segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

... podemos discutir isto mais tarde, ao café.

Dezembro 2016


... any further questions?
Já estava farto de estar sentado e, às vezes, passava-me uma aragem pela memória que trazia o aroma ácido dos cedros e a luz pálida a inundar a floresta. Acho que chegava até a abanar a cabeça para sacudir estas memórias, para me concentrar. Não me podia distrair. Centenas de pessoas à minha frente. Sim, mais alguma questão?



Ao fim de 4 dias já andava por ali em privação. Nos "coffee breaks" vinha cá para fora, para junto das árvores, para o Sol, a olhar para as colinas ao longe. Lá dentro, nos anfiteatros, durante as sessões, não soprava o vento, nem disso poderia querer saber, tinha que estar concentrado, tinha que discutir os mecanismos, os processos, fazer e responder a perguntas, mas fora, na passagem por entre os edifícios ladeada por árvores, sentia o vento de Nordeste que agitava as últimas folhas ainda nas árvores que, sob o seu efeito, silenciosamente, como que numa dança, oscilando, tombavam até ao chão. O E. também ajudava: anda comigo lá fora para eu fumar um cigarro. Havia uns muros de pedra ao Sol, sob as árvores com ramos, muitos ramos finos quase nus. Ficávamos por ali à conversa - e como eu gosto conversar com o E. das ideias que brotam da sua cabeça, coisas díspares, aparentemente sem nexo, mas que na articulação das suas palavras  parece terem sido traçadas a regra e esquadro, formando um conjunto harmonioso, como se se afastasse uma cortina para ver para lá da janela, ou como se tivesse uma pintura impressionista a meio palmo do nariz, tudo parecendo manchas caóticas e, à medida que nos afastamos, surge a imagem. Não tenho heróis mas o E. é meu mentor.




Um dia, ao pequeno-almoço, conheci a A., brasileira do Rio. Como? atravessaste os Pirinéus de bike? Sózinha? 900Km em 10 dias? E dizem que eu sou maluco! Mas isso é fantástico. Pois é, você sabe, todo o dia pela manhã vou subindo o morro. Saio às seis e às oito horas já estou de volta viu e então pego um café e vou trabalhá. Mas há floresta no Rio? Claro J., à volta é tudo morro e floresta. Deixa que eu mostro umas fotos p´ra você. Tá vendo, aqui é a floresta da Tijuca, bem no centro da cidade.
Estou convidado para ir subir os morros do Rio de bike com a A. Ela está convidada para vir atravessar o Alentejo (convite aceite quando lhe disse que passamos por herdades onde oferecem pão, queijo e vinho).

Outra sessão ... any further questions ... está na hora .. I am sorry ... temos que terminar, podemos discutir isto mais tarde, ao café.

Num ápice tudo acabou. It was a pleasure, thank you for coming, hasta la vista. Regresso a casa. O congresso acabou.

Domingo, uma semana depois de o ter feito pela última vez, pedalei serra acima. Com fúria. Que força é esta, que força é esta que trago nos braços, que força é esta que, ao contrário da canção, me põe de bem comigo e com quase todos.



A caminho de Cabeço Marigo há poças de água e lama mole e fina. Mesmo após semanas sem chuva há por ali poças água. Quando por lá passo vou na expectativa das pegadas. Um, dois, ou mais? Mãe e filho (às vezes consegue-se pela profundidade, tamanho e disposição das pegadas inferir a história). Tinha por lá passado um há pouco tempo. Deve ter dado um golinho de água e, logo depois, deve ter-se enfiado pela floresta dentro, lá ao fundo.



Eu também me enfiei pela floresta. É um caminho curto, começa sombrio, tantas as árvores de um e outro lado.




depois, vai abrindo,




abrindo,


até se começar a ver ao longe, para lá do vale, no horizonte, a serra do Caramulo. Estive lá no dia 1 de Dezembro, durante o "assalto", a olhar para aqui.


Depois é velejar por ali abaixo até casa. Dezoito Km. Nos primeiros quilómetros transido pelo frio, contraído sobre a bike. Depois, secado o suor, dobrado o cabo das tormentas, é como se fosse uma folha de árvore levada pelo vento.

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