quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Apanhado pela noite na serra (a morrinha não conta, foi um prazer)

Janeiro que se acaba (em 2017)

Ao princípio até era interessante. Levantava-me cedo, tomava o pequeno almoço com miúdos que tinham todo o ar de andar em viagem pela Europa, grupos de estrangeiros que me pareciam tipos da mafia de leste, casalinhos com ar apaixonado e por ai fora. Gostava do hotel. Depois saía e caminhava meia-hora até ao local onde se iniciavam as reuniões. As ruas cheias de gente apressada, muitas a falar sózinhas (ao telemóvel), tinha que ziguezaguear para avançar ao longo dos passeios. Chegava ao largo do Rato, vermelho pára, verde avança, páre, escute e olhe. E eu fartava-me de olhar. As pessoas, as casas, os carros, a dinâmica de tudo. Era sobretudo a dinâmica, o movimento que me agradava. Rua de S. Bento abaixo e passava junto a uma loja curiosa; cá fora, pendurados em cordas, havia penicos de esmalte (tenho na memória o som metálico dos jactos de urina nos penicos), lá dentro panelas e tachos de alumínio e mais não sei o quê. Às tantas lá chegava. Reuniões até às sete.
Estava sempre na expectativa da meia hora de caminhada de regresso. O jantar era sempre rápido porque à noite, no hotel, havia que apanhar com o tsunami de emails desse dia. Pizzaria? Ora deixe cá ver. Tipo simpático este do hotel, pensei. Ah sim, atravessa a avenida, segue em frente e depois corta à direita e em frente ao hospital de Sta. Marta há uma muita boa, a Luzzo, vai ver que vai gostar. Belíssima. Acolhedora, bom ambiente, e a pizza Popeye com uma base fina feita em lenha, um queijo bom e uma cobertura de espinafres frescos estava muito boa.  Quase duas semanas em Lisboa. Mas isto foi na segunda semana. A primeira foi junto ao rio. Um hotel 4 estrelas rascas, debaixo da ponte, acho que a zona se chama Alcântara. Uns dias com tempos livres em grupo um bocado a fazer de conta. Ah e tal aqui é o bairro alto. Jantar no Cantinho do Avidez. Nada que em impressionasse. Em primeiro lugar nem via as lascas de bacalhau tão mortiça era a luz. Safou-se o tinto, um monocasta de Syrah da região de Lisboa. Uma bela surpresa. A visita ao Pestana Hotel foi em marcha acelerada. À entrada uma galeria de retratos onde me pareceu ver a Melania Trump. Arre gaita, como diria a minha avó. O almoço junto ao rio no Clube Naval (acho que era assim que se chamava) foi, aí sim, delicioso, uma dourada feita nas brasas com brócolos e batatas cozidas. Um branco Planalto e já está. Sair e dar com o rio e com a luz foi a melhor sobremesa. Quase duas semanas em Lisboa. No regresso, à primeira oportunidade meti-me em cima da bike serra acima.
Fui para onde já não ia há tempos, para os lados da aldeia de xisto do Gondramaz. Aquilo é uma bela de uma subida para lá chegar.
O nevoeiro lambia a serra. Nestas circunstâncias, a dúvida que assalta o espírito de quem anda pela serra ao entardecer é se o nevoeiro vais subir ou descer.


O Gondramaz é uma aldeia ex libris da região. Foi reabilitada e, embora muitas casas sejam habitações de fim-de-semana, mantém-se viva durante todo o tempo



Passei ao largo, pelo lado de cima, junto à última casa da povoação. Parecia-me que o nevoeiro iria descer mas decidi voltar a casa pela serra a meia encosta em vez de descer ao vale.









Finalmente, este Inverno começa a ver a água a correr e os riacho a cantar. Ao percorrer as rugas da serra a meia encosta, os riachos começam a dar sinais de vida. São muito belos estes riachos.




Depois, começou a morrinha. O Sol deveria já ter-se posto e, embora tivesse levado o GPS, os caminhos por ali eram vários e em teia. Facilmente me meteria por onde não me deveria meter. Pedalei um bocado à bruta, sabendo que para Norte iria no sentido da estrada asfaltada que passa no vale. Às tantas, depois de tanto pedalar, estava apenas do outro lado do vale do Gondramaz (em frente, à direita na fotografia).




Os pinheiros do caminho estragavam não só a visibilidade mas escureciam o meu GPS mental. O nevoeiro nem subia, nem descia. Se tivesse adivinhado, do Gondramaz teria subido à cumeada da serra e descido para casa. Um trajecto mais curto mas arriscado caso fosse apanhado pelo nevoeiro e pela noite.
A meia encosta fui apenas apanhado pela noite. A morrinha não conta, foi um prazer.

Ser apanhado pela noite na serra era há muito tempo - no tempo em que eu era muito pequeno e ouvia o meu pai e o meu avô contarem histórias de avistamento de lobos e das noites de nevoeiro em que os lobos desciam à povoação; histórias verdadeiras porque eu próprio me lembro, teria uns 7 ou 8, ou 9 anos , de ver numa povoação uma furgoneta com vários lobos, uns 4 pelo menos, mortos e pendurados de cabeça para baixo na caixa aberta da furgoneta em exposição após a batida de que tinham sido alvo - uma possibilidade de provocar um friozinho pela espinha acima. Hoje estão extintos em Portugal. Parece que há apenas uma alcateia que, por vezes, entra na fronteira Norte vinda de Espanha.

E vieram-me estas memórias enquanto tentava chegar ao vale.
Finalmente, numa curva do caminho, o vale abriu-se à minha frente e vi Espinho e um estradão que me levaria ao vale.





Ouvir estes sons à noite, na serra, seria, quer dizer, bom, é difícil imaginar, mas não deveria dar o sono.











3 comentários:

  1. Depois de duas semanas no bulício da capital até sabe melhor pedalar pela serra. Gondramaz e arredores então, é lindo :) Não me importava de lá voltar

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    1. Olá GM. Olha no próximo dia 18 de Fevereiro vai ocorrer o primeiro EPIC GPS na serra da Lousã com partida de Miranda do Corvo. A primeira subida vai ser de Miranda para o Gondramaz.

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    2. Já tinha estado a ver e gostava muito de ir mas o marido tem um compromisso de trabalho e não pode ir. Se arranjar companhia ainda me aventuro :)

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