segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Cabeço da Ortiga e outros cabeços

Abril 2017

Quem vem e atravessa o vale pela estrada da Beira, a mítica EN17, é o Cabeço da Ortiga que se lhe impõe quando, ao longe, olha para a serra da Lousã. Na perpendicular à EN 17, na aproximação à serrra, o cabeço da Ortiga vai enchendo o horizonte, ocupando cada vez mais céu.

O Trevim, o cume da serra da Lousã, esconde-se por detrás da Ortiga. Quer dizer, do vale não se vê o cume da serra. O Ortiga fica aos 930 m de altitude; o Trevim aos 1200m. No vale, a altitude média anda pelos 150 m.

A subia ao cabeço da Ortiga faz-se com a qualquer cabeço; por regra em espiral. É que um cabeço é um cabeço.
No início tentei aproximar-me rapidamente, tentando seguir em linha recta, mais ou menos, perpendicular às curvas de nível, seguindo um caminho que está quase a deixar de o ser. Parei várias vezes para furar por entre acácias caídas no caminho (tentei remover algumas ... eu ali agarrado aos troncos tentando dobrá-los sem sucesso, ele mais forte do que eu, aquilo eram alavancas gigantes, ia-me aleijando, feito parvo ali sózinho no meio da serra a lutar contra acácias) derrapei em cascalheiras e regos feitos por enxurradas de água e um dia destes não há mais caminho. Às tantas apanhei um grande susto; logo ali ao meu lado, no meio da densa mata de pinheiros e acácias jovens um grande reboliço. Senti o bater de cascos com força no chão e vultos a abrir por entre as árvores e os arbustos. Ia numa subida íngreme, a pedalar muito devagar, tentando manter-me em cima da bike e, por isso, seguia silencioso. Só me perceberam quando estava em cima deles. Eriçaram-se-me os pelos. Pelos vistos a eles também. Foi mesmo ao meu lado. Pensei imediatamente: javalis ou veados? Pelo tamanho dos vultos que vi a esgueirarem-se eram uns 3 ou 4 veados. Fiquei mais tranquilo. Passou-se tudo rapidamente. Fiquei ali agarrado à bike, imóvel, ainda com as cabeça às voltas a tentar traçar um plano caso se tratassem de javalis.

Um pouco mais à frente o caminho abriu (o vale também abriu) e transformou-se num belo estradão em cascalheira.


Como eu gosto de pedalar por estes lados. Do lado direito já se avistava a cumeada aos mil metros que leva ao Trevim.


Do lado esquerdo, lá estava ele. A eólica marcava o cabeço da Ortiga.


Iria ainda dar uma grande volta antes de lá chegar,


contornando-o em espiral, e afastando-me para os lados do Trevim, onde as nuvens baixas, de um céu tempestuoso, cobriam o cume


Cheiro intenso, agreste. O vento soprava com vigor.  Ganhando altitude, estava no último troço. Agora era em frente até ao cabeço.


Este não é um cabeço qualquer. É um cabeço com marco geodésico. No cabeço há um afloramento granítico. Umas pedras de granito na serra do xisto.


Quem no vale vier e atravessar a EN17 verá no horizonte a serra da Lousã, verá o cabeço da Ortiga onde estou. Eu sou insignificante visto de lá, do mesmo que quem no vale vier é para mim, que olho o vale imenso à minha frente, insignificante. E, no entanto, eu e quem no vale vier somos as estruturas orgânicas mais complexas que se conhecem no Universo. E o pedaço de Universo dentro da minha cabeça gosta do resto do Universo que vê a volta.




No marco geodésico, olhando no sentido contrário ao vale, vê-se que por detrás deste cabeço há outros cabeço.



Vários cabeços nus com uma coroa de cedros.



E, mais além, no horizonte seguem as serranias



Pouco a pouco, do lado do Trevim, o tempo estava a fechar. O Sol por entre as nuvens incendiava a flor amarela da carqueja nalguns sítios


enquanto que as encostas mais acima, tapadas pelas nuvens, estavam negras. Um contraste belo e perturbador.


Disparei várias vezes o tlm à medida que as sombras das nuvens percorriam as encostas.



Fui-me embora a assapar (a Zappar !!!???). Dos 900 aos 200 m a voar baixinho pelas cascalheiras abaixo.
A Zappar. Nunca aqui coloquei "o" mestre. Lá vai, num concerto em 1979 (... don´t you boys know any nice songs?):






2 comentários:

  1. Todas as fotos mostram a serra no seu melhor, mas adoro as que têm o marco geodésico. Eu, sempre que passo por um nunca deixo de o fotografar :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá GM,
      os marcos geodésicos são como que faróis na serra :)
      (e eu gosto de faróis)

      Eliminar