quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

De volta, dois dias depois

29 de Dezembro de 2015
Serra do Açôr
(Barragem de Sta. Luzia)

... aos mesmos sítios que nunca são os mesmos.
Vai um tipo por ali fora a pedalar pelo caminho de há dois dias atrás, a pensar em qualquer coisa, menos atento ao percurso que pensa que já conhece e, às tantas, olhamos em frente com olhos de ver e ... pumba ... levamos com isto em cima:


É que nem as pedras são as mesmas de há dois dias atrás. O nível da água está mais baixo. Vêem-se vestígios das paredes das casas que havia na parte baixa do vale inundado para construir a barragem.


A ideia é pedalar, desenhando o contorno da barragem pelo caminho que o traça.


Curva, contra-curva, fazem-se todos os recantos dos vários braços da barragem.
E vai um tipo por ali fora embevecido, como um puto que sai sozinho da sua rua pela primeira vez. Passei aqui há dois dias, e antes disso muitas outras, mas parece a primeira vez que por aqui pedalo. Há padrões que se reconhecem (os penedos, o azul, o brilho, pinheiro ali na curva com a poça da água de que me desviei ...), que nos comunicam alguma familiaridade mas, ao mesmo tempo, há uma mistura nova de tudo isto que cria a novidade. 


As nuvens ora baixavam, cobrindo os penedos, ora levantavam, deixando ver um Sol filtrado. Estas alterações que ocorriam sob forte ventania, eram acompanhadas pela variação das cores, dos reflexos na água, das sombras ... Belíssimo.



Depois de várias tentativas, lá consegui entalar a florzinha de estufa (o telemóvel novo) entre duas pedras para tirar uma selfie e registar a memória das pedaladas. Não saiu incólume, quando o tentava apanhar, caiu de frente, rebolou na barreira de terra e pedras e ficou um risquinho no écran. Naquele local isolado, o vento levou-me as palavras ditas aos berros em linguagem tabernácula. Depois do desabafo segui caminho determinado a voltar ao meu Nokia de guerra que usei durante 5 anos.


Segui o caminho até à Malhada do Rei. Bem, até 1km antes da Malhada do Rei. É que vi um caminho à esquerda que subia o monte e, pensei eu, seguramente iria dar à estrada asfaltada que me levaria ao Vidual e ao Cabril. Que subida dos infernos. Cansava mais os abraços do que as pernas, tal era a força com que agarrava o guiador, todo deitado para a frente, sentado (por assim dizer !) na ponta do selim (na ponta, o selim é demasiado fino para falarmos em sentar, é mais, como é que hei-de dizer isto ... um ponto de apoio bem entalado na concavidade entre os ísquios sobre o qual não convém fazer muita pressão, if you know what I mean !), impedindo a roda da frente de levantar do chão.
Quem faz BTT conhece esta dificuldade. Muitas vezes, o problema das subidas íngremes é manter a roda da frente no chão.


Uns quantos impropérios (ah como é bela esta palavra) depois cheguei, como previsto, à estrada.
Quem faz BTT também sabe que uns desabafos em linguagem tabernácula ajudam muito nas subidas.

A partir daqui foi sempre a abrir em direcção ao Vidual (por onde tinha começado o caminho que me levou à barragem), que avistei sob um Sol encoberto com a barragem ao fundo.


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