domingo, 5 de março de 2017

O sonho da neve

Nevão em Fevereiro, dia 4, na Serra da Lousã


Eram três da manhã. O friozinho que se meteu pelas frestas das portas acordou-me. A cachorra, deitada à porta do quarto, dormia a sono alto, fazendo ruídos guturais estranhos que denunciavam um sonho, acho eu.  A cachorra seguramente que sonha. Levantei-me ensonado para ir à casa de banho e, enquanto procurava o tapete com os pés para evitar o chão frio, um arrepio levou-me a pensar que lá em cima, no planalto da serra, no Trevim, a neve deveria estar a cair. Não me lembro se me custou a re-entar no sono mas o sonho acordou no meu cérebro paisagens fractais



No sonho pedalava na orla do bosque de Faias aos 1100 m de altitude





Pela manhã, despachei-me rapidamente no mercado. Sim, levo essa dourada. Quanto é? É para amanhar, já cá passo. Laranjas, maçãs de bravo esmolfe, uma molhada de grelos, salsa, figos secos, um cacho de tomates e umas batatinhas novas. A caminho de reaver a dourada já amanhada reparei que a padeira estava sem fila. Óptimo. Uma bolo de Ançã, por favor. Dois euros e meio. E rapidamente para casa que a manhã vai adiantada e tenho duas horas de pedalada até lá cima. Até à neve. Os sonhos não enganam.

Oito graus centígrados. Lá em cima talvez uns 2 ou menos.  Portanto, três camadas: base layer, casaco de fleece de aquecimento e blusão corta vento/impermeável (o casaco). Luvas impermeáveis porque às tantas levo com uma chuvada em cima, ou um nevão.
Pedalei com com pressa. Serra acima. Logo nos primeiros Km, pelo vale da ribeira de S. João, as encostas ainda amarelas. A chuva tinha feito tombar muitas flores das acácias mas muitas outras ainda resistiam.


Amarela aos 300. Estaria branca a serra aos 1000 m?
Na curva do caminho, no cruzamento para a Cerdeira, tem-se a visão do cume. Olhei para cima. Nevado. Estava. Pedalei como um autómato, imaginando o chão da floresta branco, O céu branco. O silêncio.

Uns salpicos de neve começaram a aparecer na berma da estrada.



No cruzamento para o Trevim havia já um chão branco generoso.


A partir daqui o mundo passou a gradientes de preto e branco. Silencioso.  Tão real como no sonho. Isso mesmo: tão real como no sonho. Talvez a neve voltasse a cair.



Mas para um tipo agarrado às árvores como eu, era a floresta, o trilho na floresta que me ocupava  a mente. Mal pude, mais acima, meti-me por lá.



Caraças, não posso pôr os pés no chão. Se os molho, só tornarei a sentir os dedos em casa. O trilho serve de rego por onde a água corre e, por isso, a neve descongelou. Pelo menos esta é uma teoria razoavelmente credível. Segui pelo rego.


Tudo muito belo, tranquilo


O "big foot" da serra da Lousã



A parte final da subida , já acima dos 1100m, foi feita de novo pela estrada. O nevoeiro assapava-se sobre as árvores. O céu baixo. Vivi a infância e parte da adolescência no sopé de uma serra. Os céus baixos e a neblina sobre as árvores são para mim o que o Sol aberto e a maresia são para os pescadores no mar.



Mais um pouco e chegaria ao bosque de Faias. Mas os troncos brancos das Faias estão pretos! Mas são brancos. Mas eu vejo-os pretos. Mas se chegar perto e não tiver a neve como fundo são brancos. O costume, as fintas do cérebro.


Uma paisagem fractal tão real como no sonho



Seguindo a estrada, os últimos km para o cume são em espiral. Quando cheguei ao lado Este, tinha na frente o monte gémeo do Trevim, o St. António da Neve. Mais além veria, caso o dia estivesse limpo, a serra do Açôr e, mais longe ainda, o planalto da serra da Estrela. Mas o céu estava baixo. As únicas montanhas que avistei foram as das nuvens.





Comecei a patinar. Quanto mais força punha no pedal menos andava. Se para cima era assim, para baixo seria difícil controlar a bike. A estrada estava a fechar. Há sempre uma hora para voltar. Faltava 1 km mas com 8% de inclinação numa estrada com neve a bike transformar-se-ia num trenó. Nem todos temos o denodo (para não mencionar uns vegetais vermelhos carnudos e esféricos que fazem um belíssimo arroz a correr e que acompanha muitíssimo bem com carapaus fritos) somos o Bartolomeu Dias. Vamos embora.



Na descida, parei uma vez. Não é fácil tirar as luvas e expor os dedos; tão-pouco expor outras extremidades, por mais denodo que se imprima ao acto.
Nos Km iniciais estava uma  luz baça e branca que desfocava a realidade à minha volta, como nos sonhos.



2 comentários:

  1. UAU! Que lindo. Nunca pedalei na neve, deve ser maravilhoso. Não sei é se me aguento com o frio, chego depressa ao estado de hipotermia :) Um dia talvez

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    1. Claro que consegues :)
      Pisar a neve é que é uma grande gaita. Os pés são a grande preocupação.

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