terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O céu caiu-me em cima da cabeça

Serra da Lousã
(Janeiro 2018)

Os piores receios dos irredutíveis gauleses, habitantes da única aldeia na Gália que resistia, e sempre, ao invasor romano, aconteceram-me: caiu-me o céu em cima da cabeça. Astérix, Obélix & companhia bem o temiam. Desabou, ribombou, estatelou-se, troou. Um susto do catano.

De início, nas primeiras peladas da subida da serra, a coisa parecia que se ia aguentar. Umas névoas sobre os cumes, talvez uma chuvinha para molhar os lábios, umas rajadas de vento daqui e dali mas não passaria disso. 


À medida que ia ganhando altitude, um véu branco tomava conta da paisagem. Subia e mergulhava, claramente mergulhava, numa finíssima atmosfera, mais líquida que gasosa. Comme d'habitude, as cores atenuaram-se. Isto vai abrir. De certeza que isto vai abrir.



A temperatura descera um bocadinho. Só um bocadinho. Olhei para o vale e vi uma nuvem negra, em disco, que se destacava na paisagem branca e difusa. Sabia. Mais cedo ou mais tarde está aqui. Parei. Ia bem equipado. Aprendi há muitos anos que ir para a serra sem equipamento adequado pode resultar num grande sarilho, sobretudo em pedaladas a solo. Blusão Gore-tex sobre o outro em fleece de aquecimento, cobertura de sapatos em neoprene, luvas impermeáveis, touca corta-vento ... Abotoei-me, comi uma porcaria de uma pasta de frutas cujo prazo de validade estava a acabar, libertei-me de líquidos supérfluos e, estava nisto, quando a luz se desvaneceu e uma chuva intensa, intensíssima começou  cair. Tudo repentino. Não era chuva, era granizo. A nuvem negra era, afinal, de granizo. Pedalei sob aquele temporal, a temperatura tinha caído subitamente, granizo a bater no quadro da bike, um ruído enorme, tá, tá, tá, tá, tá, tá, pedradas no capacete, nos óculos, as bermas da estrada a ficarem brancas com o granizo acumulado em montes. Eu ali a pedalar serra acima. Uma duas, três, pedaladas e outra e que raio estou aqui a fazer. Mas, era apenas uma tempestade. As árvores vergavam sob a ventania infernal, umas para um lado e outras para o outro, ouvi uma ou das a partirem, provocando grandes estalos. Caraças. é perigoso isto, pensei. Volto para trás? Mas a ideia era ir ate lá acima, até à neve. O que faço? Nestas circunstâncias chega-se a um estado de lucidez que se resume na expressão: que se foda! Isto passa, daqui a pouco vem o Sol. É só uma nuvem. Foi então que a coisa aconteceu. De repente, à minha volta, uma luz intensa, uma coisa eléctrica e, logo a seguir, um ribombar. Mesmo em cima de mim, pelo menos assim o percebi. Um relâmpago e um trovão. Só um. Não houve réplicas. Um susto.  Sem saber o que fazer continuei a pedalar. O granizo continuava a fustigar-me. Que se foda! As luvas impermeáveis já há algum tempo que tinham deixado de o ser, o neoprene da cobertura dos sapatos também e, nestas circunstâncias, o pior que se pode fazer é parar. Frio. Nem a subir aquecia.

Olhos no chão, corpo contraído, uma duas, três e mais outra pedalada. Quase a chegar ao planalto, aos mil m de altitude, olhei por entre os óculos e o capacete e vi uma risca de céu azul. Está a passar! a tempestade está a passar. Eu não disse? Daí a pouco já umas réstias de luz do Sol se metiam por entre as nuvens.
Ao chegar ao planalto, meti-me na floresta e encostei a bike. O vento tinha amainado. Havia ainda uns restos do granizo misturado com neve no chão.



Fiquei ali a sacudir-me como um cão molhado. A descontrair. A tentar aquecer. A olhar à volta e a embevecer-me com o que via. O Sol, cada vez mais intenso, a dispersar a luz em milhares de gotas de água penduradas nas folhas e nos ramos, o brilho e os reflexos no chão molhado, as cores dos fetos secos por entre a neblina que evaporava do solo. O granizo e a neve derreteram. Que contraste extraordinário. Tudo mudava à minha volta.



Aqueci um pouco. Antes de voltar à vida normal, ainda dava para ir um pouco mais até cima. Segui em direção ao lado Este da serra. Queria ver as vistas para os lados do Açôr e da Estrela. Imaginava o manto branco a cobrir o maciço central da Estrela. O tempo ora abria, ora fechava um pouco. As neblinas andavam mais lá por baixo, pelo vale. A floresta surgia recortada contra o véu de neblina.




Já perto dos 1200 m, na encosta Este da serra, as brumas que se formavam impediam a visão do Açôr e da Estrela. Provavelmente, estava sózinho em todo o planalto da serra. Num dia de tempestade ninguém se mete para ali. 


Olhei para trás, para Sul. Umas abertas aqui, umas nuvens negras de Norte ali. Uma chuvinha que batia leve, levemente. O granizo parecia ter passado à história.



O resto da história foi descer durante cerca de uma hora e pouco. Estavam cerca de 3 a 4 graus centígrados. Isto queria dizer que a temperatura que sentiria durante a descida a 30 ou 40 km por hora seria negativa, uns 4 ou 6 negativos. O que é curioso é que, nestas circunstâncias, começa-se a descer e não se tem a certeza de que chegaremos ao fim. Vem-se por ali abaixo, mãos no guiador, quase sem capacidade (sensibilidade) para, sequer, calcar as manetes dos travões e coisa vai indo e olhamos fixamente para a frente e tentamos não nos mexer muito. E, apesar de tudo, há uma felicidade que se estatela no rosto e um suspiro que nos foge na respiração.




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