terça-feira, 13 de setembro de 2016

De S. Pedro do Açôr ao Gondufo e as leis da Física

Serra do Açôr
(Agosto 2016)

São meia dúzia de km entre dois Gigantes, o S. Pedro e o Gondufo.  Mas a distância pouco importa como medida das pedaladas. A Física diz-nos que o aumento da velocidade leva à dilatação do tempo: Quanto mais rápido mais lentamente passa o tempo. Aqui nas serranias, as pedaladas contradizem a Física: quanto mais lento mais rapidamente passa o tempo !!!:)
É um ar que se lhe dá!

Este percurso, é a parte alta da espinha dorsal montanhosa que se ergue a meio de Portugal. Os 1200m de altitude fazem rarear ligeiramente, só ligeiramente o oxigénio, o Sol, quando há Sol, ainda há 2 ou 3 dias atrás passei por aqui envolto em chuva e nevoeiro, mete-se pela pele como calor, e a luz inunda os vales, e vai-se por ali como que a velejar sobre as aldeias do lado Norte, Piodão, Chãs de Égua ..., o Gondufo lá à frente, por detrás, a Estrela. Olhamos para onde?  Para  esquerda, para Norte? Lá está o terceiro gigantes do Açor, o Colcurinho


Para a frente? O Gondufo e a Estrela. E o tempo passa. Ao fundo vejo o caminho que serpenteia pelo Gondufo acima. É lá que tenho que passar. Mas não é um objectivo. Hei-de lá passar mas até lá muitas pedras hão-de rolar por debaixo das rodas da bike, muitos aromas resinosos e aromáticos me hão-de entrar pelo nariz, muitas descargas de dopamina no meu cérebro irão transformar o olhar à volta em prazer e, provavelmente, comerei ainda uma banana.
E o tempo passa.



Go!


Ali, neste vale, aos pés do Picoto da Cebola,  o Adamastor do Açôr, nasce o rio Ceira



Num berço verde. Fico para ali a olhar e o tempo passa.



Já a subir o Gondufo, abre-se a paisagem para Sudeste. Um colecção de serranias vistas de cima que intensifica a sensação de velejar na serra em isolamento.


Contornado o Gondufo, nunca se está preparado para levar com isto



Olha-se ao longe e ao perto, a sensação de estar só é muito intensa, e são necessários uns minutos para recuperar do impacto, do extraordinário encantamento. Mas estou ali como se estivesse em casa.




 Nunca sei ao certo quanto tempo fico nestes locais. Mas nestas alturas a teoria da relatividade geral não se aplica.  Há depois um momento em que, às tantas, começamos a pensar nas rotinas, e que há alguém à espera e há horas de almoço e  de jantar e coisas para fazer e por aí fora. A seta do tempo (irreversível) atinge-nos então com força. Tenho tempo de ir até lá abaixo e voltar, dou a volta por ali, volto já para trás ou ...?

Ainda me atrevi a descer um pouco mas percebi que a subida pela cascalheira iria levar-me muito tempo


Finalmente, fiz o que estava a adiar: olhei para trás. E vi daqui o caminho a serpentear de onde tinha visto o caminho onde agora estou. À direita, com o marco geodésico a encimar o cone, o S. Pedro do Açôr, para onde vou e, à esquerda, o Adamastor (picoto da Cebola).



Go?



Mas, voltando atrás, é como se iniciasse um novo caminho. Tudo parece novo. E, de facto, é. É a ideia de voltar atrás que muitos vezes tolda a visão, adormece o cérebro, impedindo-o de ver. Mete-se a ideia na cabeça como se metêssemos a cabeça numa nuvem.






A passar sobre o Piodão, lá em baixo


E a chegada ao S. Pedro do Açôr


Com o Adamastor nas costas


O tempo passou rapidamente. Para mais, os Físicos parece que resolveram já a controvérsia sobre  irreversibilidade do tempo. É que a distribuição de massa e carga no núcleo dos átomos é assimétrica (em forma de pêra rocha) e, logo, dizem eles (como é que se entende este"logo"?), tal observação indica a irreversibilidade do tempo.

Lembrei-me agora de um tipo que me encheu tardes e noites de música e que um dia encetou um percurso religioso inesperado. Por preconceito, deixei de o ouvir. Como é que podia ouvir a música de um tipo que apoiava a fatwa sobre Salman Rushdie?  Mas, volta e meia, algumas das suas músicas acordam na minha memória. Esta é uma delas:




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