terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Os poços de neve na Serra da Lousã

Novembro 2015
(Serra da Lousã)

Os poços de neve ou os neveiros do Coentral. Na wikipédia aqui e aqui.

O Coentral fica ali (fotografias já postadas noutra pedaladas a propósito de amarelo e outras cores).


entalado no vale que vem lá de baixo, de Castanheira de Pêra (fotografia de Abril 2015), e que termina no Coentral, no sopé do St. António da Neve.

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Os poços ficam lá em cima, sobre o Coentral (à esquerda no pico com as antenas), no St. António da Neve (fotografia de Abril 2015).


Na curva do caminho, aos 1000 m de altitude, avistei pela primeira vez o St. António da Neve, por entre as árvores


O St. António da Neve tem um pico gémeo na Serra da Lousã, o Trevim. Este, o Trevim (à direita com as antenas), é de facto o ponto mais alto da serra com 1200 m. O St. António fica-se pelo 1100 e tal.


À chegada ao planalto é óbvia a visão dos gémeos;  o Trevim à esquerda e o St. António á direita


Daqui, do planalto, o plano era contornar o Trevim pelo lado Sul e subir o St. António. Mais pedalada menos pedalada e objectivo à vista. Isto dantes eram uns caminhos maçã amanhados mas agora, por causa das excursões de jipes (4x4) que proliferaram na serra, aplanaram o estradão.


O St. António da Neve pela frente


e o Trevim pelas costas


Os poços da neve são uns poços para neve. Os poços cavados no chão para aí com uns 5 m de diâmetro e mais do que isso de profundidade são encimados por uma construção de xisto (pois, de que havia de ser?) circular e com tecto cónico. A altitude? são cerca de 1100 m, mais coisa menos coisa.
Cá está um poço (e um belo castanheiro)


e mais dois poços


Os poços ficam junto à capela de St. António da neve onde, ainda hoje, se reúnem anualmente os "povos da serra" numa festa no Verão (cada um ou cada grupo leva o seu farnel para partilhar com os outros).
Já pedalei até lá nestas ocasiões umas duas ou três vezes atraído pelo som das concertinas e o aroma das febras assadas. É um duríssimo teste de stress pedalar por ali acima no Verão, em esforço, e, às tantas, sentirmos o cheiro de febras assadas trazido pela brisa.


A ideia dos poços de neve era, embora insólita hoje, normalíssima há 100 e tal anos. Durante o Inverno os neveiros (profissão de alguns habitantes do Coentral) acumulavam neve no poço e batiam-na de modo a que com a pressão a neve se transformasse em gelo. No Verão, eram cortados blocos de gelo, carregados e transportados em carros de bois cobertos com sacas até ao rio Zêzere e depois, pelo Tejo, até ao Paço em Lisboa onde a realeza nos séculos XIX e princípio do século XX o usavam para o que lhes desse na gana. Pelos vistos, havia até um "neveiro real" na corte em Lisboa que coordenava e geria ("agilizava" como alguns dizem hoje) a actividade dos neveiros em vários pontos do país.

Chegar ali e dar de frente com estas construções é uma bela experiência. Em grande parte devido ao contraste da geometria circular dos poços com a geometria fractal (ramos das árvores ...) à volta. Bela tirada esta.


Cá está outra vez: os círculos versus os fractais.



Estou cada vez mais convencido que a beleza resulta do contraste já enunciado. Tenho que pensar nisto mais vezes. Até porque, ao contrário do senso comum, estou convencido que há padrões objectivos de beleza. Não é apenas a que está nos olhos de quem vê.
Mas esta é a história dos poços.


O Trevim espreita lá atrás



Vamos lá espreitar.


Espreitando lá para dentro, vi um fantasma. Era a minha silhueta na luz que entrava pela porta e via projectada na parede em frente


Cinquenta metros mais acima fica o aeródromo a maior altitude do país. Ainda antes de chegar tem-se a visão do souto on ficam os poços (ficam ali, no meio das árvores).


Logo acima, o aeródromo


Onde o horizonte para Sul se agita (agita?!), quer dizer se abre.


Quatro da tarde, o Sol põe-se cedo. Tempo para o pão com marmelada, colocar o gorro, apertar fechos e luvas e vamos embora que se faz tarde. Só faltam descer 1000 m. Descer o St. António, subir e contornar o Trevim pelo lado Norte, já sombrio e frio a esta hora


até à encosta Oeste da serra da Lousã, sobre o cabeço da Ortiga, onde a neblina coava o Sol fraco do entardecer, tornando a visão do vale bela e translúcida



e foi ir por ali abaixo com o friozinho a cortar a ponta do nariz


Houston, Houston, do you read me Houston? Mission accomplished. Estou a entrar na atmosfera, prevejo chegada em 30 min.
João L. this is Houston, approach Lousã by South e vê lá se não te espalhas pá ...


Landing site: Lousã, à esquerda


Na floresta tive ainda um encontro imediato do terceiro grau com um veado. Atravessou o caminho uns 20 m à minha frente em dois pulos.
Foi ali. Um pulo das árvores à esquerda para o caminho, um ligeiro retomar o balanço e, depois, outro pulo do caminho para as árvores à direita. Perfeito.


Outros encontros imediatos durante a descida, normais em tempo quente, são escassos no tempo frio. E isso dá-me um grande conforto. É que no Inverno all the fucking mosquitoes die and BURN IN HELL.


Estava a chegar. Os Sol era já fraquinho, de um amarelo desmaiado a contrastar com a ponta do nariz e a minha face vermelhas ao rubro. Estava contada a a história dos poços da neve. Descia bem e muito confortável na Merida big nine team roda 29. Acho que é nestas descidas por cascalheiras e com pedras que noto a maior diferença para a roda 26. Sinto mais conforto e segurança.




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