quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Quando o Sol se põe

Serra da Lousã
(Novembro 2016)



(Max Richter, Sun light)

Quando o Sol se põe, quando se esconde nas curvas e deixamos de o sentir na pele e nos olhos, cai uma cortina húmida. A respiração torna-se fria, há um impacto global no corpo, não um arrepio mas uma passagem para um outro local. As pernas e os pés, esquecidos durante a primeira parte da subida e das pedaladas ao Sol, acordam. Sente-se o frio a correr sobre a pele. Isto para não falar nas cores que ficam translúcidas. O alcatrão da estrada passa a espelho, as folhas dos castanheiros amolecem, os ouriços com castanhas caídos na beira da estrada, dourados sob o Sol, ficam castanhos e molhados. O céu contrasta com isto tudo. Faz o percurso inverso. O céu da tarde inundado de Sol, quase invisível, passa por gradientes de azuis quase até ao branco e depois, com umas nuvens por aqui e ali, passa aos amarelos e laranjas que vão escurecendo.



E porque é que vou a pedalar serra acima a esta hora, sem luzes na bike, se sei muito bem que tenho que voltar para trás e que quando o fizer não terei luz para ver a estrada? É o vento a assobiar aos ouvidos durante a descida que me atrai? O frio a gelar-me a cara? Os pingos frios do nariz, do ar condensado, que escorrem para as faces? A vontade de assistir à transformação de tudo à volta que ocorre quando se pedala serra abaixo às escuras? 





Ou é porque preciso de estar ali algum tempo? Perguntas de retórica porque não me interessa resposta.






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