oceans dos Yes)

du soleil. Vá, agora todos: nous sooooooommmmes du soleeeeeeil, du soleeeeeeeeeeil.

Vim uma vez o Yes, há uns anos, no coliseu do Porto. Uma coisa como deve ser, sentado confortavelmente na terceira fila, a meia dúzia de metros dos músicos. Não estava o maluco do Rick Wakeman nas teclas. Mas ainda bem, quando põe os dedos teclas nunca mais pára, sempre a mexer os dedos. Na época áurea dos Yes, o Rick Wakeman era conhecido por se rodear de uma parafernália de teclados, tocando-os todos ao mesmo tempo com tudo o que podia, com as mãos, com os pés, a ponta do nariz, a ponta da ... quer dizer, os cotovelos. Era impressionante. Mas, no concerto do Porto, tão perto que estava, pude ver os olhares cúmplices entre eles, os gestos, o movimento, a organização ... coisas que gosto de perceber (interessa-me pois, há anos trás, toquei num grupo de baile) e que para quem assiste ao concerto não tem qualquer interesse. Por isso não gosto de concertos em que estou a mil km do palco e apenas vejo ou o écran (sem piada) ou umas figuras ao longe. No Porto pude apreciar a classe do Steve Howe, a tocar impecável num território no palco só dele, as guitarras alinhadas sobre um tapete persa. Ver o esforço do Jon Anderson (os anos já pesavam nas cordas vocais) a fazer a voz invulgar que a natureza lhe deu.

Mas, du soleil ...
... às vezes. Outras, do luar


(Oblivion, Astor Piazzolla)

Ouvir Piazzola em frente ao Mar (rio) de la Plata, quer do lado de Montevideo quer do lado de Buenos Aires. À noite. Tempos em que ia para aqueles lados. Entranhou-se-me no corpo aquilo tudo (a música misturada com a luz reflectida no mar, a brisa e os sons que vinham da cidade, o empenhamento na amizade que ali se sente ...). Um dia hei-de voltar ao Sul.

Um dia, Vuelvo Al Sur




Du soleil ou do luar ...
ou tudo misturado, como na fonte fria, num dos caminhos da floresta na serra da Lousã. O Sol nas folhas e o luar no reflexo à superfície da água.
Pedalo por aqui muitas vezes e, embora de acesso relativamente fácil, em todos estes anos, as únicas pessoas que por aqui encontrei foram uns Ingleses (Profs na Universidade de Coimbra) que, aliás, na altura, e dada a beleza do local (nas suas palavras), confessaram a sua supressa por nunca encontrarem por ali alguém. Foi, pois, uma troca de surpresas (e gargalhadas, by the way).


 A fonte, naquele local, é uma construção impressionante. Tenho uma teoria para isso.


O Sol andava lá por cima, a ser colhido pelas árvores.


Segui, pois, caminho do Sol. Caminho temporário, como é sabido, dali a 2 min a luz andaria noutro sítio.


Para Oeste. O Sul é dado pelo Sol nas árvores. Não foi desta que fui para Sul.





segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

gone with the wind

Serra da Lousã
Dezembro 2017


Sexta-feira dia 1 de Dezembro. Dia de "assalto" ao Caramulo. Uma festa, tal como aqui e aqui relatei. Grupos de ciclistas, de modo espontâneo, partindo das povoações no perímetro da serra do Caramulo, pedalam pelas encostas acima até ao cume, até ao Caramulinho.
Cinco e meia da matina, pronto para sair de casa, a partida era no Luso ao nascer do dia, uma hora e tal de viagem pela frente, bike montada no carro, equipamento (esperam-se zero graus) organizado,  mantimentos seleccionados, água, tudo OK, não falta nada (já uma vez me esqueci de levar as meias), aberta a porta da garagem vem-me o friozinho cortante da noite, pronto para arrancar, tudo OK, tudo? não? O caraças do carro não pegou.

Não ia ficar para ali a carpir as mágoas. Desmontei a tralha e arranquei serra da Lousã acima. O ar era um fiozinho cortante. A berma dos caminhos branca da geada, num estilo Pollockiano abaixo de zero.





À medida que subia, a quietude da manhã fria foi-se transformando. Eu também;  a irritação do plano gorado foi passando. O primeiro sinal foi o agitar da copa das árvores que, à medida que ganhava altitude, se transformaram numa ventania desenfreada.

Fui para o lado Sul da serra. Para o Sol. Apetecia-me pedalar ao Sol com vistas para as serranias que se estendem para Sul. Castanheira de Pera e Pedrogão no horizonte. Pequenas colunas de fumo branco a subir no ar frio. Queimadas. Contei umas 40. Dão um ar bucólico à paisagem; alguém que podou as videiras e as oliveiras e é preciso andar com as coisas para a frente e queimar as vides e preparar o terreno para a próxima Primavera e ainda há poucos meses estes vales eram assolados por fogos incontroláveis. Não é irónico, é a vida.


A meia encosta, numa curva do caminho, enquanto parava para comer uma banana, joguei ao gato e ao rato com dois gamos. Percebi um deles por entre as árvores. Fiquei imóvel. Ele movia a cabeça tentando perceber quem (o quê) eu era. Inclinava a cabeça, olhava de frente e de perfil, inquieto. Será chuva, será gente, chuva não é certamente ... terá pensado. Ficámos assim algum tempo. Depois moveu-se, tranquilo, deu um passo em frente, a cena estava a resultar, e eis que, logo a seguir, veio outro, seguindo-o. Então, lentamente, muito lentamente baixei-me e levei a mão ao bolso para tirar o telemóvel. Zás, zarparam dali para fora num corrida. Perceberam finalmente que era gente. Imediatamente o cérebro deles identificou os meus movimentos com um padrão; gente, o melhor é fugir deles. Ou, então, os meus movimentos não correspondem a nenhum padrão conhecido. Por natureza, não arriscam.



No planalto, do lado Sul do Trevim, sobre o vale do Coentral, aos mil e tal metros de altitude, as nuvens varriam o céu, escondendo o Sol para logo o destaparem. Surgiam sob o cume empurradas por vento de Norte. Não fui ao Caramulo, fiquei a ver as nuvens.



segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Depois da chuva o silêncio

Novembro 2017
(Serra da Lousã)


(Erik Satie - Gymnopédie Nº1)
ou o som das gotas de água que caem nas teclas do piano



Depois da chuva, apenas dois dias de chuva após tantos dias secos, a floresta aos mil metros de altitude cobriu-se de neblina e silêncio, como que num prolongado suspiro de alívio. Nem  uma gota de água se ouvia pingar, ou um piar longínquo, um murmurar das folhas das árvores, nada, o silêncio enchia a paisagem. Aqui, o som dos martelos nas cordas do piano de Satie seria ensurdecedor.






Um silêncio que não o das estrelas ou o do mar porque aqui, na floresta, há uma comunicação, uma expressão, qualquer coisa que flui por entre as árvores e que me atinge.
Em funções essenciais da célula, o meu genoma e o das árvores à minha volta é semelhante. Pelos vistos partilhamos até mecanismos de regulação do sistema imune inato contra diversos agentes patogénicos. Somos primos afastados. Ambos vivos, não fantasmas por entre a neblina.


Pedala-se no sentido na claridade, no caminho por entre as árvores, sem nunca a atingir. Porque nada há a atingir. Não há um centro e uma periferia. Um sentido, sequer.


No dia seguinte, a meia encosta: a brand new day !




quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Dos caminhos úrzicos aos sôuticos

Serra da Estrela
Novembro 2017

A continuacion depois da subida à Torre, já na descida, pedalando pela estrada, quando passava pelos Piornos, os caminhos graníticos cobertos urze do lado esquerdo, do lado do planalto que se estende até Manteigas, foram um chamamento irresistível. O vento trazia-me o som doce de cítaras e sonoras flautas tocadas por musas incautas, de cabelos de ouro, correndo e acendendo o desejo ... bem, quer dizer, a continuacion, nem dei conta. Quando dei por mim ia já no planalto a rodar no chão que conheço bem. Conheço-o de outros tempos, dos tempos em que por ali havia rebanhos, centenas de cabras e ovelhas e cães da serra grandes com coleira de picos que, percebendo-nos a km de distância, vinham ter connosco, mandando-nos dali para fora (com modos de cão da serra com coleira de picos, bem entendido). Tempos em que me perguntavam: mas o que é que vais fazer para a serra? E, na altura, seguindo o conselho de Pitágoras (tout n'est pas à dire), nada explicava porque estava seguro que às minhas palavras seria devolvido um olhar de estranheza e perplexidade (mas o que raio é que este gajo está a dizer, a falar das pedras e do vento e das raízes e do céu à noite  ...?)



Agora há por ali um estradão de terra.



Percorrendo-o, dei com um dos "casais" usados para a pastorícia a grande altitude; uma pequena casa de pedra com coberto de colmo para os pastores e um curral adjacente. Em ruínas. Lembro-me destes planaltos acima dos 1400 m de altitude cobertos de ovinos a pastar.





Depois de velejar por ali, pelo planalto, estradão que não gerava preocupações de maior, uma travagem aqui, outra ali mas sem stress, mais ou menos plano, à bolina, por entre pedregulhos em equilíbrios impossíveis, o caminho estreitou-se e comecei a descer.


Logo depois, num passe de magia, ainda mal refeito da tensão que apanhei na descida, desviando-me de regos e pedras, travagens bruscas, equilíbrios para manter o centro de gravidade na bike, vi-me a percorrer caminhos por soutos a meia encosta.




Estava na hora de repor a glicémia com umas belas de uma castanhas. Frescas e boas, acabadas de sair dos ouriços (o cleat the metal do sapato de encaixe é um excelente extraidor de castanhas de ouriços, poupando assim os dedinhos às picadas).


Estando por ali, a olhar e a cheirar, às tantas, como acontece em tantos outros sítios na serra, chega aquela sensação estranha: se calhar é melhor ir andando, o Sol já vai baixo. Vem ao cimo a ideia de ter que ir embora.

Sigo? Por ali?



Vamos lá


Faltava ainda descer umas centenas de metros em altitude para o vale do rio Zêzere e tornar a subir para tornar a descer.
A cerca de 15 ou 20 km da chegada, ao aproximar-me da terra onde nasci, nas fraldas da Estrela, na periferia da cova da Beira, o Sol ia já muito baixo. Escondia-se por detrás da Estrela. A Gardunha, no horizonte, tinha ainda os cimos alumiados. A noite apanhou-me no caminho.



terça-feira, 14 de novembro de 2017

O urso, a Estrela e o Açôr

Serra da Estrela
(Novembro 2017)


O urso




 a Estrela


(vale glaciar do Zêzere)

(covão do ferro)

e o Açôr

(cadeia montanhosa da serra do Açôr-serra da Lousã vista da Torre, serra da Estrela)

O magnífico Açôr.

Já este ano pedalei até ao cimo dos três gigantes do Açôr (Picoto da Cebola, S. Pedro do Açôr e Colcurinho). Estão por aí as fotografias. Também já este ano fiz a travessia do Açôr até ao Trevim (no horizonte), na serra da Lousã. Ainda hei-de pôr aqui as fotografias. Hoje, grande parte, sobretudo as encostas Norte - à direita - estão negras, ardidas.




 (como toda a gente que anda de bicicleta sabe, quando andamos de bicicleta fazemos parte da paisagem)


visto da magnífica Estrela

(desfiladeiro de Loriga, 900 m de desnível, o maior da Estrela)


onde, mesmo nos dias mornos, ao anoitecer, corre o vento fino, finíssimo e frio que corta a pele e varre o planalto acima do 1900 m.



A continuacion les presentaremos otra galeria de fotos en próximo post


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A las cinco en punto de la tarde el camino a ningún sitio

Novembro 2017
(Serra da Lousã)

Depois do tempo seco, as brumas voltaram à serra.
A las cinco en punto de la tarde tinha pedalado até meia encosta. Saíra tarde. O Sol põe-se às 6 mas não resistira ao apelo do cheiro da terra molhada, da mata húmida, dos vapores que a terra libertava, das plantas mortas no chão, dos arbustos e das árvores. Que se lixe, é tarde mas vou à mesma. Logo verei.

A las cinco en punto de la tarde a noite caía e com a noite um nevoeiro denso assentou por ali arraiais.
Pedaladas numa solidão intensa, um silêncio abafado pelo nevoeiro, o corpo contraído pela atenção.

It was dark and I did not go home. A perfect day


I took the road to nowhere




A escuridão caía rapidamente. A que a noite trazia era previsível. A que o nevoeiro acentuava não. Não iria haver lusco-fusco. Contava com isso mas a transição iria ser rápida; agora é dia, 5 minutos depois será noite. O apelo da serra tinha apagado a meia dúzia de neurónios que me iam alertando para a necessidade de voltar para trás. Mais abaixo não há nevoeiro, volta para trás enquanto podes. Mas, depois, parava, olhava à volta e ficar por ali mais uns momentos era uma apelo irrecusável. Via a situação como um privilégio.







Mas estava tenso. O silêncio intensíssimo, indescritível, quebrado aqui e ali pelo agitar das folhas, por um ramo que caía, um som de folhas pisadas (ou não?, animais por ali?), e não via a ponta de um chavelho à frente do nariz. Cada vez mais escuro e eu sem luzes na bike.






O que vais fazer pá? Voltar para trás? Pelo estradão de terra? Ainda há alguma luz mas e os buracos, as pedras, os paus ... ainda dou um malho ... talvez a melhor hipótese seja tentar atingir a EN236. Conheço-a bem, cada curva, o piso asfaltado é mais seguro ... mas isso quer dizer que tens que subir mais uns 2 ou 3 Km pá, só a consegues apanhar lá mais acima e subir 2 ou 3 Km leva tempo e nesta altura cada minuto conta e, além disso, quanto mais acima mais cerrado estará o nevoeiro, ah, é verdade!, hoje há Lua cheia, pois é, a Lua levanta-se ao começo da noite, posso apanhar mais nevoeiro mas a luz da Lua fará do nevoeiro um céu cheio da luz difusa e, mal desça alguns Km, o nevoeiro dissipa-se (ah ah ah ah ah diz-me a meia dúzia de neurónios que formam a estrutura que gera o bom-senso) e ainda vou fazer uma descida da serra belíssima sob a luz da Lua cheia. É isso. Continuo a subir e apanho a EN236 no cimo da serra.


Pedalei em força, o mais rapidamente que pude. Tenho que ter cuidado, os animais nestas condições andam mais à vontade e eles andam por aí. Posso chocar com algum. Grito, se me aparecerem à frente da roda, grito: sssshhhhôôôôôôô.



Levantou-se vento. De vez em quando, ao passar por baixo de ramos dos altos cedros, o vento sacudia os ramos carregados de gotas de água em cima de mim. Uma chuveirada que me agradava.
Cheguei ao cimo. Estava a cerca de 1000 m de altitude e a 18 Km da vila. A estrada de alcatrão molhada tinha um brilhozinho que me permitia ver uns metros. Talvez 2 ou 3 comprimentos da bike. Fui indo. Percebi que o equilíbrio em cima da bike nas curvas no meio da escuridão é instável, como que uma vertigem. O diabo é se há animais no meio da estrada. A pé? Com este sapatos com encaixes de metal nunca mais lá chego. Com alguma sorte passa um carro, vem devagar, concerteza, e eu aproveito a luz mas nada, nem um. Quem é que se iria meter na serra com uma noite de lobos destas? Seguia contraído, devagar, sempre a travar, curva à direita, ah pois é agora estou a passar junto aos carvalhos grandes, curva à esquerda, pois, agora aqui é o riacho e a fonte que alguns, erradamente, chamam de fonte fria. Um peso no peito e o nevoeiro que não se ia embora. Parecia que não vinha ali, que estava num filme. Tudo me parecia irreal. Apenas os "imbalanços" ao curvar na bike me diziam que estava ali.  Às tantas, faço uma curva e uma grande alvoroço; 2 ou 3 veados, cada um a correr para seu lado, apanhados de surpresa, no meio do nevoeiro e da noite, aparece-lhes ali um vulto silencioso, lento mas suficientemente rápido para quase chocar com eles ao desfazer a curva. Os veados têm trilhos na serra (percebi isto há algum tempo: eles vão fazendo trilhos que depois usam para se deslocar) que, por vezes, cruzam a estrada asfaltada. Um deles derrapou à frente da roda dianteira da bike, correndo numa direcção para logo dar meia volta e fugir para o outro lado. Subiram todos pela barreira do lado direito. Eu levei um choque adrenalínico brutal, nem parei, foi tudo num instante, tive um arrepio pelo corpo todo, pêlos eriçados, caraças tinha que acontecer. Nem percebi bem o que se passou. Ver os corpos grandes ali à minha frente, em movimentos rápidos, nem sequer sei se travei ... na memória tenho apenas "fotografias" do que se passou, não tenho o "filme". Ou melhor, tenho o filme dos acontecimentos mas com espaços em branco. Como num sonho, em que não ligamos acontecimentos numa sequência temporal.

Mais abaixo já não havia nevoeiro. Pelo menos esta parte do plano estava a correr bem. Mas da Lua nada.  O tecto denso do nevoeiro sobre a serra impedia que qualquer fiozinho de luz o penetrasse. Mas via melhor. Foi quando comecei a sentir frio. Até ali o meu cérebro não se preocupou com frio, tinha outras prioridades (fazemos isto no dia a dia: uma coisa que nos preocupa é tamponizada por outra de maior gravidade, há uma hierarquia na consciência que, provavelmente, imposta pela Evolução, é útil à sobrevivência). Sentia o frio nas mãos e nos pés.

Cheguei ao Candal, a única aldeia na EN236.  Luz (durante 100 m).


Só faltavam 11 km até à vila.

Direita, esta é a curva do depósito de água, esquerda ... direita ... ao aproximar-me da vila, quando comecei a ver as luzes ao longe, percebi que tremia quase descontroladamente, e não era (apenas) do frio. Começaram a doer-me os maxilares, devo ter vindo a cerrar os dentes todo o caminho, os ombros e as mãos, colados no guiador, contraídos. Tive que me abanar, respirar fundo, berrar ... para regressar ao estado basal. Já antes tinha descido a serra de noite e sem luz mas nunca em modo tão potencialmente dramático.

Onde ontem (Sábado), a las cinco de la tarde, era assim,




hoje (Domingo) ali, ali perto, a la una de la tarde, era assim





A perfect day