segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O chão

Serra da Lousã
(Julho 2016)

O chão das últimas peladas de Julho.

Não é óbvio para quem não anda de bike pela serra e pelos montes, mas olhar para o chão é uma parte substancial da paisagem que se vê enquanto se pedala. Sobretudo a subir por caminhos difíceis e íngremes na serra. E há "chãos" muito bonitos, pequenos arbustos e ervas, frutos, terra e pedras de várias cores, formigueiros, animais rastejantes e borboletas que levantam vôo à nossa passagem, pequenos fios e poças de água, líquenes, excrementos de animais, ramos e folhas de texturas e cores diversas, pegadas de animais cuja identidade tentamos perceber (veado ou javali? raposa ou gineta?) e ali vamos nós a pedalar, muitas vezes em esforço, até que um ruído, um som que mal se ouve, um movimento, um odor intenso, um brilho, um susto, qualquer outra coisa, nos tira (pelo menos isto acontece comigo) daquele feitiço (quase que se fica enfeitiçado a olhar o chão que vai passando debaixo da roda) e olhamos em frente. Quando se olha em frente é como se acordássemos estremunhados e tentássemos perceber o que se passa, onde estamos (um animal que se atravessa  no caminho, será chuva será gente ...). Outras vezes, sobretudo nas cumeadas com amplos horizontes, é como se abríssemos uma janela.

Fotografei o chão das pedaladas de Domingo passado. "Chãos" muito distintos.

No cimo da serra enfiei-me por um chão agreste, a corta-mato, com tojos e pequenas pedras de xisto pontiagudas, e pequenos tufos de flores vermelhas, também elas agrestes e rudes. É um chão familiar nas serras da Lousã e do Açôr


olhamos para o lado e percebe-se a distância, não há susto e, muitas vezes, há um sentimento forte de solidão


Foi um chão que se prolongou durante as pedaladas de Domingo


enquanto andei lá por cima, aos 900 m,




até apanhar outro chão, um chão traiçoeiro, pálido, de que não gosto, onde facilmente derrapa a roda da frente


mas que me leva rapidamente, a grande velocidade, a olhar para a frente, sem olhar para o chão !!!
O chão dos estradões dos gigantes (os aerogeradores)


Lá ao fundo, na base do monte pejado de areogeradores, na floresta que daqui se vê do lado direito, fica o próximo chão que irei pisar. Um chão doce, atapetado com ervas aparentemente frágeis que fazem cócegas nas pernas


sobretudo nos sítios onde não há carreiro


É um dos caminhos em que é um deslumbre olhar em frente quando nos distraímos a olhar o chão durante algum tempo.


Mais à frente, ainda neste caminho, li o chão: veados


fui pedalando, tentando, qual rafeiro, sentir algum aroma intenso a animal. Mas logo também um pouco mais à frente, na beira do caminho, umas ervas pisadas, fazendo um carreiro


encostei a bike e fui espreitar. Um charco de água ali à beira da floresta, junto ao caminho


na lama das margens, lá estavam os cascos bem marcados. Eles tinham vindo ali beber


Olhando da orla da floresta à volta: tudo calmo.


Segui o caminho marcado ao centro com a fila das EAFQFCNP (ervas aparentemente frágeis que fazem cócegas nas pernas)


mas, logo depois, o chão transforma-se, empinado, duro, uma cascalheira.


Ainda antes de entrar na floresta para os lados do Espinheiro, o chão revelou a passagem de uma raposa (parece que há um café, considerado um dos melhores do mundo, que é feito exclusivamente com grãos apanhados nos excrementos dos animais - os animais comem o fruto mas não digerem o caroço que é excretado - mas estes são provavelmente de cereja).


Esperava-me ainda o chão da floresta, rugoso e nu no início


para logo depois começar a ficar macio


ondulado


e se atapetar de folhas



e de mil outras coisas


até de luz.



Às tantas, olha-se em frente e chega-se ao caminho


que corta a floresta e que desagua no grande planalto


onde, um chão mole


me vai levar ao Pessegueiro, ao planalto do prado magnífico onde os veados (segundo me dizem as pessoas da aldeia próxima) se reúnem à noite no Verão,


e dali para a Lousã, a grande velocidade.
Mas, às tantas, na curva do caminho, a virar para o vale da ribeira da Fórnea, 3 corços muito jovens. Nunca os vi tão jovens e sozinhos. Ficaram sem saber o que fazer. Eu parei, quase que travava em cima deles, eles atrapalharam-se, correndo um para cada lado mas, ao mesmo tempo, tentando ficar juntos. Deu tempo para tirar o telemóvel do bolso traseiro, abrir a carteira onde o trago (ah pois que aquilo custa uma pipa de massa), desbloquear, selecionar fotografia e disparar. Ainda os apanhei, embora já um pouco longe. Lá estão dois, um à esquerda, correndo em frente e outro do lado direito a dar um salto


ali


Subiram pelo lado direito. Quando passei ainda ouvi um restolhar; seguramente andava por ali a mãe.

Foram muitos "chãos" para uma pedaladas curtas. Faltava ainda o chão húmido


do vale que, rapidamente, me levaria à Vila, além, do lado de lá dos pinheiros.






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