quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Agarrado

Serra da Lousã
(15 de Fevereiro de 2016)


Não era bem um arrepio, era assim mais um ligeiro estremecer, como fazem os cães quando se sacodem mas em versão suave e breve. Comecei a desconfiar. Queres ver? Depois foi a taquicardia. Nada de mais, mas o suficiente para me pôr a andar de um lado para o outro feito um tolo. Aproveitava todas as janelas para olhar para o céu. Algumas nuvens e o azul nítido. Corri as janelas do piso para olhar todos os pontos cardeais e, assim, ter uma visão mais global. Vi azul em todas as janelas. Fui ao lado Nordeste do edifício como quem procura alguém e vi, claramente visto, que esse era o lado de onde vinham as nuvens. Vem aí bom tempo. Quer dizer, pelo menos não vem a invernia dos últimos dias. A coisa começava a tomar contornos. Falava com as pessoas, olhava-as no olhos, ia fazendo uns hum hum e na minha cabeça só via aquele sítio, entre os dois cumes gémeos da serra da Lousã, o Trevim e o St. António da Neve. Dali veria o Açôr e a Estrela. Deveriam estar brancos. A Estrela seguramente. Quando o formigueiro me atingiu as pernas já ia a descer as escadas a caminho do carro. Estava em abstinência, concluí. Tenho que sair, logo à noite acabo de corrigir este texto e de ver o resto do mail.

Conduzi para casa rapidamente a fazer contas às horas de Sol que ainda tinha. Ora, o Sol põe-se às seis, depois temos o lusco-fusco, o que dá mais uma meia hora, embora naquela parte da encosta muito arborizada fique escuro mais cedo, mas em Alfocheira já há luzes da estrada .... se conseguir subir em hora e meia até à Catraia da Ti Joaquina depois talvez em 20 min chegue ao cruzamento para o St. António, o que dá quase duas horas. Já não consigo chegar antes do por-do-Sol.  Cheguei a casa rapidamente, equipei-me rapidamente, uma banana deve chegar, não tenho tempo de calçar as protecções dos sapatos, que se lixe, deixa cá ver se vai tudo, chave? é verdade a chave. Saí desaustinado.
Não me posso distrair. Pedalar devagar para aquecer senão os joelhos daqui a pouco estão a queixar-se e não chego lá. Aquecer bem, depois acelero. Fui pedalando pela serra acima em bom ritmo. Inspirei fundo, foram-se os arrepios e a taquicardia e os formigueiros. O síndrome foi-se.

A ribeira de S. João e os riachos pelas encostas corriam furiosamente. O som era intenso. Árvores partidas, muros caídos, desabamento de terra das encostas, água por todo o lado. A tempestade do fim-de-semana deixara o que as tempestades na serra afinal deixam.

Passei aqui na semana passada e esta era era uma parede tranquila e seca. Hoje está assim:



Pedalava com pressa mas não resisti a parar no Candal para espreitar a ribeira.


Às tantas dei conta que um casal com ar de turista andava por ali a tirar fotografias. Quando ele me viu com o meu telemóvel a tentar apanhar uns ângulos da bike contra as pedras e a água, perguntou: quer que lhe tira uma fotografia? Hã? Quer dizer, pronto, se calhar até é boa ideia, OK, obrigado.


Vamos mas é embora que se faz tarde. Tenho que lá chegar. Lá ao cimo da serra. A vista deve ser magnífica. O céu está razoavelmente limpo e, como choveu, não há poeira na atmosfera para desfocar as montanhas ao longe. Durante a subida quis parar para tirar fotografias aos riachos e às árvores e ao vale para Norte até à serra do Caramulo que se via nitidamente como poucas vezes acontece. O Sol baixo, ao escurecer as encostas orientadas para Oeste, evidenciava o relevo dos montes até ao Caramulo. Não parei. Queria chegar lá acima ainda antes do por-do-Sol e ver a Estrela.

Quando atingi o planalto, depois de ter passado a Catraia da Ti Joaquina, o Sol escondia-se por trás de uma manto de nuvens mas já perto do horizonte, para os lado do mar, para os lados da Figueira da Foz. Parecia uma janela entre as nuvens e a serra.
Aqui estava já um frio que mordia a face e o vento era fortíssimo. Tirar as luvas e o telemóvel do bolso para umas fotografias era já uma manobra difícil. Tirar outras coisas nas paragens tecnicó-fisiológicas era ainda mais difícil, if you know what I mean.
Em cima do ruído das pás dos aerogeradores - que eu conheço bem, parecem camiões a travar - juntava-se um assobio provocado pelo vento a passar nas pás.


Aos mil metros, já com o Trevim à vista, nas zonas onde não tinha batido o Sol havia ainda neve. Na véspera caíra um grande nevão.




Percebia os raios de Sol nas costas a rasar a serra. O Sol está a baixar, o Sol está a baixar, o Sol está a baixar. Aumentei a cadência das pedaladas na subida final pela encosta Este do Trevim. Via lá à frente a cumeada que dá para o outro lado, para Oeste, para o Açôr e para a Estrela. Era ali que queria chegar. São mais 400 m até ao cruzamento para o St. António da Neve. Cheguei, encostei a bike e olhei para o que me trouxe aqui. Tinha antecipado este momento horas atrás, quando estava ainda no trabalho e o síndrome da abstinência batia forte.


O Sol, já raso, iluminava as cumeadas mais altas do Açôr e, sobretudo, o planalto central da Estrela a Oeste e as nuvens que o cobriam. Os vales estavam já na sombra e sob nevoeiro. Isto evidenciava a sucessão de cumeadas em tons variáveis de azul até à Estrela que se encontrava branca.


Devido à camuflagem pelas nuvens, na fotografia não é evidente o planalto da Estrela completamente coberto de neve.


E a última fotografia tirada à pressa ficou à la Magritte


Verifiquei a temperatura: 2 graus C. Com a ventania isto significa uma sensação térmica largamente negativa. A esta temperatura, descer a 30 km/h na bike significa ser exposto a uma sensação térmica real de vários graus C negativos.
Enfiei o balaclava. Cerca de 30 % do calor perde-se pela cabeça. É que, entre outras razões, o cérebro (que é apenas 2% da massa corporal) consome cerca de 20% das nossas reservas energéticas. Um quinto do que comemos é para alimentar o cérebro (e, mesmo assim é uma chatice para alimentar todos os neurónios - mas isto é outra conversa). Esta necessidade pressupõe um sistema vascular que suporte uma irrigação sanguínea eficaz. É a circulação que transporta os substratos energéticos, oxigénio e glucose, para o cérebro. Para tal temos uma rede de vasos um bocadinho extensa. As células do cérebro não podem estar muito afastadas de um vaso sanguíneo, em média não mais do que metade da espessura de um cabelo (50 micrómetros). Os vasos sanguíneos  do cérebro perfazem um total de 160 mil Km. Quanto é isto? Bem, o perímetro do planeta Terra são 40 mil Km. Portanto, 3x9=27 noves fora nada. É só fazer as contas. A vasculatura no cérebro dá para 4 voltas à Terra. Como? Como é que é? O que é que andaste a beber?  Os vasos sanguíneos na minha cabeça ligados uns ao outros têm um comprimento que é 4 vezes superior ao perímetro da Terra? Sim, é isso mesmo.

Felizmente, tinha o meu melhor fatinho. Base layer da Craft e casaco Gore-tex active jacket Alp X2.0 ou, por outras palavras, o casaco. Custou-me uma pipa de massa mas para quem pedala em serranias e montanhas com frequência é um peça de equipamento inesquecível. Parece vulgaríssimo mas faz o equilíbrio impossível: respirável, impermeável e corta-vento. A tecnologia dos polímeros  no seu esplendor aplicada ao desporto.
Para a descida levava como suplente uma jersey de mangas compridas de fleece da Pearl Izumi. O problema foi vesti-la. Quem nunca tentou vestir uma jersey ou um impermeável com frio (as mãos sem grande sensibilidade) e debaixo de uma ventania não sabe do que falo. Enfiamos uma manga e parece que estamos num número de circo a contorcer-nos,  tentando enfiar o braço na outra manga que esvoaça com o vento. Nunca acertamos no buraco, nem sabemos para que lado estamos virados. Já uma vez na serra da estrela tentei vestir um corta-vento para a descida e não consegui. Aquilo esvoaçava por cima da minha cabeça, eu tentava enfiar os braços nas mangas e andava às voltas feito tolo como burro que tenta apanhar a cenoura pendurada à sua frente e que nunca a alcança.

Lá consegui vestir a jersey sem ficar com um torcicolo. O Sol punha-se, faltavam 20 e tal km pela serra abaixo. Olhos na estrada à frente, guiador bem seguro e pernas a dar a dar, sempre a pedalar por ali abaixo. Parei duas vezes para aquecer um pouco as mãos e os pés. Às tantas, vem-se por ali abaixo a 30 e tal Km/h por instinto, esperando que uma pedra ou um ramo não se atravesse no caminho. Cheguei à vila já as luzes dos candeeiros alumiavam as ruas. Mal sentia os dedos das mãos e dos pés.

O fim-de-semana de tempestade com árvores a cair na estrada (a juntar a ameaças familiares de internamento psiquiátrico) tinha-me inibido de ir pedalar para  serra. Na segunda-feira o síndrome bateu forte.

Isto do BTT é pior do que a coca. Fica-se completamente agarrado.

4 comentários:

  1. Este seu relato está o máximo. Lê-se de um fôlego. Partilha-se a sua vontade de ir, o seu esforço, o seu prazer, os riscos. Está muito bem escrito e com um delicioso sentido de humor.

    E aprendo sempre. Quase me fez lembrar o Houellebecq no 'As Partículas Elementares' que, no meio do texto, incluía informação sobre os temas.

    Deve ser, de facto, muito bom fazer esses passeios; e compreende-se o apelo, o 'vício'. E percebe-se também o prazer na escrita, que contagia quem lê.

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    1. Segui a pista do Houellebecq e das Partículas Elementares e fiquei muito interessado. Quando acabar o "Optimista Racional" do Matt Ridley vou ler.
      Felizmente que na descida não me espetei com a bicicleta contra um muro como aconteceu à autora de um blog com textos belíssimos, surpreendentes, sagazes e irónicos.

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    1. E a qualidade do produto é cada vez melhor. Hoje curte-se o carbono quando há pouco tempo se curtia o alumínio. Acho que só a PDI é que vai fazer o desmame :)

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