domingo, 8 de agosto de 2021

Na tempestade, sob o céu de trovoada pelas cumeadas do Açor

 Junho 2021

Aaaahhh ... o céu de trovoada do Açor. Ver claramente vista a chuva que, ao longe, cai das nuvens ... e o cheiro da tempestade, a luz invulgar, o som grave dos trovões que se mete até aos ossos ...



A chuva que cai sobre o Picoto da Cebola e que, provavelmente, um dia fará parte da barragem de Sta. Luzia ...


Mas ... antes, entra (outra vez) o Zappa:

(Watermelon In Easter Hay do Acto III do Joe´s Garage)

Sente-se a força da tempestade no esterno e nas costelas, uma pressão nos pulmões que transforma o acto involuntário da respiração numa acção consciente. Olha-se o céu e respira-se fundo com imenso prazer. Nada é etéreo, é tudo físico e denso. Ao contrário do que diriam os irredutíveis Gauleses que resistem sempre ao invasor romano (apesar das baladas do bardo Assurancetourix lhes dar cabo do juízo), o céu não nos cai em cima da cabeça mas as paisagens que se desenham no céu pesam sobre todo o corpo.

A passagem. Ali, aos 700 m, na curva da barragem de Sta. Luzia desenhava-se a passagem entre um dia normal com céu nublado e uns trovões ao longe and the real thing, o pedalar serra acima para o seio da tempestade. E foi essa a história; serra acima para o céu da tempestade. O fascínio do abismo impôs-se.


Para Este as cortinas de água sobre o Cebola


Ao centro, no planalto da serra da Estrela, a coisa parecia estar ainda naquele engano de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito.


Uma, duas, mil pedaladas serra cima. A mancha brilhante no fundo do vale do rio Ceira (daqui visto é apenas um fiozinho de água), reflectindo a luz do céu revolto, a barragem do Alto Ceira



Curiosamente, à medida que pedalava e me movia entre encostas, a luz variava entre os tons estranhos e quentes e o azul e cinzento frios.





Tantas vezes por ali perto passara e só agora dava conta dos menires à beira do caminho. Fiz ali o picnic (água da fonte e pão com marmelada) com vistas para o Cebola, olhando a chuva que, lá ao longe, sobre o pico do Cebola, caía das nuvens. É interessante olhar a chuva ao longe a cair das nuvens (já o disse mil vezes).


Na tempestade o "lá ao longe" torna-se no "já cá chegou e cai-nos em cima" no minuto seguinte. O picnic não acabou sem que a ventania trouxesse as gotas grossas que caíam sobre a marmelada.



O "lá ao longe" torna-se também no "ó caraças, isto está feio" quando, nas calmas sentados no chão a trincar o pão, olhamos para trás. Para trás mais ou menos, para o lado por entre as ervas.



É a terceira lei do BTT: "a tempestade troca-te as voltas pá, não olhes só para a frente, olha também para trás, e com frequência porque a dinâmica da tempestade é de natureza caótica".
Levantei-me para perscrutar o horizonte e ainda me passou pela cabeça a ideia idiota de tentar perceber de que lado estava o vento.



Tinha descido um pouco e to get back home safely tinha que voltar a subir até aos 1100m para novamente descer. E a subida junto às eólicas que rodopiavam doidas (acho que aquilo deve ter um travão para que parem acima de uma determinada velocidade do vento) tinha, olhando o céu, um cenário extraordinário.


O regresso foi mais ou menos longo mas para o contar de modo breve: foram pedaladas ribombantes e relampejantes. 

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