segunda-feira, 5 de setembro de 2016

As linhas rectas da água

Serra do Açôr
(Barragem de Sta. Luzia, Agosto 2016)

Não é só a cor ou o ondular (aquela dinâmica sensual das ondas ...).

(barragem de  Sta. Luzia e ao fundo, na linha do horizonte, a Torre, serra da Estrela)

É também a substância, o estado físico, a fluidez.

(a moldura aqui é o picoto da Cebola e a serra da Estrela, a imponente cordilheira no centro de Portugal)

Podemos penetrar a água,  sentir a resistência suave e o arrepio na pele (... isto está a ficar um pouco NSFW.) Podemos encher as mãos de água que, depois, corre para o chão. O estado líquido é um fascínio mas é tão vulgar que não damos conta da singularidade da água. A água é uma substância extraordinária. Há a água da chuva, a de Verão e a de Inverno, e a água do mar e dos rios e dos lagos e dos fios de água que corre na floresta, e das fontes ... e há as gotas de água nas folhas das plantas e nos vidros das janelas ... e o som da água. A água ondula e a água corre.

E, já agora, the river, pelo Boss



E há o que está debaixo da água. A água às vezes é uma cortina que se abre quando se passa, quer dize se evapora ou corre para outro lado.



Às tantas há uma raiz biológica para o fascínio, a beleza, a atracção que a água exerce sobre nós.  Há uma teoria que postula que o crescimento e complexidade do cérebro (que nos separou de outros primatas não humanos vivendo em florestas),  se deveu à deslocação dos nossos antepassados para orlas marítimas (deixando para trás os nossos primos símios nas florestas a saltar de ramo em ramo) com a consequente dieta rica em peixe (e, logo  em ácidos gordos polinsaturados omega 3, críticos à estrutura e funcionamento do cérebro). O cérebro é, curiosamente, o órgão "mais gordo" do nosso organismo.

Desde o início da aventura da nossa espécie que, pelos vistos, gostamos de estar sentados na doca a ver os barcos passar

(Otis Redding, (sitting on) The dock of the bay)

Pronto, está bem, já se sabe que sem água não conseguimos sobreviver (basta ver que a NASA busca água noutros locais no Universo fora da Terra como sinal de vida) e, também por isso, a maior parte da população mundial vive perto de água (oceanos, mares, rios, lagos ,…). Mas, …. e a beleza. Pode ser apenas um mecanismo de “recompensa” no cérebro proporcionado pelo bem estar de (depois de termos evoluído junto à água) nos encontrarmos junto à água?

(O Adamastor do Açôr - picoto da Cebola )

Para desconversar sobre a beleza e o fascínio acho que há ainda um elemento mais subjectivo, de natureza mais “plástica”: a simetria das linhas da água. E a simetria é uma das condições para a existência de uma beleza objectiva (ao contrário da tese de que a beleza está nos olhos de quem vê). Na face das pessoas é óbvio a ligação entre a simetria e a beleza, para citar o exemplo mais comum. As linhas rectas da superfície da água (rios, lagos e mares) contrastam com a geometria fractal óbvia, as curvas, a aparente irregularidade da paisagem à volta dos rios, lagos e mares. Pronto fica teoria. Ficava para aqui a escrever mais umas páginas sobre isto quando o que queria ,quando iniciei este post, era mostrar  umas fotografias.

(ao centro, na linha do horizonte, a Torre a 2000m de altitude)

Para acabar, um “slow”: many rivers to cross de Jimmy Cliff (o mesmo do anúncio fantástico do nescafé: a falésia, ao nascer do Sol, ela chega de carocha, as luzes apagam-se, há um suspiro e, pouco depois, com a caneca de café entre as mãos e I can see clearly now, the rain is gone. Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=sWnTWNDPTJo)



Daqueles slows de bailes de garagem. A pele ao rubro, a luz ténue, o coração aos saltos, o suor (a água que corre?), o aproximar lento dos corpos, quentes, o tocar, o sentir a respiração próxima, ao ouvido, a cabeça que cai e as mãos que percorriam montes e vales, explorando, atrevendo-se … quantos rios para atravessar!

Sem comentários:

Enviar um comentário