segunda-feira, 31 de outubro de 2016

castanhas, medronhos e flamingos

Serra da Lousã
(finais de Outono, 2016)

Em finais de outono já não se houve a brama dos veados. Nem se vêem. Andam fugidios, apenas se vislumbram, percebemos que há um movimento, um vulto mas, quando olhamos, quando nos sobressaltamos a olhar em redor, não os vemos. Já passaram. Hoje ia de olhos pregados no chão, em esforço, tinha subido rapidamente dos 200 aos 750 m de altitude. Percebi que alguma coisa se me atravessava à frente no caminho. Levantei os olhos assustado e vi um animal magnifico a atravessar o caminho de um salto. Ali à frente, perto, muito perto, tão perto que senti o cheiro. Do lado direito a barreira do caminho tinha a minha altura. Ele chegou da esquerda, pela parte de baixo, subindo a encosta, cruzou o caminho e olhou em frente como que a calcular o salto, tal como um saltador à vara concentrado a calcular o balanço e, então, num salto, num ápice, como uma sombra, ou uma pena levada pelo vento, elegante, belo, desapareceu serra acima.

Segui para a floresta. Tirei umas fotografias e fiz uns vídeos, tentando captar uma impressão, um plano, uma luz que pelo menos reflectisse um pouco da realidade por ali.


Durante a subida fartei-me de comer o que a serra dá nesta altura.
Cá mais em baixo: medronhos


(é um sarilho conseguir parar de apanhar e comer estes frutos)


Lá mais em cima, logo depois dos grandes cedros,



depois dos aromas ácidos e cédricos (cédricos !?) que inundam o ambiente,



as castanhas



:-)         what else?




Por aqui, nesta altura do ano, as pedaladas são em tapete




No caminho encontrei uns cogumelos altos esguios, como se fossem uns flamingos pousados sobre uma pata num lago.


Saí dali para o cimo da serra, precisava urgentemente de horizontes. É que às tantas não se aguenta o deslumbramento.


Subi até ao planalto da serra a voar baixinho, como se tivesse penas nas rodas !


Por vezes encontro penas no caminho. Apanho-as e prendo-as na bike. Uma mania. Uma mania que tem suscitado sorrisos maliciosos e comentários tabernáculos de companheiros de pedaladas. Já uma vez, há uns anos, a pedalar na costa Alentejana entre a Zambujeira do mar e o cabo Sardão, cheguei junto à falésia e uma gaivota que por ali estava pousada sobressaltou-se, levantou vôo e deixou uma pena. Pensei que era uma oferta. Trouxe a pena. Andou na minha bike pelas serranias da Estrela, do Caramulo, da Lousã e do Açôr. No ano seguinte voltei ao Alentejo e à mesma pedra sobre o mar (exatamente à mesma pedra pois conheço muito bem a zona). Lancei a pena ao mar. Eu que não sou de rituais, achei que a pena tinha já a sua história.




Da cumeada, o horizonte para Sul estava azul.



Lavados os olhos, iniciei a descida mas, quando dei conta, a bike levou-me de novo pela floresta. Já estava com saudades.
Desci pelo melhor estradão, o mais largo e mais liso. Queria olhar à volta e pedalar lentamente, sem me preocupar muito em ver onde punha a roda da frente.
Quando por aqui passo e olho à volta acordam na minha memória estes sons (são o som de fundo para o filme que passo em baixo).










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