segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Trezentos e sessenta graus no Picoto da Cebola (serra do Açôr) – o fortíssimo impacto do círculo quase-mais-que-perfeito

Serra do Açôr)
Agosto 2016

Pela manhã, quando o céu começou a clarear e a luz, entrando ainda tímida pelo ‘janêlo’ do quarto (manias de dormir com o janêlo aberto), dava cor às pedras da parede e às tábuas do tecto, entreabri os olhos e, enquanto a consciência voltava devagar à mente e tornava a ser eu, meteram-se-me no corpo as ganas para subir o Adamastor do Açôr. Não antecipo sensações (a respiração ofegante por ali acima, o suor a correr por todas as gelhas e dobras da pele, o Sol lá em cima e o rio lá em baixo, o sopro inesperado do vento e aahh sabe tão bem e logo a seguir mais um derrapanço no cascalho solto, caraças ...), nem faço planos detalhados: abalar de casa (deixa cá ver se não me esqueço dos pães com marmelada), pedalar devagar até à barragem de Sta. Luzia, olhar para as cumeadas lá em cima e ver como estão as coisas, logo a seguir parar na fonte para encher os cantis de água fresca e, a partir daí, começar s subir; isto é tudo o que tenho por certo.

Bom dia! diria o pastor representado aqui na escultura à saída do Cabril



Logo depois, uma cabra tresmalhada e os penedos do Vale Grande por detrás anunciam a barragem



e eu, seguindo o plano, pedalo devagar, tentando que o coração acelere, aumentando o fluxo sanguíneo [excepto no cérebro porque esse é um caso à parte (este é imune aos caprichos do coração e tem que ser assim, mas isso é outra história, uma bela história, aliás, mas seria demasiado longa para contar aqui, o problema da alocação de energia no tempo e sítio – os neurónios activos – certos; é que os vasos sanguíneos no cérebro têm uma intimidade, ou melhor, uma cumplicidade com as células vizinhas que não existe em nenhum outro órgão)], a lubrificar os mecanismos de ligação e libertação do oxigénio à  hemoglobina, optimizando a sigmóide que descreve a ligação, acidificando ligeiramente os músculos das pernas e pondo em acção o 2,3-difosfoglicerato. Por outras palavras, respirar fundo, ver a paisagem e inebriar-me com os aromas da manhã, pedalando nas calmas.



Do lado de lá dos penedos, a barragem. Mil vezes que passe, mil vezes me espanto.
Na linha do horizonte, ao fundo, a serra da Cebola com 3 picos. O pico do meio é o meu destino, o Picoto da Cebola (1400 m de altitude e ponto mais alto da serra da serra do Açôr) – o Adamastor do Açôr.



Tivesse eu chegado aqui ao entardecer e não pela manhã e a visão do Adamastor teria sido outra. Esta:





Cá de cima, dos penedos, é isto!


Com a água fresca da fonte (nos cantis) a correr garganta abaixo e o sangue bem quente a correr rapidamente por onde tem que correr fui-me aproximando do Adamastor. Por vezes, nos vales desaparecia da vista para reaparecer na curva da estrada quando chegava a algum topo.
Sobre a Malhada do Rei (onde caí há uns anos atrás e parti a clavícula) e lá está ele



É curioso que a distância às vezes intimida mas, para usar um lugar-comum, todo o caminho começa com a primeira pedalada, como que num ritual, encaixa-se o sapato no pedal, ouve-se o som do ‘cleat’ metálico a encaixar, click, e é um som familiar, motivador, é o som de partida, do início da viagem, click, encaixa-se o segundo pé, depois segura-se o guiador, olha-se em frente e vamos lá, segue-se outra, que se segue de mais outra pedalada e assim sucessivamente. É assim que se percorre o espaço entre dois pontos; onde estamos e onde queremos ir.  É, no fundo, apenas aritmética; 1 mais 1 igual a 2, 2 mais 1 igual a 3 e já estamos 3 vezes mais afastados do ponto inicial.

Muitas pedaladas depois, parei. Estava já na subida do picoto da Cebola. Desta vez comecei pelo lado da Covanca. É a subida mais curta: 3 km com uma inclinação média de 13,3 %. Um estradão arranjado, onde se pode ir de jipe 4x4. Mas a maior dificuldade são as mini-lombas contínuas e a gravilha solta que dificulta a tracção. Outra particularidade da subida é que a inclinação vai aumentando à medida que se sobe. De resto, estamos com o planalto da Estrela aos 2000 m no horizonte, o rio Ceira jovem cá muito em baixo, no vale, estamos sobre os falcões e outras rapinas que por ali pairam, vendo-as por cima, vendo também as cumeadas de eólicas por cima.



Olhei para trás. Tudo abaixo de nós excepto o céu. E pouco mais há a dizer.

Depois ... cheguei.

Chegar ali, ao cimo do Adamastor do Açôr, é tranquilizador, chego sem euforias, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Num processo de feedback comigo próprio quase que me surpreendo com esta sensação. Não deveria estar eufórico e gritar: chegueeeeiiiiiiii? Não, chego como se sempre o tivesse feito.

Gosto de olhar o planalto da Estrela ali à minha frente. E gosto da minha ‘jersey’ com o prisma que dispersa a luz branca! (the lunatic is on the grass - Pink Floyd, Dark side of the moon).



Não há mais caminho por onde subir; é quase uma decepção.



Daqui, diz-se, avista-se cerca de um terço do território nacional. Desde a serra da Estrela e Espanha a Este até à Serra da Lousã e o mar a Oeste. Esta é a imponente cordilheira montanhosa que atravessa Portugal ao centro (Estrela-Açôr-Lousã). Desde o Caramulo e Montejunto a Norte até sei lá onde a Sul.

180 graus para Sul


180 graus para Norte



Círculo quase-mais-que-perfeito: trezentos e sessenta graus no picoto da Cebola.
Começa e termina a Este, com a visão imponente do maciço granítico da Estrela (o dedo no final indica-o). Na direcção Sudoeste fiz uma ampliação para se ver a barragem de Sta. Luzia, de onde parti e para onde regressarei.

A luz intensa disfarça contornos, anula os perfis das cumeadas, torna indistinto o horizonte mas ... é o que há.



Este: a Estrela, granítica, majestática, fria, dominante, quase.



Sul: nariz e serranias que nunca mais acabam.



Sul, outra vez: a barragem de Sta. Luzia, de onde vim, ao fundo e ao centro.



Norte: a cumeada de S. Pedro do Açôr (irei lá um dia destes), o Caramulo, indistinto no horizonte, por detrás e, mais ainda, outras serranias a Norte (Montejunto?) que mal se distinguem na luz imensa que banha o vale a olho nu e que na fotografia ficam ausentes.



Oeste: já a descer e a Serra da Lousã na linha do horizonte.
Aqui as linhas são oblíquas e isto pode acusar estranheza dado que o padrão do dia-a-dia nas vilas e cidades é constituído por linhas horizontais e verticais. Este é um aspecto central da paisagem.
Ainda hei-de desenvolver esta teoria: “de como as perspectivas oblíquas e em fuga nos perturbam os padrões espaciais da experiência comum”.
Ou: “prospectos para os estudo da perturbação espacial conducente à apreciação estética da paisagem”.
Ou: “afinal o seu cérebro não é infalível e surpreende-se com linhas oblíquas com laivos fractais



Descido o Adamastor, ter estado lá em cima é já passado e life goes on. Agora, há que apanhar a linha das eólicas, além à esquerda, que me levará à barragem.



A barragem anuncia o fim das pedaladas. Dali ao Cabril é um pulo.



Embora, bem vistas as coisas, a chegada e a partida permutem. Quer dizer, fui da barragem ao Adamastor mas isso foi pela manhã, agora, à tarde, venho do Adamastor para a barragem. Cheguei à partida e, portanto, como em quase tudo, do infinitamente grande ao infinitamente pequeno, as extremidades tocam-se.

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