segunda-feira, 4 de julho de 2016

Pedalar lado a lado com o campeão do mundo, Tiago Ferreira, durante quase 1 segundo

Serra da Estrela
(Junho 2014)

Já era bem dentro do Verão mas na Estrela nunca se sabe; no sobe à serra e desce ao vale o tempo pode mudar repentinamente. Não foi o caso, felizmente aquele fim-de-semana esteve magnífico.

Tinha-me inscrito na meia-maratona de Manteigas. Aquilo (a maratona de 90 Km) era uma prova oficial a contar para a taça de Portugal de maratonas BTT mas aberta a todos quantos quisessem participar. De tal modo que a organização, para além da maratona, organizou também a meia-maratona (à volta de 45 ou 50 Km) com partida comum. Os atletas que corriam para a taça iam à maratona, os craques amadores muito, mas mesmo muito bons também, enquanto que os outros, os craques amadores menos bons e os “craques de fim-de-semana” iam à meia. Eu, que já não tenho espaço em casa para as medalhas, fui à meia. Fui pelo passeio. Conheço bem a serra na zona de Manteigas, os rios Zêzere e Mondego ainda jovens, as florestas, os recantos, o granito imenso… Andei por lá a caminhar e a acampar há muitos anos, (teria uns 15-17 anos)  eu e uns outros malucos. Naquela altura quem ia para a serra ou era pastor ou era um tipo esquisito ou, mais raro ainda, era astrónomo (um dia encontrei um astrónomo Português no Vale do Rossim que montava o telescópio à porta da roulote que lhe servia de casa - foi ele que me dissuadiu de ser astrónomo, ou melhor, podia ser mas fora do País, de outro modo morreria de fome; ele trabalhava na Suiça).

Pedalar por aqueles lados era um apelo irresistível. Estava na expectativa das memórias que iriam ser acordadas de um longo sono. As paisagens que calcorreei há várias décadas atrás consigo ir buscá-las à memória, até porque passo por lá com frequência (embora apenas por estradas em que passa um carro).  Mas o que é interessante é que, à partida, sei que teria algumas memórias adormecidas de locais mais remotos, sem delas ter consciência mas que, seguramente, iriam ser despertadas durante as pedaladas por aqueles montes e vales. É paradoxal mas é assim. Podia ser uma pedra, um riacho, a luz no horizonte, qualquer coisa. A maratona dava jeito para percorrer aquela zona pela definição dos percursos cicláveis e também pelo companheirismo.

Na partida, o espaço à minha frente; muitos, a meta estava lá ao fundo.


Foi uma bela (e dura) volta. Começámos a subir o vale glaciar do Zêzere e, logo depois, cortámos para os lados do poço do Inferno. Depois descemos para Norte, atravessámos o Zêzere perto de Valhelhas e subimos, subimos, até à mata do Fragusto. Os da maratona continuaram ainda para Norte, para os lados da Sra. da Assedasse (onde o Mondego é jovem e onde acampei várias vezes em condições extremamente rudimentares - que pena não ir para lá), os da meia voltámos a Manteigas.

Na zona da belíssima mata do Fragusto 



A uns 15 Km da meta


E agora a história das pedaladas com o campeão. O Tiago Ferreira consegui na semana passada o título de campeão do mundo de maratonas de BTT em França. Um feito extraordinário. Em 2014, o Tiago Ferreira venceu a maratona de Manteigas.

Bem, entrei em Manteigas bastante cansado, tinha-se-me acabado a comida e vinha em desfalecimento. Também não contava com os últimos 10 Km a subir. Devia ir mais ou menos a meio do pelotão. Metade dos da meia-mararona já deviam ter chegado. Entrei na Vila sózinho e a meta estava ao cimo de uma calçada com uma inclinação razoável. Aquelas calçadas antigas feitas com paralelepípedos de granito. 


Aquilo era tudo muito profissional, com vedações e publicidade e o público ruidoso encostado às vedações e som  e mais não sei o quê. Às tantas, a uns 100 m da meta, quando entro no empedrado a subir, o público começa a bater palmas. Eh pá porreiro, obrigado, devo ir em grande estilo. Logo depois ouço: força Tiago. As palmas eram para um tipo que me apareceu por trás e que vinha numa bolina; o Tiago Ferreira que era o primeiro da maratona. Aquele tipo tinha feito a maratona de 90 km enquanto eu tinha feito a meia (mais ou menos metade da distância). Passou por mim num instante, pedalámos lado a lado durante um segundo. Ele chegou à meta, desmontou e ficou por ali, enquanto eu chegava.

Cá está ele de costas e eu a chegar.



Que pedalada aquele tipo tem.
Em todo o caso eu tenho atenuantes. Provavelmente ele não parou nos abastecimentos e, sobretudo, não parou para ver a paisagem, e muito menos para tirar fotografias !!!

Lá ao fundo, sob as nuvens, o planalto central da Estrela



a descida para Manteigas  era por ali, por aquele  caminho ali à frente a meia encosta.




Parabéns ao Tiago Ferreira.
Como sempre, a notícia foi dada como uma nota de rodadapé ou nem sequer apareceu. O canal público tinha a estrita obrigação de divulgar este feito desportivo. Por exemplo, em vez de vermos 1 milhão de vezes por dia o anúncio do Ronaldo a tocar à campaínha de uma casa e, com um ar de quem sabe o que está para lá do Big Bang, colocar uma braçadeira no braço da senhora com ar choroso de emoção, poderíamos ver apenas 900 e tal mil e passava a notícia do Tiago Ferreira campeão do mundo.

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