quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Lousã by night ou a véspera das pedaladas ou o big foot

Dezembro 2018


A véspera de pedaladas. Noite de lobos, como se dizia na minha terra; fria, nevoeiro cerrado, silenciosa, vultos que passam fugazes. Antigamente, contou-me o meu pai, nestas noites os lobos desciam à aldeia à procura de galinhas e coelhos. É que, nas casas, o piso térreo, a loja, era para os animais, ferramentas e alimentos a preservar durante todo o ano (batata, frutas ...). As pessoas viviam no piso por cima da loja e o acesso era feito por um balcão de pedra lateral à loja.

Hoje não há lobos. Encontrarei, provavelmente, gatos e talvez um cão vadio.

(soundtrack para o post - clicar nos dois vídeos em simultâneo, neste e no seguinte)



O passeio começa cinematográfico com a walk in the park.


Um belo parque. Hoje um belo parque sob nevoeiro. Um belo parque deserto sob nevoeiro. O coreto, ao fundo, faz a ligação para o auditório ao ar livre.



Passo a passo, passo nas ruas desertas.




O nevoeiro condensado nas pedras da calçada. As sombras da noite, formando ângulos novos desconhecidos durante o dia. Agora que penso nisto, de facto, esta é uma razão para a novidade (fascínio?) que a paisagem nocturna traz. É que as sombras da noite resultantes da posição relativa dos candeeiros, muito diferente da do Sol durante o dia, transformam a paisagem. Durante o dia a luz não vem do chão.







Às tantas, ouvi um som, como que uma respiração forçada, de aflição. Um susto. Olhei repentinamente para trás, telemóvel na mão pronto a disparar a fotografia e, tal como o Lucky Luke, a sombra foi mais rápida que a minha mão. Um vulto vindo não sei donde desapareceu antes de ter tido tempo para lhe desejar boa noite. Era, sem dúvida, o Big Foot da serra da Lousã. Nas noites de lobos sem lobos, o Big Foot desce à vila. Era a noite do Big Foot.


Passei junto ao pelourinho ainda em sobressalto. Comecei a ter visões de lobos do Ártico.


E, por falar em pelourinho, um parêntesis na noite para o mostrar à luz do Sol. Tem face de Janus em duplicado. Esperava-se de um pelourinho o aspecto austero. Nesse domínio não desilude mas o aspecto fálico remete para uma interpretação mais elaborada e este, obviamente, é um blog sobre bicicletas.


(mission accomplished, madame Antoinette)



Fechei o círculo, regressando ao parque onde tinha começado o passeio.
Na sociedade do conhecimento, numa época digital estas placas têm histórias para contar. Muitos turistas chegam de carro à Lousã com interesse nas aldeias serranas, as aldeias do xisto. Chegam ali ao inicio da estrada das serra onde estão as placas. Lá está indicado: aldeias serranas. No entanto, nove em cada dez viram para o outro lado, metem-se por becos e quelhas (bem o sei porque me passam à porta) onde mal cabe o carro, alguns voltam atrás, outros param e perguntam: olhe fáxavor, para a serra, para as aldeias? É lá mais abaixo, estão lá umas placas a indicar o caminho. Pois, nós vimos mas o GPS mandou-nos para aqui!
Muita gente esquece-se que a utilização da tecnologia requer, como em tudo, uma overview (to say the least) pelo nosso cérebro. De outro modo a utilização da tecnologia passa a ter um carácter dogmático (como se fosse uma religião). E os utilizadores a meros espectadores e não actores do filme.




Entrei. Então, ouvi uma algazarra. Vozes animadas, as únicas que ouvi em todo o passeio. Um grupo de adolescentes entrou no parque e, após terem passado por mim (como raposa por vinha vindimada), gritei: abram os braços, vou tirar-vos uma fotografia. A adesão a meu repto foi o que se vê. Ainda pensei avisá-los sobre o Big Foot mas, pensando bem, a personagem além de inofensiva não existe.


No instante seguinte, tinham desaparecido no nevoeiro.


Fiquei por ali uns instantes. Os plátanos podados a lembrar as "Joshua trees" do Joshua Tree Park, os ramos, como se fossem braços, a indicar o caminho: vinde, vinde este é o caminho para o paraíso!



Horas de ir para casa. Daqui a pouco deixa de ser véspera. No caminho passei pela estrada onde, amanhã, irei iniciar a subida da serra.




A caminho de casa vi um gato. Esguio e em corrida rapidamente se esgueirou por entre as sombras. Às vezes, iniciam a corrida, depois param, ficam quietos a olhar-me e, depois, retomam a fuga. Interessante. Ficam ali a fazer contas de cabeça. Ouvi também um bater de asas. Olhei à volta mas apenas o mesmo silêncio abafado e as luzes difusas, nada mais.




O dia das pedaladas veio branco. O cume da serra a espreitar por cima do nevoeiro que cobria o vale lembrava pinturas em biombos japoneses. Mas este é o dia a seguir à véspera e já não faz parte deste post.




13 comentários:

  1. Thank you, Lieutenant John L. Dunbar!
    Thank you, Two Socks!
    Thank you for the beautiful music, Mr. John Barry!

    E agora pergunto:
    Que fiz eu para merecer uma surpresa destas?

    "Nothing comes from nothing,
    Nothing ever could,
    So somewhere in my youth or childhood,
    I must have done something good."

    A walk in the Park, not Barefoot in the Park?
    Humm, no inverno não seria apropriado...
    Esse Parque é lindo, só o conheço pela net e de dia.
    Quanto ao pelourinho, a francesa adorou e diz que perdeu a cabeça outra vez (já é sina!). Ela nunca seria capaz de tirar umas fotografias assim.
    E aos pés do pelourinho by night, será que é a cachorra que sonha?
    Se for, um thank you para ela pela pose:)
    Maria

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    1. É sim Senhora, um belo parque. Simples e belo. Fica logo no início da subida para a serra. Tem um coreto, um anfiteatro ao ar livre e, na zona adjacente, uma piscina ao ar livre. Tem também um café e um parque infantil. Tudo com utilização (e usufruto pelas pessoas da terra) e tudo cuidado (excepto daquela vez em que lá montaram um palco para umas apresentadoras do jet7 da televisão que vieram cá fazer a apresentação não se de quê).
      A música de John Barry flui muito bem por ali, por entre os plátanos, em noites neblínicas.
      João

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  2. Bom dia, João!

    10,15h.
    The sun is shining!
    Comecei agora a ouvir os Encontros Imediatos na Antena 1, que abriu com o Perfect Day, do Lou Reed.
    Nem vou dizer as muitas coisas de que me lembrei ao ouvi-la.
    Uma delas, for sure, foi desejar-lhe um Perfect Day.
    E aqui fica o desejo.
    :) Maria




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  3. "Vinde, vinde, este é o caminho para o paraíso!"
    Lembrei-me do "Come to my Arms" do Nick Cave. Ouvi-a há dias e não consigo parar de a cantarolar.

    O João tem noção da beleza das suas fotografias, não tem?
    As #12, 13 e 14 são as minhas preferidas (tirando as do pelourinho, claro).
    Pena o gato não ter ficado ali parado a fazer contas de cabeça... teve medo do Big Foot, for sure. ;)
    Maria

    PS. E a música do John Barry flui, flui e entranha-se de tal maneira no nevoeiro (e na pele) que vai ser difícil sair.
    Se esta já era uma das minhas ost favoritas, imagine agora...
    How can I ever thank you?

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    1. Olá Maria,
      busy days e de um lado para o outro o dia todo impediram-me de vir aqui retribuir a perfect day a tempo e horas. Obrigado. E aproveito para lhe desejar já hoje um perfect day para a manhã

      Dei conta que estava a sorrir ao ler o seu último comentário. Still am :)
      Posto aqui as fotografias de que gosto. Bem, nem sempre, é que às vezes ponho aqui algumas apenas para mostrar coisas que acho interessantes. Outras vezes resultam de histórias ou montagens sem jeito mas que fiz com entusiasmo. Tenho aí umas que tirei há dias ao por-do-Sol e que estão tão kitsch que até lhes acho piada. Acho que as vou postar e chamar "calendários de garagem" ;)

      Pois é, eu também acho que a música do John Barry flui por ali, dissipando-se no nevoeiro.

      João

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    2. Come on João, ponha lá, sou kitsch enough para adorar fotografias kitsch do por-do-sol (isto supondo que é possível o João fazer fotografias kitsch...).

      Calendários de garagem?
      Engraçado, quando levo o carro à garagem os calendários que vejo por lá são um pouco diferentes, assim mais ao estilo da Norma Jean Baker (who was found in the nude, segundo o Elton John).
      Maria

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    3. Que garagens estranhas, essas onde leva o carro. As que eu frequento têm posters do por-do-sol em praias paradisíacas e com palavras de auto-ajuda inscritas. Coisas assim: "sorria, os seus problemas parecerão menos negros que o óleo que nos suja as mãos" ;)
      João

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    4. São garagens de aldeia, João.
      E os calendários costumam ter umas meninas em lingerie :)
      Mas o mecânico é bom e leva barato...
      Não se pode ter tudo!
      Maria

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  4. E por falar em garagens (not Joe's Garage), desta vez não vou ver os artístico-criativos calendários, o "Joe" é que tem de vir cá ver o que se passa com o meu "bólide" ;)
    Ontem quande cheguei, aquela coisa (ia a dizer outra palavra) começou a deitar muito fumo do capot, e eu à espera que aquilo explodisse...
    Não explodiu!
    Mas nem me atrevo a meter a chave na ignição.
    Enfim é mais um worryzito para ver se mantenho a cabecinha ocupada, não é Doc?
    Mas hoje está um heavy fog e um freezing cold do caraças, vou esquecer o assunto.
    Amanhã ligo para o mecânico.
    Tomorrow is another day!
    Maria

    A serra deve estar linda, e talvez neve por aí.
    Boas pedaladas, João!



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    1. E eu com ironias acerca de garagens! Nalgumas que eu conheço as meninas nem lingerie usam. Aliás, os calendários fazem parte do pacote quando os mecânicos compram ferramenta e peças; são as próprias empresas que fornecem este material que oferecem estes calendários.
      Pela descrição da ocorrência (fumo no capotar ...), acho uma excelente ideia chamar o Joe aí da sua garagem. Uma coisa simples que pode fazer de vez em quando é levantar o capot e verificar se os reservatórios (óleo, água de refrigeração ...) estão cheios.

      A serra, habitualmente húmida, está seca e fria. Ontem, pela manhãzinha, consegui uma escapadela (embalado por conselhos sábios: "ai que prazer não cumprir um dever") e fui ao cimo da serra. Avistei o Açor e a Estrela que sobressaiam sobre os vales cobertos com uma levíssima neblina. Tirei uma fotografia e vim embora. Havia uma tranquilidade pouco habitual, nem vento, nem vultos por entre as árvores, muito menos pessoas ou carros, apenas umas poucas aves ... as cores desmaiadas pela luz coada por nuvens altas ...
      E, no entanto, presencie um acontecimento invulgar. Quando cheguei ao cume percebi que num cabeço sobranceiro ao vale, um pouco mais abaixo, estava um carro estacionado e percebi um vulto sentado nas pedras. Estive por ali algum tempo e o vulto permaneceu imóvel. Tinha pensado descer por ali, pelo estradão ao lado do local onde ele estava. Decidi não o fazer; tive receio de perturbar o que me parecia um momento de contemplação.
      João

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  5. Sim, João, eu fazia sempre isso, e via o nível do óleo e tudo, até o manípulo (não sei se é este o nome) para levantar o capot se ter partido. Agora só o "Joe" consegue fazer isso.
    Ontem houve um aqui um funeral (é sempre triste e com chuva ainda é mais), por isso não o chamei.
    E também estou com medo do diagnóstico.

    E o João fez bem não perturbar essa pessoa solitária. Quem vai para um sítio assim é porque precisa mesmo de estar sozinho...

    Boa Quinta!
    Maria

    Estou à espera dos sunsets de garagem, ok?

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  6. Obrigado. Um bom dia também para si Maria.

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  7. Olá João,

    O Joe lá levou o carrito.
    E parece que é grave, vai ter que desmontar não sei o quê para tentar descobrir não sei que mais.
    Called Houston, Major Tom and even Santiago, but there's nothing they can do!
    Quem te manda morar numa aldeia, Mariô?
    Chama lá mas é um daqueles carros "verdes por cima e pretos por baixo", que também precisam de ganhar a vida ;) isto se quiseres comer, se bem que uma dietazita não te faria mal nenhum... ah pois, mas a tua mãe está magrinha.
    Ok vou tentar inspirar o Joe para ele descobrir a avaria.
    Fim (em aberto).

    Lembra-se desta, João?

    "Que helada que está esta casa
    Será que está cerca del rio
    O es que estamos en invierno
    Y estan llegando los frios"

    Bom fds!
    Maria (a bater o dente)

    Começou agora a chover!

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