segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Inteiro e limpo, sopra o vento - Picoto da Cebola, serra do Açôr

Agosto 2017

Volto aqui anualmente. Difícil como o raio chegar aqui. Ora está um calor abrasador ora, ao invés, um frio fininho que sopra sobre as orelhas, cortando-as (pelo menos assim se sente).
Desta vez, Verão, foi com calor. Uma vez lá - e a chegada sabe mesmo a chegada, não há mais por onde pedalar - e, se bem que não vale a pena estar para aqui a fazer uma lista de sensações, o vento, a luz, a vastidão do horizonte ... provoca um friozinho pela "espinha" acima, um arrepio. Parece que, mesmo em dias límpidos, há um nevoeiro na mente que se dissipa, que deixa ver claro e nos faz sorrir. Eu, que até sou carrancudo (pelo menos, no trabalho, quando vou à casa de banho e passo em frente ao espelho noto que, em regra, estou de sobrancelhas cerradas), dou por mim a sorrir.

Picoto da Cebola na serra do Açôr. Cume do Açôr. O Adamastor do Açôr. Com 1400 m de altitude é visível em toda a região. Numa curva do caminho, ao virar de um penedo, por entre as árvores ... lá está ele. Imponente. E, de lá de cima se diz que é o ponto de Portugal de onde se observa mais território; da Serra da Gata em Espanha (espreitando por detrás do maciço granítico da serra da Estrela) a Este, ao Atlântico a Oeste (brilhando por detrás da serra da Lousã). Das serra do Alto Alentejo a Sul ao Marão a Norte.

E let´s look at the trailer.

Trezentos e sessenta graus, começando no maciço da Estrela (ampliação, vendo-se a Torre) e rodando por Sul (ampliação na barragem de Sta. Luzia), depois Este (ampliação da serra da Lousã) e Norte (ampliação sobre serra Caramulo no horizonte and beyond), com a Beira Litoral Beira Alta ali, esticando-se por detrás das cumeadas Norte do Açôr.

Os aerogeradores, por regra vistos no alto das serras, aqui vêem-se lá em baixo. O vento (ver com o som alto), a luz, a distância, as cores e o resto talvez sejam perceptíveis nas imagens. Eu, que sou alérgico a regras, padrões e preferências fixas e imutáveis, se me perguntassem diria que este é um lugar para ter os pés na terra e a cabeça nas estrelas (elas estão lá mas só uma se vê).



Passa o tempo, anda-se por ali até que às tantas, vá-se lá saber porquê, há aquele sino que toca na mente: horas de ir embora.


and here we go, cascalheira abaixo, lutando contra as leis do Senhor Isaac Newton.


Desce-se, desce-se e percebe-se que, depois de tanto descer, se está ainda alto. Começam a revelar-se pormenores nos vales que, lá de cima, são inexistentes, apagados pela distância.


A água não abunda nestas cumeadas. Em dias quentes, ir para ali, sobretudo a pedalar, requer uma gestão cuidada da água. São horas sem fontes. Tinha descido pelo lado Sul, os ombros a estalar, a mãos a doer, os travões a fever, a boca seca em direcção a Unhais o Velho, o limite da barragem de Sta. Luzia e onde conheço uma fonte (por detrás da Igreja) que nunca desaponta; água fresca e abundante em pleno Verão.



E, acabando pelo princípio, à ida, pela cumeada das eólicas do lado Norte: lá está o Adamastor, parcialmente escondido por detrás das eólicas (ainda vistas por baixo). Nunca me passa pela cabeça a dificuldade de chegar lá acima. De pedalar por ali acima. É difícil e claro que me canso (muito) mas olho o pico, o gigante lá em cima e vou por ali fora, chego ao início da subida final e a uma pedalada segue-se outra e outra e assim sucessivamente. É difícil. Cansa. Mas o que tem isso de estranho?



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