segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O imenso Açôr sob um céu pardo

Agosto 2017

A paisagem poderia ser a da memória. A memória das cumeadas do Açôr. Dos horizontes longínquos. Mas não, foi o que se podia ver.
Somos peritos a preencher os espaços em branco. Olhamos e o cérebro preenche os espaços que faltam face ao padrão armazenado na memória. Muitas vezes, se distraídos, vemos apenas com a memória. Acontece na leitura e na paisagem. E, chegado a este topo, onde já tantas vezes passei tempo a olhar o horizonte, em dias límpidos e céu azul, seria “normal” que num dia como o de hoje - baço, com horizonte indistinto, montes apagados da paisagem pelo ar baço sob o céu pardo, e tendo na memória o recorte do horizonte que não vejo, o planalto da Estrela para Este, o cume da serra da Lousã para Oeste, o Caramulo para Norte, etc, - a minha memória reconstruísse a paisagem, preenchesse o horizonte. Mas não. Vejo o que me rodeia, sem reconstrução. Estou treinado para isso. Sempre fiz este tipo de jogos. Há anos que o faço. Dá-me gozo fintar a mim próprio, perturbar o cérebro, autoperturbar-se. Por exemplo, trabalhei durante muitos anos num local em que um dos acessos se fazia por um longo corredor com paredes revestidas com azulejos do séc. XVII. Mas não eram as paredes que mais me atraíam. No chão os ladrilhos desenhavam um padrão cúbico cuja tridimensionalidade poderia ser vista de duas maneiras. Quando só, caminhava pelo corredor com os olhos pregados no chão, alternando a visão tridimensional em cada passada. Tique taque, tique taque, tique taque, como nos ponteiros de um relógio, ver de uma maneira, ver de outra, ver de cima, ver de baixo, em cada passada, em cada segundo eu via o chão a três dimensões de duas maneiras distintas a partir do mesmo padrão a duas dimensões.

No Verão volto à serra do Açôr. Ao imenso Açôr. Às pedaladas sob céu azul, azulíssimo em todo o horizonte. Sob calor. À medida que se pedala pelas serranias acima, os braços e as pernas brilham; o suor reflectindo a luz do Sol. Mas, desta vez, o céu é pardo. Do marco geodésico onde estou, a cerca de 1100 m, os contornos das serranias diluem-se na distância. Os incêndios dos últimos dias (a toda a volta: da Lousã, a Vila de Rei, ao Fundão e a Castelo Novo) deixaram o ar pesado, turvo por micropartículas suspensas que apagam a paisagem.



Olho e vejo o que me rodeia. Naturalmente, sem qualquer esforço e sem pensar nisso (penso agora), evito que a memória preencha os espaços em branco. O treino permite-me ver sempre de modo novo. E isto, parecendo uma trivialidade, uma Lapalissada, é incomum.


(em baixo a albufeira da barragem de Sta. Luzia apenas com “uma pinga d’água”)

Pare Este, onde imponente se deveria erguer o planalto central da Estrela,  desenhando a linha do horizonte, há um céu baço.



(paragem para as primeiras amoras. Estas silvas rasteiras a esta altitude carregadas de amoras (à esquerda) é uma coisa nova. Não me lembro de por aqui as ver em anos anteriores)

Para Sul.




Este é o caminho (por assim dizer) que me levará lá abaixo, à barragem.





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