terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Ai tirolé

Serra da Lousã
Janeiro 2018



O cérebro busca o prazer - talvez por isso fazemos palermices, sabendo que, mais tarde, pagaremos as favas.
Um dos elementos do prazer é a beleza. Eu encontro beleza nos fios de água que se metem por entre pedras e folhas e ramos secos e cores e o som das moléculas que colidem com as pedras e os fios de luz que se metem por entre as árvores na floresta húmida e sombria. E etc.

 Os riachos renasceram na serra.









Depois, no mesmo comprimento de onda (da beleza) mas fora de fase (beleza com outras dimensões), há os líquenes, o musgo, as pequenas plantas e etc, em sinergia com as pedras da berma dos caminhos (tudo embrulhado num cheiro orgânico, intenso e húmido).



Para não falar dos insectos que por ali, entre as plantas, vivem.


Para além da cobertura líqueniana e musgofílica, as pedras cobrem-se de véus de água e a refracção da luz na água potencia as cores dos óxidos de ferro, clorofila das algas e outras substâncias (para dar um toque poético a isto).



Há muitos anos - caraças, há quanto tempo!, há quantas voltas ao Sol? - a minha avó ensinou-me uma cantiga.

Canta a calhandra na serra
lá no ar
a cotovia

e à beira do regato
canta o melro ao ver o dia

Ai tirolé
haja alegria
Ai tiroló
o novo dia

A minha avó cantava-a com uma voz aguda, muito limpa. E cantava muito feliz. Eu não a canto (nem me atrevo) mas, por vezes, a cantiga anda às voltas na minha cabeça.

É belíssima. Um dia destes toco-a na flauta de bisel  (ou no sax),  gravo-a e posto-a aqui. Ai tirolé.

2 comentários:

  1. Somos da infância como somos de um país.
    Pertencemos para sempre aos dois.
    Inexoravelmente.

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